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João Távora


Quinta-feira, 22.02.18

Homenagem ao meu Pai, D. Luís de Lancastre e Távora

IPH Conf Marquês de Abrantes (1).jpg

Aqui publico um testemunho pessoal sobre o meu Pai, D. Luiz Gonzaga de Lancastre e Távora, Marquês de Abrantes, partilhado por ocasião da sessão evocativa dos 25 anos sobre sua morte organizada pelo Instituto Português de Heráldica no dia 21 de Fevereiro de 2018. Esta sessão, que será em breve disponibilizada em video e numa separata da revista Armas e Troféus, contou com as substanciais intervenções do presidente honorário do IPH Dr. Pedro Sameiro que apresentou um panorama da obra do homenageado, da Prof. Doutora Maria do Rosário Morujão sobre a sua dimensão sigilográfica, e finalmente do Dr. Carlos Bobone que recordou o homenageado numa dimensão mais pessoal.

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Minhas Senhoras e meus Senhores:

 

Antes de mais quero agradecer ao Instituto Português de Heráldica na pessoa do seu presidente o Dr. Miguel Metelo Seixas, este tributo ao meu Pai, D. Luís de Lancastre e Távora, XI Marquês de Abrantes, que com grande entusiasmo acolhemos desde a primeira hora, e que constitui uma muito justa iniciativa de rememoração da sua vida e obra, agora que se completam 25 anos da sua partida e de nossa saudade. Gostava de realçar a grande emoção e gosto especial que tive a elaborar as linhas que aqui vou partilhar, que são uma sentida homenagem que aquando da sua morte não pude prestar.

De resto, relembrar as pessoas que amamos ou admiramos constitui um reconfortante perpetuar da sua companhia, e nesse sentido, nós todos fomos privilegiados com o seu legado bibliográfico, cujas páginas constituem a cada momento uma oportunidade de reencontro, que tem o poder de nos devolver uma calorosa proximidade com o seu autor.

Sobre o seu legado científico e historiográfico, outros falarão melhor que eu, mas no entanto gostaria de relevar um dado importante que o meu tio Duarte de Castro, cunhado e amigo de juventude do meu Pai, referiu um certo dia não muito distante: poucos terão sido os marqueses de Abrantes seus antepassados a prestigiar de forma tão efectiva e brilhante esta Casa que com tanto orgulho e denodo o meu Pai representava.

De facto, apesar de ter vivido toda a sua vida adulta uma precaridade financeira que tanto o amargurava, o meu Pai nunca deixou de ter presente uma forte noção do serviço que o seu estatuto comportava, tendo para isso empreendido uma vida de trabalho e investigação que ousou dispor ao serviço dos outros, tornando-se uma incontornável autoridade em genealogia e heráldica que se reflecte na larga produção bibliográfica ainda hoje reconhecida e respeitada.

Permitam-me agora revelar alguns aspectos biográficos do meu Pai, porventura não tão conhecidos:

Nasceu no dia 8 de Fevereiro de 1937, num dia de Carnaval. Foi filho terceiro e primogénito varão de D. José Maria da Piedade de Lancastre e Távora, e D. Maria Emília Casal Ribeiro Ulrich, que viviam então no 2.° andar de um prédio na Calçada da Estrela que ocupavam desde o seu regresso do Luxemburgo em 1935 aproveitando a paz social permitida pelo fim da 1ª república.

Foi baptizado na Igreja de Santos o Velho, tendo sido seus Padrinhos D. Pedro Maria da Piedade de Lencastre e Távora, III Conde de Alvor, irmão mais novo do seu pai e meu Avô José, e Nossa Senhora da Piedade como era tradição ancestral na família, tendo tocado como Madrinha D. Maria Cecília Van Zeller de Castro Pereira.

No meu Pai foi investida uma educação esmerada: para tal, foi educado em casa por uma "Mademoiselle" até aos 9 anos, a Sra. D. Maria Lucília Moniz, uma velha senhora dos Açores contratada para a sua instrução e com quem confessou ter criado uma forte ligação.

Apesar de tudo, nunca foi brilhante nos estudos, característica que segundo o próprio escreveu “entristecia os seus pais” e era realçada pelo facto das suas irmãs mais velhas serem brilhantes alunas.

A justificação dada pelo meu Pai, no projecto de memórias que infelizmente deixou a meio e que me permito utilizar para estas notas, para este insucesso terá contribuído o facto de, em 11 anos lectivos, da Instrução Primária ao Liceu, ter mudado, nada mais nada menos, do que 13 vezes de estabelecimento de ensino.

Tinha boas notas a português, francês, inglês e alemão, literatura e história, e ainda citando as suas palavras, “o pior defeito como estudante, era apenas aplicar-se nas cadeiras de Letras”, que eram as que verdadeiramente lhe interessavam. Entre as disciplinas de Ciências, só no desenho conseguia manter uma média elevada.
De facto, um traço pouco conhecido do meu pai era o jeito que tinha para desenho – lembro-me bem dos retratos,  brasões, fardas militares, condecorações e aviões da II Guerra Mundial entre outros “bonecos” que desenhava com desenvoltura e precisão, com a mesma caneta de tinta permanente com que compunha os seus manuscritos, numa letra muito bem traçada em folhas de papel almaço quadriculadas. A esse facto não seria alheio o gosto que nutria desde cedo por Banda Desenhada.

Foi entre os 3 ou 4 anos que se mudou para a Travessa do Patrocínio n.º 15 na Estrela, a casa que os meus irmãos e eu tanto frequentámos na nossa infância e nos deixou tão gratas recordações.

Durante o Verão passava um mês de férias na Praia das Maçãs, e aos 11 anos, pouco mais ou menos, passou um Verão em Santo Amaro de Oeiras. Foi a partir dos doze que, com a família, passou a ir para a casa Burnay na Ericeira, que meus avós mantiveram alugada na época estival até 1962.

Tendo desistido de estudar aos vinte anos, empregou-se na Cidla, com um ordenado de 800 escudos por mês, máximo que então ganhava um aspirante a 3.° escriturário.

Casou-se a 10 de Outubro de 1959 com 22 anos com Maria João de Carvalho Gomes de Castro (a minha mãe aqui presente), tendo sido seus padrinhos António Lavradio e o seu Tio José Frederico Ulrich; as madrinhas da minha mãe foram a minha bisavó Valentina, Condessa de Castro, e a Senhora Infanta D. Maria Adelaide de Bragança. O copo d´água foi servido na casa dos seus sogros, no 232 da Avenida da Liberdade, de boa memória para quem o frequentou.

O meu Pai tinha alguns gostos pessoais curiosos que cometo a inconfidência de aqui partilhar: com um sentido de humor apurado, se possível não perdia um desenho animado na televisão, fosse do Bip Bip, Bugs Bunny, Flinstones ou outra série, não sendo raro encontrá-lo a rir a bandeiras despregadas. Era um fervoroso amante de ficção científica e de contos policiais que consumia com grande voracidade – na verdade os pequenos livros da colecção Argonauta e Vampiro espalhavam-se pela nossa casa aos magotes. Como pessoa de bom gosto que era, foi um Sportinguista sofredor, e apreciava ver um jogo de futebol da sua equipa desde que fosse no sofá. A sua maior fraqueza sempre terá sido a gulodice: não resistia a doces, principalmente de ovos, e a outras sofisticadas iguarias que o próprio se dedicava a confeccionar para a família com muita arte e engenho, e que depois se deliciava a degustar com não menos dedicação. Este facto, aliado à sua grande estatura, faziam do meu Pai o homem proeminente que todos conhecemos, e doente do coração como era, o desfecho da sua morte precoce para muitos não foi surpresa.

Apesar de ser um tradicionalista convicto, foi precursor duma paternidade afectivamente muito próxima e empenhada: não se eximia da expressão dos seus afectos e de brincadeiras com os filhos, e estou convencido que com isso nos deixou a todos uma marca indelével. Apesar das suas contradições e das suas emoções à flor da pele, com que por vezes nos assustava, prevaleceu na minha memória um Pai carinhoso e muito amigo. Que não se poupou a nos incutir o gosto pela boa música, pelo fascínio de uma boa história e por um bom livro – lembro-me com saudade, numa idade precoce, de ele nos ir ler ao quarto, “As Minas de Salomão” traduzido por Eça de Queiroz e o Principezinho de Antoine de Saint-Exupéry.

Da sua música lembrar-me-ei sempre dele quando ouça a Abertura de 1812 de Tchaikovsky, Jaques Brell que adorava quase toda o reportório e as canções mais conhecidas de Peter, Paul and Mary, a sua maior ousadia em termos de música Pop que deplorava em geral.

Dois filmes que sempre me lembrarão o meu Pai são o galardoado Lawrence da Arábia e o Breakfast at Tiffany's baseado numa novela de Truman Capote com a belíssima Audrey Hepburn no seu auge. Com o meu pai passei também longas e entretidas horas a jogar Xadrez que jamais esquecerei.

Uma nota final sobre a descoberta que recentemente fiz no livro “Nas teias de Salazar” – uma biografia de Dom Duarte Nuno de Bragança da autoria de Paulo Drumond Braga: nele, na página 282, menciona-se um desentendimento entre o meu Pai e o Duque de Bragança em 1966, quando o primeiro, descontente com a nomeação de João Ameal para dirigir as operações da transladação do Rei Dom Miguel, se atreveu a escrever para S. A. R. uma carta em que o designava a si nesse papel e que Dom Duarte Nuno se recusou assinar com manifesto desagrado. Este caso parece-me curioso, pois na minha interpretação, remete para o voluntarismo do meu Pai, revelador de alguma ingenuidade natural da sua juventude, com o propósito de assumir um protagonismo que julgava legítimo, numa velha causa historicamente acarinhada pela Casa de Abrantes – a do Rei Dom Miguel I, personalidade histórica a que aliás dedicara já uma série de artigos publicados na revista Debate, dois anos antes deste mal-entendido com o Chefe da Casa Real.

Pai_José_e_eu 1.jpg

Espero que estas pinceladas, algumas delas certamente subjectivas, tenham contribuído para definir melhor o perfil do XI Marquês de Abrantes, meu saudoso Pai. O que ficou da nossa convivência foi uma sua presença muito forte na minha consciência. É com ele que ainda hoje confidencio muitas das minhas pequenas conquistas e derrotas. Quero acreditar que ainda hoje o meu Pai lá de cima me acompanha nos meus passos. E concorde que as nossas disputas, encontros e desencontros, afinal valeram a pena - foram fruto de um grande amor.

Que Deus o guarde na sua infinita misericórdia, e o reconforte das duras provações que passou em vida, é uma oração que aqui deixo e com que termino este testemunho.


Obrigado a todos,

 

21 de Fevereiro de 2018
Convento do Carmo, Lisboa, 

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por João Távora às 15:10

Terça-feira, 20.02.18

Bruno de Carvalho outra vez

Confesso que já não consigo disfarçar com os meus amigos o enorme embaraço que Bruno de Carvalho constitui para mim. O homem envergonha-me como sportinguista que sou. Mas o mais grave é que sua permanente incontinência verbal tenha conseguido desviar a atenção da imprensa de um presidente rival que é arguido e da investigação judicial do caso dos e-mails que esse sim é um verdadeiro escândalo nacional – Em vez disso os dislates de Bruno de Carvalho fazem o pleno em notícias negativas e artigos de opinião e editoriais, até nos chamados jornais de referencia. Como se fora uma autêntica conspiração orquestrada por… si próprio. Se o objectivo é ter toda a Comunicação Social e os seus profissionais, mesmo que sportinguistas, com má vontade ao Sporting, penso que o intento foi conseguido com o estúpido apelo lançado na Assembleia Geral de Sábado. Para mais fica por saber que ilações vai tirar Bruno de Carvalho da desobediência dos comentadores que permanecem nos painéis de debate nas televisões e dos milhões de sportinguistas que continuarão a ler jornais e a ver TV como habitualmente. 
A boa notícia é que Jorge Jesus conseguiu manter a equipa blindada e protegida da irracionalidade do discurso do presidente – ontem ganhámos numa demonstração de garra e crer. O problema é que não consegue blindar os patrocinadores e os bancos de que o Sporting depende de tanta inanidade. Que assusta. Que me assusta.

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por João Távora às 11:41

Terça-feira, 13.02.18

O progresso encalhado

A exibição da série 007 que com diferentes actores protagonistas se mantém desde os anos cinquenta e que por estes dias podemos ver no Canal AMC comprova-o: o mais relevante progresso tecnológico dos últimos 40 anos tem que ver com os “efeitos especiais” no cinema. De resto, tirando o tratamento da informação, a sua portabilidade e a robótica (coisas de duvidosa utilidade), as mais decisivas realizações tecnológicas são já antigas – a última ida do Homem á Lua aconteceu nos anos 70, e desde então a duração de uma viagem de avião entre Lisboa e Nova Iorque não tem progressos significativos, assim como os standards da Alta-Fidelidade ou da locomoção automóvel. Há mais de quarenta anos que o progresso encalhou e vivemos iludidos pelo circo digital.

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por João Távora às 17:52

Sábado, 10.02.18

O sacramento do matrimónio

Há cerca de vinte anos, quando a minha mulher (com dois filhos pequenos) e eu decidimos constituir uma família, não nos passou pela cabeça exigir que a Igreja se adaptasse às nossas conveniências ou ao nosso “sentimento de (in)justiça”. Uma semana antes de consumarmos civilmente essa nossa decisão "fracturante", celebrámos com os amigos chegados uma inesquecível Missa de Acção de Graças na Capela das Amoreiras – foi a última vez durante muitos anos que tomamos o sacramento da comunhão. Durante esse tempo, nunca deixámos de ir à missa, participar na vida da paróquia e dar uma educação católica aos nossos filhos; e foi com humildade e sem ressentimentos que nos juntámos a um grupo de "casais recasados católicos" as “Equipas de Santa isabel" do Cónego Carlos Paes da Paróquia de S. João de Deus, para a catequese e crescimento espiritual em casal. Antes como agora, a Bolota e eu desejamos ardentemente que a Igreja permaneça guardiã do valor supremo da perenidade da família natural como aliança fecunda, sagrada e indissolúvel, construída sobre a rocha. Um núcleo vital para a realização de uma comunidade verdadeiramente livre e pujante.

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por João Távora às 17:16

Segunda-feira, 05.02.18

E o Louçã que não gosta de contos de fadas...

É uma tentação irresistível, mas de vez em quando um descendente ideológico de Afonso Costa, esse impoluto “democrata” que depois de 1910 com os seus capangas encheu as prisões indistintamente de monárquicos e sindicalistas, que restringiu o direito de voto da população, fazendo a percentagem de cidadãos votantes descer de 75% para 30%, tem de vir dar prova de vida a perorar contra a Instituição Real. Desta vez foi o Reverendo Louçã, inspirado pelo "Podemos" de nustros hermanos que se impressionou muito com o agraciamento da Infanta Leonor, a princesa herdeira do trono de Espanha, com o Tosão d’ Ouro, uma ordem dinástica atribuída muito restritivamente, tradicionalmente recebida pelo herdeiro da coroa espanhola em tenra idade. Curioso é perceber que republicanos como Louçã aprofundam tanto os seus estudos de genealogia - e, no caso, da pureza das linhagem dos Bourbons - mas fingem não perceber como a Instituição Real em Espanha é muito mais do que “um conto de fadas para revistas cor-de-rosa”: quando necessário foi garante da democracia e da Constituição, mas acima de tudo é sustentáculo contra a desagregação da Espanha. Aliás, conhecendo as causas do sacerdote Louçã, logo se descobre que "desagregação" é a palavra-chave da sua agenda, e fica-se desconfiado com o seu papel no Banco de Portugal ou de Conselheiro de Estado. A desagregação da Europa, a desagregação das Nações, a desagregação da democracia liberal, a desagregação das empresas, a desagregação da família, a desagregação da Igreja e de tudo que seja instituição fiável para o progresso de comunidades sólidas e livres. Entende-se porquê: esse caos de desagregação é o campo fértil, a única fórmula de conquistar gente revoltada e insatisfeita que se abalance para o seu projecto revolucionário do Homem Novo, como é exemplo vivo a Venezuela e as outras repúblicas tão ao seu gosto na sua juventude. No fundo, a coisa que mais frustra o Dr. Louçã são as monarquias europeias onde os revolucionários como ele jamais conseguiram por o pé em ramo verde, países em que a comunidade se revê nas suas resistentes instituições, e por isso sempre alcançam a prosperidade. Infelizmente para nós, em Portugal dão-lhe demasiado protagonismo. Porque será?

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Nota: pensei ilustrar este post com uma fotografia de Louçã, mas pensando bem, porque prefiro um conto de fadas a um filme de terror, escolhi a fotografia de uma princesa. Porque sou um patriota aqui fica a da infanta D. Maria Francisca que é por certo uma das mais bonitas da Europa.

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por João Távora às 21:34

Terça-feira, 23.01.18

Inquietações

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Curioso é o brado que se levantou por causa de um programa de televisão em que crianças problemáticas são utilizadas para o entretenimento da turba, num tempo em que as questões morais parecem deslegitimadas da discussão pública, para serem substituídas por argumentos científicos e técnicos (mais ou menos discutíveis). Estranha-se que esta indignação monopolize a praça pública quando ontem soubemos que em 2017 houve mais 24 mil mortes do que nascimentos em Portugal, coisa que poderá significar o recorde do século. Mal ou bem-educados, os portugueses parecem estar em acelerado processo de extinção (somos o 5.º país mais envelhecido do mundo), uma dinâmica de morte que se repete com a família “natural”: por cada 100 casamentos que são registados em Portugal há 70 pedidos de divórcio, o número mais elevado da Europa. Se considerarmos como, ao contrário da generalidade dos países europeus, por cá a sociedade civil é débil e que ao longo de décadas a família foi o principal suporte dos indivíduos, apercebemo-nos do trágico significado destes números: uma sociedade cada vez mais atomizada, com as pessoas tendencialmente isoladas e desprotegidas perante um Estado cada vez mais poderoso e omnipresente. Paradoxalmente, as nossas elites por estes dias parecem estar mais preocupadas em discutir os malefícios do sal e as virtudes do autocultivo da cannabis, já para não falar da liberalização ou não do consumo recreativo deste psicotrópico alucinogénio. E é aqui que voltamos à questão levantada no início desta nota: este é um assunto técnico ou uma questão eminentemente moral? Que sinais pretende o Estado dar aos nossos jovens, sobre o que é bom ou mau para a formação de um bom caracter? 

Todos estes sinais deviam provocar-nos muita inquietação, e desconfio que a sustentabilidade da segurança social é o menos aflitivo. Afinal, andamos todos distraídos com quê?

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por João Távora às 10:53

Domingo, 31.12.17

Os meus desejos para 2018:

 

• Aprender a escrever com os dois polegares no telemóvel.
• Arranjar uma avença daquelas na CML.
• O Sporting Campeão.
• Fazer a passagem de ano em casa, de pantufas.
• A paz no mundo.
• Viver num país mais civilizado.
• Ter mais tempo para escrever sobre o que gosto.
• Comprar umas colunas novas (depende da consumação do segundo desejo).
• Deixar a filharada e ir viajar com a minha mulher (sem remorsos).
• Assistir à reunião dos Genesis com o Peter Gabriel. 
• Arranjar uns desejos realizáveis para 2019.

Feliz Ano de 2018 para os leitores do Corta-fitas, são os meus votos.

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por João Távora às 17:14

Terça-feira, 26.12.17

Para que serve afinal o amor?*

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Nestes tempos moderníssimos impera por aí uma enorme confusão sobre o que é o amôr romântico, se é coisa de se fiar e se tem alguma utilidade - já lá vai o tempo em que tudo se percebia por uma canção. Não parecendo, esse é um assunto que importa esclarecer.  

Eu adivinho que a minha filha teenager desconfia que eu não acredito nesse amor, é natural. Mas ao contrário do que possa parecer, eu acredito no amor romântico – eu só acredito no amor com romance - crença que herdei não só do cinema, das canções e da literatura, mas da família e dos vários exemplos que nela testemunhei. 

Mas afinal o que é o amor? Para que é que servirá essa energia extraordinária feita de cardíaca incompletude e desejo insatisfeito, quando o nosso coração cego nos impulsiona para os braços da pessoa eleita? Isso do amor, a que numa fase aguda se usou chamar paixão, ao princípio vai alimentar-se do mistério e novidade do outro, acalentadas pelas circunstâncias da vida que vão sendo exploradas a dois na cumplicidade amiga do tempo novo – então é sempre tudo novo. A diferença é que, ao contrário do que clama o ar do tempo, eu estou convicto que essa poderosa energia, cantada pelos poetas e pelos trovadores desde os confins da História, não é um fim em si mesma. Serve precisamente para o cumprimento das embebedadas promessas proferidas pelos apaixonados, para a construção de uma história cúmplice, feita de referências, dos momentos com que se constroem os alicerces dessa nova entidade em formação que é o Casal – o resultado dos dois indivíduos em comunhão. Isso é a maior realização do amor. Para nos podermos amar “para sempre” temos que nos preparar para a viagem, para enfrentar o tempo, domesticá-lo, como se fora nosso aliado. O amor romântico no fundo não é mais do que o capital inicial com que se começa um exigente empreendimento, que no meu modo de ver se realizará na forma de uma nova família. Matéria tão nobre e exigente como essa requer um grande investimento, daí a importância do amor aforrado em tempos de abundância, de excesso, de euforia. Um grande amor assim não merece ser desbaratado a consumir-se a si próprio como se ele fora um fim em si mesmo; merece ser forja de uma história burilada a dois, que cumpra o final feliz que foi prometido um ao outro em juras de amor eterno. A maneira de tirar rendimento dessa potente energia é aplicá-la numa obra que nos transcenda, em vez de a deixar dissipar para o vazio como vapor desaproveitado. O amor romântico produz uma energia extraordinária.

Por tudo isto eu direi sempre aos meus filhos que nunca acreditem em nada menos que um grande amor, eufórico, cheio de promessas e ilusões – esse é um risco mínimo exigível para um projecto a dois que se queira bem-aventurado e fecundo. Acontece que realizar o verdadeiro amor exige ambição.

 

*Texto dedicado à minha filhota Carolina no dia em faz 17 anos. 

 

Imagem: L’Amour désarmé - Antoine Watteau, 1715. 

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por João Távora às 20:55

Sábado, 23.12.17

É urgente o Natal

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 (…) «Não temais, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura». Imediatamente juntou-se ao Anjo uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus, dizendo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados».

 

Quem já viveu directa ou indirectamente o nascimento de uma criança conhece o radiante encantamento que isso provoca, ocasião em que um autêntico presépio acontece à volta do bebé e da mãe embevecida, com um vai e vem de visitas, quais pastores e reis magos que confluem para festejar a alegria da nova vida que desponta. Uma criança recém-nascida desperta no coração mais empedernido sentimentos de ternura e compaixão, é definitivamente sinal de esperança e reaviva o que há de melhor em nós. Por isso guardo memórias gratas dos nascimentos dos meus filhos, da casa quente e protectora como uma fortaleza, mas aberta para os outros numa harmonia de vontades, todas devotadas ao rebento e à mãe, suporte umbilical daquela chama frágil que desproporcionada e indefesa se adivinha entre os folhos dos xailes e colchas aconchegantes. Tendo os nascimentos dos meus filhos acontecido no Inverno, lembro-me como era importante sempre ter água fervida até para deitar no chá quando chegava mais uma visita, e da temperatura amornada pelo calorífero com as janelas fechadas que guardavam um cheiro a conforto que jamais esquecerei.

Com o presépio de há dois mil anos em Belém da Judeia acontece uma história igual mas com a proporção do universo, a dimensão da humanidade. Aquele menino recém-nascido projecta-se feito luz e Amor na nossa História, não para uma família, mas para o mundo inteiro; profecia cumprida da libertação do homem da sua precariedade, Deus feito frágil menino para vencer a morte e converter do Mundo à Boa Nova que Ele constitui. Oferecendo paz aos corações atormentados, esperança aos descrentes, conforto aos desamparados. Talvez por isso, e apesar de tudo, a mensagem do Natal continua actual a ecoar ao fim de dois milénios no coração de tantos pastores e de reis que queremos ser por estes dias, para acorremos enlevados ao chamamento do anjo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados».

No dia em que o Homem deixar de se encantar com o milagre da Vida que lhe foi dada está condenado às trevas, à extinção. Por isso é urgente acreditarmos no verdadeiro Natal.

 

Votos de um Santo Natal para todos os leitores deste blog. 

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por João Távora às 21:05

Domingo, 10.12.17

O histórico legado

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"Sempre meus avós vos anunciaram o nascimento de seus filhos {…} Sejam quis forem os tempos, de longe ou de perto, vós sois para mimo mesmo que fostes para os meus antepassados: o povo querido e glorioso que melhor serviu a Deus e à sua terra e mais amou os seus reis. Por isso vos anuncio como eles anunciavam, o nascimento de meu filho, oferecendo a sua vida ao bem Portugal com o mesmo fervor com que há muito consagrei a minha {…} Dou-vos nesta hora de interrogações e ansiedadesque oprimem, a certeza de que não findará no meu lar a consciência das responsabilidades que me prendem a Portugal e à felicidade de todos os portugueses.”

 

Excerto da mensagem do Senhor Dom Duarte Nuno, do exílio em Berna aos portugueses por ocasião do nascimento do seu filho primogénito o Senhor Dom Duarte Pio, a 15 de Maio de 1945. In “Nas teias de Salazar – Dom Duarte Nuno de Bragança (1907 – 1976) Entre a Esperança e a Desilusão, de Paulo Drumond Braga – 2017 Editora Objectiva.

 

Publicado originalmente aqui

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por João Távora às 19:36

Sábado, 09.12.17

A luta pela liberdade

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Não deixando de ser um assunto de suprema importância, a temática da gestão da contabilidade do país, mais décima, menos décima de déficit, mais décima ou menos décima de crescimento, não pode monopolizar da discussão política nacional. O pudor, se não vergonha, assumida nos tempos mais recentes pelos partidos da direita no que refere a uma perspectiva ideológica distintiva sobre as reformas preconizadas para um resgate do País do atoleiro em que vivemos imersos, vem empobrecendo o debate político, tornando-o árido e desmobilizador. É assim que se vai tomando como natural a prevalência da mensagem das esquerdas radicais, que aproveitam o vazio do contraditório ideológico para fazer vingar a ideia da fatalidade dos portugueses viverem submissos a um Estado omnipresente que com o seu centralismo sufoca a sociedade civil nas suas mais diversas formas de afirmação.

Sob este ponto de vista, parece-me fundamental que os partidos da direita (nomeadamente o meu CDS) assumam um discurso que saiba honrar as suas tradições liberais e conservadoras, promovendo as suas próprias reversões, recuperando causas que foram sequestradas pelo despotismo do unanimismo progressista imperante, atrevendo-se mesmo nas questões de costumes, mesmo que se afigurem de difícil afirmação. A redução do Estado a funções subsidiárias, a liberdade de ensino, a soberania e a identidade nacional, a família natural e o valor absoluto da vida, a valorização do território, a “descentralização” administrativa e ideológica na convocação da sociedade civil, são Causas que parecem utópicas mas que são bandeiras alternativas ao estaticismo imperante, na prática e no discurso. Estou convencido que a coerência aos princípios próprios, mesmo que contra o discurso politicamente correcto promovido pelos media institucionais, ganha pontos, se não imediatos, a prazo.

-------X--------

Passei ontem o dia entre amigos numa comunidade católica do conselho de Almada, o Vale d’ Acór, que, liderada pelo Pe. Pedro Quintela, há mais de 20 anos instituiu um projecto de tratamento e recuperação (repito, re-cu-pe-ra-ção) de toxicodependentes com base numa terapêutica fundada em Itália, o “Projecto Homem”. Por lá passaram ao longo do tempo, com mais ou menos sucesso, centenas de rapazes e raparigas com problemas graves de adição, muitos deles que após um duro processo terapêutico e de reinserção são hoje pessoas válidas na sociedade, protagonistas anónimos das suas próprias vidas. Triste foi constatar que, passados estes anos, esse projecto terapêutico se encontra ameaçado pelos programas de drogas de substituição e pela resistência do serviço nacional de saúde indicar este tipo de profilaxias aos utentes que nele pretendem ingressar, porventura mais dispendiosas e de resultados estatísticos mais atractivos. Ouvi um testemunho de um rapaz em sucessivas entrevistas no CAT foi insistentemente desaconselhado a integrar aquele programa no qual tinha intenção de aderir por já o conhecer numa experiência anterior. É triste constatar como alguns daqueles rapazes e raparigas que em tempos violentamente se confrontaram com o fim da linha, e que a contragosto ingressaram e estoicamente lutaram contra os seus fantasmas e fraquezas no duro programa terapêutico que lhes prometia a recuperação da dignidade duma pessoa livre, se fosse hoje, seriam convidados pelo Estado para um indigno perpetuar de uma vida humilhante de dependência e infantilização, que são os programas da metadona.

O que é que este parágrafo tem a ver com o assunto abordado nos anteriores? Tudo: a luta pela liberdade tem de ser a nossa maior Causa.

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por João Távora às 18:57

Sábado, 02.12.17

Hymno da Carta

Aqui partilho a minha última aquisição: o Hino da Carta composto por Dom Pedro IV, que foi o hino nacional até à revolução da república, gravado num cilindro de cera e reproduzido no meu Edison Home Phonograph de 1900.

 

Publlicado originalmente aqui

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por João Távora às 18:56

Sexta-feira, 24.11.17

Um justo tributo, no local certo

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Apesar de ser muito crítico com a classe sempre gostei de jornalismo, e (talvez por isso) aprendi a seguir e gostar de alguns jornalistas. Hoje, com a brutalidade a que não nos conseguimos habituar, fomos surpreendidos com a morte de Pedro Rolo Duarte, cedo de mais como sempre acontece com aqueles que admiramos. Jornalista e cronista que desde os tempos do Independente acompanhava, tenho para mim que o Pedro Rolo Duarte pugnava por um raro zelo na isenção. Além das afinidades musicais, aproximou-nos (virtualmente) o papel preponderante que teve nos anos mais recentes no acompanhamento dos blogs e dos blogers, movimento de que a determinada altura foi especialista e especial patrocinador. Que Deus o tenha na sua infinita Graça.

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por João Távora às 20:33

Sábado, 18.11.17

Uma questão de decência

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Não entendo a Chefia de Estado Real como constituindo um privilégio, antes pelo contrário. Onde existem dinastias historicamente legitimadas, e não sendo o cargo executivo, não vejo qualquer imoralidade no facto dos reis não serem sufragados pelo voto - vê-se bem por essa Europa afora a sua importância e o sucesso do modelo que persiste e se adapta nos países mais desenvolvidos. Mas é evidente que para a consumação em Portugal deste desígnio, a instauração da monarquia, a democracia tem que imperar organicamente na sociedade, através de uma participação activa das múltiplas comunidades na rés-publica. Esse é o problema: não acho que no meu País a democracia, a sociedade portuguesa e as suas instituições, no actual quadro constitucional, sejam suficientemente representativas e participadas (evoluídas) para acomodar uma Chefia de Estado hereditária. Seria um presente envenenado, um convite à insurreição. Mas isso não me demove um milímetro de me dedicar de corpo e alma à Causa Real para apoio à Casa Real Portuguesa para que ela perdure depois de mim, antes pelo contrário. Por uma questão de decência e... amor à Pátria que é legado dos meus avós.

 

Fotografia: Nuno Albuquerque Gaspar 

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por João Távora às 22:48

Quinta-feira, 16.11.17

As greves das fidalguias republicanas estão de volta

(...) Esta greve dos professores teve o mérito de nos recordar como é diferente a “bolha” em que vivem aqueles para quem este Executivo tem governado – as corporações que vivem do Estado ou à sombra do Estado – e adura realidade dos que têm que fazer pela vida e pela criação de riqueza. (...)

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por João Távora às 10:42




Sobre o autor

João Lancastre e Távora nasceu em Lisboa, que adora. Exilado no Estoril, alienado com política e com os media, é sportinguista de sofrer, monárquico, católico e conservador. No resto é um vencedor: casado, pai de filhos e enteados, é empresário na área da Comunicação e do Marketing. Participando em diversos projectos de intervenção cívica, é dirigente associativo e colabora em vários blogues e projectos comunicação política e cultural.


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