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João Távora


Quinta-feira, 25.08.16

No meio da ponte (mas em calções de banho)

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Quanto ao tema do momento, a polémica proibição do uso do 'burkini' nas praias de França, considerado um atentado aos "bons costumes e o secularismo" (!), também eu me sinto compelido a molhar o pão na sopa.

Em primeiro lugar admiro-me com a quantidade de pessoas com posições categóricas num assunto como este que me parece demasiado complexo e intrincado.

Também eu por princípio desconfio da eficácia das proibições nesta matéria. No que refere por exemplo aos meus filhos adolescentes, saudavelmente atreitos a experimentalismos e provocações, reservo a minha intervenção para uma improvável situação limite, que talvez por isso nunca aconteceu.

Outro equívoco em que os laicistas incorrem é classificar esta indumentária como uma expressão religiosa, quando esta é apenas uma matéria do âmbito cultural e de costumes. Em Portugal, há não muitos anos, na cidade ou na aldeia era comum encontrar senhoras viúvas todas de preto muito tapadas com lenço na cabeça, e isso não era sinal de qualquer devoção especial ou de frequentarem a igreja. Os republicanos de 1910 que perseguiam os padres e fecharam as igrejas eram conhecidos pelo seu puritanismo exacerbado no que refere aos costumes.

De qualquer modo reconheço diferenças acentuadas nos dois registos. Não acredito que as muçulmanas em França escapem com facilidade à atracção exercida pela cultura liberal e igualitária no que respeita à sexualidade e ao género que brota e se expressa por todos os poros duma sociedade cosmopolita. Por isso tenho dificuldade em acreditar que seja por sua livre e espontânea vontade que as senhoras se disponham a envergar semelhante indumentária numa praia no calor do Verão. Um despropósito quase tão grande quanto eu estender-me numa toalha à torreira do sol de fato e gravata aqui na Praia da Azarujinha.

Finalmente, parece-me também que esta lei significa uma radical inversão nas desastrosas políticas multiculturalistas praticadas nos últimos anos numa França acossada por uma gigantesca comunidade muçulmana maioritariamente hostil aos valores e modo de vida liberal do ocidente.

Por tudo o que atrás referi, se me permitem fico no meio da ponte, quanto a uma tomada de posição inequívoca neste candente assunto. E dou Graças a Deus pela pacata comunidade muçulmana que nos coube em sorte em Portugal.  

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por João Távora às 20:32

Sábado, 20.08.16

Velharias

As fitas do 007 com Sean Connery agora em reposição no canal AMC, com aqueles adereços "vintage", automóveis, guarda-roupa de catálogo dos anos 60, são como as minhas memórias, um "filme de época" como se diz agora.

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por João Távora às 15:48

Sexta-feira, 19.08.16

Nós gostamos é de "regimes"

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Pouco tempo depois das presidenciais fui convidado para almoçar por um senhor Inglês, um gentleman que gosta muito do nosso país e que passa o ano entre Chelsea e Lisboa, que me recebeu com elegância e enorme simpatia no Círculo Eça de Queiroz de que é associado com um seu amigo compatriota, ambos muito conhecedores da história de Portugal e da nossa realidade politica. A determinada altura perguntei-lhes o que achavam do nosso regime semipresidencialista, ao que o meu anfitrião respondeu com uma gargalhada e a olhar para a mesa ainda cheia de iguarias: “We don’t like «regimes», João – do you?!”, tendo rematado depois, não disfarçando alguma vaidade “That’s why we still have our Queen!”. 

Nessa altura algo que sempre soubera se me tornou clarividente e não evitei um sentimento de tristeza e de uma certa inveja. Acontece que os ingleses, que inventaram a democracia desenvolveram ao longo dos últimos séculos um sistema de poder tanto quanto possível disseminado, filtrado e orgânico – ainda hoje cabe aos tribunais comuns a criação de leis, por exemplo – puderam conservar a monarquia porque souberam escapar à tentação dos “regimes”, no sentido dum sistema demasiado ortopédico, opressivo (para isso já têm o fog e o frio). Enfim, como eu passo a vida a repetir, "temos aquilo que merecemos".

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por João Távora às 10:32

Segunda-feira, 15.08.16

Cinquenta e cinco anos e uma vida cheia

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Só me preocupa o facto das minhas memórias da juventude se parecem cada vez mais com um filme de época. Obrigado a todos os meus amigos pela companhia nesta viagem. Graças a Deus.

* Fotografia do meu retrato pintado (inacabado) por Agath v. Radey (n. Princesa de Auersperg, 1916 - 1983) em Cascais no Verão de 1974.

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por João Távora às 14:39

Domingo, 07.08.16

A Ponte Sobre-o-Tejo

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Foi um ano depois de eu nascer que se iniciaram as obras de construção da Ponte Sobre-o-Tejo em Lisboa. Tenho difusas reminiscências de atravessar o rio de Cacilheiro, no velho Hillman do meu pai atafulhado de irmãos, e memórias mais sólidas de atravessarmos a ponte no Volkswagen novinho, que o meu pai jurava também ser o meu carro quando eu chegasse aos pedais. Nesses tempos de barbárie e obscurantismo, demorávamos mais de quatro horas a chegar a Milfontes com uma bagageira no tejadilho e a mãe com a minha irmã bebé ao colo no lugar do morto, e nós os quatro restantes no banco de trás, metade do caminho a implicar uns com os outros. Uma autêntica aventura do faroeste.

Curioso é hoje verificarmos o embaraço mal disfarçado com que a Comunicação Social assinala os 50 anos da inauguração da ponte, que para infortúnio da narrativa oficial nasceu oito anos antes do tempo. Desconfio que nas redacções subentendem o caricato que é celebrar 50 anos de uma obra rebaptizada com uma data histórica posterior à sua construção. Às tantas dão-se mal com a história que confundem com propaganda, um guião de lugares comuns, atafulhada de esqueletos nos armários, pois há que evitar a complexidade para não confundir as cabeças volúveis das gentes. Ou simplesmente “há que ignorar”, é mais isso. Hoje uma tal de Katia Delimbeuf assinala num pequeno artigo na revista do Expresso que: “às 15,00hs, passaram os primeiros carros do povo, que a rebaptizou após a revolução de 1974”. Claro que a coisa vinda de uma jornalista é mentira; se fosse da pena dum poeta seria apenas uma tirada de mau gosto. Na verdade o povo nunca seria chamado a baptizar a Ponte Sobre-o-Tejo (como sabiamente sempre se lhe referiu), tanto mais que a coisa poderia dar para o torto, como se verificou aquando daquele desgraçado concurso televisivo sobre “Os Grandes Portugueses”.
Talvez interesse pouco relembrar neste dia de comemoração que a Ponte Salazar foi construída tarde de mais, e notoriamente subdimensionada. A maior parte das recordações remotas que guardo dos seus primeiros anos referem-se a épicos engarrafamentos que enfrentei, a ir ou a vir da Costa da Caparica, que se repetiam diariamente às horas de ponta e especialmente no Verão, só verdadeiramente mitigados aquando da construção da Ponte Vaco da Gama mais de 30 anos depois. Desculpem-me o mau jeito, mas a ponte Salazar também é uma parábola sobre a nossa incapacidade de planeamento a longo prazo. Um embaraço apenas comparável ao expediente das revoluções que nos últimos duzentos anos nos trouxeram a este triste destino.

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por João Távora às 16:07

Sábado, 06.08.16

Não sou de modas…

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Chegados à meia-idade conquistamos uma visão em perspectiva que nos revela a verdadeira importância das modas. Pela minha parte até chegar à da barba de três dias, em matéria de pilosidade masculina, já testemunhei diferentes usos que se banalizaram na paisagem de cada tempo: do cabelo cortado à tijela ou “à Beatle”, à cabeleira e barba hirsutas, comprida até ao peito a encobrir uma fácies cândida “imagine all the people”, passando pela recuperação nos anos 80 da sobriedade insinuante de Morrissey com poupa à James Dean, estou em crer que, com mais ou menos ombros e lantejoulas no casaco, mais ou menos justas as calças, cada moda cumpriu a seu tempo o propósito de alimentar a vital ilusão de corte ou renovação dum sentido existencial de cada geração emergente, que organicamente se impunha com uma assinatura própria à espuma dos dias imparáveis. O problema é que, como bem sabemos, a natureza humana e as suas circunstâncias são realidades essencialmente estáticas. Sobre este complexo assunto, o povo na sua sabedoria arranjou um adágio que mete moscas e excremento. 

Curioso é o burlesco que nos soa um guarda-roupa, por exemplo, quando revisitamos uma antiga (?) série, em voga dos anos oitenta, como a do muito British e europeu “Inspector Morse” ou num ataque de revivalismo revisitamos a sonoridade e paisagem do festival Woodstock, afogada em toneladas de Canábis, pilosidade e devaneios idealistas, daquela miudagem que acreditava sinceramente que a juventude era algo mais do que um efémero acidente do seu imparável processo de envelhecimento. E quanta grosseria e boçalidade não vivia disfarçada por uns óculos escuros, longas barbas, lenço na cabeça e calças à boca-de-sino. O tempo se encarregará de fazer esquecer estes egos estéreis no anonimato da demografia e das estatísticas.
Estou em crer que a moda torna-se num verdadeiro problema quando é motor da política, subjugada ao jogo mediático na conquista das massas consumidoras e democráticas; quando ela se move e se motiva embalada pela espuma dos dias, com causas vácuas de que os nossos vindouros troçarão impiedosamente. Julgo que é exigível às lideranças partidárias, jornalistas e comentadores profissionais um esforço suplementar para a produção de um discurso mais elaborado e perene. Para tanto basta não levantar demasiado os pés da realidade e das prioridades que ela reclama, tendo em conta o bem comum. Que um jornal ou noticiário de hoje não nos pareça daqui a 30 anos um anacrónico guião de um filme pimba.

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por João Távora às 17:14

Quinta-feira, 04.08.16

A ética republicana não chega?

Era mesmo de um "Código de Conduta" aquilo que os nossos governantes estavam a precisar. 

Outra coisa Dr. Santos Silva: se afinal não foi "nada de mais" a conduta dos secretários de Estado, porque devolvem o dinheiro?

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por João Távora às 21:25

Segunda-feira, 01.08.16

Metafísicas

O velho padre da aldeia já andava intrigado com o afluxo de forasteiros que ultimamente rondavam o átrio da sua Igreja com o telemóvel em riste como se de um radar se tratasse. Já ouvira falar daquele "jogo" tão em voga, mas foi quando os irrequietos escuteiros lhe explicaram que não só o edifício estava rodeado por alguns "Pokémons raros" como na torre sineira que se erguia da residência paroquial estava localizada uma "PokéStop" que quase perdia a sua proverbial e evangélica paciência.

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por João Távora às 12:34

Terça-feira, 26.07.16

E as saudades que deixou?

Jamais poderia esquecer aquelas fases entre leituras e escritas em que o meu Pai se sentava no seu coçado cadeirão da sala para, em cima de um gigantesco livro de brasões que lhe servia de tabuleiro, se dedicar furiosamente àquela paciência de cartas que, quando bem sucedida, acaba com os naipes organizadinhos por ordem crescente. Suspeito que era a forma como materializava simbolicamente uma ordem lógica para o mundo, com o qual viveu quase sempre em conflito. 

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por João Távora às 21:40

Sexta-feira, 22.07.16

Elogio ao ilustríssimo e excelentíssimo Senhor Marquês de Abrantes D. Rodrigo Annes de Sá

pelo Marquês de Valença D. Francisco de Portugal *

1745

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"De tenra idade ficou sem pai o ilustríssimo e excelentíssimo Senhor Marquês de Abrantes. Grande ocasião para se apoderar o vício da sua vontade e a ignorância do seu entendimento. Mas a providência de Deus quando tira intempestivamente os pais aos filhos é quando eles podem, sem o seu auxílio, amar a virtude ou quando as mães são varonis e capazes de suprir a falta dos pais, como foi a do Senhor Marquês de Abrantes, que imitou a famosa Cornélia educando seus filhos com as artes e ciência próprias de um menino tão ilustre. Aprendeu muitas o Senhor Marquês de Abrantes, e todas as que aprendeu soube-as com tal perfeição que as podia ensinar. Teve por Mestres da língua latina Ignacio da Silva, insigne Gramático e Filosofo do seu tempo; de Matemática Francisco Pimentel e seu irmão Manuel Pimentel, que foram tão cientes como o grande Pedro Nunes, e se Manuel Pimentel quisesse publicar novos sistemas, seriam os seus tão engenhosos e mais pios que os de Copérnico.

Aplicou-se muito às Filosofias modernas, mas não lhe prejudicaram as suas novidades, por se defender umas vezes com o escudo da religião, outras com o antídoto da prudência, e porque afirma o incomparável Santo Agostinho que as opiniões novas com a mesma utilidade perturbam os homens. Os latinos com grande fundamento chamam à novidade insolência, pois tanto custa sofrer as coisas insolentes como as insólitas.
Não sei quem foram os mestres que teve o Senhor Marquês de Abrantes da língua Francesa e Italiana mas deviam ser excelentes, porque o discípulo as entendia os seus mistérios e falava com bom assento e propriedade. Da língua materna, de que ainda se faz menos caso que da Latina, porque ainda nos prezamos menos de Portugueses que de eruditos, sei que foram os sermões do Padre António Vieira e certamente que quem quiser falar esta língua com elegância e majestade só o conseguirá fazendo com as obras deste insigne orador, o mesmo que fez Demóstenes com a história de Tucídides, que a copiou oito vezes da sua mão.

Mas tornando à Matemática em que foi sumamente versado o Senhor Marquês de Abrantes, posso dizer o que ouvi ao doutíssimo Manuel Pimentel que tivera muitas notícias de todas as partes desta ciência. Ele, pela sua aplicação, engenho e subtileza era capaz de fabricar outra pomba, que voasse como a de Arquitas, outra cabeça, que falasse como a de Alberto Magno, outros espelhos ustorios com que queimasse navios como as de Arquimedes, e outra esfera de cristal em que se vissem os diferentes movimentos dos círculos, obra do mesmo admirável matemático. Isto em quanto à mecânica.

Em quanto à mais sublime parte desta ciência, a Astronomia, compreendeu-a o Senhor Marquês de Abrantes de forte, que podia fazer novos descobrimentos nos Planetas. Do estudo da Geografia e Hidrografia teve cabal notícia podendo fazer mapas por onde se guiassem os caminhantes e roteiros, por onde se governassem os pilotos. Foi tão bom engenheiro que seu grande Mestre Francisco Pimentel me confessou que tinha chegado à última perfeição daquela arte e para que lhe não faltasse alguma, riscava com incrível primor as plantas das praças e dos palácios, pois na Arquitectura não foi menos eminente que na militar.

Na História, como mestra da vida, fez um inexplicável progresso, porque a percebeu completamente em todas as suas partes, sabendo que a variedade dos sucessos, conhecendo a genealogia dos homens, lembrando-se do lugar em se obraram as ações e repetindo o tempo em que aconteceram. Não parava aqui a sua vasta e profunda erudição: passava a ser um dos maiores antiquários do seu século, ciente nas medalhas de Cônsules e Imperadores Romanos e versado em todas as raridades dos mais curiosos Museus da Europa. Deste conhecimento entrava no das pinturas, dizendo logo à primeira vista dos quadros quais eram as cópias ou originais e qual a graduação dos pintores. Empregou-se laboriosamente na crítica, mas usou dela com notável moderação à maneira dos remédios opiados que em pouca quantidade são lenitivo das dores e em letargo dos sentidos.

No tempo em que o Senhor Marquês de Abrantes andava já na memória do seu príncipe, de que era fácil passar para a sua vontade, sucedeu romper-se a guerra com Castela. Aqui se lhe abriu um dilatado campo para a ambição da sua glória, porque soube ter aquele sangue marcial, que herdou dos seus ilustres avós e que adquiriu mais espíritos belicosos nas suas veias, tinha todas as partes necessárias para o exercício de soldado. Com tais auspícios para a vida e profissão militar, foi à campanha o Senhor Marquês de Abrantes com o posto de Coronel de Infantaria, onde mostrou aos generais em varias ocasiões, que pediam valor, confiança e desafogo, que seria outro Camilo para conservar a sua pátria e, segundo Fábio, para vender sem derramar sangue.

Deixada a guerra por um motivo não só justo, mas honroso, continuou o Senhor Marquês de Abrantes os seus estudos, fazendo-se cada vez mais erudito com a notícia das matemáticas, mais prudente com a reflexão da História, mais subtil com a especulação das Filosofias e mais universal com o exame das antiguidades. Um dos primeiros acertos do governo do nosso Monarca foi nomear o Senhor Marquês de Abrantes por Gentil-homem da Câmara e Embaixador de Roma; mas seja-me licito dizer, que este acerto não só foi um dos primeiros mas um dos maiores da feliz escolha do nosso Príncipe. Quem era mais digno que o Senhor Marquês de Abrantes para exercitar uma ocupação que é o distintivo da intima confiança, que fazem os reis dos vassalos, e quem era mais merecedor de residir numa Corte, que é a cabeça do mundo, senão quem era a maior cabeça do reino? A opinião, a fama que o Senhor Marquês de Abrantes deixou na Cúria, será inveja duvidarem-no os presentes, mas não será temeridade negarem-no os vindouros.

O favor, o agrado e a distinção que achou o Senhor Marquês de Abrantes nas palavras e acções dos Papa Clemente XI excede os limites do crédito, ainda empregando o pensamento na grande pessoa que era e na maior, que representava o ministro. Mas cada um ama o seu semelhante, sendo muito para admirar e agradecer, que confessem que tem semelhantes no génio os que são dessemelhantes na fortuna. Como este maravilhoso Pontífice era enriquecido de muita erudição e engenho, muito prático nas letras humanas e sagradas, muito dotado da eloquência Romana nos seus discursos, muito ameno nas suas práticas e muito sentencioso e pronto nas suas respostas, como se não havia de agradar inteiramente do Senhor Marquês de Abrantes, que era ornado dos mesmos atributos? Eu ouvi a uma pessoa de muita verdade, que este Pontífice desejando sempre a companhia do Senhor Marquês de Abrantes se afligia algumas vezes quando ele lhe falava em negócios de Portugal sem lhe dar muito tempo para responder com madura consideração. Bem posso dizer sem temor de parecer encarecido ou apaixonado, que os argumentos do Senhor Marquês de Abrantes eram dificultosos de soltar ao maior talento e impossíveis de retorquir à maior agudeza. Não teve melhor dialéctica Crisipo que o Senhor Marquês de Abrantes, nem foram mais para assustar os discursos de Carnéades em Roma, que as negociações deste Ministro naquela Corte, oficina da mais misteriosa politica.

Ele conseguiu naquele Pontificado grandes honras e privilégios para a sua pátria, ele executou o gosto do seu Príncipe sem aqueles perigos que costuma encontrar esse gosto quando depende da vontade igualmente soberana. Uns negócios ficou-os do benefício do tempo, outros da sua industria, alguns do seu carácter, muitos da sua confiança, não poucos da sua grandeza e todos da sua fortuna; porque o Senhor Marquês tinha tanta, que bem podia dizer no mais alterado dos negócios o que disse a César ao piloto, que o levava na sua embarcação e que a via combater de uma furiosa tempestade que se animasse pois ia com ele a fortuna de César.

Conseguidos gloriosamente todos os negócios na Cúria deixando um nome imortal do seu merecimento e uma saudade inconsolável da sua presença voltou para a Corte o Senhor Marquês de Abrantes a receber os louvores e estimações do seu Príncipe, prémio, que não tem equivalente em toda a dilatada esfera da sua liberalidade. Disputarão pois as palavras honrosas com as obras magníficas, não se lembrando a memória dos portugueses de despacho nem mais generoso nos Reis, nem mais bem merecido nos vassalos. Não houve negócio de grande consequência, que o nosso, ou o seu Príncipe resolvesse sem consultar primeiro o Senhor Marquês de Abrantes. Mas para que roubo a gloria este Conselheiro, e limito o favor deste monarca? Que digo só sem consultar primeiro o Senhor Marquês de Abrantes, quando os seus votos e opiniões eram sempre as que abraçava e preferia o nosso Príncipe. Parece-me  que o amor não me cega com a sua venda, antes que me alumia com a sua tocha, que nenhum Rei escolheu para a confiança do seu gabinete pessoa mais própria de tão alto emprego que Senhor Marquês de Abrantes. Que é necessário para encher a quase imensidade desse lugar? Esplendor? Examinem os malédicos a sua origem? Fidelidade? Sejam os mesmos fiscais dos seus pensamentos. Veneração? Pese-se em qualquer balança o seu respeito. Zelo? Julguem-no os poucos que o têm ou os muitos que o estranham. Independência? Compare-se a deste Valido com o desinteresse de outros privados. Gravidade? Faça-se o mesmo paralelo com os antigos mais rígidos nesta virtude. Ciência? Pondere-se a agudeza de Filosofo junta com a prática de político, que faltou aos sete Sábios da Grécia.

Se a inveja não sentira igualmente os elogios dos vivos, que os epitáfios dos mortos, bem me atrevera eu a mostrar, que o Senhor Marquês de Abrantes foi um estadista proporcionado a todos os negócios, um conselheiro adequado para todas as empresas e um valido consumado para todos os príncipes. O nosso, que vai por todos sem sombra de adulação à superioridade do seu engenho o Senhor Marquês de Abrantes pela gloria dos Portugueses, pelo socorro das conquistas, pela vantagem do comercio, pelo credito das armas, pelo argumento das artes e pela opulência do reino. Estes desejos lhe ocupavam o tempo, estas esperanças lhe interrompiam o sono, estes pensamentos lhe debilitavam as potencias, estas ideias lhe arruinavam a saúde e estes cuidados lhe apressavam a morte.

Quem foi, senão o Senhor Marquês de Abrantes o que com ardente zelo da fé representou ao nosso Príncipe quisesse refrear o fatal progresso das armas Otomanas, que soberba e atrevidamente ameaçavam a cristandade com a furiosa torrente de tantos bárbaros belicosos? As dúvidas e questões que encontrou esta religiosa proposição, é preciso, que eu as passe em silêncio por não ofender os pios ouvidos. Mas o nosso devoto, e magnânimo Príncipe abraçou tão afectuosamente a opinião do Senhor Marquês de Abrantes, que em virtude dela mandou um dos mais formidáveis socorros, que saíram do porto de Lisboa, escurecendo com esta ajuda militar a que deu a seu aflito genro D. Afonso IV alcançada pelos rogos de uma filha em quem competiam as lágrimas com formosura.

Instituiu o nosso discreto e augusto mecenas a Academia da História Eclesiástica e Secular, e elegeu para um dos Censores deste erudito Congresso ao Senhor Marquês de Abrantes como coluna de pórfido e a mais polidamente lavrada para o templo da sabedoria. O que o Senhor Marquês de Abrantes obrou nas ocasiões de Director não o fez explicar com palavras, ainda que as tivera tão expressivas e elegantes como as de Plínio. Só digo, que nem Catão conseguiu mais autoridade no senado com os seus votos, nem Cícero mereceu no mesmo lugar maior silêncio e admiração dos ouvintes com o rio caudaloso ou raio fulminante da sua eloquência.

A expectação da Corte e dos companheiros, que mereceu o Senhor Marquês de Abrantes no ilustre oficio de Vedor da Fazenda, apenas a pode declarar o hipérbole de Joseph da Cunha Brochado, que vem a ser, que o Senhor Marquês de Abrantes compreendera pasmosamente os muitos vários e dificultosos negócios daquele tribunal, não em dias, se não em instantes. Todas as acções deste Ministro respiravam uma majestade, que nunca chegava a altivez e o zelo do bem púbico nunca o fez inimigo capital do favor, e menos da clemência, como se disse não sei de antigo, por dentro Nero, por fora Catão.

Quando se ajustaram as ditosas alianças dos nossos príncipes com os de Castela, foi logo escolhido o Senhor Marquês de Abrantes para instrumento desta maior felicidade da monarquia e em nenhuma pessoa entra as muitas, que também mereciam este carácter, assentava melhor a nomeação do nosso príncipe. O Senhor Marquês de Abrantes era o mais próprio para esta embaixada não só pelo que tenho referido das suas virtudes e talento, mas por se haver exercitado na Corte de Roma e pedia a função de Castela, que fosse ensaiado o embaixador na política, e policia dos Romanos para as praticar com a discrição e entendimento dos espanhóis. As inauditas e incomparáveis acções de grandeza e sumptuosidade que o Senhor Marquês de Abrantes fez nos dois mais pomposos teatros de Roma e Madrid mal se podem expressar na estreiteza de um panegírico: o mais que se pode dizer debuxando, e não colorindo o retrato da sua liberalidade e magnificência, é que a entrada, a residência, e a despedida do Senhor Marquês de Abrantes excederão a fecundíssima ideia das nações mais generosas e luzidas da Europa.

Voltou segunda vez para a pátria o Senhor Marquês de Abrantes autorizado, mas não presumido com a Ordem do Tusão de Ouro oferecia pela insigne magnificência do Rei Católico, porque esta generosa dádiva não podia desvanecer aquele dilatado coração, que não poderão despojar da modéstia, e comedimento as honras do parentesco do seu mesmo Augusto Monarca.

Voltou, torno a dizer, cheio de despojos da inveja, e de triunfos da competência: não me expliquei como devia: restitui-se com impaciente saudade à desejada presença do seu adorado Alexandre este melhor Hefestião, e ainda que o nosso Príncipe tinha benevolência para mais agrados, e ânimo para mais benefícios, a fortuna cega, indiscreta, e mudável não teve coração para mais favores: cansou-se de ser propicia contra o seu génio, envergonhou-se de ser justa contra o seu costume e arrependeu-se de ter constante contra a sua natureza e fazendo com a Parca uma aliança bárbara, cruel e sanguinolenta, cortou os preciosos fios daquela vida digna de se eternizar com a sua fama.

Esta lastimosa e irreparável perda, este violento, penetrante, incurável golpe se sentirá e chorará com lágrimas, suspiros e clamores em quanto durar o amor da pátria, em quanto se conversar a veneração das virtudes, enquanto se respeitar a grandeza dos heróis, enquanto se e adorar o glorioso e imortal nome do nosso Príncipe, enfim enquanto os rios para o mar correrem."

 

* Transcrição da brochura original publicada em 1745 pelo Marquês de Valença D. Francisco de Portugal 

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 Com especial agardecimento ao meu bom amigo Carlos Bobone Livraria Bizantina 

 

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por João Távora às 12:03

Terça-feira, 19.07.16

Emídio Navarro

No sábado passado ao fim da tarde estive quase meia hora na Avenida Emídio Navarro na vila de Cascais com um calor tórrido e o sol de frente à procura do antigo número 22, a casa onde os meus avós maternos passavam a época estival, para tirar uma fotografia. Em vão: tendo a numeração sido alterada há uns anos e a falta de uma referência arquitectónica relevante tornou a minha tentativa um logro. Nenhuma das fotografias que tirei orientado por solícitos e desconfiados autóctones acertou no alvo - até a daquela vivenda que eu intuí como certa. O falhanço foi mais tarde sentenciado de viva voz pela minha mãe depois de inspeccionar os retratos no meu telemóvel.
Daqui se depreende como a investigação histórica é uma ciência difícil e como é perigosa a tentação de deduzirmos uma determinada solução e promulgarmos um erro.

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por João Távora às 17:09

Quarta-feira, 13.07.16

Tristezas não pagam dívidas

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Diz-se por aí que a vitória portuguesa do Euro 2016 em França vai impulsionar a economia em seiscentos mil euros, ao que parece quase todos gastos em tascas e esplanadas. Contas feitas a festa nem é cara, dá para cerca de um milhão de portugueses beberem ume mini e comerem um pires de tremoços. Quanto a mim era bem melhor que o ministério das finanças se dignasse a abrir os cordões à bolsa e acelerasse a devolução do IRS que tanta falta me faz. 

Sem dados concretos para uma avaliação científica da questão, fica-me a impressão que, devido aos (merecidos) festejos e à consequente ressaca acabamos por “ficar em casa”. Tenho sinais claros de que a semana de trabalho custou mais a arrancar do que é habitual: na minúscula empresa que dirijo, anteontem foram desmarcadas duas importantes reuniões com clientes.
De resto, há algum tempo que perdi a esperança que a extrema competitividade e sucesso da indústria do futebol nacional, tão intensamente difundida entre os adeptos pelos profusos programas e jornais desportivos, serva de exemplo para reverter cultura de acomodação e conformismo tão atreita aos portugueses.
Certo é que as tristezas não pagam dívidas e convenhamos que uma alegria destas experimenta-se uma vez na vida e agora é tempo de festejar: o triunfo dos portugueses em Paris ficará gravada na história do futebol e os seus heróis serão celebrados pelos nossos netos e bisnetos.
Finalmente, e para que conste, escreva-se na pedra que nossa vitória não resulta de um acto ou personalidade genial mas foi-o duma determinação individual incomensurável e dum enorme espírito colectivo dum grupo bem liderado, por um homem de fé. Uma bela parábola para todos nós.

 

Pubicado originalmente no Diário Económico

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por João Távora às 10:35

Segunda-feira, 11.07.16

Algumas notas sobre a vitória da Selecção Nacional em Paris

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A nossa vitória não resulta de um acto ou personalidade genial mas foi-o duma determinação individual incomensurável e dum enorme espírito colectivo dum grupo bem liderado. Uma bela parábola para os portugueses.

 

Para aqueles que tinham dúvidas, Rui Patrício confirmou que é um guarda-redes ao nível dos melhores do mundo.

 

Ainda a tempo o seleccionador percebeu a vantagem de utilizar William Carvalho, Adrien Silva e João Mário, um trio que apesar de não ter revelado a habitual eficácia atacante conferiu uma robustez e fiabilidade de movimentos ao meio-campo português. 

 

Fernando Santos revelou-se um verdadeiro líder: sóbrio, discreto e corajoso, conseguiu unir a sua equipa não à sua volta, mas alinhada na sua estratégia e focada no objectivo da vitória. Um homem com uma fé inabalável.

 

Payet, a estrela francesa que prometia ser a revelação deste campeonato europeu, conseguiu o seu maior momento de glória aos oito minutos da final em Paris ao lesionar Cristiano Ronaldo que assim se viu impedido de jogar o jogo da sua vida. O resultado foi o reforço da tenacidade dos seus companheiros. 

 

Receio que a qualidade prestação dos jogadores do Sporting neste torneio resulte num assédio que desestabilize as suas merecidas férias e prejudique a preparação da equipa. Tudo por um bem maior.

 

Se a selecção nacional é acusada de ter chegado às eliminatórias quase só com empates, que dizer daquele português que apenas com uma derrota se sentou ufano no camarote presidencial em Saint Dennis?

 

Desde a fundação de Portugal que a Mãe de Jesus é chamada apadrinhar os mais nobres feitos nacionais - os outros não. Um sinal de que este País apesar de tudo resiste como um local aprazível.  

 

Uma vitória destas vive-se uma vez na vida, ficará gravada na história do futebol e os seus heróis serão celebrados pelos nossos netos e bisnetos. Festejemos hoje e tomemos o seu exemplo, para regressarmos aos nossos afazeres com mais entrega e determinação. Portugal pode ser muito mais. 

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por João Távora às 18:41

Sábado, 09.07.16

A História é feita de pessoas

Inauguração Embaixada_54.jpg

Permitam-me contar esta notícia de forma um pouco subjectiva, ou simplesmente do meu ponto de vista: O quadro de D. Rodrigo Annes de Sá Almeida e Meneses, o embaixador de D. João V que a 8 de Julho de 1716 foi recebido em Roma pelo Papa Clemente XI, muito provavelmente da autoria de Vieira Lusitano de quem foi protector, foi um dos principais protagonistas da magnífica Exposição com que o Museu Nacional dos Coches celebrou ontem a passagem de trezentos anos sobre o acontecimento. Assim, foi com grande orgulho que ontem à tarde eu e os meus irmãos reencontrámos este velho companheiro da nossa infância e juventude que, na parede da sala de nossa casa, da sua imponente moldura dourada nos seguia com um olhar sisudo e atento à nossa passagem. Daquele senhor, o primeiro marquês de Abrantes, nascido em 19 de Outubro de 1676, sabemos ter sido um grande mecenas e homem de artes e da cultura, e também que é da sua autoria o desenho dos magníficos Coches de Aparato mandados construir em Itália, com os quais empreendeu esse importante serviço à Pátria, visando conseguir do Papa o prestígio dum patriarcado para Lisboa.

Entregue em depósito ao Museu Nacional dos Coches pela minha família, é com enorme alegria que o encontramos finalmente exposto ao público, à vista de todos quanto visitem esta magnífica exposição que nos desvenda uma época e uma história… feita de pessoas como nós.

 

Ver reportagem fotográfica aqui.

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por João Távora às 14:49

Sexta-feira, 08.07.16

Redenção

Estranhos são estes dias quentes e luminosos do Julho português, vividos entre a euforia duma improvável final do Europeu de futebol em Paris e a humilhação a que estamos sujeitos na mesma Europa por um endividamento descomunal que não sabemos por cobro. Salvaguardadas as distâncias dos dois eventos, acontece que, numa como noutra coisa, a redenção depende principalmente do que soubermos e estivermos dispostos a fazer. Essa é a grande lição que o futebol nos pode dar: o principal adversário somos nós próprios.

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por João Távora às 11:21




Sobre o autor

João Lancastre e Távora nasceu em Lisboa, que adora. Exilado no Estoril, alienado com política e com os media, é sportinguista de sofrer, monárquico, católico e conservador. No resto é um vencedor: casado, pai de filhos e enteados, é empresário na área da Comunicação e do Marketing. Participando em diversos projectos de intervenção cívica, é dirigente associativo e colabora em vários blogues e projectos comunicação política e cultural.


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