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João Távora



Quinta-feira, 29.06.06

O ópio do povo (28)

(...) O que me inveja não são esses jovens, esses fintabolistas, todos cheios de vigor. O que eu invejo, doutor, é quando o jogador cai no chão e se enrola e rebola a exibir bem alto as suas queixas. A dor dele faz parar o mundo. Um mundo cheio de dores verdadeiras pára perante a dor falsa de um futebolista. As minhas mágoas que são tantas e tão verdadeiras e nenhum árbitro manda parar a vida para me atender, reboladinho que estou por dentro, rasteirado que fui pelos outros. Se a vida fosse um relvado, quantos penalties eu já tinha marcado contra o destino? (...)

Mia Couto, in O Fio das Missangas

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por João Távora às 17:14

Terça-feira, 27.06.06

Venham mas é os "choques eléctricos"!

Hoje de manhã, tive de apanhar um “transporte alternativo” em substituição do metro para Avenida da Liberdade. Não vou perder tempo a contar o surrealismo da desorganização deste serviço... Mas acabei comodamente sentado à frente num autocarro de turismo, bem perto do condutor, um senhor de provecta idade, de bochechas coradas e tez curtida por muitos anos de sol mediterrânico.
Eis senão quando, ao final da Rua da Prata, nos sinais antes da Praça da Figueira, o condutor vira-se para os passageiros e pergunta com uma sinceridade desconcertante: “Esta carreira costuma ir por onde? Vira já aqui à esquerda nesta praça?”
Agora falem-me da banda larga, e dos choques tecnológicos que eu acredito!

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por João Távora às 10:35

Segunda-feira, 26.06.06

Um merecido aplauso a Scolari

Muito se escreveu e disse a condenar e a julgar as opções deste homem. Scolari sempre me pareceu um líder forte e com bom senso. Aglutinador. Escolheu a sua equipa. Com legitimidade fez da selecção uma equipa, a nossa.
Agora é fácil dizê-lo, mas parece-me oportuno referir que só uma UNIDA equipa de alma ENORME teria aguentado os consecutivos assédios assassinos dos armada holandesa… Esse facto é consequência da sua liderança. É da responsabilidade do treinador. O que os nossos rapazes correram e como se desmultiplicaram!
A ver vamos até onde os nossos "Tugas" poderão chegar.

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por João Távora às 11:45

Domingo, 25.06.06

A Igreja que eu conheço I

Há dias declarava eu num comentário a um “post” do Nuno Sá Lourenço que tenho tido ao longo da vida a sorte de conviver com uma Igreja Católica as mais das vezes actuante, sóbria e valorosa, com leigos de uma generosidade infinita, e clérigos que se têm revelado para mim inspiração e testemunha de um caminho de vida em santidade. Nesse sentido, pareceu-me importante concretizar um pouco mais. Os exemplos com que me tenho cruzado são tantos que me é impossível listar e com justeza fazer referência a todas as pessoas e obras que conheço. No entanto, nestes tempos de descrença e desconfiança, parece-me de grande importância trazer à superfície alguns exemplos de heroísmo e excelência de cidadania que os “media” bem pensantes, por um ataviante pudor laico, teimam em ignorar.

Assumo a simpatia por esta igreja peregrina dos dias de hoje. Despojada do poder, mas muito mais consciente, evangelizada e com cariz de “contra-poder”. Talvez um pouco como no tempo dos primeiros cristãos. Esta Igreja, possuidora de uma mensagem revolucionária de libertação, cresceu e multiplicou-se sem protocolos vazios ou gratuitos formalismos. Hoje a evangelização é uma dura batalha a encetar pelos cristãos, que terão que pregar perante o ruído ensurdecedor desta cultura Neo-liberal do sucesso "a todo o custo" e lucro individual. Contra as trevas e alienação do imediatismo do consumo e do hedonismo individualista. Desagregador.
Em prol da felicidade e liberdade do homem, a igreja dos dias de hoje fornece cada vez mais activos grupos e movimentos de diferentes sensibilidades culturais e políticas. Das simples mas dinâmicas paróquias às comunidades de desenvolvimento espiritual e organizações de intervenção social, a igreja de hoje é um sério exemplo de pluralidade democrática e cidadania actuante. No entanto esta acção deverá ser apenas fruto da inspiração que para nós cristãos provém de uma mensagem muito clara: A realidade de Jesus Cristo, filho de Deus que entregando-se à morte por amor fraternal supera as trevas para sempre em favor dos homens. Estabelece-se o lugar da esperança. Esta é para nós a revolução. Paralelamente temos o segundo e fundamental o mandamento que distingue e caracteriza esta religião: Amai-vos uns aos outros como a vós mesmos. É neste exercício de aproximação ao divino que se deverá pautar a vida dos cristãos; acto de libertação só plausível pela relação aprofundada e exercitação espiritual de uma relação verdadeira com Deus.

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por João Távora às 23:32

Domingo, 25.06.06

A Igreja que eu conheço II

Como atrás descrevi tenho o privilégio de conhecer bem alguns exemplos vivos de autênticos heróis e heroínas da vida real e quotidiana. Indivíduos de acção, voluntários ou profissionais que num exercício diário de entrega e imitação de Cristo servem com todo o seu amor o próximo e a comunidade em que vivem. Nesse sentido parece-me da minha obrigação elementar dar testemunho em próximos posts de três exemplos que conheço bem de perto: O “Projecto Homem” da Associação Vale de Acór em Almada, do Padre Pedro Quintela e sua equipa, instituição criada para a recuperação de toxicodependentes por onde centenas de rapazes e raparigas já tiveram passagem libertadora. Outro será o projecto do nosso Padre Armindo, o sonho da reabilitação do Bairro do Fim do Mundo, na Galiza aqui na paróquia do Estoril, pela construção da Igreja e Centro Social de Nossa Senhora da Boa Hora.
Finalmente apresentarei os Casais de Sta. Isabel, iniciativa apadrinhada pelo Cónego Carlos Paes, prior da paróquia de S. João de Deus para a criação e desenvolvimento de equipas de catequese para casais “recasados”. Um projecto integrador da Igreja que somos nós, já disseminado em muitas “equipas” (uma das quais a minha mulher e eu orgulhosamente integramos) por este país fora.

Conheço estes três projectos de perto assim como algumas das pessoas que aí empregam as suas forças, o seu tempo e vontade, quando não quase toda a sua existência. E sei que há muitos e muitos mais. São milhares de vidas anónimas de pessoas que agem e se entregam diariamente pelos outros. Com muita devoção e oração superam as suas limitações, sem lamentos e sem descanso, numa imitação de Jesus Cristo em prol de um mundo melhor, mais digno, livre e justo. E rezam terços a Nossa Senhora, sim senhor! Como eu os admiro e invejo. Estes que me fazem todos os dias acreditar um pouco mais no homem e na religião que professo.

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por João Távora às 23:26

Quinta-feira, 22.06.06

A mais bela bandeira do mundo III

Muito interessante tema abordado pelo João Villalobos aqui em baixo.
Uma bandeira impõe respeito pelo seu valor simbólico.
O seu valor simbólico está na sua história e na relação que cria com o povo (as pessoas) que a “assume” como tal.
O valor simbólico de uma bandeira tem a ver com a relação com o “sagrado”, com a “utopia”, com “valores maiores”. Para a valorização dos símbolos é urgente a nossa capacidade de “idealizar”.
Nesta época de dessacralização global, até aceito estas novas formas de utilização dos símbolos. Mesmo com patrocínio de empresas, será uma forma de "agregação", contrariando a tendência geral. É o que temos e porventura o que merecemos, novecentos anos depois.

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por João Távora às 16:48

Quarta-feira, 21.06.06

Pensamentos do Dalai Lima IV

«Rápido», o adjectivo, conformou-se a exercer igualmente funções de advérbio, para não se ver colocado no quadro de supranumerários da Função Pública.

Nota: Post gentilmente cedido ao Corta-Fitas pelo autor e colocado durante o desafio México x Portugal!

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por João Távora às 16:10

Domingo, 18.06.06

Um olhar sobre a 9ª arte I

Na Travessa do Patrocínio, encontrávamos fascículos e volumes do Cavaleiro Andante, e tenho uma vaga ideia de uns álbuns da Bécassine. Na Avenida da Liberdade, era outra fartura: a fabulosa colecção de "Tintins" do Tio Duarte, e uns poucos de “Astérixes” da Tia Isabel, eram um fartote para os meus desejos de aventura e fantasia. Eram em francês, para o caso completamente indiferente pois eu não sabia ler. Um pouco mais tarde, em 1968, a revista Tintim editada pela Bertrand passou a ser presença semanal na nossa casa. Foi assim que a Banda Desenhada (BD) entrou na minha vida.
Hoje ainda possuo algumas obras de BD na minha biblioteca que aliás impinjo despudoradamente às minhas crianças. Considero a leitura de BD um acto cultural que em grande medida supera os benefícios de ver cinema ou animação. A mediação do prazer pelo trabalho mental do leitor em juntar as peças (quadrinhos) e dessa forma enquadrar-se numa acção imaginária e em movimento parece-me excepcionalmente saudável. A relação íntima e pessoal que se pode criar com os personagens está ao nível do possível na melhor literatura: o tempo é nosso e a vida do personagem é pelo leitor induzida. Não desfazendo, o autor no momento da leitura torna-se “apenas” num passivo “realizador e argumentista”. Nós temos o papel fundamental de fazer rodar as frames no nosso cérebro. E interpretar a mensagem. Ao nosso ritmo, com o nosso nível de profundidade.

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por João Távora às 19:06

Domingo, 18.06.06

Um olhar sobre a 9ª arte II

Com alguma dificuldade, muito matutei para eleger com gratidão os cinco personagens de Banda Desenhada que mais me marcaram a existência. Uma forma de homenagem ao seus autores que tantas horas de prazer me proporcionaram. E espero que um incentivo e algumas pistas a quantos não conheceram o prazer de vibrar com as histórias e aventuras destes “seres” quase vivos.
Em primeiro lugar, estará sempre o Tintim de Hergé. Meu companheiro de infância, de sonhos e brincadeiras. Do pequeno e inocente Tintim do Ídolo da Orelha Quebrada, passando pelo sofisticado Tintim do Carvão no Porão e acabando no adulto e contemporâneo Tintim do Voo 714 para Sydney.
Em segundo lugar o meu grande herói do Oeste, o insolente cowboy Lucky Luke de Morris & Goscinny. Realço o humor desregrado e delirante de Goscinny, também autor dos incontornáveis Petit Nicholas e Asterix.
Em terceiro lugar o meu pessoal e íntimo amigo de infância Spirou, o “grumete” de hotel. De Franquim. Não me esqueço do seu amigo Fantasio, que para mim representa o plausível leitor, companheiro do herói, sempre falível, leal e bem intencionado. E o fabuloso Marsupilami. Um animal que Deus teria por certo Ele próprio criado se não tivesse mais que fazer e criar, tudo naquela semana decisiva.
Em quarto lugar, mais crescidinho, apaixonei-me pelas aventuras de Olivier Rameau e Colombe Tiredaile de Greg. Nomeadamente por Colombe. Os meus infantis e primeiros passos conscientes na dimensão libidinosa da vida. E aqueles pequenos e malandrecos falos peludos os Pouyoutouffus… e o horroroso pássaro gigante com uma máquina de barbear na ponta do bico… lembram-se?
Em quinto lugar o anti-herói da minha pré-adolescência… Spirit de Will Eisener. O enigmático detective de Central City. Em quantas das suas aventuras este herói começa a acção entre caixotes do lixo vítima de uma brutal "coça"? A negritude dos anos 70 no seu melhor. Uma paixão.
É injusto não me referir a muitos outros personagens que marcaram as solitárias e íntimas horas de leitura da minha infância. Por isso vou mencionar os meus Príncipe Valente de Hal Foster e Homem Aranha de Stan Lee. Bom, mas já que estes são registos tão pessoais porque não hei-de falar do Cuto, de Jesus Blasco?

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por João Távora às 19:03

Sábado, 17.06.06

O ópio do povo (18)

Ontem por momentos senti-me um pouco angolano. Emocionei-me e vibrei e comovidamente com o empate de Angola com o México. E aquele abraço no final entre Figueiredo (que é branco) com Macanga, tão simbólico, fez-me acreditar um pouco mais… Foi a vitória da VONTADE, o mais importante "sentido" do homem.

Nota: Em contraste com o Pedro Correia, (na sua “guerra de civilizações” a propósito do México - Irão) nutro também uma especial antipatia pelo México. Um estado fundamentalista laico, que é o outro lado da miséria civilizacional. Não me esqueço como foi tratado João Paulo II na sua visita ao México em 1979.

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por João Távora às 13:36

Quinta-feira, 15.06.06

Homenagem à vida (crónica)

Há umas semanas, numa sexta-feira, vinha eu do Algarve e pimba. Pára-me o estúpido do carro na berma da auto-estrada com a cabeça do motor queimada. “Muita sorte temos nós”, pensei, já no reboque, de carro “às costas”, ao lado de um mecânico alentejano, a 70 km/hora em direcção a Lisboa. Já quase se fazia noite e ainda tão longe de casa… Nada controlamos na vida verdadeiramente, mas tudo vai bem afinal. Seiscentos contos de arranjo, sei hoje.

Foi a cabeça do motor. Nessa noite, a minha mulher veio buscar-me à porta da oficina. Jantámos em Cascais e decidimos ir a uma farmácia tirar uma estranha dúvida... Noite dentro. Afinal somos uns jovens quarentões e temos boa idade para sairmos à noite. Os miúdos já se aguentam sozinhos.

Nas duas noites seguintes mal dormi.

Olho-a com atenção ali ao canto e vejo bem como parece uma menina. Ainda. Agora, volta tudo ao princípio. Quarenta e tal "Invernos" não apagam a luz dos seus olhos tão serenos. De onde lhe vem aquela calma? Será que não entende as aflições da nossa vida? Entende, sim. Mas não estrebucha quando não vale a pena. Vai-se embora dobrar a roupa e pronto. Agora parece-me meio ausente… Mas como ficou bonita!

Noite escura. Para além do gotejar da chuva, o silêncio é total. Eles dormem o sono dos inocentes. Há umas semanas, vinha do Algarve e pimba. Pára-me o estúpido carro na berma com a cabeça do motor queimada. Um sinal. Pensava que o meu Rover não avariava. Era só as revisões e acelerar... Agora dizem-me que é velhote, que não vale nem “para abate”.
Vamos mandar pintar o berço de ferro forjado. Nas despesas há muito por onde cortar! E cada coisa será de sua vez. Durante um ano ele vai ficar ao nosso lado, aqui no quarto. E outra vez aquele cheiro morno de casa fechada à luz do Inverno? Vai é fazer bem à Carolina. Ela quer uma menina. E se for mesmo, onde é que a pomos? Se for rapaz, é fácil: um beliche resolve o problema. Vai adormecer como tu num cestinho ao som dos Madredeus?

É tudo tão frágil… Os equilíbrios… Já se faz manhã e veio a chuva arrefecer o chão, que já se preparava para fazer das suas e incendiar o país inteiro outra vez. Assim, fica para mais tarde. Que falta faz um carro? Agora vai ter de ser de sete lugares. Os mais velhos estão contentes, para eles é tudo natural. Não lhes faltem os skates e os “fones” nas orelhas… Têm sido umas semanas “do caraças” gerindo tantas emoções... Da perdição (no meio do Alentejo, com o carro a fumegar) ao espanto das duas noites esbugalhadas, e daí à interrogação, vou aterrando na realidade. Com os projectos todos em revisão. E é da maneira que não calçamos as pantufas… Graças a Deus.

Nota: não resisti a utilizar abusivamente a fotografia da chuva do FAL.

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por João Távora às 20:43

Quarta-feira, 14.06.06

Pensamentos do Dalai Lima III

«Adão, os miúdos estão outra vez à bulha - qualquer dia, ainda se matam.»

Nota: Post gentilmente cedido ao Corta-Fitas pelo autor.

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por João Távora às 13:18

Quarta-feira, 14.06.06

Sobre o futuro da imprensa escrita I

A visão surrealista repete-se ultimamente de manhã quando apanho o comboio da linha do Estoril para Lisboa: dezenas de passageiros, sentados ou em pé de cara tapada a ler o jornal. Mas não. É apenas o Destak. Hoje até com um caderno especial sobre saúde. Verdadeira Kultura: “De como a relação de amizade tende a acabar com o sexo” ou “Emagrecer e a comer”!
Ao fundo, contra a corrente, detecto um verdadeiro intelectual: de farta bigodaça e óculos de ver ao pé, folheia atentamente o Correio da Manhã.
E depois disto, chegados ao destino, qual será a motivação para verdadeiramente se lerem as notícias do mundo a 0,85 €?

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por João Távora às 09:57

Terça-feira, 13.06.06

Hoje é sobre jornalistas III

E o sentido crítico imanente do “politicamente correcto”, inquisidor e moralista não estará a fragilizar a estrutura e as defesas de um regime representativo que se quer vigoroso e verdadeiramente democrático? Não nos falta um outro ângulo de visão?

É uma pergunta porventura imprudente, mas inocente, sem mais:
Que futuro teria (em termos de carreira e afirmação) um jovem redactor de direita (nua e crua) independente, em Portugal, num órgão de comunicação social generalista de grande tiragem?
Na comunicação social, onde está a "direita dos valores"? Um jornalista com convicções pessoais, por exemplo, contra o aborto, patriota e católico? E independente? E sem concessões aos herdeiros dos históricos “totalitarismos” de esquerda, agora de mangas de camisa ou “caviar”?
O facto de as faculdades não fornecerem este perfil sociológico para o mercado de trabalho é sinal de extinção do mesmo?
Parece-me que estamos todos adormecidos com o modelo imediatista da “saciedade de consumo” do liberalismo pós-moderno, individualista, hedonista e fracturante.
Uma questão que deveria começar a incomodar também a esquerda democrática.

Ilustração: Guernica (Pablo Picasso)

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por João Távora às 22:12

Domingo, 11.06.06

Gostos não se discutem (crónica)

Que estranhos que somos: quando simultaneamente desesperamos na afirmação da nossa “diferença”, como nos gostamos de saber iguais aos outros, estar na “mesma onda”.

Nestas alturas, quando decorrem fenómenos de massas e de grande mediatização, como o Mundial de Futebol, levanta-se um coro de lamentos e vitupérios contra o “ruído” reinante. Os “diferentes” insurgem-se revoltados contra o desporto-rei. Um amargo desprezo vem ao de cima, inconformado, nas mais díspares e exóticas personalidades: “Eu não gosto de futebol”, afirmam arrogantemente. “Eu declaro solenemente que não vou colocar uma bandeira portuguesa na minha janela”, li algures na blogosfera. Ouvem-se os mais desconcertantes comentários, do tipo: “O meu Jorginho, graças a Deus, só gosta de râguebi”; ou “Em Junho vou emigrar para as Ilhas Selvagens, com a minha colecção de DVD' s do John Ford.”

Às tantas, sinto-me um autêntico troglodita (culpado!) por me deixar envolver com este fabuloso espectáculo que por certo vai ser o Campeonato do Mundo de Futebol FIFA 2006. É que eu vou mesmo ver os jogos que puder… Não tenho perdão!

Mesmo que no meu curriculum esteja a leitura de romances de Clarice Lispector; ser fã de João Sebastião Bach e Hemingway. E se eu disser que gosto de Dee Dee Bridgewater e Jacques Brel? Terei perdão?

Mas confesso que (ainda) não passei do 1º volume de Em Busca do Tempo Perdido. E no meio disto, se eu assumir que sou católico praticante… o rótulo é mais que certo: Serei apelidado de “miserável e vulgar alienado troglodita” que para mais não põe o miúdo no râguebi.

Mas o que eu gosto mesmo é de ir com o Francisco (o miúdo, meu cúmplice e lagarto) à bola. Um bom fim-de-semana sê-lo-á por certo se formos os dois a Alvalade ver o Sporting ganhar, fazer a “hola mexicana” e saltar, saltar, pois que – vergonha das vergonhas - “… quem não salta é lampião”. E depois chegamos roucos a casa, felizes e cansados. E ter umas bocas para “amandar” à segunda-feira no trabalho ou na escola… Enfim, arrisco os meus estados emocionais por esta causa vã, a minha tribo da bola.

Afinal eu sou um vulgar cidadão, que não consegue ouvir Jorge Peixinho e gosta das coisas “por gosto”… Que gosta de ouvir um fado pelos irmãos Leitão, que se entusiasma com os musicais do Andrew Lloyd Webber. E que se comove a ouvir Nowhere Man dos Beatles; ou o Concerto nº 2 para Piano e Orquestra de Rachmaninov - Não sei se sabem que é considerado "do mais vulgar" no meio da "nata" melómana gostar deste concerto? Assim, sem desculpas tipo “foi o primeiro que ouvi… ainda na minha tenra idade…” - Pois eu gosto mesmo do Nº 2 de Rachmaninov, sem mais.

Mas que inferno de vida têm afinal os “diferentes”, que têm de gostar de pinturas esquisitas, (em zinco e terracota sobre tela e fita magnética) … Coitados dos que gostam “do que têm de gostar”. Daqueles que sobem aos píncaros com o Concerto para Elevador e Matraca de Gunter Kaegi. O seu silencioso sofrimento…

Finalmente lamento aqueles que hoje estão nas Ilhas Desertas a reverem os seus DVDs de John Ford e não vão ver o jogo Portugal vs. Angola, como eu, com os miúdos mais à minha Maria resguardando-se das emoções a fazer “ponto cruz”.

Mas antes disso temos é que pôr a bandeira portuguesa na janela, como os nossos vizinhos que também compraram o Expresso de ontem.

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por João Távora às 14:28


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Sobre o autor

João Lancastre e Távora nasceu em Lisboa, que adora. Exilado no Estoril, alienado com política e com os media, é sportinguista de sofrer, monárquico, católico e conservador. No resto é um vencedor: casado, pai de filhos e enteados, é empresário na área da Comunicação e do Marketing. Participando em diversos projectos de intervenção cívica, é dirigente associativo e colabora em vários blogues e projectos comunicação política e cultural.


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