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João Távora



Quinta-feira, 16.09.10

Os últimos dias da república socialista portuguesa

Até ao final de Agosto, o país endividou-se ao ritmo de 2,5 milhões de euros por hora.
Os juros estão em máximos de sempre.



Como disse Nuno Morais Sarmento há dias, a matriz ideológica do Partido Socialista, mesmo escondida na gaveta por Mário Soares nos anos oitenta, é marxista e consta no seu programa. Este aspecto não é despiciendo se tivermos em conta a resistência protagonizada pelo PS ao longo das décadas em todas as iniciativas democratizadoras do mercado, como a privatização da banca ou a abertura da televisão à iniciativa privada. No fundo, a subtil mudança do punho vermelho para o símbolo rosa no partido de Guterres e Sócrates transparece apenas um reposicionamento, por vias duma desideologização funcional, exigência da Europa. O marxismo caiu com a cortina de ferro, e consta que Havana também dele se vai descartar com o desmantelamento da sua máquina Estatal.
O facto é que Portugal chega a 2010 com um Estado demasiado socialista, obeso, politicamente instrumental e… falido. De pouco vale esgrimirem-se as virtudes do Estado Social, quando, da forma como o conhecemos, deixou de ser uma escolha ideológica, aliás unanimemente sancionada por todos os partidos que dele obtiveram louros e tiram dividendos.
Vivemos o fim de ciclo, tempos de ajustes urgentes num modelo económico que se revelou inviável, simplesmente porque não gera dinheiro para se pagar. Por isso urge a coragem dum discurso de ruptura e de diferenciação política: o socialismo constitucional que nos trouxe a este porto e do qual se tem alimentado o sistema partidário tem os dias contados. Uma racionalização do Estado e das suas funções vai doer nos fundamentos do regime, mas não se vislumbra outra saída. Com ou sem revisão constitucional, não podemos mais caminhar para o socialismo.

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por João Távora às 17:42

Terça-feira, 14.09.10

Conversa fiada

 

Luís Nazaré fazendo a comunicação solene à Nação

 

O chinfrim feito ontem pelo Sport Lisboa e Benfica originado por uma coincidência de erros de arbitragem, em que o clube ameaçou com incumprimento de contratos televisivos, o abandono da taça da Liga, com a excomunhão dum secretário de Estado e uma greve dos zelo dos seus adeptos, para além de todo o ridículo, não é mais do que a prova do enorme subdesenvolvimento cultural que grassa no nosso país. O futebol é apenas um jogo de entretenimento que, apesar de mover milhões e muitas paixões, não faz nenhum sentido fora dos relvados ou das mesas de café. Mas o que é mais grave, é constatar que o despautério foi proclamado e discutido como se de coisa séria se tratasse por personagens e figuras públicas supostamente responsáveis... como se disto dependesse o futuro o futuro da Pátria! Uma enorme e ridícula palhaçada. Tenham vergonha!

 

Imagem daqui

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por João Távora às 17:44

Segunda-feira, 13.09.10

Ano novo vida nova*

 

O tempo quente a clamar pela praia não nega o arranque de um novo ano lectivo: os acessos a Lisboa superlotados e o ar pesado da cidade subitamente apressada prenunciam a verdadeira rentrée. Afinal é agora que o ano realmente se inicia, com pastas bem cheirosas, cadernos lisos e rebrilhantes com renovadas promessas de empenho e fidelidade, com a esperança desenhada na letra de forma. Encarregar-se-ão as primeiras chuvas de Outono de borrar as folhas e ilusões, pois a ressurreição conquista-se nas entranhas. Tudo encaminhado: a todos um Feliz Ano Novo.

 

* tenho a sensação de que me estou a repetir

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por João Távora às 17:42

Sexta-feira, 10.09.10

A república no pântano

 

A regra é não agitar muito para não se precipitar o afundamento. Mas a partir de hoje o presidente respira de alívio, impedido de dissolver a assembleia e poderá descartar-se de qualquer responsabilidade para com a actuação do governo e do ambiente de protesto que se irá assistir por via dos efeitos das medidas anti-crise que em breve começarão a fazer-se sentir. A reeleição de Cavaco será de bandeja, que perante a catástrofe, falando o mínimo possível, reservar-se-á atrás da sua impotência constitucional. A Passos Coelho resta-lhe engolir mais um sapo, a ambiguidade de recalcitrar um Orçamento que afinal está condenado a aprovar. O facto custar-lhe-á alguma popularidade, nada irrecuperável, se considerar-se que irá ter cerca de um ano para embalar para umas eleições antecipadas, com o país em rápido naufrágio moral e financeiro. Se não souber aproveitar será porque foi aselha, ou então porque a crise terá enveredado a Nação para algum cenário muito diferente daquilo a que nos habituámos. Quem sabe uma grande oportunidade de verdadeira mudança.

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por João Távora às 15:51

Quarta-feira, 08.09.10

Glasnost

 

Parece-me irrefutável que o resultado de ontem da Selecção portuguesa de futebol tem mais a ver com a sua decadência atlética e valor técnico, derivada do progressivo abandono da "geração Scolari" do que com o deplorável enredo maquinado para o afastamento de Carlos Queiroz, digno do país mesquinho que somos. No entanto, da reunião de amanhã da Federação Portuguesa de Futebol, eu esperaria muito mais do que a urgente definição do seleccionador e respectiva equipa técnica, a demissão do presidente e direcção em funções há demasiado tempo. A velha máxima de Eça de Queiroz de que os políticos e as fraldas devem ser mudados com frequência e pelos mesmos motivos, há muito que devia ter sido implementada para a rotatividade dos presidentes de instituições como a FPF, cuja opacidade estrutural é proporcional ao peso dos interesses e lobbies que representa.

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por João Távora às 14:48

Terça-feira, 07.09.10

Lloyd Cole...


 

...estará em Sintra no centro Olga Cadaval no próximo dia 17 de Outubro, para um dos seus cinco concertos da sua digressão portuguesa em que apresentará o seu novo álbum "Broken Record" a lançar este mês. A minha Senhora e eu já temos dois lugares marcados bem perto do palco!

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por João Távora às 14:47

Quarta-feira, 01.09.10

Uma parábola na estação tola

 

Tramado é que esta ingrata civilização do bem-estar e do consumo desempregou os nossos corpinhos feitos para malhar na terra, para caçar, subir às árvores ou para alvorar a fugir dalgum animal selvagem mas deixou-nos um dilacerante apetite de quem precisa de armazenar calorias para uma semana de carência. Nesta cultura de sofreguidão hedonista somos desafiados a corresponder ao primeiro assomo de apetite (não me refiro apenas à comida) e tratar o nosso corpo como tratamos o resto da natureza, num total desprezo pela sua ecologia: são os efeitos colaterais da democratização da alarvidade. 
Aqui chegados, todos conhecemos almas inquietas com a sua decadência física, que a partir dos quarenta-e-tal anos se entretêm em dietas, ginásticas passivas e outros exercícios sem esforço que o dinheiro possa comprar. As mulheres são vítimas privilegiadas desta ilusão: começam cedo no escritório com garrafinhas de água e golinhos de cinco em cinco minutos para iludir o apetite e exercitar a bexiga, um disparate que resulta num corrupio constante, um ver-se-te-avias entre o seu posto de trabalho e a retrete. Perante a ausência de resultados, começa a fase dos chás verdes, bruxarias e outras mezinhas de ervanária: inicia-se assim um desaguisado colateral com os intestinos até estes se tornarem tão preguiçosos como a dona. Passam-se anos nestes rituais, com uma vida cada vez mais próspera e sedentária, num desafio crescente com o espelho e a ingrata balança, até chegar a fase desesperada. Esta surge na sequência duma visita a um dietista famoso ou dica duma amiga, e é constituída por um metódico programa de ingestão de comprimidos coloridos: cada vez mais nevrótica, entra numa espiral de euforia, perde o apetite, a calma, e uns gramas até cair numa depressão depois duma violenta disputa com o cônjuge inocente.

Tudo se irá resolver com uma semana a chocolates e um programa de fim-de-semana de reconciliação com o marido num hotel com SPA e restaurante gourmet. Assim se recuperam todos os gramas e mais uns quilinhos optando então a dondoca por mudar de vida, queimar incenso e passar a vestir balandraus. A moral da história é que as aldrabices não funcionam: não há fuga possível, nem caminho fácil para o sucesso.

É irónico como nesta sociedade que venera o corpo e as aparências não haja parábola mais eficaz sobre as virtudes do mérito e do prazer diferido do que a da forma física. Tal como na escola só se aprende com estudo e empenho, tal como a riqueza só é criada com esforço e trabalho, a partir duma certa idade, a forma física depende fatalmente da austeridade alimentar e de muito, muito, exercício físico. Quem se preocupa com o implacável efeito da gravidade nos seus músculos e outros apêndices, está condenado a trabalhar e suar o corpinho, semana após semana, mês após mês, ano após ano, com muita perseverança e desapego, que o resto vem com as endorfinas e mais algum desapego; afinal, o mais importante na vida nem sequer é isso!

 

Nota: qualquer semelhança com factos ou pessoas reais é mera coincidência.

 

Publicado originalmente aqui.

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por João Távora às 17:13




Sobre o autor

João Lancastre e Távora nasceu em Lisboa, que adora. Exilado no Estoril, alienado com política e com os media, é sportinguista de sofrer, monárquico, católico e conservador. No resto é um vencedor: casado, pai de filhos e enteados, é empresário na área da Comunicação e do Marketing. Participando em diversos projectos de intervenção cívica, é dirigente associativo e colabora em vários blogues e projectos comunicação política e cultural.


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