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João Távora



Quarta-feira, 30.12.15

O Piropo

Confesso que ao contrário de algumas feministas eu gostava de ter tido direito a ouvir uns piropos. Julgo aliás que a coisa mais próxima dum piropo que alguma vez ouvi remonta aos tempos da minha tenra infância, quando eu ia ao talho ou à mercearia fazer um recado à minha mãe. Infelizmente os galanteios provinham invariavelmente de senhoras com idade para serem minhas bisavós. Verdade seja dita, a gracinha acabou antes de eu chegar à puberdade. Aliás, sempre me custou a perceber o porquê das vizinhas velhotas me acharem tanta graça ao mesmo tempo que as miúdas da escola teimavam ser sempre tão reservadas e distantes no que ao assunto diz respeito. Entendi mais tarde que havia uma questão de “papéis”: afinal competia-me a mim ser duro, destemido e cortejador. Não muito convencido disso, ainda tive esperança de usufruir de alguns benefícios da dinâmica igualitária da revolução sexual que teve particular impulso durante a minha juventude. Privilégios que fossem mais estimulantes do que lavar a loiça e cozinhar que então se juntavam aos tradicionais de ir buscar as minhas irmãs a casa das amigas, carregar com a bilha de gás e os sacos das compras. É muito azar: a revolução afinal foi demasiado lenta e não será certamente agora, pai de família careca e consumido por mais de cinquenta anos de erosão que me habilito a ouvir um piropo atrevido. 

Vem hoje num jornal que desde Agosto um piropo possui carácter de "propostas de teor sexual" com relevância criminal. É uma pena: se estou convencido de que não é com decretos-lei que se irá acabar com a grosseria ou perversão dos homens, acredito que com moralismos se pode acabar com muita boa disposição.

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por João Távora às 11:03

Quarta-feira, 23.12.15

Size matters


A estereofonia foi de facto um passo decisivo na história da indústria fonográfica e do áudio no caminho para a “Alta-fidelidade” (que era o nome que se dava à reprodução sonora tão próxima da realidade quanto possível). Entre os anos sessenta e os anos oitenta era relativamente comum encontrar em lugar de destaque numa casa de classe média/alta um bom sistema de som – que em abono da verdade nada tem a ver com os actuais artefactos para a criação de efeitos de “cinema em casa”. Pelo contrário, hoje em dia esse culto de perfeição atingiu o ponto mais baixo das últimas décadas: é pouco menos que lamentável a qualidade dos registos sonoros em ficheiros de compressão de áudio usados nos computadores, telemóveis e outras engenhocas tão populares entre as novas gerações.

Mas se é discutível que a desmaterialização do registo sonoro per si compromete a qualidade – nomeadamente quando utilizados ficheiros de compressão sem perda de informação (alta-resolução), a mesma será sempre comprometida pelo lado dos sistemas de reprodução "miniaturizados". O requinte da reprodução sonora exige alguma dimensão dos componentes da aparelhagem, pelo menos nas colunas. 

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Publicado originalmente aqui.

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por João Távora às 14:31

Sexta-feira, 18.12.15

A ética republicana

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Nestes dias de surda acalmia, assimilada que está a nova ordem dos socialistas, sobressai com alarido o epifenómeno José Sócrates que com o patrocínio de uma estação de TV se exibe como que num circo de horrores.

O primeiro-ministro da despesa pública, parques escolares, magnânimas PPP e consequente bancarrota, acha-se injustiçado não só pelo Ministério Público mas com o prudente distanciamento usado pelo partido aquando da sua detenção - como se fora um activo tóxico. 

Faz bem José Sócrates em reclamar a lealdade dos seus companheiros de estrada, boa parte deles hoje reciclados no governo de António Costa. O seu partido, que se confunde com o regime, será afinal um bom palco para trabalhar a sua defesa. Relembrando-nos que as patifarias que devastam a harmonia e a paz entre as pessoas nem sempre são ilegais. Ou de como é possível numa vida pôr um povo à mingua e ir viver à grande e à francesa com milhões “emprestados” por um amigo. Uma narrativa esclarecedora do sentido último e primeiro dessa coisa chamada “ética republicana” tão proclamada pela descendência de Afonso Costa de que somos reféns. Maldita sina.

 

Publicado originalmente no Diário Económico

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por João Távora às 10:55

Quinta-feira, 17.12.15

É por amor ou próquéquié? *

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Parecem de noivas abandonadas as vozes que se ouvem na comunicação social a protestar contra a pequena quantidade de refugiados que tardam chegar a Portugal para serem devidamente "ajudados". A cena faz-me lembrar quando o tolo do Averell Dalton certo dia armou um chinfrim a ajudar uma velhota a atravessar a rua contra sua vontade, só para provar ao Lucky Luke que estava regenerado. Porque será que essas caridosas almas enquanto esperam não se dedicam a apoiar tantos e tantas famílias indígenas… ou será que a solidariedade para ser praticada, além de politicamente correcta, tem de ser um bom negócio?

 

*De uma velha piada do Herman José no seu auge. 

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por João Távora às 17:19

Quinta-feira, 17.12.15

Portugal já não está à frente?

 

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 Não confundo a paixão clubista com a adesão partidária, que entendo como instrumental para a realização de uma determinada estética em que acredito. Nesse sentido, pensando no longo prazo, a boa experiência que constituiu coligação Portugal à Frente e a realidade política dos nossos tempos deveria fazer-nos pensar num projecto de consolidação da associação dos dois partidos. Estou certo que seria possível descobrir um modelo “federativo” que potenciasse a força política dessa união no respeito – ou até reforço - das diferentes tendências que cabem no espectro do centro-direita, como sociais-democratas, liberais, conservadores, democratas cristãos, etc. A necessidade sentida por Passos Coelho de formalizar publicamente o fim da coligação é para mim um (expectável) mau sinal. De que Portugal já não está à frente?

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por João Távora às 10:39

Terça-feira, 15.12.15

Amanhãs que cantam

As maldades e perversões que devastam a harmonia e a paz entre as pessoas não são ilegais. Talvez afinal um mundo melhor não caiba numa ideologia ou projecto político.

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por João Távora às 17:34

Sábado, 12.12.15

Os 100 anos de Frank Sinatra

Curioso como as mais variadas homenagens e tributos que por estes dias se fazem a Frank Sinatra não referem um ponto que me parece fundamental. A popularidade desta consagrada estrela mundial norte-americana é inteiramente fruto da poderosa indústria fonográfica que se desenvolveu estrondosamente durante a sua vida. Acontece que Sinatra não se distingue na arte da composição musical ou poesia mas exclusivamente ela sua sólida e aveludada voz barítono, que veio a ser difundida massivamente pelos quatro cantos do mundo através dos discos. Nenhum cantor anterior ao século XX poderia ambicionar tal façanha – vozes tão boas ou melhores não puderam ser registadas e desapareceram na penumbra do passado.

Não sou particularmente fã do estilo “romântico”, “esplendoroso” e “grandiloquente” de Frank Sinatra, e há um conjunto de pelo menos 12 canções que já não aguento ouvir por completa exaustão. Mas o facto de ele ter sido intérprete de eleição das canções mais marcantes e dos compositores mais brilhantes do século XX como o Jimmy Van Heusen,Cole Porter, Sammy Cahn ou George Gershwin torna-o um artista incontornável, imortal diria eu. O primeiro, fruto da tecnologia e indústria fonográfica.  

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por João Távora às 19:08

Sábado, 12.12.15

Tempos estranhos

Desgosta-me muito e desinteresso-me da política por estes dias em que os reaccionários recuperaram o poder, desconstruindo à golpada todas as convenções em que se foi fundando a nossa jovem democracia. As convenções que afinal deveriam ser preservadas e respeitadas como regras de uma constituição não escrita, emanada da da experiência e aplicada para o bem (mesmo) comum. Não é só o recuo das (poucas) difíceis reformas instituídas pelo governo do resgate, em favor das mais poderosas corporações que teimam bloquear o mérito e a exigência como valores cruciais, mas a estética revolucionária e desconstrutiva com que teremos de conviver impotentes, que esse é o preço que os socialistas pagam aos seus parceiros para aplicarem mais “austeridade”, tolerada agora como virtuoso "rigor". A semântica é uma batata. É tempo da comunicação social assobiar para o lado, para as ameaças da ascensão das extremas-direitas na Europa ou do fenomenal papão Donald Trump nas eleições americanas. Por cá o regime foi devolvido aos seus donos e a nova oposição está condenada a uma longa noite assombrada pelos seus esqueletos nos armários. Ou de crescimento e reconstrução.

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por João Távora às 19:04

Sábado, 12.12.15

O novo futuro

Ouvi um barulho na rua e fui ver. Eram os emigrantes aos magotes, a geração mais bem formada de portugueses - dentre eles pareceu-me destinguir a voz inconfundivel de Fernando Tordo - voltando à mãe pátria para a reconstrução do novo Portugal de António Costa. Ou será só para o Natal?

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por João Távora às 00:10

Quinta-feira, 03.12.15

Fair play

Ser civilizado nestes dias de adolescentocracia é assumir viver em perda, em derrota permanente. Sem azedumes.

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por João Távora às 17:36

Quarta-feira, 02.12.15

Cimeira do clima

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Ontem Santana Lopes no cândido debate semanal com António Vitorino na SIC Notícias, a propósito da Cimeira de Paris, notava apreensivo que por cá não chove há quinze dias. Já sabíamos como o ambiente -  um tema sério - se presta não só a muitos disparates, mas através da exploração do medo e da culpa, ao mais despudorado aproveitamento para propaganda política – quem anda na rua por estes dias bem vê as pessoas no pára-arranca das filas de trânsito a fumar cigarros consumidas pelo tema. Mas o que eu confesso é que não julgava ser possível no século XXI ouvir um líder político de uma grande potencia ocidental (Obama) prometer todo o empenho para "acabar com as catástrofes naturais". Esta moderna crença é tão estapafúrdia quanto aquela que imperava no século XVIII e atribuía à imoralidade das acções humanas as causas do grande terramoto de Lisboa.

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por João Távora às 16:28

Terça-feira, 01.12.15

O advento

 

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 Aquilo que eu julgava impossível aconteceu, está consumado. António Costa, copiosamente derrotado nas eleições de Outubro, tomou posse como chefe de um Governo socialista com o apoio da esquerda revolucionária no Parlamento.

Os discursos do Presidente e do primeiro-ministro empossado colidiram frontalmente: enquanto Cavaco relevou os riscos de uma inversão das dolorosas reformas encetadas no resgate do país, António Costa ignorou olimpicamente as causas desse resgate e o acordo com a ‘troika’ assinado pelo seu partido em 2011. 

Num discurso rancoroso quanto ao seu antecessor, ensaiou uma mensagem “aspiracional” clamando por amanhãs que cantam, libertos das circunstâncias corpóreas em que se desenrola a vida neste mundo global. Coincide este delírio com o período maravilhoso chamado Advento, em que nós, os cristãos, somos convidados a reviver o nascimento do menino Jesus - que nos devolva a inocência no lugar da tentação do cinismo.

Curioso é como os socialistas tendem a confundir tudo. A mim parece-me que a arte da política decorre de outra dimensão e o seu discurso deveria ser balizado pelos limites da prosaica e humana realidade. Sob o risco de em breve incorrermos em mais um trágico desastre.

 

Publicado originalmente no Diário Económico

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por João Távora às 16:16




Sobre o autor

João Lancastre e Távora nasceu em Lisboa, que adora. Exilado no Estoril, alienado com política e com os media, é sportinguista de sofrer, monárquico, católico e conservador. No resto é um vencedor: casado, pai de filhos e enteados, é empresário na área da Comunicação e do Marketing. Participando em diversos projectos de intervenção cívica, é dirigente associativo e colabora em vários blogues e projectos comunicação política e cultural.


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