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João Távora



Sexta-feira, 18.11.16

A Casa da Avenida

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A «casa da Avenida», como ficou conhecida na família, deixou em mim uma marca indelével, como que um pilar da minha personalidade. Como casa da Avenida entendo não só o primeiro andar direito do n.º 232 da Avenida da Liberdade mas todo um ambiente caloroso de afectos e brilho que lhe imprimiam os meus avós, tios e todo o pessoal que lá servia, que, a seu modo, fazia parte da família.

Com esta crónica, que serve de introdução a uma biografia ficcionada que estou a escrever sobre o tema, pretendo fazer uma homenagem aos meus avós maternos, João e Chunchinha, que, com a minha bisavó, foram os grandes obreiros dessa casa acolhedora e aberta ao mundo, onde se cultivava a antiga arte da boa conversa, elegante e inteligente, como refere Augusto Ataíde no seu livro de memórias Percurso Solitário (Bertrand, 2016) ou Leonor Xavier em Casas Contadas (Asa, 2009), sem descurar a edificação dum sólido e fecundo núcleo familiar de matriz cristã onde cresceram a minha mãe e os meus tios. Ainda hoje nas reuniões familiares com a minha mãe e os meus tios se testemunha esse legado tão nobre de amizade, humor e graça, qualidades que sem mascarar dificuldades que em todo o lado existem, são sementes de civilização e carácter.

Pensando bem, aquilo que mais me marcou na Casa da Avenida foi a liberdade que me era concedida, a mesma que, pressupondo sentido de responsabilidade, fez dos meus tios e da minha mãe pessoas inteiras. Pessoa de enorme carisma, a Avó Chunchinha tinha, de facto, uma forma de relacionamento que sempre me cativou, talvez porque nunca pressenti qualquer sinal da complacência com que habitualmente os adultos se relacionam com as crianças.

Para a forte idealização daquela casa que germinou em mim ao longo da vida, contribuiu não só a enorme saudade das estadias felizes que até aos 12 anos lá passei, sozinho ou com o meu irmão José — onde éramos queridos e obtínhamos mais atenção do que aquela que poderíamos ambicionar em casa dos pais, em que a concorrência era grande —, mas também a memória do espaço físico e do fervilhar de vida circundante, ao mesmo tempo cosmopolita e de bairro, que naquela época fruía naquela zona de Lisboa ocupada por uma mistura bem equilibrada de serviços, comércio e habitação.

A Casa da Avenida foi estreada em 1892 pela minha bisavó Valentina Leitão aos quatro anos, quando para lá se mudou com os seus pais e irmãos. O elegante prédio de cinco andares com direito e esquerdo, situado no quarteirão entre a Barata Salgueiro e a Alexandre Herculano, onde então terminava a Lisboa cidade, tinha acabado de ser construído, e dele reza a lenda de ter sido o primeiro a ter instalação eléctrica de raiz. Os apartamentos eram grandes e tinham um pé direito alto como há muito não se usa.

A casa dos meus avós era atravessada por um longo corredor que ligava a parte nobre, com duas varandas voltadas para a Avenida da Liberdade, à zona de serviço, com entrada pelo n.º 77 da Rua Rodrigues Sampaio. Entre as salas da frente e a generosa cozinha e os aposentos das minhas tias e das criadas nas traseiras, ficavam mais quartos e duas casas de banho, que para um prédio do século XIX era muito avançado. O edifício também ostentava um curioso sistema acústico de intercomunicadores, numas mangueiras com bocal de cobre nos extremos, entre a portaria no hall de entrada e o interior de cada fracção.

A fachada era discreta, mas icónica me parece hoje a altaneira e pesada a porta principal, circundada de alvenaria trabalhada, cujo chiar do amortecedor antecipava um estrondo que me fazia fugir degraus acima, assustado. As escadas de madeira eram muito largas e enceradas almofadadas por uma passadeira encarnada, ladeadas de mármore de um lado e por um elegante e sólido corrimão de madeira que terminava numa estatueta graciosa, e numas largas escadas de pedra com um corrimão de bronze que precediam um hall aristocrático com elegantes frescos.

Vivia intensamente as minhas estadias naquele extenso mundo de descobertas e de liberdade. Se naquele andar tão soalheiro a vida fervilhava logo pela manhã cedo na área de serviço com os afazeres domésticos das empregadas, a chegada do barbeiro que vinha escanhoar a barba do Avô João, do padeiro, do marçano, a mulher-a-dias que esfregava ou puxava o lustro ao chão encerado, a Celeste que saía para a Praça a fazer as compras; a avó Chunchinha acordava mais tarde para, ainda deitada, me premiar com vinte-e-cinco tostões para um gelado com que me punha feliz a andar para a pastelaria Smarta. Depois, uma visita à sala verde onde se sentava a Bisavó Valentina (Avó Tina, como lhe chamávamos) a fazer crochet, dava direito a ouvir histórias, de desventuras de outros tempos que ela tão bem sabia contar, como aquela dum criado brasileiro dos seus pais que se suicidara para não ir para a guerra ou das escaramuças entre republicanos na Avenida, que obrigavam a família a deitar-se no chão do corredor para se protegerem de uma eventual bala furtiva…

Aos almoços uma ementa variada era servida na sala de jantar pela Celeste, sempre bem fardada — e como eu gostava daquela feijoada à brasileira, receita que desconfio tivesse sido importada pela minha Avó Tina. Depois do almoço abatia-se um profundo silêncio que só era quebrado pelas minhas solitárias brincadeiras com carrinhos de brinquedo no chão, pelos caminhos desenhados nos grandes tapetes, quando não tinha a sorte de ir com a Avó Chunchinha à baixa, para comprar algum prato de faiança «cavalinho rosa» para completar o serviço, ou bolachas Araruta e uma mistura de café na casa Pereira ao Chiado.

À noite, o jantar era quase sempre um momento de exaltação familiar, com a mesa cheia e boa conversa, quase sempre com uma ou outra visita de parentes ou amigos da casa, sempre acolhedora, iluminada por grandes lustres que irradiavam festa. Com sorte, os meus primos eram visita e logo armávamos em loucas correrias pelo interminável corredor, a desafiar o António na cozinha, que era noivo da Celeste. Isto até nos mandarem parar por causa de uma queixa do mítico Senhor Cruz, um vizinho muito doente que eu desconfiava ser apenas um pretexto para nos acalmar. Lembro-me do meu avô sempre elegante, com um lenço branco a sair do bolso do casaco, à conversa com os meus tios à volta duma pequena mesa de bar, servindo-se Whisky com gelo e Água de Castello.

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Ao final da noite, com a casa já toda a dormir, aquele corredor de luz fosca parecia-me assustador de atravessar, com os murmúrios vindos dos saguões que soavam da sombra que se adensava lá mesmo ao fundo, que hoje acredito serem choros e lamentos das vítimas de histórias sombrias, acontecidas ali bem perto na rotunda ou lá em baixo ao Terreiro do Paço, e que marcaram de forma tão dolorosa a vida dos meus antepassados naquela casa.

As festas eram magníficas, não por luxos, que raramente os havia naquela casa, mas pelo empenho e generosidade dos donos da casa. Todas as festas do calendário eram assinaladas na Casa da Avenida, sempre cheia de amigos, tios e primos: do Carnaval com partidas para todos os (des)gostos, à Páscoa com ovos de chocolate para todos os netos, mas principalmente a Ceia do Natal, servida depois da Missa do Galo na igreja de São Pedro de Alcântara, com peru, chocolate quente, sonhos e muitas outras delícias da época, que comíamos depois de abertos os presentes que se amontoavam junto à árvore de Natal. A cor do papel de embrulho identificava a proveniência.

Com pouco mais de sete anos dispunha-me, afoito, a explorar as redondezas com umas moedas no fundo do bolso dos calções. Começava pela tabacaria Glória, esquina da Travessa do Enviado de Inglaterra com a Rua de Santa Marta, onde podia cobiçar uma revista do Patinhas ou um carrinho Matchbox, para o qual o meu dinheiro não chegava. Descia então pela fervilhante Rua de Santa Marta, zona de serviço das casas burguesas da Avenida, passando indiferente pelas mercearias, talhos e «lugares» de frescos, por sapateiros, relojoeiros e casas de penhores, até chegar à Rua de São José, onde dava meia-volta, para aí estoirar o dinheiro num qualquer pechisbeque de plástico com rodas numa qualquer drogaria mixuruca. Voltava então a subir a infindável Rua de Santa Marta, com um apetite cada vez mais aguçado, arrependido de não ter guardado o dinheiro para comprar um bolo.

É importante uma palavra sobre o pessoal doméstico, que de facto era parte da família: tenho consciência que nesse tempo, final dos anos sessenta princípio dos anos setenta, se vivia o final de uma era e o começo de uma outra, com uma radical democratização do consumo e uma inflação que tornava proibitivos os ordenados das empregadas. Foi a época do advento dos apartamentos pequenos, a revolução dos electrodomésticos, a vulgarização dos restaurantes e do pronto-a-vestir que substituíam uma ancestral organização doméstica. Na Casa da Avenida ainda tive tempo de me afeiçoar a figuras de referência como a Conceição costureira e a Celeste. Muitas tardes passei eu a brincar na companhia da Maria da Conceição, que me contava histórias dum universo misterioso que eram as suas origens humildes, de um irmão que perdeu em criança. E era a Celeste que me vestia em pequeno, e que eu tanto gostava de acompanhar às compras ou de ficar a vê-la moer a carne no passador, ou dobrar em meias luas a massa de rissóis. Pensava na minha ingenuidade ser ela minha amiga para a vida, e estranhei muito que tivesse desaparecido sem deixar rasto depois do 25 de Abril, supõe-se para emigrar com o seu António. Há pessoas que não suportam a dor de uma despedida.

Com a morte da minha Bisavó em 1973, os meus avós não puderam renovar o contrato de arrendamento, e no ano de todas as revoluções viram-se obrigados a mudar-se para um pequeno andar — ironia do destino — na Calçada Marquês de Abrantes. Apesar da mobília e da decoração que remetiam para a memória da Casa da Avenida, num país em convulsão e já doentes, foi com muita dificuldade que os meus avós enfrentaram a nova realidade. As mortes dos meus queridos avós ocorreram espaçadas de poucos meses pouco tempo depois, desconfio que por desistência, na dificuldade se adaptarem a mais uma nova era.

Será que, apesar dessa derradeira amargura, tiveram alguma vez a noção do extraordinário legado que nos deixaram? Prometo contar-vos esta história em que estou a mergulhar com todo o detalhe e verdade que me for possível.

A estes heróis não devemos nada menos que isso.   

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por João Távora às 19:47





Sobre o autor

João Lancastre e Távora nasceu em Lisboa, que adora. Exilado no Estoril, alienado com política e com os media, é sportinguista de sofrer, monárquico, católico e conservador. No resto é um vencedor: casado, pai de filhos e enteados, é empresário na área da Comunicação e do Marketing. Participando em diversos projectos de intervenção cívica, é dirigente associativo e colabora em vários blogues e projectos comunicação política e cultural.


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