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João Távora



Terça-feira, 23.01.18

Inquietações

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Curioso é o brado que se levantou por causa de um programa de televisão em que crianças problemáticas são utilizadas para o entretenimento da turba, num tempo em que as questões morais parecem deslegitimadas da discussão pública, para serem substituídas por argumentos científicos e técnicos (mais ou menos discutíveis). Estranha-se que esta indignação monopolize a praça pública quando ontem soubemos que em 2017 houve mais 24 mil mortes do que nascimentos em Portugal, coisa que poderá significar o recorde do século. Mal ou bem-educados, os portugueses parecem estar em acelerado processo de extinção (somos o 5.º país mais envelhecido do mundo), uma dinâmica de morte que se repete com a família “natural”: por cada 100 casamentos que são registados em Portugal há 70 pedidos de divórcio, o número mais elevado da Europa. Se considerarmos como, ao contrário da generalidade dos países europeus, por cá a sociedade civil é débil e que ao longo de décadas a família foi o principal suporte dos indivíduos, apercebemo-nos do trágico significado destes números: uma sociedade cada vez mais atomizada, com as pessoas tendencialmente isoladas e desprotegidas perante um Estado cada vez mais poderoso e omnipresente. Paradoxalmente, as nossas elites por estes dias parecem estar mais preocupadas em discutir os malefícios do sal e as virtudes do autocultivo da cannabis, já para não falar da liberalização ou não do consumo recreativo deste psicotrópico alucinogénio. E é aqui que voltamos à questão levantada no início desta nota: este é um assunto técnico ou uma questão eminentemente moral? Que sinais pretende o Estado dar aos nossos jovens, sobre o que é bom ou mau para a formação de um bom caracter? 

Todos estes sinais deviam provocar-nos muita inquietação, e desconfio que a sustentabilidade da segurança social é o menos aflitivo. Afinal, andamos todos distraídos com quê?

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por João Távora às 10:53



2 comentários

De Anónimo a 24.01.2018 às 10:02

Não João, não andamos todos distraídos. A esmagadora maioria anda sim senhor. Mas os programadores da engenharia social que destaparam esta caixa de Pandora, devem estar um bocadinho desnorteados. Tirar o génio da lâmpada foi trigo limpo. Mas mantê-lo controlado na aldeia global é uma gaita, e voltar a metê-lo dentro da lâmpada parece fora de questão.
Não merece a pena comprar guarda-chuva, já chove a câtaros!
Cordialmente atento o
Manuel Lamas de Mendonça

De João Távora a 25.01.2018 às 12:07

Caro Manuel, as nuvens são negras.
Gosto de o ver por aqui.
Abraço!

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Sobre o autor

João Lancastre e Távora nasceu em Lisboa, que adora. Exilado no Estoril, alienado com política e com os media, é sportinguista de sofrer, monárquico, católico e conservador. No resto é um vencedor: casado, pai de filhos e enteados, é empresário na área da Comunicação e do Marketing. Participando em diversos projectos de intervenção cívica, é dirigente associativo e colabora em vários blogues e projectos comunicação política e cultural.


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