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João Távora


Terça-feira, 19.08.14

A insustentável consciência de Ser


“É curioso, mas não posso ler um anúncio de qualquer medicamento sem concluir que sofro precisamente da doença em questão e logo na sua forma mais perigosa”.

J.K. Jerome in

Três Homens num Bote

 

 

O desconcertante suicídio dum comediante no pico das férias de Verão, época tão propensa a superficialidades, trouxe para as redes sociais o sedutor tema da depressão e do suicídio, que à boleia concedeu um inaudito protagonismo à disciplina da psicologia, uma “ciência” de extraordinária inexactidão e subjectividade que como uma religião, por estes dias exerce um enorme fascínio popular. Talvez porque, como reza o ditado, “de médico e de louco todos temos um pouco”, nessa medida todos sejamos também psicólogos experimentados, autorizados a conjecturar e opinar, e o mais perigoso, a diagnosticar aqui e ali as mais rebuscadas patologias crónicas, de preferência e com um nome difícil de pronunciar.
De facto, ao final de algum tempo de passagem por este mundo, a incomensurável complexidade de cada pessoa integra no seu legado genético e cultural a sua história, também feita de frustrações e mazelas mais ou menos insanáveis. O resultando é um carácter, uma pessoa, cuja explicação definitiva, para além de irrealizável, seria totalmente inútil. Acontece que todos nascemos marcados pelo “pecado original” da consciência da morte, da dúvida existencial, da intuição do absoluto em oposição ao relativo, e da capacidade para tudo colocar em causa na procura de um sentido para a vida.
Se o número de suicídios que são praticados todos os anos nos alerta para a necessidade de reforço de uma consciência sobre a importância da saúde mental (e quem sabe para a urgência de aprendermos melhor a “tomar (em) conta” uns dos outros), tenho ideia que a banalização duma abordagem pseudocientífica de laivos deterministas a respeito da dor da tristeza, se por um lado corresponde aos interesses económicos dos lobbies industriais e profissionais que a indústria da saúde mental envolve, tais conceitos constituem essencialmente uma ameaça ao livre arbítrio do individuo que afinal só se realiza verdadeiramente na plena assunção e superação da sua realidade. De resto, como é sabido, existem
 remédios muito eficazes para a extinção radical do sofrimento, como é o exemplo da heroína uma droga ainda hoje muito em voga. Fatalmente, como acontece com as outras soluções exteriores à pessoa, vai o bebé pela janela fora com a água do banho.
Irónico que num mundo utópico projectado pelo Homem, assim como não envelheceria ele também não entristeceria jamais. Se as consequências previsíveis da primeira seriam catastróficas, sem a dor da depressão, a maior parte das obras-primas da humanidade jamais teriam visto a luz do dia. A depressão o mais das vezes é apenas o meio-caminho para sermos gente inteira. Sem as dores dilacerantes desse abismo que é a incompletude humana jamais procuraríamos a redenção. Acontece que a causa mais profunda da inquietação humana é o confronto com a solidão ontológica, "disfarçada" com perigosos entretenimentos narcísicos e outros ilusionismos. E suspeito, pelo que me foi dado experimentar, que o único “tratamento” definitivo para esse mal está na Fé, num caminho de pedras que é a construção dum encontro com Deus, com uma ordem superior das coisas que concede sentido ao sacrifício (palavra maldita, eu sei). Justamente a saída que a sociedade urbana, científica e materialista, na sua arrogância pretende deitar para o caixote do lixo da história. Como consequência e no seu lugar, a indústria vem “pesquisando” as mais improváveis Causas biológicas e culturais, rotulando e justificando “cientificamente” as mais imaginativas propensões, moléstias e manias, produzindo dispendiosas mezinhas para tranquilizar tanta inquietação. O pior, é que como observava Chesterton “o homem quando não acredita em Deus tende a acreditar em tudo”.
A propósito de um caso concreto acontecido com alguém que me é muito próximo, confidenciava eu há dias a um amigo que estas incontornáveis ciências novas, deveriam inspirar dos seus profissionais, aprendizes de feitiçaria, uma enorme modéstia e realismo quanto às limitações das técnicas com que operam – Graças a Deus, afinal. 

 

Banda sonora Trouble Will Find Me The National.

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por João Távora às 19:26

Sexta-feira, 16.05.14

O que é o amor, afinal?

 Casamento - Foto Instagram minha

 

Sobre o Amor romântico sei dizer pouco: ao fim de quase 50 anos de leituras, os testemunhos dos poetas deixam-me sem palavras. Sobre o casamento acho que já sei alguma coisa. Que ninguém está tão pouco casado quanto um par de noivos à saída da Igreja - falta ainda tudo. Que é construção, é civilização, e por isso não é relativo aos apetites de cada individuo.  Sei que o amor ajuda, mas precisa resistir às suas próprias sombras. Que é racionalidade, arte e projecto: eu estou aqui e quero chegar ali, àquela finalidade àquele final feliz. O Criar os filhos, sim. Dar-lhes educação. Construir uma casa. Partilhar um legado, ajudá-los a crescer, moldar-lhes as almas com boas memórias. Ter uma companhia, uma testemunha privilegiada de cada passo da existência de cada um. Alguém com quem escrever uma história. Alguém a quem ler histórias. Alguém com quem dormimos. E que dizer extraordinária cumplicidade de adormecer ao lado de alguém? Pode isso ser banal? 
Tive um amigo que até aos trinta e poucos anos já tinha casado quatro vezes - não sei se verdadeiramente chegou a adormecer com alguma delas. Na altura testemunhei a sincera paixão e entusiasmo com que ele seduzia a quinta noiva, de quem como é óbvio, dois anos depois se estava a divorciar – a pobre ficou um destroço. Era obrigatório casar? Não. Suspeito que o Amor romântico é egoísta, é auto-contentamento e ganâncioso, tem pouco a ver com Casamento que é fazer família. Suspeito que perder uma tarde de Sábado com a mulher na Baixa à procura de um candeeiro ideal para montar naquele canto da sala para onde parece ter sido projectado de propósito, vale tanto ou mais quanto uma noite num hotel romântico. Desconfio que a biblioteca que marido e mulher constroem, tem o dom duma bênção divina – não separe o homem aquilo que Deus uniu. Assim como o grupo de catequese de casais que religiosamente os dois frequentam todos os meses, há anos e anos a fio, e onde resiste um viúvo com uma cadeira de lembranças e saudade ao seu lado. Suspeito que muita gente achará esta perspectiva muito romântica. Que afinal me refiro ao Amor. Que isto não é possível sem amor. Ora, se tudo o que refiro não são histórias de amor, o amor não existe.

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por João Távora às 09:26

Segunda-feira, 12.05.14

Da abenegação

Há só uma coisa que perturba mais o sossego ao homem do que a desgraça do próximo: o sucesso do seu vizinho. É irónico (eu diria trágico, até) como quase sempre é mais difícil a empatia no confronto com a alegria do outro do que perante as suas tormentas e infortúnios. Enquanto as últimas colocam-nos numa situação de hegemonia, o seu contrário pode significar uma ameaça a qualquer frágil auto-estima. Qual a influência deste paradigma para a felicidade dos homens em sociedade é que é o busílis da questão. Em termos práticos é da maior conveniência que o sofrimento alheio não nos deixe nunca indiferentes ou até nos repugne, o que nem sempre acontece. Mas quantas bem-intencionadas causas ou empreendimentos acabam comprometidas com uma mediocridade que nivele protagonismos e reprima os êxitos individuais. Ou seja, também não é de subestimar a importância do são convívio dos indivíduos com o sucesso uns dos outros para a harmonia e desenvolvimento social. 

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por João Távora às 11:22

Sábado, 10.05.14

Alegoria

Um produto como um detergente da louça pode dar-nos uma lição de vida: lançado com forte poder abrasivo e cheiro a limão só não economiza a espuma que extravasa. Depois, aparece em cores pastel, aromas exóticos, propriedades dermatológicas e... deixa de lavar pratos.

 

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por João Távora às 16:05

Sábado, 18.01.14

Do amor

À família cumpre-lhe testemunhar no amor a existência uns dos outros. Por quantas gerações sobrevirá a nossa memória?

 

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por João Távora às 14:06

Quinta-feira, 16.01.14

L'enfer sont les autres

A maior parte das vezes zangamo-nos com o Mundo para não nos incompatibilizarmos connosco próprios. Talvez porque em matéria de resistência à mudança somos quase iguais.

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por João Távora às 16:59

Quarta-feira, 15.01.14

Ingratidão

Os miúdos pequenos só não nos contam tudo porque não se sabem expressar. Quando crescem e aprendem, se lhes for possível não nos contam nada.

 

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por João Távora às 14:35

Quinta-feira, 26.09.13

Eternidade

Juntar as pontas do tempo integrando as suas infindáveis (pequenas) histórias, é o que nesta vida mais nos aproxima da eternidade.

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por João Távora às 10:03

Sábado, 24.08.13

Uma maçada...

Difíceis não são audácias, conquistas ou tarefas hercúleas. O grande desafio é a manutenção de uma vida normal e decente. 

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por João Távora às 16:20

Sábado, 17.08.13

Ao contrário, é a mesma coisa mas do avesso

 

(…) no ano da graça de dois mil e treze, o verdadeiro acto iconoclasta é a recusa da iconoclastia. O iconoclasta não é aquele que desafia Deus, é o crente. O rebelde não é aquele que diz asneiras, é o individuo que recusa a falar através da asneira. A indomável não é a aquela que corrompe a virgindade epidérmica, é a rapariga que percebe que a tatuagem entrou no domínio da burocracia. Hoje na praia consegui ver três mulheres sem tatuagem. Três iconoclastas.

 

Henrique Raposo hoje no Expresso

 

Resta saber afinal se uma tatuagem traduz na realidade emancipação de alguma coisa, Henrique. Digo eu, que talvez por coincidência desde o ano que nasci (para que conste sou moderníssimo, nasci no ano da estreia de "Breakfast at Tiffany's" com a Audrey Hepburn) que assisto curioso a esse processo dialéctico da realização humana. E depois, o dealbar da beleza feminina em Portugal testemunhei eu a partir da adolescência (justamente em Lisboa e de forma mais concreta (cientifica até) no liceu Pedro Nunes). Estranhamente esse processo histórico parece ter estagnado na geração das moçoilas da década de 1980, justamente aquela em que a tua curiosidade sobre a matéria despontava. Coincidentemente ou não, de há uns tempos para cá constata-se que as mulheres de meia idade vêm sendo cada vez mais bonitas, (tenho disso boa prova) e não sei onde é que tudo isto (não) vai parar. De resto, Henrique, prometo que vou meditar seriamente sobre o assunto amanhã na praia.

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por João Távora às 22:26

Terça-feira, 06.08.13

Assim como assim, prefiro o segundo

Com estilos diversos, o barbeiro e o taxista têm em comum o hábito de fazer conversa fiada. O taxista é muitas vezes desastrado e virulento, aproveita encontro fortuito para aliviar as tensões. De prosa redonda e calculada, o barbeiro, diz-se, é do clube do freguês... que deverá voltar daí a um mês.

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por João Távora às 18:04

Quinta-feira, 10.01.13

Tudo resolvido


E depois a televisão xpto avariou-se com um bug nas ligações Hdmi. No lugar pusemos um quadro com uma antiga gravura da Batalha de Trafalgar com a seguinte legenda: "See how that noble fellow Collingwood carries his ship into action".

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por João Távora às 10:07

Sexta-feira, 19.06.09

Exames

De saída para o exame de físico-química, o meu miúdo adolescente acaba de aqui vir para se despedir (estou em casa doente), trajando uma exótica t shirt e um fato-de-banho comprido à surfista.  Espantado (convém na vida não perdermos esta extraordinária capacidade humana), interpelei-o sobre se aquela indumentária  não seria um pouco despropositada para o “acontecimento”, tendo o rapaz replicado que era normal e que dessa forma contrariava melhor o stress. Não que eu pense que ele devesse ir de gravata para o exame, mas sempre me parece que a nossa forma de vestir reflecte, não só o nosso estado d’alma, mas também a importância que damos às ocasiões. 
Perante a tácita anuência da mãe,  e não querendo eu perturbar o rapaz na sua “superstição” a poucos minutos da exigente prova, não insisti mais. Depois, a minha mulher explicou-me que já o tinha confrontado com o facto, e que ficara mais descansada ao tomar conhecimento que os colegas dele faziam o mesmo, alguns calçando chinelas de dedo. Enfim, o rapaz até se esforçou, e... quem sou eu para contrariar "o sistema”!

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por João Távora às 16:13

Segunda-feira, 09.03.09

Barbie faz 50 anos


Nunca pensei escrever um tributo à boneca Barbie, mas aqui vai: esta esbelta personagem infantil que faz hoje 50 aninhos, numa primeira leitura representa para mim superficialidade e o consumismo, "valores" que me são particularmente antipáticos. Mas por causa da minha filhota que influenciada na escola se apaixonou precocemente pelo brinquedo, acabei por descobrir-lhe alguns méritos que nos dias que passam fazem a diferença. Enumero aqui dois: 1) Em todas as aventuras desta boneca, o valor preponderante é o da superação das dificuldades pelo esforço e empenho pessoal. 2) Os seus filmes animados ajudaram-me a introduzir a música clássica nos horizontes da minha filha: Tchaikovsky nos contos adaptados de "O Quebra Nozes" e do "O Lago dos Cisnes"; Beethoven  (Sexta Sinfonia) no filme "Pégaso Mágico", a Nona Sinfonia de Dvorak no filme "Rapunzel", trechos da Sinfonia Italiana e Sonho de uma Noite de Verão de Mendelssohn no filme "As Doze Princesas", e finalmente uma área da Flauta Mágica de Mozart que aparece em "Mermaidia". Estas são razões suficientes para eu conviver pacificamente lá em casa com um molho de Barbies quase sempre nuas, e muitas horas de desenhos animados de qualidade duvidosa.

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por João Távora às 11:37

Segunda-feira, 02.02.09

O medo

Hoje pela manhã à hora marcada acordei assustado pelo despertador que troava  notícias sobre a crise e o desemprego, a propósito do processo de falência fábrica Qimonda, cujo nome até lembra o de um animal selvagem, uma cobra gigante, sei lá!

Numa altura em que a crise económica desce das congeminações politicas e dos artigos de jornais para a vida das pessoas e das suas famílias, o medo, esse possante sentimento animal, ganha terreno no nosso quotidiano. Isso preocupa-me muito. O medo é uma afecção psicológica muito estranha, quase perversa: tanto nos salva da morte à beira do precipício como nos inibe de alguma redentora conquista. O medo é o principal inimigo da realização humana, e o maior adversário da liberdade individual.

O medo medra bem num contexto de crise como o presente, e é potenciado pelo deficit cultural e pela fraca auto estima duma pessoa ou dum povo. O medo liquida a democracia. E se o medo potencia a inércia e a omissão, também acciona a violência irracional. Concluindo, parece-me que esse terrível sentimento existe para ser racionalizado e superado: só desta forma é que as pessoas ou os povos alcançaram extraordinários objectivos.


Passado o tempo de reclamarmos pela liberdade formal e exterior, não será esta a altura de descobrirmos que ela se conquista essencialmente de dentro para fora de nós?

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por João Távora às 17:00




Sobre o autor

João Lancastre e Távora nasceu em Lisboa, que adora. Exilado no Estoril, alienado com política e com os media, é sportinguista de sofrer, monárquico, católico e conservador. No resto é um vencedor: casado, pai de filhos e enteados, é empresário na área da Comunicação e do Marketing. Participando em diversos projectos de intervenção cívica, é dirigente associativo e colabora em vários blogues e projectos comunicação política e cultural.


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