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João Távora


Quinta-feira, 01.06.17

A irmandade

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Quis o destino e os meus pais que eu tivesse crescido com um irmão e três irmãs. Não sendo eu o mais velho, quando era pequeno sentia a obrigação de ajudar a tomar conta desse rebanho caótico em que nos tornávamos nas nossas idas ao jardim Zoológico, à Feira Popular ou de comboio para uma praia da Linha do Estoril com a minha mãe. Sorte a nossa, apesar de franzina como era, ela não deixava os créditos em mãos alheias, e hoje estou em crer que foi com a ajuda de mão divina nunca apanhámos mais do que um pequeno susto nas nossas múltiplas expedições de lazer. E lembro-me bem como ela tinha de negociar duro com o motorista para viajarmos os seis num só táxi, num tempo em que não se usavam cintos de segurança. 

Deus plantou quatro irmãos na minha vida, e no princípio eram eles os principais povoadores do meu mundo de brincadeiras e ajudavam a relativizar os sucessos e frustrações vividos fora de casa. Éramos cinco, conhecidos pelas outras casas da família pelos “Abrantes”. Todos em escadinha, pouco mais de um ano diferença entre cada um, não me perguntem como, mas cabíamos num Volkswagen carocha com o meu pai ao volante e a minha mãe com a mais pequena ao colo no lugar do morto. Foi nestes preparos que viajámos algumas vezes para férias de Lisboa para Milfontes. Os meus irmãos eram o barulho à minha volta, o choro e o riso, horas e horas de brincadeiras, provocações, lutas e disputas que preenchiam o imenso tempo livre que tinham as crianças do meu tempo. Mas foram os tempos difíceis de uma crise complicada que vivemos a seguir ao 25 de Abril que nos obrigaram a crescer mais depressa e nos entrelaçaram para sempre. Por essa altura a treinar a democracia em casa, habituámo-nos a dizer uns aos outros o que nos passava pela cabeça – a sinceridade é um perigo - e foi devagarinho que a vida cuidou, com algumas zangas de premeio, de nos ensinar a preservar melhor os espaços de cada um. Mas julgo que foi também por causa dessa cumplicidade excessiva que os nossos conflitos sempre se resolveram, com a ajuda do tempo e com pedidos de desculpas, mais ou menos hesitantes, mais ou menos a contragosto. Ao contrário do que nos querem fazer crer os versos e as fotografias idílicas partilhadas nas redes sociais ontem no “Dia dos irmãos”, desconfio que ser irmão é das coisas mais difíceis que existem: se na infância a nossa “fraternidade” lúdica era muitas vezes interrompida por zaragatas épicas, com a adolescência e mais tarde na idade adulta, o nosso olhar, mesmo que inocente, começou a conter o peso da nossa história e as suas susceptibilidades. Se a relação chegada entre irmãos é tida como o modelo para a solidariedade entre as pessoas, é dessas relações que sempre nasceram discórdias de dimensão bíblica – veja-se o caso de Caim que se deixou dominar pela corrosão do ciúme e da inveja, assassinando cruelmente o seu irmão Abel. Ser irmão é um regime muito perigoso e desafiante: convivemos descaradamente no ninho, perdemos a cerimónia enquanto nos cresciam as penas, vemo-nos por dentro uns aos outros – somos feitos da mesma massa. As zangas quando acontecem são brutais. Ser irmão fora dos tempos de crise que nos une em entreajuda, exige um particular cuidado e sensibilidade.
Mas há uma atracção fatal que nos mantém unidos, e quando nos encontramos os cinco, somos bem mais do que testemunhas das décadas que nos vêm atropelando e desgastando. Certo é que todos somos parte integrante do que cada um se fez e do rumo que tomou. E que esse sentimento de pertença nos leva a marcar presença e dizer “pronto” sempre que  surge alguma urgência ou aflição - o amor às raízes acaba por falar mais alto.

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por João Távora às 17:33

Sexta-feira, 18.11.16

A Casa da Avenida

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A «casa da Avenida», como ficou conhecida na família, deixou em mim uma marca indelével, como que um pilar da minha personalidade. Como casa da Avenida entendo não só o primeiro andar direito do n.º 232 da Avenida da Liberdade mas todo um ambiente caloroso de afectos e brilho que lhe imprimiam os meus avós, tios e todo o pessoal que lá servia, que, a seu modo, fazia parte da família.

Com esta crónica, que serve de introdução a uma biografia ficcionada que estou a escrever sobre o tema, pretendo fazer uma homenagem aos meus avós maternos, João e Chunchinha, que, com a minha bisavó, foram os grandes obreiros dessa casa acolhedora e aberta ao mundo, onde se cultivava a antiga arte da boa conversa, elegante e inteligente, como refere Augusto Ataíde no seu livro de memórias Percurso Solitário (Bertrand, 2016) ou Leonor Xavier em Casas Contadas (Asa, 2009), sem descurar a edificação dum sólido e fecundo núcleo familiar de matriz cristã onde cresceram a minha mãe e os meus tios. Ainda hoje nas reuniões familiares com a minha mãe e os meus tios se testemunha esse legado tão nobre de amizade, humor e graça, qualidades que sem mascarar dificuldades que em todo o lado existem, são sementes de civilização e carácter.

Pensando bem, aquilo que mais me marcou na Casa da Avenida foi a liberdade que me era concedida, a mesma que, pressupondo sentido de responsabilidade, fez dos meus tios e da minha mãe pessoas inteiras. Pessoa de enorme carisma, a Avó Chunchinha tinha, de facto, uma forma de relacionamento que sempre me cativou, talvez porque nunca pressenti qualquer sinal da complacência com que habitualmente os adultos se relacionam com as crianças.

Para a forte idealização daquela casa que germinou em mim ao longo da vida, contribuiu não só a enorme saudade das estadias felizes que até aos 12 anos lá passei, sozinho ou com o meu irmão José — onde éramos queridos e obtínhamos mais atenção do que aquela que poderíamos ambicionar em casa dos pais, em que a concorrência era grande —, mas também a memória do espaço físico e do fervilhar de vida circundante, ao mesmo tempo cosmopolita e de bairro, que naquela época fruía naquela zona de Lisboa ocupada por uma mistura bem equilibrada de serviços, comércio e habitação.

A Casa da Avenida foi estreada em 1892 pela minha bisavó Valentina Leitão aos quatro anos, quando para lá se mudou com os seus pais e irmãos. O elegante prédio de cinco andares com direito e esquerdo, situado no quarteirão entre a Barata Salgueiro e a Alexandre Herculano, onde então terminava a Lisboa cidade, tinha acabado de ser construído, e dele reza a lenda de ter sido o primeiro a ter instalação eléctrica de raiz. Os apartamentos eram grandes e tinham um pé direito alto como há muito não se usa.

A casa dos meus avós era atravessada por um longo corredor que ligava a parte nobre, com duas varandas voltadas para a Avenida da Liberdade, à zona de serviço, com entrada pelo n.º 77 da Rua Rodrigues Sampaio. Entre as salas da frente e a generosa cozinha e os aposentos das minhas tias e das criadas nas traseiras, ficavam mais quartos e duas casas de banho, que para um prédio do século XIX era muito avançado. O edifício também ostentava um curioso sistema acústico de intercomunicadores, numas mangueiras com bocal de cobre nos extremos, entre a portaria no hall de entrada e o interior de cada fracção.

A fachada era discreta, mas icónica me parece hoje a altaneira e pesada a porta principal, circundada de alvenaria trabalhada, cujo chiar do amortecedor antecipava um estrondo que me fazia fugir degraus acima, assustado. As escadas de madeira eram muito largas e enceradas almofadadas por uma passadeira encarnada, ladeadas de mármore de um lado e por um elegante e sólido corrimão de madeira que terminava numa estatueta graciosa, e numas largas escadas de pedra com um corrimão de bronze que precediam um hall aristocrático com elegantes frescos.

Vivia intensamente as minhas estadias naquele extenso mundo de descobertas e de liberdade. Se naquele andar tão soalheiro a vida fervilhava logo pela manhã cedo na área de serviço com os afazeres domésticos das empregadas, a chegada do barbeiro que vinha escanhoar a barba do Avô João, do padeiro, do marçano, a mulher-a-dias que esfregava ou puxava o lustro ao chão encerado, a Celeste que saía para a Praça a fazer as compras; a avó Chunchinha acordava mais tarde para, ainda deitada, me premiar com vinte-e-cinco tostões para um gelado com que me punha feliz a andar para a pastelaria Smarta. Depois, uma visita à sala verde onde se sentava a Bisavó Valentina (Avó Tina, como lhe chamávamos) a fazer crochet, dava direito a ouvir histórias, de desventuras de outros tempos que ela tão bem sabia contar, como aquela dum criado brasileiro dos seus pais que se suicidara para não ir para a guerra ou das escaramuças entre republicanos na Avenida, que obrigavam a família a deitar-se no chão do corredor para se protegerem de uma eventual bala furtiva…

Aos almoços uma ementa variada era servida na sala de jantar pela Celeste, sempre bem fardada — e como eu gostava daquela feijoada à brasileira, receita que desconfio tivesse sido importada pela minha Avó Tina. Depois do almoço abatia-se um profundo silêncio que só era quebrado pelas minhas solitárias brincadeiras com carrinhos de brinquedo no chão, pelos caminhos desenhados nos grandes tapetes, quando não tinha a sorte de ir com a Avó Chunchinha à baixa, para comprar algum prato de faiança «cavalinho rosa» para completar o serviço, ou bolachas Araruta e uma mistura de café na casa Pereira ao Chiado.

À noite, o jantar era quase sempre um momento de exaltação familiar, com a mesa cheia e boa conversa, quase sempre com uma ou outra visita de parentes ou amigos da casa, sempre acolhedora, iluminada por grandes lustres que irradiavam festa. Com sorte, os meus primos eram visita e logo armávamos em loucas correrias pelo interminável corredor, a desafiar o António na cozinha, que era noivo da Celeste. Isto até nos mandarem parar por causa de uma queixa do mítico Senhor Cruz, um vizinho muito doente que eu desconfiava ser apenas um pretexto para nos acalmar. Lembro-me do meu avô sempre elegante, com um lenço branco a sair do bolso do casaco, à conversa com os meus tios à volta duma pequena mesa de bar, servindo-se Whisky com gelo e Água de Castello.

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Ao final da noite, com a casa já toda a dormir, aquele corredor de luz fosca parecia-me assustador de atravessar, com os murmúrios vindos dos saguões que soavam da sombra que se adensava lá mesmo ao fundo, que hoje acredito serem choros e lamentos das vítimas de histórias sombrias, acontecidas ali bem perto na rotunda ou lá em baixo ao Terreiro do Paço, e que marcaram de forma tão dolorosa a vida dos meus antepassados naquela casa.

As festas eram magníficas, não por luxos, que raramente os havia naquela casa, mas pelo empenho e generosidade dos donos da casa. Todas as festas do calendário eram assinaladas na Casa da Avenida, sempre cheia de amigos, tios e primos: do Carnaval com partidas para todos os (des)gostos, à Páscoa com ovos de chocolate para todos os netos, mas principalmente a Ceia do Natal, servida depois da Missa do Galo na igreja de São Pedro de Alcântara, com peru, chocolate quente, sonhos e muitas outras delícias da época, que comíamos depois de abertos os presentes que se amontoavam junto à árvore de Natal. A cor do papel de embrulho identificava a proveniência.

Com pouco mais de sete anos dispunha-me, afoito, a explorar as redondezas com umas moedas no fundo do bolso dos calções. Começava pela tabacaria Glória, esquina da Travessa do Enviado de Inglaterra com a Rua de Santa Marta, onde podia cobiçar uma revista do Patinhas ou um carrinho Matchbox, para o qual o meu dinheiro não chegava. Descia então pela fervilhante Rua de Santa Marta, zona de serviço das casas burguesas da Avenida, passando indiferente pelas mercearias, talhos e «lugares» de frescos, por sapateiros, relojoeiros e casas de penhores, até chegar à Rua de São José, onde dava meia-volta, para aí estoirar o dinheiro num qualquer pechisbeque de plástico com rodas numa qualquer drogaria mixuruca. Voltava então a subir a infindável Rua de Santa Marta, com um apetite cada vez mais aguçado, arrependido de não ter guardado o dinheiro para comprar um bolo.

É importante uma palavra sobre o pessoal doméstico, que de facto era parte da família: tenho consciência que nesse tempo, final dos anos sessenta princípio dos anos setenta, se vivia o final de uma era e o começo de uma outra, com uma radical democratização do consumo e uma inflação que tornava proibitivos os ordenados das empregadas. Foi a época do advento dos apartamentos pequenos, a revolução dos electrodomésticos, a vulgarização dos restaurantes e do pronto-a-vestir que substituíam uma ancestral organização doméstica. Na Casa da Avenida ainda tive tempo de me afeiçoar a figuras de referência como a Conceição costureira e a Celeste. Muitas tardes passei eu a brincar na companhia da Maria da Conceição, que me contava histórias dum universo misterioso que eram as suas origens humildes, de um irmão que perdeu em criança. E era a Celeste que me vestia em pequeno, e que eu tanto gostava de acompanhar às compras ou de ficar a vê-la moer a carne no passador, ou dobrar em meias luas a massa de rissóis. Pensava na minha ingenuidade ser ela minha amiga para a vida, e estranhei muito que tivesse desaparecido sem deixar rasto depois do 25 de Abril, supõe-se para emigrar com o seu António. Há pessoas que não suportam a dor de uma despedida.

Com a morte da minha Bisavó em 1973, os meus avós não puderam renovar o contrato de arrendamento, e no ano de todas as revoluções viram-se obrigados a mudar-se para um pequeno andar — ironia do destino — na Calçada Marquês de Abrantes. Apesar da mobília e da decoração que remetiam para a memória da Casa da Avenida, num país em convulsão e já doentes, foi com muita dificuldade que os meus avós enfrentaram a nova realidade. As mortes dos meus queridos avós ocorreram espaçadas de poucos meses pouco tempo depois, desconfio que por desistência, na dificuldade se adaptarem a mais uma nova era.

Será que, apesar dessa derradeira amargura, tiveram alguma vez a noção do extraordinário legado que nos deixaram? Prometo contar-vos esta história em que estou a mergulhar com todo o detalhe e verdade que me for possível.

A estes heróis não devemos nada menos que isso.   

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por João Távora às 19:47

Quinta-feira, 06.10.16

Rua da Saudade (parte i)

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Esta é uma história de tempos felizes. Quando logo a seguir ao 25 de Abril eu arriscava dar uns passos para mais longe do refúgio familiar, com um espírito inocente e deslumbrado com as promessas da vida ao virar da esquina e ainda distante de perturbações existenciais que prenunciam a adolescência. Curioso como é mais fácil reavivar memórias luminosas quando estas estão ligadas a uma casa, a um determinado sítio. E todos sabemos que a saudade vive nas casas onde fomos amados, cheias dos nossos fantasmas, que às vezes somos nós próprios noutras eras, e que só as abandonam quando são demolidas ou nós as abandonamos pela morte separados.

A casa de Agath V. Radey, de quem por estes dias se celebram cem anos do nascimento, apesar da modéstia e degradação, permanece com uma estranha dignidade, se não altivez, ali a dois passos da Praia dos Pescadores na Baía de Cascais, numa ruela de pedra calçada que por ironia do destino se chama Rua da Saudade. O mesmo destino que me faria voltar à Vila de Cascais onde passei tempos soalheiros num estúdio em frente ao Teatro Gil Vicente antes de casar. O mesmo destino que me fez abrir o escritório não muito longe da Avenida Emídio Navarro, a dois passos da Parada dos nossos saudosos reis, na casa que viu nascer a minha mãe, onde os meus avós passavam a longa época estival à procura de uma bonança mais salubre que a ebulição cosmopolita da Avenida da Liberdade. Todos tomamos uma geografia em legado que redesenhamos pela vida fora.

Agath V. Radey era Princesa de Auersperg e nasceu em Goldegg no Estado da Baixa Áustria em 1916. Chegou a Cascais, desta feita para ficar, com o seu filho Joko, em 1948, depois se ter deixado seduzir anos antes por esta vila. Aqui, no extremo ocidental da Europa, nesta terra de paz e segurança, decidiu sublimar os horrores que presenciara, escapando às ruínas deixadas pela II Guerra Mundial, que levara para o céu o seu marido, Rudolf Georg von Radey, morto pelo exército soviético.

A casa para onde veio morar tinha um pequeno quintal, e nele viviam muitos gatos que falavam com a Tia Ágata, que os tratava com imenso carinho, talvez aquele que já não fosse possível dar ao seu filho, já homem feito, que se escondia, reservado, depois do trabalho, numa sala de música que albergava a maior colecção de discos de música clássica que alguma vez eu vi. Já na altura me fascinavam os sistemas de som, e era com alguma frustração que me sentia indesejado naquele pequeno templo de melomania. A Tia Ágata tinha uma silhueta magra e amarrotada pela vida, e eu pressentia-lhe impressos nos olhos silenciosos que me observavam ao jantar, mil imagens por ela vividas… castelos encantados, como aqueles, magníficos, que se agarram às encostas do Reno, soldados a avançar barulhentos com espingardas na mão, marchas sem rumo de refugiados órfãos das suas pátrias, bombas a cair como chuva impiedosa, suja de lama, de fumo e de pólvora, capaz de submergir as memórias mais felizes. A Tia Ágata era ágil e tinha um sentido prático que me parecia extraordinário: por vezes acompanhava-a ao supermercado Jumbo (uma novidade na época) na sua carrinha Morris Mini de lata cinzenta, consumida como os tachos que se penduravam na parede da cozinha, cheia de gatos interesseiros que me fitavam em alemão.

Não sei como se estabeleceram os laços entre as nossas famílias, mas sei que naquele Verão de 1974, quando em minha casa ainda morava esperança, fui convidado a passar uma temporada naquela residência da Rua da Saudade. Fiquei alojado num pequeno quarto ao lado do sótão onde a Tia Ágata pintava. Lembro-me que os lençóis eram de linho fresco e que da janela se ouviam os pescadores a desafiar o mar e as gaivotas que voltavam da faina com ventos de maresia.

Os dias, então, passava-os na praia com os seus sobrinhos que tinham a minha idade, o Alexandre e a Ágata, que moravam no outro lado da Baía, ao cimo da rua curva, quase ao pé da Igreja da Assunção. A pequena Ágata tinha em comum comigo a curiosidade por todas as marcas, todos os modelos, e potência de todos os carros com que nos cruzávamos nas ruas da vila de Cascais ou que saíam nas revistas da especialidade. E tinha um irresistível charme quando falava com o irmão aquele arrazoado que é para mim a incompreensível língua de Goethe. Os três gostávamos de música pop e aquele Verão ficou-me para sempre ligado às cantigas do disco de Paul McCartney “Band on The Run” que ouvíamos repetidamente. Uma ou outra vez, as noites mornas convidavam-nos à praia dos pescadores e aquelas fizeram-se umas semanas inesquecíveis, feitas de praia e de passeios mágicos, sem grande história como são sempre os tempos felizes.

De regresso a casa, enquanto o ódio começava a ser gritado em grafitis e vociferado em manifestações pelas ruas da cidade, enquanto as armas se acicatavam bêbedas pelos quartéis, ainda empreendi umas quantas visitas ao Alexandre e à Ágata com paragem obrigatória na Rua da Saudade: a viagem a partir de Alcântara era ainda mais emocionante quando tinha a sorte de arranjar um estratégico lugar sentado em segunda classe. Aproveitava para me perder no imobilismo do horizonte, que tanto contrastava com a velocidade a que a costa se sumia, e  para ver o rio Tejo fugir mansamente para Lisboa pouco antes da carruagem mergulhar nas águas, ali antes de se chegar ao Bugio. Claro que os comboios de agora já não têm 2ª Classe e limitam-se a passar em seco rente à rebentação. Chegado ao fim da linha, atravessava ansioso as ruelas emaranhadas de Cascais, aproveitando com os meus amigos o dia que se toldava cada vez mais depressa.

Vieram as primeiras chuvas, as rotinas das aulas começaram e Cascais tornou-se uma terra cada vez mais longínqua, eu já só lá chegava por cartas de letra bem desenhada, e os tempos escureciam enquanto os cravos murchavam nas libertárias G3 e o poder entornava-se na rua, excitada, assustada e a espumar de raiva. Antes de chegar o Verão soube da partida da pequena Ágata e do Alexandre com os pais para a Áustria. Gato escaldado de água fria tem medo.

(Continua aqui)

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por João Távora às 21:51

Quinta-feira, 06.10.16

Rua da Saudade (parte ii)

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Há poucos meses, numa inauguração no Museu dos Coches, fui interpelado no elevador pelo R. que, depois de confirmar a minha identidade, simpaticamente se apresentou e me informou que era possuidor de um retrato meu pintado por Agath V. Radey. Foi quando uma cascata de sentimentos e memórias se desprendeu do meu arquivo de histórias – lembrei-me daquele sótão de pintura da Tia Ágata e do quadro que cheguei a ver rascunhado pelo traço do carvão. Soube então do tributo que a família está a preparar por ocasião do seu centenário natalício no mês de Outubro. Soube como Agath V. Radey ainda chegou a ser homenageada no final dos anos 80, uns anos depois da sua morte, com uma exposição organizada pela Câmara de Cascais de algumas das suas mais significativas obras no Museu Conde de Castro Guimarães. Do seu amor a Cascais e às gentes simples com quem se cruzava, a uma vida a que se entregou com o desprendimento que só uma princesa sabe ter, como se fora serviço. Lembrei-me outra vez do seu olhar azul, cansado, com que me velava à mesa de jantar – a Tia Ágata obedecia a uma estranha regra de não jantar – da sua esmerada gelatina recheada de frutas frescas. Lembrei-me de como se movia ágil, com passo estugado, pelas ruas da Vila que adoptou, pela qual foi adoptada e onde morreu em 1983. Lembrei-me como guiava expedita o seu Morris Mini como se fora um Kart, que circulava ruidoso entre os barcos e as redes dos pescadores, ou de como os caminhos da vida são tão sinuosos quanto imprevisíveis, e podem confluir numa rua chamada Saudade. E de como um Verão mágico como aquele não ficou só esculpido na minha saudade, mas afinal está testemunhado em cores vivas numa tela, prova materializada, visível, palpável, dum tempo em que, como criança que pôde ser criança, tive tempo de ser feliz.

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por João Távora às 21:47

Terça-feira, 14.06.16

Ir às compras

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 A Praça de Campo de Ourique 

 

Somos feitos também com memórias de acontecimentos e experiências banais, que é do que trata esta crónica. Foi quando eu era pequeno que começaram a aparecer em Lisboa os primeiros supermercados, uma revolução enorme na forma de comercialização dos mais variados produtos de uso doméstico, principalmente alimentares, que assim eram disponibilizados em grandes espaços fechados, num sistema de self-service, num ambiente limpo e de arrumação racional onde qualquer pessoa de qualquer condição social se sentia convidada a entrar. Ainda bastante pequeno, lembro-me de algumas incursões com o meu pai, que gostava de cozinhar e era um bom garfo (nos dias de hoje seria chamado “gourmet”). 

Mais comum nesse tempo eram as mercearias, pequenas e obscuras lojas o mais das vezes contiguas à residência do proprietário, que tinham um pouco de tudo, desde tabaco, detergente ou feijão seco, que dada a proximidade e familiaridade com o freguês, atendiam fora de horas por especial favor, concediam crédito e carregavam nos preços.
Mas do que guardo melhores recordações de então é das idas ao Mercado com a empregada da casa dos meus Avós. A “Praça” como lhe chamávamos, algo que os meus filhos simplesmente não conhecem, era um género de feira num gigantesco recinto semifechado que abria todos os dias menos à segunda, onde se vendiam além de toda a sorte de produtos domésticos, alimentos frescos como carne, peixe e legumes, frutas e flores, comercializados em longas alamedas de bancas pelas vendedeiras que chamavam os clientes, quase sempre donas de casa ou empregadas de servir, tratando-as por “minha querida” e “meu amor”. Então, eu acompanhava a Celeste, empregada dos meus avós, fascinado com os coelhos pendurados a pingar sangue, os pombos, patos e galinhas vivos em grandes caixotes, pelas pescadas de olhos esgazeados e bocarra aberta, molhos de carapaus rebrilhantes, o assustador tamboril, a fruta e os legumes da época, sempre na esperança de ganhar um chupa, um gelado ou chocolate de recompensa por bom comportamento. Um dia regressei a casa radiante premiado com uma jovem rola viva que por uns dias cuidei extremosamente na varanda que dava para a Rodrigues Sampaio… até o fabuloso e ingrato bicho ensaiar um voo e desaparecer nos telhados vizinhos para meu enorme desgosto. A dureza da vida também se aprende com os abandonos, e esse terá sido um dos primeiros de que me lembro.
Tenho ideia que havia um mercado destes em cada bairro da cidade e lembro-me de conhecer pelo menos os de Picoas, da Alexandre Herculano e o de Campo de Ourique onde era a casa dos meus pais. O mais curioso é como o sistema exigia à dona de casa possuir não só uma intuição especial para reconhecer a qualidade e frescura dos alimentos e não se deixar enganar nas medidas e nos pesos – na altura poucos produtos eram embalados e alguns, como os frangos ou os patos era usual serem mortos e depenados ao momento – como ainda ter a arte de regatear os preços com firmeza e compará-los entre as diferentes bancadas vizinhas. Tratava-se de uma importante contenda em que as mais experientes donas de casa disputavam autênticos troféus para no final exibirem com vaidade às vizinhas e com eles premiarem a família na mesa do jantar… como um caçador ufano da sua presa.
Vistas bem as coisas, o facto é que me parece que a realidade muda sempre mais na forma do que no conteúdo e hoje os supermercados, maiores ou mais pequenos, recriam o jogo das compras através de intrincadas promoções e cartões de descontos em que os fregueses mais sabedores podem alcançar uma semelhante sensação de glória na poupança de muitos euros. Irónico é constatarmos como, para o melhor aproveitamento dos descontos e conseguirmos uma dispensa preenchida com produtos mais baratos, temos não só que ser inteligentes como ter uma carteira bem recheada. Quem disse que a vida era justa?

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Vasco Santana no papel de merceeiro  

 

Fotografias Roubadas daqui e daqui.

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por João Távora às 11:14

Sábado, 13.06.15

Até sempre Tio Manel

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 Manuel Pedro de Carvalho Gomes de Castro

1944 - 2015

Se somos moldados pelas contrariedades que enfrentamos, também é certo que somos feitos das pessoas que amamos. Isso é um consolo. Porque a pessoa só o é na sua relação com os outros, porque nós somos sempre muito mais em comunidade: seja a dos antepassados que partilhamos, das cores que elegemos, dos tiques e afeições que comungamos. 

Vêm estas palavras a propósito da grande dor que me vem causando a partida do meu Tio Manel que hoje se junta ao Criador. Um pouco de nós próprios morre com os amigos de quem não nos conformámos ver partir. Talvez isso facilite o culminar da nossa própria peregrinação terrena. Além disso, acontece que um tio, um bom tio, é uma instituição familiar preciosa, insubstituível: a testemunha privilegiada de que os nossos pais não são uns extraterrestres. Porque um tio tem a vantagem de reflectir os valores da nossa família sem o “peso” das responsabilidades parentais que tanto condicionam o “convívio”. O Tio Manel era isso tudo, soube ser isso tudo, pôde ser isso tudo: tendo casado tarde e não tendo tido filhos, construiu uma extraordinária reputação com os muitos sobrinhos que lhe foram surgindo ao caminho pela vida fora.

Isso explica-se mais ou menos assim: quando estava na casa dos meus avós na Avenida da Liberdade a passar uns dias, com o Tio Manel também tinha que ir à missa, mas depois íamos espraiar as emoções para Alvalade. Ou para a Costa da Caparica. Com Tio Manel dei o primeiro golo de cerveja, conheci o cheiro da cigarrilha e aprendi o sabor da Água de Castelo. Ao seu lado na bancada do antigo Estádio de Alvalade, ou no seu mini cor-de-vinho, aprendi quando um homem deve viver a frustração em silêncio. Éramos muito diferentes, bem sei. Mas com ele apreendi a maior lição da vida, a da coragem e perseverança: cumpriu a tropa nos anos na guerra do ultramar, assunto de que nunca o ouvi falar; a seguir agarrou com as duas mãos um modesto emprego numa companhia de seguros, do qual construiu com tenacidade uma vida digna (e como isso é importante, apesar da vulgarização da palavra). Agora, a este ponto da vida fico com a ideia que a reforma faz mal à saúde das pessoas. De cada vez que nos tempos mais recentes nos encontrávamos em Alvalade ficava a ideia que os anos lhe pesavam cada vez mais, quase lhe levavam o proverbial bom humor. 
Falta uma referência ao Sporting, que amou como poucos e que lhe fica em dívida pela enorme fidelidade que sempre dedicou ao clube do seu coração: esse é um legado de que me orgulho e que em mim tem a sua assinatura. 
Nascido em 1944 em casa aos seis meses de gestação com pouco mais de seiscentas gramas, diz a lenda que sobreviveu envolvido em algodão em rama à conta de insistentes exercícios de ginástica respiratória. Onde quer que esteja, por todas as razões, o Tio Manel será sempre um grande Campeão. Deus o tenha na Sua infinita Glória.

 

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por João Távora às 00:56

Quinta-feira, 17.04.14

A outra casa de Abrantes ou uma história de resistência

Com uma pose bem-humorada pouco comum numa fotografia
de família do início do século XX (algures em 1908/9) aqui se apresentam,
de cima para baixo, a minha tia avó Carlota,
o meu avô José Maria de Lancastre e Távora
e os meus tios avós, Pedro, Rita e Luísa.

 

Num recanto paradisíaco de Lisboa entre Campo de Ourique e a Lapa, em frente a um prazenteiro chafariz ficava a casa para onde se mudaram no início dos anos quarenta os meus avós paternos, que hoje faço o mote das memórias que aqui partilho.

Não conheci o meu avô José, que morreu três meses depois de eu nascer: muito culto e severo, segundo rezam as crónicas do meu Pai, teve uma vida aventurosa entre a universidade onde a revolução da república o apanhou - e que não abandonou apesar de tudo - as incursões monárquicas que incorporou mais tarde com Paiva Couceiro, depois o exílio político, e finalmente a Iª Grande Guerra nas fileiras da Legião Estrangeira em que se alistou na Bélgica. Com temperamento pragmático, terá sido o primeiro membro da sua família tradicionalista, da antiga nobreza de Portugal, a completar um curso superior, opção que lhe veio a proporcionar uma profissão como engenheiro civil e a independência necessária para fazer face às mudanças de estilo de vida que no início do século XX pela Europa fora se radicalizavam. A fortuna da família que resistira às reformas e perseguições dos liberais, ao fim dos morgadios e a décadas de oneroso apoio ao Rei Dom Miguel, não resistiria às despesas do exílio da família em St Jean de Luz nos durante a 1ª república, à crise económica decorrente da Guerra e a uma manifesta falta de bom senso que a realidade exigia. A venda do Palácio de Santos ao Estado Francês foi consumada pelo meu bisavô João em 1917.

O exílio do meu Avô terminaria 1935 quendo regressou do Luxemburgo sete anos após o seu casamento com Maria Emília Casal Ribeiro Ulrich, senhora quase vinte anos mais nova: foi a minha madrinha, uma pessoa austera mas conversadora espirituosa, que recordo com saudade, de volta dos seus tricots, livros, ou até a assistir à transmissão dum relato de futebol ou ao Grande Prémio de Fórmula I, modalidades de que era entusiasta. 

Outra personalidade inesquecível desta casa que a adoptou e de que era alma também, era a Tia Lalita, sobrinha direita do meu avô, solteira sem filhos e extremamente amiga da minha Avó, que acompanhou até aos seus últimos dias. Lembro-me bem da sua companhia em tardes soalheiras a costurar, numa pequena salinha aproveitada duma marquise, enquanto eu me entretinha com construções de Lego, a desfolhar livros da Becassine ou revistas do Cavaleiro Andante, todos sob o olhar atento do papagaio Jacó. Lembro-me também dos passeios que dávamos para os lados de Belém no Volkswagen carocha que a minha avó conduzia com desenvoltura. Consta que terá sido das primeiras senhoras em Portugal a tirar a carta de condução. 

A casa dos meus avós Abrantes tinha algumas particularidades engraçadas: contrastando com os móveis antigos e os pesados quadros a óleo dos nossos antepassados, era equipada com tecnologias  na época pouco usuais aos meus olhos, como uma grande televisão com comando à distância – por fio se bem me recordo - torneiras com misturadoras na casa de banho, centrifugadora para sumos e outros prodigiosos electrodomésticos. Para gáudio dos netos dispunha dum encantador jardim rectangular com limoeiros, onde podíamos correr e sujar de forma controlada. Era uma casa com uma área não muito grande, mas em três andares e com uma organização logística muito moderna para a altura. No rés-do-chão vivia a Lurdes, a exímia cozinheira da casa e o seu marido Manuel Brito, motorista, com os filhos José e Maria Emília. Era no mesmo andar onde se situava a garagem e uma lavandaria com espantosa maquinaria, que estava na origem dos fascinantes ribeiros, às vezes com espuma e outras não, que corriam em direcção ao muro das escadas para uma misterioso “túnel” escuro, que servia para inúmeras brincadeiras com carrinhos, bonecos e pauzinhos. Foi nesse espaço mágico onde a determinada altura vivia escondida entre o carvoeiro e as capoeiras uma corsa assustadiça de focinho húmido - Seiça de seu nome. Tinha muito medo de mim e dos meus irmãos provávelmente com razão. Numa das janelas

rebaixadas sobre o jardim encontrava-se por vezes a Aninhas atrás da sua máquina de costura, muito velhinha, de que me lembro ouvir queixar-se dos olhos consumidos pelo trabalho...
Uma particularidade inédita desta casa - presumo que por influência do declive da rua - era uma zona, particularmente no segundo andar onde ficava a sala de televisão, em que o sobrado inclinava ligeiramente, favorecendo as corridas com os automóveis miniatura. Da janela dessa sala, nos dias de calor era comum eu observar num misto de inveja e repugnância, a miudagem a banhar-se com espalhafato no chafariz da rua, perante a condescendência do polícia de guarda à embaixada da Suíça, elegante edifício que com a fachada cor-de-rosa fazia do todo um quadro pitoresco.  

De resto, a memória feliz que guardo das vezes que fiquei a dormir na Travessa do Patrocínio, é a sensação de viver no campo que se tinha ao levantar pela manhã; sem ruído de automóveis e com a perfusão de chilrear dos pássaros. Apenas interrompida pelo ecoar do altifalante do centro de saúde da Caixa de Previdência ali mesmo à esquina. Exóticas sensações e panoramas que ainda hoje se podem vivenciar em muitos microcosmos de intimidade quase bucólica, afinal bem no centro da cidade de Lisboa.

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Fotografias:

1 - Arquivo de família

2 - A casa no final do século XIX - Arquivo da C.M.L.
3 - Perspectiva do Chafariz, por Ozias Filho
4 - Aspecto actual, por Ozias Filho

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por João Távora às 23:20

Sábado, 09.05.09

Os anos da rádio

A telefonia foi para mim durante muito tempo uma inestimável companhia e uma janela para o mundo, principalmente o da música. Tenho uma leve reminiscência da primeira que me fez companhia: foi um pequeno “transístor” forrado a cabedal castanho oferecido pelos meus avós no final dos anos sessenta. Foi através da rádio que ouvi passar a música, as modas, os acontecimentos. Até a revolução e as "inventonas". Na minha telefonia, confesso, passaram também muitos domingueiros relatos de futebol, pois não havia outra forma de acompanhar a jornada desportiva. Com aquela histérica verborreia do locutor, emocionado, eu roía as unhas todas.

Criado no meio de uma família grande e com muitos irmãos, foi com a música e com os livros que delimitei o meu espaço e preservei minha empreendedora solidão. De olhar fisgado numa qualquer luzinha do aparelho passei deliciadas e indolentes horas. Era assim que os meus sonhos mais secretos voavam leves.

De ouvido na telefonia privei intimamente com muitos mais ou menos simpáticos locutores. Do Igrejas Caeiro ao Carlos Cruz, passando pelo Luis Filipe Barros, do João David Nunes à Maria José Mauperrin, passando pelo Jorge Perestrelo. Foram muitas as vozes para as quais inventei caras, sempre tão diversas das reais. Que nunca se nos deveriam ser desvendadas para evitar desilusões maiores. Olhe-se bem a figura que nos saiu da simpática voz do Nuno Markl!

Em pequeno, lá em casa na sala de estar havia um velho aparelho Grundig por debaixo da televisão. No chão, eu sentava-me de pernas cruzadas, esperando ansioso por algum sinal de vida, algum som, enquanto as válvulas aqueciam. Tudo começava quando uma pequena barra luminosa se enchia com uma estranha e líquida luz azul que assinalava a plena sintonização da frequência. Normalmente o aparelho estava sintonizado no programa 2 da Emissora Nacional (pelo meu pai), donde eu mudava para o Rádio Clube Português, que me parecia bem mais animado. Era nesta estação que ouvia umas cançonetas e com sorte apanhava a emissão dos Parodiantes de Lisboa que desesperadamente galhofavam trivialidades que eu mal entendia. Tudo isto com o patrocínio da casa Sol, na Rua da Vitória.

Carregando-se nuns botões beje marfim do grande rádio, trocavam-se os mundos que soavam como apitos díspares, sirenes várias ou misteriosos sinais de morse. E orações muçulmanas. Mas aquele rádio já tinha “frequências modeladas” e eu sentia com gosto a diferença no troar da orquestra no grande altifalante. O horário imperialista da televisão cedo acabou com estas veleidades radiofónicas.

À noite no aconchego do quarto, no meu “transístor” tocava o Quando o Telefone Toca, entre um livro da Condessa de Ségur e um álbum de Spirou em luta contra o terrível Zorglub. Foram os meus tempos de infância ao som dos Beatles, de Angie, dos Procol Harum, de Mammy Blue ou de José Cid...

Mais tarde, depois da revolução e durante o PREC, em FM (um pouco para lá dos 108 MHz), podia-se espantosamente sintonizar as transmissões da Polícia Militar. E testemunhar assim todo um mundo louco que se desconstruía. Enquanto medrava a minha ansiosa adolescência, veio o rock n’ roll do Programa 4 da RDP. O João David Nunes, o Punk Rock, o programa Dois Pontos com os álbuns inteirinhos, o Em Órbita para ouvir música antiga e… as tabelas de “tops”. Foi nessa época que descobri a MPB nos Cantores do Rádio do José Nuno Martins. Tudo isto em FM Estéreo, transmitido com os emissores de Bornes, Braga, Faro, Gardunha, Guarda, Lamego, Lisboa, Lousã, Monchique, Porto e Valença (!). Era a gloriosa alvorada do FM num país que, arquivada a revolução e a aventura marxista, despertava para o mundo. Virou-se então a vida da rádio para o Rock em Stock, com um Pão com Manteiga ao Fim-de-Semana, e o rock em português. Já entrados nos anos 80, às vezes de noite ouvia o Café Concerto de Maria José Mauperrin. Foi então que descobri as margens da cultura musical urbana, Brian Eno, Ryuichi Saakamoto e os Telectu de Jorge de Lima Barreto, entre outras doces intelectualices.

Finalmente por alturas do “boom” da liberalização da rádio, ainda me deixei cativar pela Correio da Manhã Rádio. Uma fantástica rádio digitalmente programada que me fornecia musica às toneladas. Sem palavras, sem parar. Para gravar, namorar ou estudar. Foram os meus tempos de Lloyd Cole, The Smiths e das luzidias pérolas da editora 4 AD.

Em 1988, numa trágica e inesquecível manhã de Agosto, com o Chiado em chamas, descobri a TSF. A notícia em rajadas, tipo matraca, que por muitos anos consumi com gosto.

De então até hoje oiço a rádio quase exclusivamente para fins informativos, no automóvel. Ouvir música tornou-se um ritual mais raro e quase solene. Momentos especiais arrancados à rotina familiar e com música escolhida com o meu critério e dependente da minha disposição. Mas é certo que continuo um aficionado da boa telefonia que no meu carro por momentos ainda descubro.


 


 


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por João Távora às 14:25

Quinta-feira, 23.04.09

Os meus livros


Cresci no meio de livros, pequenos, pesados, grandes ou leves,  de todos os géneros formas e feitios. Experimentei-os feitos de pano, em papel e até pergaminho, quando o meu pai mos deixava apalpar para  satisfação da minha curiosidade. Habituei-me a viver com eles, empoleirados nas estantes do escritório e ao longo do corredor lá no 3º andar de Campo d’ Ourique. Até na casa de banho se formavam pilhas de “patinhas”, “argonautas”, “vampiros” e “selecções”.
Foi na Avenida da Liberdade, na casa dos meus avós, que descobri o armário dos Tintins, no quarto do meu tio, ausente no ultramar. A minha vida nunca mais seria a mesma. Recordação remota é a dum fascinante livro de mesa, que se escondia no armário da grande sala da Avenida, em papel sedoso e pesado, com fotografias e ilustrações do Parque da Gorongosa, que ficava lá nas áfricas, para onde os meus tios iam prá guerra. Então perdia-me na savana africana, entre coloridas fotografias de leões e gazelas, enquanto a televisão imponente e pesada transmitia a mira técnica entre duas aulas da telescola.

A determinada altura, os meus pais estabeleceram prémios por objectivos, atribuídos à leitura de livros “sem bonecos” da Virgínia de Castro e Almeida, Condessa de Ségur ou Enid Blyton, aos quais por preguiça eu ainda resistia. Fazia-me muita impressão a rapidez com que o meu pai devorava todo o género de livros, a toda a hora. Hoje ainda tenho dúvidas se os lia na diagonal ou salteado, pois era vulgar encontrá-lo tempos depois afincado de novo ao mesmo romance ou ensaio que despachara numa hora.

Sou dos que lêem os livros devagar, não sei se por jeito ou falta dele. Nunca alcancei uma fórmula de leitura rápida que salvaguardasse o prazer, de maneira que estou condenado a escolher bem as minhas leituras, já que o "meu tempo” é um bem escasso.  Facilmente me distario entre duas linhas dentro da história, na senda dum fugaz pormenor, ou duma recordação espicaçada. Também me zango com os livros, desisto, troco-os e traio-os quando me entediam ou me fazem sofrer demasiado. O facto é que termino-os quase sempre e tenho dificuldade em me desfazer deles: um drama para quem tem uma família grande que mora num apartamento na periferia. Que falta nos faz algum sentido prático dos que consomem paperback, aqueles livros descartáveis que os bifes se "esquecem" nos hotéis... Afinal onde é que guardamos uma boa leitura?

 

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por João Távora às 10:50

Terça-feira, 24.02.09

Outros Carnavais

Nunca aderi espontaneamente à festa do Carnaval. A chegada das serpentinas, máscaras e bombinhas às montras das tabacarias despertava-me algum interesse, mas esse não superava um leve sentimento de melancolia provocado pelas recém-finalizadas festas natalícias e pelo reinício da implacável disciplina escolar.
As minhas mais remotas recordações do Carnaval referem-se à casa da Avenida, onde a minha bisavó Valentina imprimia ao evento uma marca particular, fruto sua vivência no Brasil. Por exemplo, lembro-me de um grande boneco que nos aguardava, medonho, à entrada da sala de jantar. Era feito de roupas e enchimento em cima de um cabide de fato e usava o chapéu do meu avô João. Os croquetes feitos com algodão e outras partidas célebres desses Carnavais da Avenida não alcança a minha memória.
O que me desagradava profundamente era que me mascarassem. Mesmo de Cowboy, figura por mim mitificada todo o ano. Detestava que me pintassem com bigodes e patilhas de cortiça chamuscada, ou me espetassem com um chapéu de plástico que me caía continuamente da cabeça a baixo. Além disso ficava com uma intimidante “noção de mim”, que liquidava qualquer espontaneidade e assim o divertimento. O que eu gostava mesmo era dos lustrosos revólveres prateados e umas cargas de fulminantes para correr aos tiros atrás dos meus primos. No recreio da escola, a figura de Cowboy ainda valia o esforço de pôr a bata xadrez entalada para dentro das calças de ganga. Era o que bastava para me sentir um autêntico Cartwright. Mas isto nada tem que ver com o tema desta crónica. Divertidas eram as semanas precedentes à festividade, em que eu e os meus colegas da escola experimentávamos as mais endiabradas aventuras com bisnagas, bombas e “estalinhos”. Com cinco tostões comprávamos cinco estalinhos ou… uma bomba verdadeiramente assustadora. Com cinco escudos adquiríamos um verdadeiro arsenal. À saída da escola, munidos de uma carteira de fósforos, corríamos o bairro, de caminho para casa a rebentar bombas nos sítios mais insólitos: nada como uma boa explosão dentro de uma funda sarjeta, ou na escadaria de pedra de um prédio. Até os vidros tremiam, enquanto já a milhas corríamos em fuga. Ainda pelas ruas de Campo d’ Ourique armados com coloridas pistolas espaciais, esgueirávamo-nos à volta dos carros estacionados disparando potentes esguichos de água uns aos outros. Até esbarrarmos com uns quaisquer índios do Casal Ventoso que, violentos, com uns gritos e uns socos se apoderavam das nossas preciosas armas. Era a lei da rua, a lei do mais forte.
No entrudo era a festa de anos do meu primo Manuel. Festas inesquecíveis, com muita criançada, em que acabávamos a tarde exaustos, enrolados em quilómetros de serpentinas, às escuras, a ver projectados desenhos animados Silly Symphonies de Walt Disney ou umas curtas-metragens do Charlot em Super 8.
Na entrada da adolescência, no Liceu Pedro Nunes, por altura do PREC, quando qualquer divergência se resolvia democraticamente à pedrada, as partidas carnavalescas atingiam requintes de malvadez. Por pudor escuso-me a relatar algumas arbitrariedades por mim testemunhadas. Mas era comum detonar uma dessas poderosas bombas no WC dos rapazes, a que chamávamos “metromijas”, instalações subterrâneas que como uma paragem de metropolitano estavam situadas no meio do pátio. Depois era esperar, após o estrondo, que as vítimas assomassem ao cimo das escadas, esquálidas e despenteadas…
Chegados ao Carnaval, os excessos e a brincadeira estavam feitos e gastos. Por esses dias, sempre me pareciam patéticas as figuras daqueles miúdos passeando-se mascarados com os seus babosos pais, com quem me cruzava a andar de bicicleta no Jardim da Estrela. Que tristonhas “espanholas” e “noivas do Minho”, que expressões infelizes exibiam aqueles inúmeros “Zorros” e “campinos”, de bochechas maquilhadas e olhos esborratados. Com uma matinée no cinema Europa, umas voltas de bicicleta e muita televisão se passavam as minhas férias. No final de contas, que bem me sabiam aqueles cinco dias sem ir à escola!

Adaptação da versão publicada aqui
 

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por João Távora às 12:00

Quinta-feira, 19.02.09

Taxi


 


Sempre que necessito deslocar-me dentro de Lisboa, o meu transporte favorito, se por lá passar, é sem dúvida o Metro. Mas quando tal não é possível, o Táxi é uma solução bem eficiente, em certos casos até económica, se considerarmos os preços do estacionamento. Se com alguma sorte o motorista não for excessivamente intrusivo, esta alternativa torna-se até quase perfeita. Mais, quando algures na cidade procuro um Táxi, e se puder escolher, garanto-vos que escolho um Táxi "verde e preto", que é a cor verdadeira dos táxis. (quando era pequeno eu considerava por exemplo que a língua pátria era a “verdadeira”, e aquelas exóticas verborreias que assistia na televisão não passavam deficientes de tentativas de comunicação). Nesse tempo, um verdadeiro táxi era um Mercedes 180, verde e preto de bancos corridos e manete de mudanças no volante cor de marfim. Quanto muito nessa altura cheguei a admitir a modernice dos “Datsuns”, umas revolucionárias banheiras com rodas que apareceram nos anos 70… mas sempre na condição alegre e tradicional do “verde e preto”.

Depois, nos anos 90, umas luminárias cá do burgo (nunca entendi bem a verdadeira história) decidiram que se pintassem todos os táxis de "cor-de-burro-quando-foge”. Hoje, é com uma confortável satisfação que vejo crescer o número de táxis “verdadeiros” na minha cidade. Coisas minhas, coisas cá deste vosso incurável conservador.

 


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por João Távora às 15:57

Quinta-feira, 08.01.09

Stº António dos Olivais


É verdade que passei uma boa temporada em Coimbra, vivi em Sto. António dos Olivais. Lembro-me que ouvia Lloyd Cole de mais, e que um dia uma bem intencionada alma me ofereceu um gatito siamês para minha salutar companhia. Acho que o animal chegou demasiado crescido às minhas mãos, já elegante e lustroso. Desde então tentámos com afinco domesticarmo-nos mutuamente, mas a causa era perdida - foi curta e inglória a sua passagem na minha vida. O bichano, além de não me ligar peva, possuía uma estranha extravagância: subir às arvores que não sabia descer. Uma noite, de madrugada, acordei estremunhado com os seus miados aflitos. Espreitei ensonado para o quintal, e lá estava ele, empoleirado num tronco da alta árvore. Na noite seguinte ao chegar a casa, àquela pacata rua de província, o gato lá permanecia, balanceante, num ramo ainda mais alto e mais frágil, com um miar mais sonoro e desesperado. Pressenti os olhares estremunhados e recriminatórios dos meus vizinhos, ocultos pelas suas térreas gelosias. Ao terceiro dia, finalmente entrou em casa despenteado, rouco e a coxear. Dei-lhe uma reconfortante refeição, e nessa noite ambos dormimos um sono profundo e retemperador.

Que eu me lembre, a cena repetiu-se mais duas vezes. À medida que o tempo passava, o bicho subia mais alto, para os mais frágeis e trémulos ramos, ao nível de um segundo andar. O pânico da vertigem impelia-o para o alto. Atirei-lhe com pinhas, chamei os bombeiros, a situação era desesperada. Até que o gato caía de maduro, pelo cansaço ou pela força do vento.

O bicho era bonito. Olhos verdes claros, por detrás duma mascarilha castanha a condizer com as botas e luvinhas, sobre um pelo sedoso bege claro. Uns dias mais tarde o bichano desapareceu. Foi algum incauto forasteiro que o roubou, atraído pela fidalga figura do estúpido animal. Ou então um vizinho mais zeloso lhe deu um curativo fatal. Para bem da boa vizinhança.

Demorou algum tempo mais para que eu próprio, pelo meu pé, descesse da minha árvore.


 


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por João Távora às 17:05

Terça-feira, 23.12.08

Memórias do Natal

 



 


Um misto de ingénuo espanto e ansiedade define a comoção com que eu na minha infância vivia a festa de Natal. Tudo começava na véspera, noite dentro, quando nós os cinco manos, lá íamos com os nossos pais, todos ao monte no velho carocha bege, bem agasalhados e aperaltados, para a missa do Galo. Ainda pequeno, era um sentimento muito especial o de entrar acordado no mistério da noite profunda e estrelada. Lisboa lá estava deserta e fria, mas calorosamente engalanada para a festa. Excepcionalmente para as solenidades natalícias íamos à Igreja de S. Pedro de Alcântara ou Santos o Velho. A ocasião era toda ela especial: a Igreja, quente e iluminada a preceito, tinha um cheiro especial, os cânticos também eram especiais, e o grande presépio ao fundo dominava o panorama. Num autêntico estado de graça eu sentia-me também especial, como Jesus que nascia...

Intimamente eu ansiava pelo fim da missa, pelos presentes e a ceia, na Avenida da Liberdade em casa dos avós, noite adentro com os tios e a primalhada toda. Era essa a primeira etapa do glorioso dia que então começava.


Além das coloridas iluminações de rua, o Natal era então também mundanamente anunciado por alguns sinais “televisivos”, que avisavam a chegada das festas. Eram os anúncios de brinquedos, chocolates e perfumes, o inevitável Natal dos Hospitais, e os magalas que logo a seguir ao telejornal mandavam saudades à família, em diferido das colónias.

Ontem como hoje, para as sedentas criancinhas eram os presentes o êxtase da grande festa. Lembro-me de alguns que me marcaram como um Mercedes Dinky Toys, que especialmente para mim, o meu pai pintou de preto e verde para satisfazer o meu capricho de ter um Táxi “como os verdadeiros”. Recordo também um pequeno “transístor” (rádio a pilhas) revestido de cabedal castanho, oferecido pelo meu padrinho e avô, donde eu ouvi as minhas primeiras canções, o “Quando o Telefone Toca” e os “Parodiantes de Lisboa”. E num qualquer Natal mais próspero lembro-me de ter recebido dos meus pais uma enorme caixa de Mecano, um jogo de construção que fez as minhas delicias durante meses…

E depois havia o chocolate quente na Avenida, cheia de primos, sonhos e outros fritos. E havia o acordar tarde e estremunhado já em Campo d' Ourique, para com os meus irmãos acorrermos estonteados ao nosso sapatinho junto ao presépio... onde como por magia já lá estava devidamente deitado nas palhinhas o Menino Jesus.

E ao final do dia, com uma réstia de preciosa energia, ainda íamos jantar casa da minha avó paterna na Travessa do Patrocínio... para um derradeiro banho de festa, de tios e de outros tantos primos...

O dia seguinte era uma ressaca feliz. Depois, restavam ainda uns dias de férias para empenhadamente brincar com os meus irmãos e com tantos e brinquedos novos. E para numa ida à matinée, a ver um filme de Walt Disney, estrear umas meias de lã, ou uma camisola nova tricotada pela minha mãe. E por esses dias, com a minha curiosidade endiabrada, ia desventrando meticulosamente alguns dos mais fascinantes e plásticos presentes, de corda ou a pilhas, até serem depositados ao monte no grande caixote. Inúteis e abandonados.

Finalmente, depois da passagem de ano, o suspiro moribundo das festas, a vida retomava a normalidade, a rotina. Até a escola implacável, ensonada e fria recomeçar.


 


Ilustração 1 - António Balestra, Adoração dos Pastores, c. 1707. Óleo sobre tela, 564 x 261 cm,  São Zacarias, Veneza. Roubada daqui


Ilustração 3 - Travessa do Patrocínio nº 15 em 1898


 


Reeditado

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por João Távora às 18:23




Sobre o autor

João Lancastre e Távora nasceu em Lisboa, que adora. Exilado no Estoril, alienado com política e com os media, é sportinguista de sofrer, monárquico, católico e conservador. No resto é um vencedor: casado, pai de filhos e enteados, é empresário na área da Comunicação e do Marketing. Participando em diversos projectos de intervenção cívica, é dirigente associativo e colabora em vários blogues e projectos comunicação política e cultural.


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