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João Távora


Quarta-feira, 01.03.17

A guerra nas nossas ruas

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Rua de Stº Antº dos Capuchos em Lisboa

 

Antes de instalar o meu escritório em Cascais na centralíssima e animada Rua Visconde da Luz, ao lado do jardim com o mesmo nome, fui indagar sobre o eminente cascalense que se esconde por detrás do marido traído (para não usar uma terminologia vernacular) por Rosa Montufar Barreiros, amantíssima musa de Almeida Garrett, conhecida pela sua beleza lendária. Afinal não era apenas esse infortúnio que tornara célebre o oficial do exército liberal que nesta vila piscatória construiu uma casa de veraneio e plantou algumas árvores. Dos heróis derrotados dessa guerra civil, em matéria de toponímia sobrou para amostra a Bica d’el Rei D. Miguel, restaurada há pouco ali no Arsenal da Marinha, junto ao rio Tejo.

A verdade é que a maior parte das pessoas é indiferente à origem dos nomes das avenidas, praças, ruas ou fontanários das nossas terras. E no entanto, a toponímia das nossas cidades, vilas e aldeias esconde uma contenda encarniçada que com raras excepções só os vencedores admite, mesmo que eles tenham sido os mais requintados tiranos ou umas completas nulidades.

Está hoje cientificamente provado que o revisionismo de grande parte da toponímia nacional pelos republicanos de 1910 quedou-se como o seu principal legado. Em Lisboa, entre muitíssimas outras renomeações, a Avenida Rainha D. Amélia passou a chamar-se avenida Almirante Reis, o Cândido comandante da revolta que se suicidou espetando um balázio nos miolos dois dias antes da implantação da dita, convencido de que a revolução estava perdida – sem dúvida um grande feito. E temos o pobre Frederico Ressano Garcia, arquitecto das Avenidas Novas em finais do século XIX que dava nome a uma conhecida artéria que rasgava o planalto urbano em direcção ao Campo Grande: o seu nome foi descartado e a arejada avenida forçada a ser da República. Logo ali ao lado, a Avenida António Maria Avelar foi rebaptizada por avenida Cinco de Outubro. Se eu lá morasse tinha logo mudado de casa.

Bem pior é a quantidade de eminências pardas que empestam a toponímia das nossas cidades, como é o caso flagrante de Miguel Bombarda, vulgar psiquiatra e medíocre publicista republicano assassinado por um seu doente em vésperas da revolução de 1910, de que não se lhe conhece obra que se veja mas que bate Luís de Camões, Gil Vicente, Fernando Pessoa ou outra figura pública em qualquer lugarejo deste jardim à beira-mar plantado. Se um marciano aterrasse hoje numa cidade portuguesa pensaria que Miguel Bombarda e Elias Garcia (alguém lhe conhece feito ou obra?) são as mais gradas figuras históricas nacionais.

É curioso como na cidade de Almada se cruzam ruas Catarina Eufémia, Padre Américo, Aliança Povo-MFA, Dr. António José de Almeida, rei D. Carlos, 31 de Janeiro, José Afonso e Padre António Vieira e Sagueiro Maia. Mas a suprema ironia é a história do militante e resistente monárquico Saturio Pires, um bravo da Galiza com papel preponderante nas Incursões Monárquicas e na Monarquia do Norte, que depois do exílio atingiu o final da vida em grande miséria, e foi viver para uma habitação social atribuída por Salazar na… Avenida Defensores de Chaves. Definitivamente o António não era flor que se cheirasse.

Tenho para mim que os nomes de personalidades a atribuir a topónimos deveriam ser submetidos ao crivo do tempo, quer dizer, da história; e as ganas da homenagem dos seus partidários serem contidas por cem anos, ou mais, antes de se tornarem um factor de desvalorização imobiliária, que é o que acontece antes das pessoas comuns se esquecerem quem foi o pilantra com o nome gravado em determinada tabuleta.

Ninguém se incomodará com uma rua Gil Vicente, Rua Alexandre Herculano, Rua Eça de Queirós, Rua D. Pedro V, Praça Luís de Camões ou Calçada Marquês de Abrantes. Entretanto, diante da expansão urbana, deveríamos fazer como os antigos que sabiam dar nomes bonitos partindo do mérito dos próprios locais. Rua da Alfarrobeira, Rua das Gaivotas, Rua dos Mastros, Rua Navegantes, Rua do Poço Novo, Beco das Terras, Rua da Vitória, Rua da Saudade, Rua da Bela Vista, Rua do Alto do Moinho Velho, Rua das Gáveas, Rua da Horta Seca, Travessa da Espera, Rua da Misericórdia, Rua das Mercês ou dos Fiéis de Deus — tudo nomes que irradiam encantamento e que, por isso, estou convencido, têm o condão de ajudar a fazer dos seus habitantes pessoas melhores e mais felizes...

 

Publicado originalmente no jornal i

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por João Távora às 12:51

Segunda-feira, 19.12.16

O factor humano

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Foi na quinta-feira passada que me desloquei a Coimbra, ao Tivoli, por ocasião da festa de Natal do hotel em que se celebravam os 25 anos da sua abertura, na qual numa outra vida eu participei. Foram momentos comoventes em que revi colegas e amigos de longa data passados num almoço que reuniu todo o pessoal do hotel no restaurante habitualmente exclusivo para os clientes.

Poucas pessoas terão a noção do que significa pôr um hotel acabado de construir a funcionar, e menos ainda da importância que para isso tem o factor humano. Tão importante como o edifício, o seu requinte, design e comodidades, são os diversos grupos de pessoas que, como formiguinhas, trabalham com mais ou menos discrição 24,00hs sobre 24,00hs nas ribaltas do grende "cenário".  Movem-se pelas zonas de serviço como as cozinhas, copas, andares, serviço de quartos, economatos, manutenção, escritórios de reservas, contabilidade ou comerciais; sem falar das equipas que dão a cara perante os hospedes e visitantes nos balcões dos bares, das recepções e portarias, ou a servir às mesas, na reposição das comidas, etc., etc. Um hotel é um microcosmos composto por uma larga equipa de dezenas ou centenas de pessoas, heterogenia e interclassista, por uma questão de disciplina e eficiência muito hierarquizadas. Integrados em equipas, certo é que todos os colaboradores se movem por resultados exigentes e cruzam-se nas zonas de serviço, balneários, refeitórios e sala de convívio, partilhando refeições e momentos de lazer entre os turnos, como se o hotel fora a sua segunda casa, uma casa onde se passa muito tempo, se vivem emoções fortes, frustrações e alegrias, tensões que geram conflitos e cumplicidades que se fazem amizades, como se o trabalho fora uma inevitável segunda família.
A gestão dos recursos humanos é por tudo isto o maior desafio na boa administração dum hotel. É o factor humano que ao longo do tempo imprime uma “cultura” própria à empresa, que pode cativar ou repelir o cliente. Se o marketing determinado para uma marca define um certo "carisma", as pessoas que o aplicam, no relacionamento entre si e com o cliente, vão ser sempre determinantes e condicionar o resultado.

Foi a trabalhar nos hotéis que depois de passar por diversas funções e experiências descobri a minha profissão de Relações Públicas e mais tarde de Marketing e Comunicação em que hoje trabalho. A maior parte dessa experiência de vida adquiri-a ao serviço dos nos Hotéis Tivoli, uma marca com história e genuinamente portuguesa, com um carisma muito forte, onde o factor humano foi sempre valorizado.

A cadeia de Hotéis Tivoli têm origem na Pensão Tivoli na Avenida da Liberdade fundada no final dos anos 20 da associação entre os empresários José Cardoso e Joaquim Machaz. Estes dois empreendedores construíram uma marca incontornável na história da indústria hoteleira portuguesa. Depois de várias reformulações, a partir dos anos oitenta o grupo passou pelas mãos de diferentes accionistas até chegar aos dias de hoje em que o grupo hoteleiro foi resgatado  pelos tailandeses da Minor. Certo é que o seu principal capital sempre esteve nos empregados e na cultura que geraram ao longo de décadas. Por isso não foi surpresa para mim quando na quinta-feira em Coimbra me senti parte de uma grande família que não esquece os seus. Também eu não esqueço todos os amigos que lá deixei. 

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por João Távora às 16:36

Sexta-feira, 18.11.16

A Casa da Avenida

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A «casa da Avenida», como ficou conhecida na família, deixou em mim uma marca indelével, como que um pilar da minha personalidade. Como casa da Avenida entendo não só o primeiro andar direito do n.º 232 da Avenida da Liberdade mas todo um ambiente caloroso de afectos e brilho que lhe imprimiam os meus avós, tios e todo o pessoal que lá servia, que, a seu modo, fazia parte da família.

Com esta crónica, que serve de introdução a uma biografia ficcionada que estou a escrever sobre o tema, pretendo fazer uma homenagem aos meus avós maternos, João e Chunchinha, que, com a minha bisavó, foram os grandes obreiros dessa casa acolhedora e aberta ao mundo, onde se cultivava a antiga arte da boa conversa, elegante e inteligente, como refere Augusto Ataíde no seu livro de memórias Percurso Solitário (Bertrand, 2016) ou Leonor Xavier em Casas Contadas (Asa, 2009), sem descurar a edificação dum sólido e fecundo núcleo familiar de matriz cristã onde cresceram a minha mãe e os meus tios. Ainda hoje nas reuniões familiares com a minha mãe e os meus tios se testemunha esse legado tão nobre de amizade, humor e graça, qualidades que sem mascarar dificuldades que em todo o lado existem, são sementes de civilização e carácter.

Pensando bem, aquilo que mais me marcou na Casa da Avenida foi a liberdade que me era concedida, a mesma que, pressupondo sentido de responsabilidade, fez dos meus tios e da minha mãe pessoas inteiras. Pessoa de enorme carisma, a Avó Chunchinha tinha, de facto, uma forma de relacionamento que sempre me cativou, talvez porque nunca pressenti qualquer sinal da complacência com que habitualmente os adultos se relacionam com as crianças.

Para a forte idealização daquela casa que germinou em mim ao longo da vida, contribuiu não só a enorme saudade das estadias felizes que até aos 12 anos lá passei, sozinho ou com o meu irmão José — onde éramos queridos e obtínhamos mais atenção do que aquela que poderíamos ambicionar em casa dos pais, em que a concorrência era grande —, mas também a memória do espaço físico e do fervilhar de vida circundante, ao mesmo tempo cosmopolita e de bairro, que naquela época fruía naquela zona de Lisboa ocupada por uma mistura bem equilibrada de serviços, comércio e habitação.

A Casa da Avenida foi estreada em 1892 pela minha bisavó Valentina Leitão aos quatro anos, quando para lá se mudou com os seus pais e irmãos. O elegante prédio de cinco andares com direito e esquerdo, situado no quarteirão entre a Barata Salgueiro e a Alexandre Herculano, onde então terminava a Lisboa cidade, tinha acabado de ser construído, e dele reza a lenda de ter sido o primeiro a ter instalação eléctrica de raiz. Os apartamentos eram grandes e tinham um pé direito alto como há muito não se usa.

A casa dos meus avós era atravessada por um longo corredor que ligava a parte nobre, com duas varandas voltadas para a Avenida da Liberdade, à zona de serviço, com entrada pelo n.º 77 da Rua Rodrigues Sampaio. Entre as salas da frente e a generosa cozinha e os aposentos das minhas tias e das criadas nas traseiras, ficavam mais quartos e duas casas de banho, que para um prédio do século XIX era muito avançado. O edifício também ostentava um curioso sistema acústico de intercomunicadores, numas mangueiras com bocal de cobre nos extremos, entre a portaria no hall de entrada e o interior de cada fracção.

A fachada era discreta, mas icónica me parece hoje a altaneira e pesada a porta principal, circundada de alvenaria trabalhada, cujo chiar do amortecedor antecipava um estrondo que me fazia fugir degraus acima, assustado. As escadas de madeira eram muito largas e enceradas almofadadas por uma passadeira encarnada, ladeadas de mármore de um lado e por um elegante e sólido corrimão de madeira que terminava numa estatueta graciosa, e numas largas escadas de pedra com um corrimão de bronze que precediam um hall aristocrático com elegantes frescos.

Vivia intensamente as minhas estadias naquele extenso mundo de descobertas e de liberdade. Se naquele andar tão soalheiro a vida fervilhava logo pela manhã cedo na área de serviço com os afazeres domésticos das empregadas, a chegada do barbeiro que vinha escanhoar a barba do Avô João, do padeiro, do marçano, a mulher-a-dias que esfregava ou puxava o lustro ao chão encerado, a Celeste que saía para a Praça a fazer as compras; a avó Chunchinha acordava mais tarde para, ainda deitada, me premiar com vinte-e-cinco tostões para um gelado com que me punha feliz a andar para a pastelaria Smarta. Depois, uma visita à sala verde onde se sentava a Bisavó Valentina (Avó Tina, como lhe chamávamos) a fazer crochet, dava direito a ouvir histórias, de desventuras de outros tempos que ela tão bem sabia contar, como aquela dum criado brasileiro dos seus pais que se suicidara para não ir para a guerra ou das escaramuças entre republicanos na Avenida, que obrigavam a família a deitar-se no chão do corredor para se protegerem de uma eventual bala furtiva…

Aos almoços uma ementa variada era servida na sala de jantar pela Celeste, sempre bem fardada — e como eu gostava daquela feijoada à brasileira, receita que desconfio tivesse sido importada pela minha Avó Tina. Depois do almoço abatia-se um profundo silêncio que só era quebrado pelas minhas solitárias brincadeiras com carrinhos de brinquedo no chão, pelos caminhos desenhados nos grandes tapetes, quando não tinha a sorte de ir com a Avó Chunchinha à baixa, para comprar algum prato de faiança «cavalinho rosa» para completar o serviço, ou bolachas Araruta e uma mistura de café na casa Pereira ao Chiado.

À noite, o jantar era quase sempre um momento de exaltação familiar, com a mesa cheia e boa conversa, quase sempre com uma ou outra visita de parentes ou amigos da casa, sempre acolhedora, iluminada por grandes lustres que irradiavam festa. Com sorte, os meus primos eram visita e logo armávamos em loucas correrias pelo interminável corredor, a desafiar o António na cozinha, que era noivo da Celeste. Isto até nos mandarem parar por causa de uma queixa do mítico Senhor Cruz, um vizinho muito doente que eu desconfiava ser apenas um pretexto para nos acalmar. Lembro-me do meu avô sempre elegante, com um lenço branco a sair do bolso do casaco, à conversa com os meus tios à volta duma pequena mesa de bar, servindo-se Whisky com gelo e Água de Castello.

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Ao final da noite, com a casa já toda a dormir, aquele corredor de luz fosca parecia-me assustador de atravessar, com os murmúrios vindos dos saguões que soavam da sombra que se adensava lá mesmo ao fundo, que hoje acredito serem choros e lamentos das vítimas de histórias sombrias, acontecidas ali bem perto na rotunda ou lá em baixo ao Terreiro do Paço, e que marcaram de forma tão dolorosa a vida dos meus antepassados naquela casa.

As festas eram magníficas, não por luxos, que raramente os havia naquela casa, mas pelo empenho e generosidade dos donos da casa. Todas as festas do calendário eram assinaladas na Casa da Avenida, sempre cheia de amigos, tios e primos: do Carnaval com partidas para todos os (des)gostos, à Páscoa com ovos de chocolate para todos os netos, mas principalmente a Ceia do Natal, servida depois da Missa do Galo na igreja de São Pedro de Alcântara, com peru, chocolate quente, sonhos e muitas outras delícias da época, que comíamos depois de abertos os presentes que se amontoavam junto à árvore de Natal. A cor do papel de embrulho identificava a proveniência.

Com pouco mais de sete anos dispunha-me, afoito, a explorar as redondezas com umas moedas no fundo do bolso dos calções. Começava pela tabacaria Glória, esquina da Travessa do Enviado de Inglaterra com a Rua de Santa Marta, onde podia cobiçar uma revista do Patinhas ou um carrinho Matchbox, para o qual o meu dinheiro não chegava. Descia então pela fervilhante Rua de Santa Marta, zona de serviço das casas burguesas da Avenida, passando indiferente pelas mercearias, talhos e «lugares» de frescos, por sapateiros, relojoeiros e casas de penhores, até chegar à Rua de São José, onde dava meia-volta, para aí estoirar o dinheiro num qualquer pechisbeque de plástico com rodas numa qualquer drogaria mixuruca. Voltava então a subir a infindável Rua de Santa Marta, com um apetite cada vez mais aguçado, arrependido de não ter guardado o dinheiro para comprar um bolo.

É importante uma palavra sobre o pessoal doméstico, que de facto era parte da família: tenho consciência que nesse tempo, final dos anos sessenta princípio dos anos setenta, se vivia o final de uma era e o começo de uma outra, com uma radical democratização do consumo e uma inflação que tornava proibitivos os ordenados das empregadas. Foi a época do advento dos apartamentos pequenos, a revolução dos electrodomésticos, a vulgarização dos restaurantes e do pronto-a-vestir que substituíam uma ancestral organização doméstica. Na Casa da Avenida ainda tive tempo de me afeiçoar a figuras de referência como a Conceição costureira e a Celeste. Muitas tardes passei eu a brincar na companhia da Maria da Conceição, que me contava histórias dum universo misterioso que eram as suas origens humildes, de um irmão que perdeu em criança. E era a Celeste que me vestia em pequeno, e que eu tanto gostava de acompanhar às compras ou de ficar a vê-la moer a carne no passador, ou dobrar em meias luas a massa de rissóis. Pensava na minha ingenuidade ser ela minha amiga para a vida, e estranhei muito que tivesse desaparecido sem deixar rasto depois do 25 de Abril, supõe-se para emigrar com o seu António. Há pessoas que não suportam a dor de uma despedida.

Com a morte da minha Bisavó em 1973, os meus avós não puderam renovar o contrato de arrendamento, e no ano de todas as revoluções viram-se obrigados a mudar-se para um pequeno andar — ironia do destino — na Calçada Marquês de Abrantes. Apesar da mobília e da decoração que remetiam para a memória da Casa da Avenida, num país em convulsão e já doentes, foi com muita dificuldade que os meus avós enfrentaram a nova realidade. As mortes dos meus queridos avós ocorreram espaçadas de poucos meses pouco tempo depois, desconfio que por desistência, na dificuldade se adaptarem a mais uma nova era.

Será que, apesar dessa derradeira amargura, tiveram alguma vez a noção do extraordinário legado que nos deixaram? Prometo contar-vos esta história em que estou a mergulhar com todo o detalhe e verdade que me for possível.

A estes heróis não devemos nada menos que isso.   

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por João Távora às 19:47

Quinta-feira, 06.10.16

Rua da Saudade (parte i)

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Esta é uma história de tempos felizes. Quando logo a seguir ao 25 de Abril eu arriscava dar uns passos para mais longe do refúgio familiar, com um espírito inocente e deslumbrado com as promessas da vida ao virar da esquina e ainda distante de perturbações existenciais que prenunciam a adolescência. Curioso como é mais fácil reavivar memórias luminosas quando estas estão ligadas a uma casa, a um determinado sítio. E todos sabemos que a saudade vive nas casas onde fomos amados, cheias dos nossos fantasmas, que às vezes somos nós próprios noutras eras, e que só as abandonam quando são demolidas ou nós as abandonamos pela morte separados.

A casa de Agath V. Radey, de quem por estes dias se celebram cem anos do nascimento, apesar da modéstia e degradação, permanece com uma estranha dignidade, se não altivez, ali a dois passos da Praia dos Pescadores na Baía de Cascais, numa ruela de pedra calçada que por ironia do destino se chama Rua da Saudade. O mesmo destino que me faria voltar à Vila de Cascais onde passei tempos soalheiros num estúdio em frente ao Teatro Gil Vicente antes de casar. O mesmo destino que me fez abrir o escritório não muito longe da Avenida Emídio Navarro, a dois passos da Parada dos nossos saudosos reis, na casa que viu nascer a minha mãe, onde os meus avós passavam a longa época estival à procura de uma bonança mais salubre que a ebulição cosmopolita da Avenida da Liberdade. Todos tomamos uma geografia em legado que redesenhamos pela vida fora.

Agath V. Radey era Princesa de Auersperg e nasceu em Goldegg no Estado da Baixa Áustria em 1916. Chegou a Cascais, desta feita para ficar, com o seu filho Joko, em 1948, depois se ter deixado seduzir anos antes por esta vila. Aqui, no extremo ocidental da Europa, nesta terra de paz e segurança, decidiu sublimar os horrores que presenciara, escapando às ruínas deixadas pela II Guerra Mundial, que levara para o céu o seu marido, Rudolf Georg von Radey, morto pelo exército soviético.

A casa para onde veio morar tinha um pequeno quintal, e nele viviam muitos gatos que falavam com a Tia Ágata, que os tratava com imenso carinho, talvez aquele que já não fosse possível dar ao seu filho, já homem feito, que se escondia, reservado, depois do trabalho, numa sala de música que albergava a maior colecção de discos de música clássica que alguma vez eu vi. Já na altura me fascinavam os sistemas de som, e era com alguma frustração que me sentia indesejado naquele pequeno templo de melomania. A Tia Ágata tinha uma silhueta magra e amarrotada pela vida, e eu pressentia-lhe impressos nos olhos silenciosos que me observavam ao jantar, mil imagens por ela vividas… castelos encantados, como aqueles, magníficos, que se agarram às encostas do Reno, soldados a avançar barulhentos com espingardas na mão, marchas sem rumo de refugiados órfãos das suas pátrias, bombas a cair como chuva impiedosa, suja de lama, de fumo e de pólvora, capaz de submergir as memórias mais felizes. A Tia Ágata era ágil e tinha um sentido prático que me parecia extraordinário: por vezes acompanhava-a ao supermercado Jumbo (uma novidade na época) na sua carrinha Morris Mini de lata cinzenta, consumida como os tachos que se penduravam na parede da cozinha, cheia de gatos interesseiros que me fitavam em alemão.

Não sei como se estabeleceram os laços entre as nossas famílias, mas sei que naquele Verão de 1974, quando em minha casa ainda morava esperança, fui convidado a passar uma temporada naquela residência da Rua da Saudade. Fiquei alojado num pequeno quarto ao lado do sótão onde a Tia Ágata pintava. Lembro-me que os lençóis eram de linho fresco e que da janela se ouviam os pescadores a desafiar o mar e as gaivotas que voltavam da faina com ventos de maresia.

Os dias, então, passava-os na praia com os seus sobrinhos que tinham a minha idade, o Alexandre e a Ágata, que moravam no outro lado da Baía, ao cimo da rua curva, quase ao pé da Igreja da Assunção. A pequena Ágata tinha em comum comigo a curiosidade por todas as marcas, todos os modelos, e potência de todos os carros com que nos cruzávamos nas ruas da vila de Cascais ou que saíam nas revistas da especialidade. E tinha um irresistível charme quando falava com o irmão aquele arrazoado que é para mim a incompreensível língua de Goethe. Os três gostávamos de música pop e aquele Verão ficou-me para sempre ligado às cantigas do disco de Paul McCartney “Band on The Run” que ouvíamos repetidamente. Uma ou outra vez, as noites mornas convidavam-nos à praia dos pescadores e aquelas fizeram-se umas semanas inesquecíveis, feitas de praia e de passeios mágicos, sem grande história como são sempre os tempos felizes.

De regresso a casa, enquanto o ódio começava a ser gritado em grafitis e vociferado em manifestações pelas ruas da cidade, enquanto as armas se acicatavam bêbedas pelos quartéis, ainda empreendi umas quantas visitas ao Alexandre e à Ágata com paragem obrigatória na Rua da Saudade: a viagem a partir de Alcântara era ainda mais emocionante quando tinha a sorte de arranjar um estratégico lugar sentado em segunda classe. Aproveitava para me perder no imobilismo do horizonte, que tanto contrastava com a velocidade a que a costa se sumia, e  para ver o rio Tejo fugir mansamente para Lisboa pouco antes da carruagem mergulhar nas águas, ali antes de se chegar ao Bugio. Claro que os comboios de agora já não têm 2ª Classe e limitam-se a passar em seco rente à rebentação. Chegado ao fim da linha, atravessava ansioso as ruelas emaranhadas de Cascais, aproveitando com os meus amigos o dia que se toldava cada vez mais depressa.

Vieram as primeiras chuvas, as rotinas das aulas começaram e Cascais tornou-se uma terra cada vez mais longínqua, eu já só lá chegava por cartas de letra bem desenhada, e os tempos escureciam enquanto os cravos murchavam nas libertárias G3 e o poder entornava-se na rua, excitada, assustada e a espumar de raiva. Antes de chegar o Verão soube da partida da pequena Ágata e do Alexandre com os pais para a Áustria. Gato escaldado de água fria tem medo.

(Continua aqui)

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por João Távora às 21:51

Quinta-feira, 06.10.16

Rua da Saudade (parte ii)

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Há poucos meses, numa inauguração no Museu dos Coches, fui interpelado no elevador pelo R. que, depois de confirmar a minha identidade, simpaticamente se apresentou e me informou que era possuidor de um retrato meu pintado por Agath V. Radey. Foi quando uma cascata de sentimentos e memórias se desprendeu do meu arquivo de histórias – lembrei-me daquele sótão de pintura da Tia Ágata e do quadro que cheguei a ver rascunhado pelo traço do carvão. Soube então do tributo que a família está a preparar por ocasião do seu centenário natalício no mês de Outubro. Soube como Agath V. Radey ainda chegou a ser homenageada no final dos anos 80, uns anos depois da sua morte, com uma exposição organizada pela Câmara de Cascais de algumas das suas mais significativas obras no Museu Conde de Castro Guimarães. Do seu amor a Cascais e às gentes simples com quem se cruzava, a uma vida a que se entregou com o desprendimento que só uma princesa sabe ter, como se fora serviço. Lembrei-me outra vez do seu olhar azul, cansado, com que me velava à mesa de jantar – a Tia Ágata obedecia a uma estranha regra de não jantar – da sua esmerada gelatina recheada de frutas frescas. Lembrei-me de como se movia ágil, com passo estugado, pelas ruas da Vila que adoptou, pela qual foi adoptada e onde morreu em 1983. Lembrei-me como guiava expedita o seu Morris Mini como se fora um Kart, que circulava ruidoso entre os barcos e as redes dos pescadores, ou de como os caminhos da vida são tão sinuosos quanto imprevisíveis, e podem confluir numa rua chamada Saudade. E de como um Verão mágico como aquele não ficou só esculpido na minha saudade, mas afinal está testemunhado em cores vivas numa tela, prova materializada, visível, palpável, dum tempo em que, como criança que pôde ser criança, tive tempo de ser feliz.

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por João Távora às 21:47

Domingo, 07.08.16

A Ponte Sobre-o-Tejo

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Foi um ano depois de eu nascer que se iniciaram as obras de construção da Ponte Sobre-o-Tejo em Lisboa. Tenho difusas reminiscências de atravessar o rio de Cacilheiro, no velho Hillman do meu pai atafulhado de irmãos, e memórias mais sólidas de atravessarmos a ponte no Volkswagen novinho, que o meu pai jurava também ser o meu carro quando eu chegasse aos pedais. Nesses tempos de barbárie e obscurantismo, demorávamos mais de quatro horas a chegar a Milfontes com uma bagageira no tejadilho e a mãe com a minha irmã bebé ao colo no lugar do morto, e nós os quatro restantes no banco de trás, metade do caminho a implicar uns com os outros. Uma autêntica aventura do faroeste.

Curioso é hoje verificarmos o embaraço mal disfarçado com que a Comunicação Social assinala os 50 anos da inauguração da ponte, que para infortúnio da narrativa oficial nasceu oito anos antes do tempo. Desconfio que nas redacções subentendem o caricato que é celebrar 50 anos de uma obra rebaptizada com uma data histórica posterior à sua construção. Às tantas dão-se mal com a história que confundem com propaganda, um guião de lugares comuns, atafulhada de esqueletos nos armários, pois há que evitar a complexidade para não confundir as cabeças volúveis das gentes. Ou simplesmente “há que ignorar”, é mais isso. Hoje uma tal de Katia Delimbeuf assinala num pequeno artigo na revista do Expresso que: “às 15,00hs, passaram os primeiros carros do povo, que a rebaptizou após a revolução de 1974”. Claro que a coisa vinda de uma jornalista é mentira; se fosse da pena dum poeta seria apenas uma tirada de mau gosto. Na verdade o povo nunca seria chamado a baptizar a Ponte Sobre-o-Tejo (como sabiamente sempre se lhe referiu), tanto mais que a coisa poderia dar para o torto, como se verificou aquando daquele desgraçado concurso televisivo sobre “Os Grandes Portugueses”.
Talvez interesse pouco relembrar neste dia de comemoração que a Ponte Salazar foi construída tarde de mais, e notoriamente subdimensionada. A maior parte das recordações remotas que guardo dos seus primeiros anos referem-se a épicos engarrafamentos que enfrentei, a ir ou a vir da Costa da Caparica, que se repetiam diariamente às horas de ponta e especialmente no Verão, só verdadeiramente mitigados aquando da construção da Ponte Vaco da Gama mais de 30 anos depois. Desculpem-me o mau jeito, mas a ponte Salazar também é uma parábola sobre a nossa incapacidade de planeamento a longo prazo. Um embaraço apenas comparável ao expediente das revoluções que nos últimos duzentos anos nos trouxeram a este triste destino.

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por João Távora às 16:07

Sábado, 06.08.16

Não sou de modas…

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Chegados à meia-idade conquistamos uma visão em perspectiva que nos revela a verdadeira importância das modas. Pela minha parte até chegar à da barba de três dias, em matéria de pilosidade masculina, já testemunhei diferentes usos que se banalizaram na paisagem de cada tempo: do cabelo cortado à tijela ou “à Beatle”, à cabeleira e barba hirsutas, comprida até ao peito a encobrir uma fácies cândida “imagine all the people”, passando pela recuperação nos anos 80 da sobriedade insinuante de Morrissey com poupa à James Dean, estou em crer que, com mais ou menos ombros e lantejoulas no casaco, mais ou menos justas as calças, cada moda cumpriu a seu tempo o propósito de alimentar a vital ilusão de corte ou renovação dum sentido existencial de cada geração emergente, que organicamente se impunha com uma assinatura própria à espuma dos dias imparáveis. O problema é que, como bem sabemos, a natureza humana e as suas circunstâncias são realidades essencialmente estáticas. Sobre este complexo assunto, o povo na sua sabedoria arranjou um adágio que mete moscas e excremento. 

Curioso é o burlesco que nos soa um guarda-roupa, por exemplo, quando revisitamos uma antiga (?) série, em voga dos anos oitenta, como a do muito British e europeu “Inspector Morse” ou num ataque de revivalismo revisitamos a sonoridade e paisagem do festival Woodstock, afogada em toneladas de Canábis, pilosidade e devaneios idealistas, daquela miudagem que acreditava sinceramente que a juventude era algo mais do que um efémero acidente do seu imparável processo de envelhecimento. E quanta grosseria e boçalidade não vivia disfarçada por uns óculos escuros, longas barbas, lenço na cabeça e calças à boca-de-sino. O tempo se encarregará de fazer esquecer estes egos estéreis no anonimato da demografia e das estatísticas.
Estou em crer que a moda torna-se num verdadeiro problema quando é motor da política, subjugada ao jogo mediático na conquista das massas consumidoras e democráticas; quando ela se move e se motiva embalada pela espuma dos dias, com causas vácuas de que os nossos vindouros troçarão impiedosamente. Julgo que é exigível às lideranças partidárias, jornalistas e comentadores profissionais um esforço suplementar para a produção de um discurso mais elaborado e perene. Para tanto basta não levantar demasiado os pés da realidade e das prioridades que ela reclama, tendo em conta o bem comum. Que um jornal ou noticiário de hoje não nos pareça daqui a 30 anos um anacrónico guião de um filme pimba.

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por João Távora às 17:14

Terça-feira, 14.06.16

Ir às compras

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 A Praça de Campo de Ourique 

 

Somos feitos também com memórias de acontecimentos e experiências banais, que é do que trata esta crónica. Foi quando eu era pequeno que começaram a aparecer em Lisboa os primeiros supermercados, uma revolução enorme na forma de comercialização dos mais variados produtos de uso doméstico, principalmente alimentares, que assim eram disponibilizados em grandes espaços fechados, num sistema de self-service, num ambiente limpo e de arrumação racional onde qualquer pessoa de qualquer condição social se sentia convidada a entrar. Ainda bastante pequeno, lembro-me de algumas incursões com o meu pai, que gostava de cozinhar e era um bom garfo (nos dias de hoje seria chamado “gourmet”). 

Mais comum nesse tempo eram as mercearias, pequenas e obscuras lojas o mais das vezes contiguas à residência do proprietário, que tinham um pouco de tudo, desde tabaco, detergente ou feijão seco, que dada a proximidade e familiaridade com o freguês, atendiam fora de horas por especial favor, concediam crédito e carregavam nos preços.
Mas do que guardo melhores recordações de então é das idas ao Mercado com a empregada da casa dos meus Avós. A “Praça” como lhe chamávamos, algo que os meus filhos simplesmente não conhecem, era um género de feira num gigantesco recinto semifechado que abria todos os dias menos à segunda, onde se vendiam além de toda a sorte de produtos domésticos, alimentos frescos como carne, peixe e legumes, frutas e flores, comercializados em longas alamedas de bancas pelas vendedeiras que chamavam os clientes, quase sempre donas de casa ou empregadas de servir, tratando-as por “minha querida” e “meu amor”. Então, eu acompanhava a Celeste, empregada dos meus avós, fascinado com os coelhos pendurados a pingar sangue, os pombos, patos e galinhas vivos em grandes caixotes, pelas pescadas de olhos esgazeados e bocarra aberta, molhos de carapaus rebrilhantes, o assustador tamboril, a fruta e os legumes da época, sempre na esperança de ganhar um chupa, um gelado ou chocolate de recompensa por bom comportamento. Um dia regressei a casa radiante premiado com uma jovem rola viva que por uns dias cuidei extremosamente na varanda que dava para a Rodrigues Sampaio… até o fabuloso e ingrato bicho ensaiar um voo e desaparecer nos telhados vizinhos para meu enorme desgosto. A dureza da vida também se aprende com os abandonos, e esse terá sido um dos primeiros de que me lembro.
Tenho ideia que havia um mercado destes em cada bairro da cidade e lembro-me de conhecer pelo menos os de Picoas, da Alexandre Herculano e o de Campo de Ourique onde era a casa dos meus pais. O mais curioso é como o sistema exigia à dona de casa possuir não só uma intuição especial para reconhecer a qualidade e frescura dos alimentos e não se deixar enganar nas medidas e nos pesos – na altura poucos produtos eram embalados e alguns, como os frangos ou os patos era usual serem mortos e depenados ao momento – como ainda ter a arte de regatear os preços com firmeza e compará-los entre as diferentes bancadas vizinhas. Tratava-se de uma importante contenda em que as mais experientes donas de casa disputavam autênticos troféus para no final exibirem com vaidade às vizinhas e com eles premiarem a família na mesa do jantar… como um caçador ufano da sua presa.
Vistas bem as coisas, o facto é que me parece que a realidade muda sempre mais na forma do que no conteúdo e hoje os supermercados, maiores ou mais pequenos, recriam o jogo das compras através de intrincadas promoções e cartões de descontos em que os fregueses mais sabedores podem alcançar uma semelhante sensação de glória na poupança de muitos euros. Irónico é constatarmos como, para o melhor aproveitamento dos descontos e conseguirmos uma dispensa preenchida com produtos mais baratos, temos não só que ser inteligentes como ter uma carteira bem recheada. Quem disse que a vida era justa?

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Vasco Santana no papel de merceeiro  

 

Fotografias Roubadas daqui e daqui.

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por João Távora às 11:14

Sexta-feira, 27.05.16

Estantes vazias

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Vivemos tempos confusos por estes dias não só na política. Acho que podemos afirmar que experimentamos quase diariamente progressos tecnológicos que alteram de sobremaneira o nosso modo de vida e a percepção da realidade. A sofisticação da computação, a era digital na internet de banda larga, a desmaterialização da informação, a vertiginosa sensação de protagonismo e liberdade por via da auto-edição nas redes sociais, colocam-nos desafios e incógnitas que não deveriamos subestimar. Pela minha parte, o meu profundo apego aos processos analógicos de registo de informação, como o livro, o jornal em papel, a gravação sonora em vinil e noutros suportes físicos, não me impediu de nos últimos 30 anos acompanhar com fascínio a evolução na tecnologia que aqui nos trouxe, pelo que julgo que isso me concede alguma imparcialidade na abordagem que aqui pretendo fazer ao fenómeno da “estante vazia”. 

Se até há bem pouco tempo, a análise duma estante da casa de alguém nos daria impressões precisas sobre o seu perfil sociocultural, na linha do “diz-me o que lês, dir-te-ei quem és”, a tendência cada vez mais consolidada para a desmaterialização de bens culturais como o livro e o disco em informação digital invalidam hoje em dia essa forma de interpretação: chamemos-lhe o fenómeno das “estantes vazias” que no meu entendimento contêm outras ameaças bem menos fúteis do que essa. Se é verdade que na actualidade um pequeno dispositivo pode conter em si uma grande biblioteca com toda a sorte de obras literárias, além de intermináveis horas de registos  musicais de toda o género com razoável qualidade na reprodução, o facto é que esta forma de consumo consolidou uma relação, já de si pessoal, numa dinâmica atomizadora da nossa sociedade - as pessoas não ficaram mais livres, apenas mais sós e desorientadas nas suas escolhas.
Daí que as prateleiras vazias, fruto duma mudança radical no consumo destes bens (cujo valor de facto reside no conteúdo e não no suporte), signifiquem uma quebra numa antiga tradição em que essa informação era legada graças à sua forma física. Ela estava disponível e palpável nos diversos ambientes em que todos crescemos e formámos a nossa personalidade. Por sorte minha cresci e desenvolvi-me rodeado de livros, jornais e revistas, que folheava atraido pela curiosidade, tomando assim contacto com realidades improváveis; já para não falar da muito boa música, cujo manuseamento dos discos (com capas atraentes e informativas) e a sua audição mais ou menos voluntária (o gira-discos ecoava pela casa fora) me influenciou o gosto e sofisticação de ouvinte.

Foi assim que os meus filhos cresceram, também eles rodeados de estantes cheias, discos, livros e jornais entreabertos que usufruíram nos espaços comuns da casa onde também partilhámos filmes, alguns dos quais estou certo permanecerão sempre como referência para eles. Como se reproduzirá este processo de transmissão de valores (porque é disso que se trata) nestes tempos de individualismo radical dos auscultadores e do ‘smartphone’ em que cada um constrói a sua biblioteca ou playlist – a lógica da ‘playlist’ no streaming digital é em si um tratado - num aparelho de bolso é para mim um enigma.

É por isto que eu receio que o fenómeno das estantes vazias deixará de denunciar uma pobreza cultural para significar um retrocesso civilizacional. Ou estarei enganado?

Crónica inspirada no artigo "Our (Bare) Shelves, Our Selves" de Teddy Wayne e publicada originalmente aqui

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por João Távora às 11:45

Terça-feira, 12.04.16

Lisboetas e não

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Não, a maioria dos habitantes de Lisboa não são lisboetas. Até podem gostar da cidade um bocadinho como sua, mas não são de cá: têm as raízes noutras paragens, sempre idílicas, que cultivam em visitas periódicas donde chegam como se viessem do paraíso. Na recente apresentação do seu livro Alentejo Prometido — uma pungente declaração de amor às suas origens —, Henrique Raposo lamentou o facto das suas filhas «se estarem a transformar em lisboetas». Foi essa ingratidão que inspirou esta crónica. De facto, como é sobejamente conhecido, a maioria da gente de Lisboa não é lisboeta. Em Lisboa, uma cidade de passagem e acolhimento, a maioria daqueles que nela actuam diariamente não nasceram aí, e boa parte deles recolhe ao fim do dia ou ao fim-de-semana aos seus lugares originários.

Um lisboeta não é, tão-pouco, aquela figura criada pelo imaginário tripeiro de Pinto da Costa ou Rui Moreira, que vive entrincheirado no Terreiro do Paço a conspirar contra a «província», de que se afasta como filho ingrato. O lisboeta que se preze enquanto tal, não tendo de ser necessariamente um «puro-sangue», como eu, terá no mínimo que ter nascido na cidade e já não possuir uma «terra» dos seus ascendentes onde ir baptizar os infantes num fim-de-semana prolongado, ou regressar periodicamente nas férias para reencontrar os seus familiares. Quando era pequeno assisti não poucas vezes a diálogos entre guarda-freios da Carris sobre idas à «terra» tratar das vinhas ou trazer sacas de batatas, mas para um lisboeta de gema, a nostalgia do regresso não o desloca ao Minho ou ao Alentejo, mas lança-o directamente para o vasto mundo imenso que da Torre de Belém se vislumbra oceano adentro. Enquanto isso não se realiza, vai a Sintra com a família visitar a tia velha, e de caminho traz umas queijadas.

Também importa delimitar geograficamente Lisboa até à circunvalação da cidade. Um lisboeta não é de Massamá, Odivelas ou do Estoril aprazível para onde vim morar, mas que sentirei sempre como um certo exílio, ainda que dourado, com a praia quase à porta.

Como é bom de ver, não sobra muita gente a quem chamar lisboeta. Mas esse reduzido número de pessoas tem um traço tão marcado quanto inédito: ama a sua cidade, o seu bairro e as suas ruas com a profundidade intensa dos fadistas e poetas – também eles, não obrigatoriamente lisboetas...

Foi na tropa que entendi a importância da origem geográfica de cada um: no quartel, todos os meus companheiros me perguntavam de onde eu provinha e identificavam-se pela sua terra de nascimento, cujo nome muitas vezes era adoptado como alcunha. Filho, neto e bisneto de lisboetas, também eu fui aí nascido e criado em Campo de Ourique, «a minha aldeia». O meu avô paterno, engenheiro civil, ajudou a construir a igreja de Santo Condestável. Tem um jardim com coreto, um mercado agora muito em voga (a que chamávamos praça), uma escola primária e outra do ciclo (que frequentei), e um odor inconfundível, que respiro com deleite, sempre que lá vou. Irónica, digamos assim, foi a «ascensão» da família do meu pai que me trouxe aquele planalto da cidade: do Palácio de Santos, hoje Embaixada da França (onde os meus bisavôs ainda moraram), à Calçada da Estrela, e depois à Travessa do Patrocínio, onde o meu avô, acabado de casar, se fixou depois de mais de duas décadas exilado pela república, até ao generoso 3.º andar em Campo de Ourique onde cresci, passaram menos de 100 anos – é o que se chama subir na vida!

Em Campo de Ourique, e seu redor, viviam muitos dos meus primos, tios e amigos da escola, e era daí que o autocarro n.º 9 saía para a Avenida da Liberdade, onde viviam os meus outros avós. Ainda conheci e ouvi histórias da minha bisavó Valentina que, na primeira década do século, precocemente viúva, foi ocupar o 1.º Esq.º do prédio 232, a um quarteirão da Rotunda. Da varanda, assistiu ela às escaramuças que nos impuseram a revolução republicana.
Lisboa corre-me nas veias, portanto.

Podemos distinguir um lisboeta na rua pelo seu olhar blasé de quem já viu o outro lado da Lua: normalmente veste com sobriedade, tanto mais que não vai em modas antes delas estarem já bem experimentadas e quase em declínio. No fundo, o lisboeta de Lisboa é filosoficamente um monárquico, descendente de fidalgos arruinados, republicanos desenganados ou anarquistas desiludidos, acalentando sempre orgulho na sua ascendência, seja de fadistas, professores primários, jornalistas ou de modestos lojistas. Desconfiado de grandes aparatos, e principalmente da alegria dos vizinhos que vão e vêm das festas «na terra», dos seus filhos com demasiados piercings e tatuagens e filhas de cabelo azul-eléctrico, têm nos seus genes a secreta certeza de que as revoluções, as suas ou as dos adversários, nunca serviram para nada; que a vida é o que é. Mas o bom lisboeta toma sempre partido e não recusa uma boa discussão de política no café do bairro, e se for necessário cita o seu antepassado de que mais se orgulha.

O lisboeta não esconde o ensejo de um emprego estável, na função pública de preferência, à moda das rendas novecentistas enviadas da província, que lhe permitiam pagar o alfaiate e umas compras num Chiado afrancesado. Gosta de jardins, cafés e esplanadas para ler jornais ou namorar, e conhece os vizinhos com equidistância; é católico, agnóstico ou ateu com a determinação de quem optou em pleno discernimento, que na capital as disputas existenciais têm séculos de discussão, nas cortes, no partido, no clube recreativo, no parlamento e na taberna.

Os lisboetas pronunciam um português mortiço e tendem a omitir as vogais abertas, talvez para poupar energia, talvez por timidez. Distinguem-se dos vizinhos por um entusiasmo reservado, pelo andar mais lento e por um sorriso triste de quem imaginou ter herdado fortunas indivisas dos tetravôs das índias. O lisboeta, para lá das «questões futebolísticas» (às quais já não dá grande valor), não entende o rancor nutrido pelas gentes do Porto, afinal uma cidade bonita e acolhedora — e onde nasceram tantos progenitores de futuros lisboetas.

Depois, há que reconhecer que um lisboeta não se distingue pela sua cor dos olhos ou da pele: há-os com as mais variadas origens e culturas. No entanto, reconheço que há uma ameaça na «consanguinidade» lisboeta. Para não perderem o brilho nos olhos, os alfacinhas deverão abrir-se ao casamento com forasteiros — foi o que fiz. Já os meus filhos cresceram em São João do Estoril e não entendem a mística da grande cidade, que sentem como hostil e suja, e desconfio que a acham tão velha e fora de moda como o Pai, que é um monárquico militante, se atafulha em jornais, livros e discos de vinil e lhes conta histórias de outros mundos. Talvez um dia, por um qualquer acaso, retornem para lá viver e entendam a alma da minha cidade e os tiques deste inveterado lisboeta que também lhes está no sangue.

Acontece que os lisboetas nasceram e cresceram impregnados de história, calcorreiam-na todos os dias através das ruas antigas, passeios puídos, prédios velhos e monumentos históricos com os quais se foram familiarizando diariamente, por osmose. Da rua do Arsenal ao Bairro Alto, das calçadas íngremes da Lapa aos escritórios centenários da baixa pombalina, da igreja de São Domingos à rua de Santa Marta, ao Hospital de S. José, do Largo do Chafariz de Dentro às ruelas de Alfama até à velha Sé de Lisboa, do fatídico Terreiro do Paço (onde mataram o Rei), da inevitável Avenida Almirante Reis que já foi Rainha D. Amélia, do Jardim da Estrela aos do Castelo, o lisboeta corporizou, sem dar por isso, o relativismo do momento, a estreiteza da modernidade e das suas disputas tantas vezes risíveis.

Mesmo habitada por tantos fantasmas, Lisboa tem uma alma extraordinária, um jogo de luz e sombras que é mágico. Com as suas colinas e ventos, renova-se de ar novo e empolgante todos os dias, ampliado pela animação daqueles muitos que chegam e nela se instalam, ou a visitam ocasionalmente.

É com este sangue novo, entusiasmo e muita ilusão que a cidade se reconstrói diariamente das cinzas. Lisboa só é o fim da linha para quem vem do Estoril. 

 

Publicado originalmente no jornal i

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por João Távora às 12:03

Segunda-feira, 30.11.15

A nova ordem

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Se os exames do primeiro ciclo provocam ansiedade e acentuam a discriminação das crianças desfavorecidas, o que dizer dos erros ortográficos? O meu filhote pequeno que o diga, as lágrimas vêem-lhe aos olhos sempre que lhe corrigimos um. A caligrafia, essa é uma causa perdida. Não será a escrita afinal um elemento opressivo da livre expressão e criatividade da miudagem, um obstáculo à sua afirmação entre iguais? Consta que alguns sistemas de ensino já adoptaram esta filosofia igualitarista, em prol da felicidade e bem-estar dos fedelhos. Como se a felicidade não fosse acima de tudo um dom ou uma aprendizagem empreendida por cada pessoa no seu interior justamente na superação das dificuldades. No mesmo sentido a “retenção”, uma designação benigna e simpática atribuída ao antigo “chumbo” que tanto pesou como ameaça nas cabeças de alunos cábulas como eu, há muito está em vias de ser banida como instrumento pedagógico. Porque não se lembraram ainda estas sumidades de libertar de vez a comunidade da repressão da matemática? Afinal é a aritmética a base ideológica da austeridade, e as contas de multiplicar a ferramenta preferida do capitalismo. Depois, o resultado exacto e indiscutível de uma conta de diminuir pode significar uma violência traumática para o inocente infante. Claro que os números podem servir sempre para a recriação da criançada, disponibilizados em peluche para serem apertados com muito carinho ou arremessados uns aos outros como numa luta de almofadas. De caminho, sugiram-se também medidas preventivas em relação à capacidade de concentração, definitivamente um atributo a reprimir entre os alunos, por ser profundamente discriminatória quanto aos resultados da aprendizagem. Pior ainda se essa qualidade for associada à eloquência e à criatividade - não estaríamos nós na iminente ameaça de um perigoso cidadão autónomo e livre?

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por João Távora às 09:54

Terça-feira, 13.10.15

Minha querida família

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Nunca ninguém garantiu que a liberdade, a escolaridade e a prosperidade democratizassem o sentido de responsabilidade ou o bom senso. Vem isto a propósito de um fenómeno que o "inverno demográfico" esconde: se é previsível que daqui a dez ou quinze anos tenhamos metade das escolas ao abandono, mais graves serão as consequências duma  crise que se adivinha na "família" como célula mãe da sociedade, capaz de corroer de forma dramática os alicerces da nossa civilização. 

Sou daqueles que teve a sorte de crescer numa família tradicional - sem dúvida um espaço alicerçado no equilíbrio entre a tolerância e repressão - daquelas com abrangência alargada, com casa dos avós, tios, primos e tudo; como que um mosaico de pequenas comunidades, mais ou menos interligadas numa rede de solidariedade, afectos e partilha de história comum - e que de forma decisiva em tempos me socorreu. É certo que para que este antigo e eficaz modelo se generalizasse na sociedade contemporânea, concorreu uma equívoca mistificação do casamento romântico na geração dos nossos pais: O casamento tradicional foi-lhes "vendido"  por Hollywood como um conto happily ever after e resultou num estrondoso baby boom. Completamente fora de moda por estes dias, denúnciada a família como “instituição burguesa,decadente e repressora” pela geração do Maio de 68, não se prevê que eu tenha grande sucesso explicando-o aos meus filhos como instituição ligada à responsabilidade, ao altruísmo, à perseverança e ao prazer diferido. A verdade não vende, como não ganha eleições. 

Como bem sabemos, cada vez há menos casamentos, no sentido da formação de novas “casas”, modelo de sucesso comprovado inspirado na aristocracia liberal europeia. Consta que no ano passado, das poucas crianças nascidas, mais de metade terão sido fora do casamento. Por exemplo, durante o ano de 2014 na paróquia do Monte da Caparica na margem sul do Tejo – sei bem que é um microcosmos algo especial - realizaram-se apenas quatro casamentos católicos. Curioso como no meio conservador que frequento também são cada vez mais raros os sinais de cedência dos jovens a esse modelo, sendo frequentes as relações amorosas "liberais" prolongadas, assumidas com um pé dentro e com outro fora da casa dos pais – julgam que obtêm assim o melhor dos dois mundos. Por ironia trata-se do reconhecimento de como a casa de família que alguém edificou e mantém para eles, é afinal útil e virtuosa instituição como seu último reduto de refúgio e reconhecimento, apesar de votada à extinção.

Temo que estejamos a criar uma sociedade de indivíduos isolados e frágeis com pertenças difusas, precárias ou inexistentes até. A família como eu conheci, como um organismo intermédio, projecto perene, crivo cultural com história própria, território protector do grande monstro igualitário da cultura dominante para a formação de seres críticos e livres, atravessa uma grave crise. Essa família que ainda hoje acolhe os deambulantes jovens adultos, quais eternos filhos pródigos que adiam assumir as suas opções e uma realização plena, por troca dum prato de lentilhas ou um smartphone de última geração, símbolo da sua “liberdade individual”. Se calhar ao definir este fenómeno como se de uma crise se tratasse, estarei a ser optimista. Porque esse termo por definição designa algo passageiro – e eu estou longe de pressentir alguma mudança no rumo da história.  

 

Fotografia daqui

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por João Távora às 17:16

Sexta-feira, 14.08.15

Onde nos poderemos encontrar

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Ao longo do paredão entre o Estoril e Cascais decorre por estes dias uma cativante exposição onde se confrontam lado a lado em grandes painéis, fotografias actuais e coloridas das diversas praias e falésias com registos antigos das mesmas vistas, concebidos naturalmente a preto e branco entre 1900 e 1960. Um gosto especial para quem como eu se sente parte duma comunidade que integra, não só uma história e uma geografia, mas uma cultura transgeracional,  que comporta os antepassados que conceberam a realidade que nos coube de presente. Foi assim que há dias quando regressava da praia com o meu miúdo pequeno, enlevado, consegui cativá-lo num jogo em que os dois comparávamos e procurávamos diferenças nos diversos elementos das paisagens. Aquela casa ali está igual, acolá não havia ainda uma estrada, naquela praia as rochas estão iguais, no outro lado o comboio era a vapor, ou os fatos de banho masculinos de corpo inteiro. Eis senão quando a minha criança, cuja cabecita voadora, apesar dos muitos serões com leituras das minhas referências juvenis, mal consigo interpretar, me assevera que a vida no meu tempo devia ser muito aborrecida. Encaixei com custo a inocente atoarda "esquerdista" do agora-é-que-é-bom-antigamente-era-o-obscurantismo. Sem lhe perguntar porquê, (talvez porque adivinhasse que a razão desse juízo devia ter que ver com o facto de no meu tempo não haver o Minecraft, um jogo de computador de que é fanático) o pequenote esclareceu-me que “as casas agora são muito mais modernas e giras”. Um fosso de incompreensão geracional rasgou-se profundo entre nós os dois.

 

De certa forma este episódio vem corroborar uma perspectiva segundo a qual, do nascimento à idade adulta se faz um percurso político, assim a modos de dizer… da esquerda para a direita. Explicando-me, há um caminho de redenção que se faz da total inconsciência de si no nascimento onde se inicia a construção de um ego insaciável e reivindicativo que, de protesto em protesto, em função de si e das suas necessidades a todos obriga à sua volta. Depois, no jardim-de-infância, com mais sofisticação, já a coisa resulta na bem conhecida teoria de que “tudo o que é meu é meu, e o que é teu é nosso”. É a fase revolucionária, da solidariedade obrigatória, da restruturação da dívida e da reivindicação permanente de direitos, e recusa terminante de deveres - enfim, o "bom selvagem" em potência. Esta crise só terá paralelo no pico da adolescência, que é por assim dizer o “meio da ponte” entre a infância e a idade adulta, uma fase perigosa em que muitos optam por estacionar definitivamente – mergulhados no seu guloso umbigo, com total desprezo pela realidade, nunca vão entender que já havia vida inteligente e sensível na terra antes ou para lá de si próprios (este é um perfil comum em boa parte dos militantes do PS e do Bloco de Esquerda, anarquistas e fumadores de cannabis). Com um desenvolvimento saudável a maioria vai assumindo a inevitabilidade do protagonismo que lhe cabe na sua vida, e que aquilo que do Mundo que está na sua mão "mudar" se circunscreve aos seus próprios comportamentos. Com o uso de um pessimismo metódico mas rejeitando sempre o cinismo - que não é mais do que o “conhecimento” descarnado de amor - cada um vai intuindo a estonteantemente complexa precariedade humana e de como ao longo da história da humanidade, para lá do desenvolvimento técnico, afinal as mudanças se deram mais na forma que no conteúdo. Finalmente a evolução natural resultará um dia no espírito do sereno e pacificado conservador, que é a encruzilhada da consciência onde certamente o meu filho e eu nos voltaremos a encontrar.

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por João Távora às 23:23

Sábado, 18.04.15

A vergonha do amor

Estar-à-janela.jpg

   I’m slowing down the tune 

I never liked it fast
You want to get there soon
I want to get there last

(...)

Leonard Cohen  

Hoje em Cascais no jardim em frente ao meu escritório o meu olhar estranhou um casal que caminhava entrelaçado em passadas lentas e alinhadas. Essa visão lembrou-me manifestações antes tão comuns que depois catalogámos de possidónias, como bailaricos ou passeios nas tardes domingueiras com roupa de “ver a Deus”, nos jardins ou avenidas, a ecoarem ao fundo os gritos das crianças a brincar e o relato da bola num transístor. Se os nossos avós que tiveram de namorar “de janela”, se conformaram a encontrarem-se só em lugares públicos com um irmão mais velho ou uma criada, a minha geração envergonhada erradicou qualquer exibição de compromisso. E agora morram de vergonha os jovens leitores: o meu saudoso pai contava que antigamente no Liceu Passos Manuel onde estudou, os bons amigos andavam de braço-dado no recreio.
Claro que a minha geração, medrosa e puritana como se fez, baniu esses indecentes hábitos sociais – no meu tempo do liceu, tempos revolucionários, do rock pesado e da “poesia com mensagem”, já só sabiamos dançar sozinhos e caminhar de “mão dada” tornou-se uma pieguice. 

Enfim, a mesma geração que institucionalizou o nudismo, o amor livre e toda a sorte de fantasias eróticas, envergonhou-se de namorar, um assunto que circunscreveu à poesia. Curioso como ao mesmo tempo que aprenderam a tolerar demostrações públicas em homossexuais, homem e mulher tenham desaprendido de andar de braço dado com o andar sincopado. Curioso como, com tanto sexo e amor livre, tenhamos criado uma comunidade tão estéril e fragmentada. Porque o romance para fazer história tem de ser mais longo que uma canção pop. 

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por João Távora às 20:58

Segunda-feira, 15.12.14

Em Calhando...

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Lembro-me bem, Filipe: vinha eu ontem de Alvalade a digerir o melão do empate com o Moreirense enquanto pelo relato da telefonia escutava os comentadores de serviço a tecer rasgados elogios à equipa azul e branca, que já falhara várias ocasiões de golo, na exacta medida em que depreciavam a postura constrangida do Benfica, esmagados que estavam com a autoridade dos donos da casa. Até que o Lima marcou o primeiro golo, julgo que pouco depois da meia hora de jogo. “Olha-me a sorte dos lampiões… calhou!” Foi o que eu pensei. Confesso que não vi o resto do jogo, que esta coisa de um pai de família quando chega a casa tem outras prioridades e contrapartidas a prestar, principalmente quando passou a tarde de Domingo precisamente na bola. 

Vem isto a propósito do estranho e súbito veredicto repetido mil vezes pelas sumidades da bola que enxameiam os canais por cabo e os jornais da especialidade ou nem por isso, que a malta consome na ânsia de prolongar o gozo da vitória ou encontrar bodes expiatórios que amenizem a depressão da derrota:  a vitória do Carnide reflectia afinal uma exibição brilhante e uma extraordinária estratégia por parte de Jorge Jesus
Ora acontece que, tão certo quanto Jorge Jesus ser um bom treinador, os resultados futebol dependem em grande medida do factor “calhar”, que os portugueses tão bem exprimem com o “em calhando”. Acontece que "em calhando" uma ou duas bolas na trave, um montículo de relva que desvia a bola, podem custar três pontos. Não, não é só do campo inclinado pelo árbitro vendido, da capacidade de liderança do treinador, da qualidade táctica e técnica de um mais ou menos harmonioso conjunto de jogadores que depende um resultado da bola. Em calhando num dia mau ou num dia feliz, perde-se ou ganha-se um jogo, essa é que é essa! Com a regra do “em calhando” perdem-se campeonatos e despedem-se treinadores. A regra do "em calhando" é preponderante e obviamente não é a única com influência no resultado, mas é precisamente essa que dá magia ao futebol: o Benfica ontem jogou pouco, mas calhou ganhar - ficaram felizes os lampiões, não há quem os ature. E a segunda parte do Sporting seria suficiente para a vitória... mas não calhou. De resto, caro Filipe, se não sabes ficas a saber que esta regra é verdade cientifica, excepto com os chatos dos alemães.

Texto originalmente publicado aqui

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por João Távora às 22:41




Sobre o autor

João Lancastre e Távora nasceu em Lisboa, que adora. Exilado no Estoril, alienado com política e com os media, é sportinguista de sofrer, monárquico, católico e conservador. No resto é um vencedor: casado, pai de filhos e enteados, é empresário na área da Comunicação e do Marketing. Participando em diversos projectos de intervenção cívica, é dirigente associativo e colabora em vários blogues e projectos comunicação política e cultural.


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