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João Távora


Quarta-feira, 13.07.16

Tristezas não pagam dívidas

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Diz-se por aí que a vitória portuguesa do Euro 2016 em França vai impulsionar a economia em seiscentos mil euros, ao que parece quase todos gastos em tascas e esplanadas. Contas feitas a festa nem é cara, dá para cerca de um milhão de portugueses beberem ume mini e comerem um pires de tremoços. Quanto a mim era bem melhor que o ministério das finanças se dignasse a abrir os cordões à bolsa e acelerasse a devolução do IRS que tanta falta me faz. 

Sem dados concretos para uma avaliação científica da questão, fica-me a impressão que, devido aos (merecidos) festejos e à consequente ressaca acabamos por “ficar em casa”. Tenho sinais claros de que a semana de trabalho custou mais a arrancar do que é habitual: na minúscula empresa que dirijo, anteontem foram desmarcadas duas importantes reuniões com clientes.
De resto, há algum tempo que perdi a esperança que a extrema competitividade e sucesso da indústria do futebol nacional, tão intensamente difundida entre os adeptos pelos profusos programas e jornais desportivos, serva de exemplo para reverter cultura de acomodação e conformismo tão atreita aos portugueses.
Certo é que as tristezas não pagam dívidas e convenhamos que uma alegria destas experimenta-se uma vez na vida e agora é tempo de festejar: o triunfo dos portugueses em Paris ficará gravada na história do futebol e os seus heróis serão celebrados pelos nossos netos e bisnetos.
Finalmente, e para que conste, escreva-se na pedra que nossa vitória não resulta de um acto ou personalidade genial mas foi-o duma determinação individual incomensurável e dum enorme espírito colectivo dum grupo bem liderado, por um homem de fé. Uma bela parábola para todos nós.

 

Pubicado originalmente no Diário Económico

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por João Távora às 10:35

Quarta-feira, 29.06.16

Nem sempre podemos

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Seis meses depois, o recuo da extrema-esquerda nas eleições em Espanha é um ténue sinal de esperança nesta Europa crispada e sem norte, em evidentes dificuldades com o ajustamento a uma ordem económica cada vez mais global, que assim se torna pasto das franjas mais demagógicas e populistas. 

O facto é que nem sempre “podemos”, e a coligação de radicais liderada pelo lunático Pablo Iglésias perde no seu conjunto mais de um milhão de votos e as forças moderadas exibem uma resiliência notável. Para lá das previsíveis dificuldades do fortalecido Rajoy formar um governo estável, isso é uma boa notícia. 
É sabido como os tempos de crise sempre constituíram uma oportunidade para os extremistas e uma tentação para os alienados. Em Portugal não deveríamos esquecer o sangue, suor e lágrimas que nos custaram os “amanhãs que cantam” emergentes da crise do Mapa Cor-de-Rosa no final do século XIX, cujo delírio deu origem aos mais tresloucados aproveitamentos políticos (como a intenção de se partir para a guerra contra os ingleses com armamento comprado por subscrições públicas).
Desses tempos despontaram impantes os fanáticos “nacionalistas” republicanos, uma virulenta força radical minoritária que dominaria a partir daí a agenda política. Responsáveis pelo assassinato do Chefe de Estado e depois pela messiânica revolução do 5 de Outubro, em 1910 a república interrompeu mais de meio século de aprendizagem da democracia liberal e arrastou o País por dezasseis anos de miséria, terror e despotismo. Foi a oportunidade dada de bandeja a Oliveira Salazar que, em 1928, acabou com o regabofe. 
Acontece que aqui ao lado, no desastrado xadrez da política joga-se muito mais do que uma economia fragilizada, ou a reversão desta ou daquela política. Em Espanha está em jogo a unidade de uma grande potência europeia, que poderá desmoronar pela força dos egoísmos nacionalistas com consequências económicas e políticas inimagináveis. 
Uma vez mais, vivemos tempos perigosos.
 
Publicado originalmente no Diário Económico

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por João Távora às 10:44

Sexta-feira, 10.06.16

Dia de Portugal?

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Despachadas pela fresca as cerimónias militares do Dia de Portugal que ocorrem hoje no Terreiro do Paço, Marcelo Rebelo de Sousa, Eduardo Ferro Rodrigues e António Costa embarcam para Paris, não para irem ao futebol, mas para festejar a efeméride com os emigrantes. Se a comunidade portuguesa em França merece essa consideração, suspeito que todos os portugueses precisam de se reencontrar com uma ideia de Pátria em que se revejam com salutar orgulho, um pouco mais consistente do que a “Selecção Nacional”.

Digo isto porque me parece que, nas últimas décadas, a grande maioria dos portugueses passaram de um estágio de relativa inconsciência quanto à sua identidade para assistirem a um processo muito agressivo de desconstrução dos valores fundacionais e a um severo julgamento dos feitos históricos que sustentaram esta Nação improvável ao longo de 900 anos. Diabolizar o passado é da conveniência de um regime que se alimenta de amanhãs que cantam. Se somarmos isso aos duros tempos de aflição financeira que atravessamos, de permanente cedência de soberania à geringonça europeia que nos suporta, num ambiente de extrema conflitualidade política, receio bem que a nossa auto-estima esteja junto ao chão que nos resta.

Nesse sentido, todos as celebrações de Portugal serão poucas, desde que constituam algo mais do que mero folclore ou palavras ocas de auto-promoção dos protagonistas no jogo político. Porque urge encontrar uma fórmula de conceder aos portugueses um grato e salutar sentimento de pertença à Nação, ancestral legado e empresa de futuro, a edificar diariamente através de acções consequentes por todos e cada um de nós.

P.S. Curiosamente, será uma vez mais na clandestinidade mediática que decorre hoje, dia 10 de Junho, junto ao Monumento aos Combatentes do Ultramar, em Belém, a habitual homenagem a todos os homens e mulheres que tombaram em defesa dos valores e da perenidade da Nação Portuguesa, um acontecimento pleno de dignidade e de grande comoção patriótica em que faço questão de participar.

 

Publicado originalmente no Diário Económico

Fotografia - Nuno Albuquerque Gaspar

 

 

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por João Távora às 10:43

Segunda-feira, 23.05.16

Um artolas e duas geringonças

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Na verdade o fenómeno António Costa comprovou superar tudo o que se pudesse imaginar há uns anos. Estávamos longe de imaginar que esta figura anafada de manhoso bonacheirão que numa golpada submeteu o Largo do Rato para ser derrotado epicamente nas eleições legislativas de Outubro, chegasse a primeiro-ministro, suportado por comunistas e trotskistas mal resolvidos com a promessa impossível de acabar com a austeridade.

O facto é que como o dinheiro ainda não nasce nas paredes das caixas do multibanco e o optimismo como o pessimismo são formas de irrealismo, de reversão em reversão, estamos condenados a empobrecer gota a gota enquanto a Europa – por estes dias também uma periclitante geringonça - for condescendendo (por boas ou más razões) ao delírio que por cá grassa.
Acontece que o verdadeiro problema não reside em mais duas ou menos duas décimas de pontos percentuais do défice tolerados ou não por Bruxelas, mas na nossa soberania que há muito se encontra hipotecada por uma dívida descumunal, e na nossa economia anémica cujo modelo tarda em renovar-se. E os sinais que são transmitidos a favor de um Estado insaciável e omnipresente que a todos quer controlar e que de si todos dependam, seja para um emprego de 35 horas, uma esmola, um frete ou um bom negócio.
Bom seria que António Costa, na condução desta geringonça que desanda, ronca e estrebucha amarrada aos compromissos com a obscura agenda dos partidos da esquerda radical, não se esquecesse do papel histórico que um dia o seu partido assumiu, aliado à Igreja e aos partidos da direita, para libertar o país da vertigem do socialismo revolucionário – enfim da tirania e da miséria.
Uma palavra final a propósito da prenunciada injecção de mais 4 mil milhões para recapitalização da Caixa Geral de Depósitos - creio que nos falta ainda ouvir a Catarina e o Jerónimo a clamar pela sua nacionalização. Entretanto, investigue-se para onde foi o dinheiro desaparecido.

 

Publicado originalmente no Diário Económico.

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por João Távora às 10:03

Segunda-feira, 02.05.16

Isto vai acabar mal...

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António Costa soube sempre ao que vinha quando cavalgando a sua geringonça destronou a coligação vencedora das eleições legislativas de Outubro passado. Acontece que contra todas as previsões e num ambiente de pré-guerra civil, o País fora resgatado pelo governo PSD e CDS da iminente falência protagonizada por uma governação socialista de um modelo económico falhado e decadente, dependente do Estado e profundamente condicionado pela adesão a uma moeda “estrangeira”. Estancado o deficit e reconquistada a credibilidade de Portugal perante os mercados, iniciadas algumas tímidas mas dolorosas reformas, permaneciam por resolver a crise de dívida privada escondida nos bancos e a lenta transformação da economia portuguesa fundada em serviços e na construção civil, asfixiada por impostos.
Assim chegamos ao actual “estado da arte”, com um governo liderado por um partido derrotado nas eleições que por força da sua fraqueza política se vê na contingência de substituir a governação do País pela gestão do curtíssimo prazo, com manobras dilatórias e uma agenda esquerdista para o entretenimento das clientelas de que a sua sobrevivência depende. Entretanto a resolução de todas as ameaças e debilidades estruturais que ensombram a nossa economia permanecem sem qualquer abordagem séria.
A impressão que fica é que vivemos nestes dias perigosos uma espécie de nova "acalmação" como a que foi tentada pelos partidos e pela coroa em desespero após o regicídio de 1908. Então, a tentativa durou dois anos até chegar a revolução e o caos dos republicanos. A nova "aclamação", apadrinhada por Belém e pela CGTP, não sobreviverá muito tempo à realidade: as coisas são o que são, vivemos em cima de uma bomba relógio.

 

Publicado originalmente no Diário Económico.

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por João Távora às 17:36

Quarta-feira, 16.03.16

Um sorriso de esperança

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A chegada de Assunção Cristas à liderança do CDS enche de expectativa uma Nação desgastada e desiludida que clama por uma renovação significativa no estilo e no discurso político, e que há muito entendeu não ser possível um “tempo novo” com os problemas e vícios antigos. Assunção Cristas traz para o espectro político um perfil inédito que possui um profundo significado: uma mulher inteira, jovem mãe de família que não prescinde dum brilho próprio muito feminino, alguém que emergiu para a vida partidária pelos seus méritos profissionais, pela determinação e inteligência com que defendia as causas em que acredita, mesmo que contra o discurso do politicamente correcto. Sem vergonha das suas convicções humanistas e católicas, com um discurso fluente e afectuoso, ela conseguiu unir o partido e rodear-se de uma jovem e renovada equipa, cujo génio e capacidade de trabalho esperam-se reflectidos quanto antes num dinamismo de propostas e ideias que catapultem o CDS para um novo patamar de afirmação, urgente, tendo em conta os dramáticos desafios que esperam os portugueses. Para já Assunção irradia um atraente sorriso de esperança, que não é coisa pouca na política dos nossos dias.

 

Publicado originalmente no Diário Económico

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por João Távora às 16:36

Terça-feira, 01.03.16

Deus os perdoe

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A propósito da "conquista enorme da adopção crianças por casais gay", o Bloco de Esquerda engendrou uma paródia de mau gosto com a imagem do Sagrado Coração de Jesus. É perturbador reconhecer que esta estética tem a adesão duma burguesia urbana e niilista (que não sabe que é) profundamente ignorante. No fim como consolo oferecem-lhes a eutanásia. Trata-se de um discurso ancorado no ódio e no preconceito, que visa a fractura social. Acontece que, com uma taxa de divórcios acima dos 70%, um inverno demográfico de consequências incalculáveis, as pequenas comunidades e o modelo de família natural em acelerado processo de extinção, a sociedade caminha para uma atomização sem precedentes. As pessoas isoladas e desprotegidas, sem sólidas pertenças comunitárias, estarão cada vez mais expostas aos caprichos dum monstruoso poder central – menos livres. Este fenómeno não é independente do empenho colocado na laicização da sociedade, da religião sitiada na esfera do privado, e a sua prática na condição de subcultura marginal. Inquietam-me os festejos destes bárbaros alucinados à volta dum incêndio que a cada dia arruína mais os alicerces daquela que se foi tornando a nossa casa comum ao longo dos séculos.

 

Publicado originalmente no Diário Económico

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por João Távora às 22:19

Terça-feira, 02.02.16

Imperdoável

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Quando o irmão de António Costa, o director do semanário de referência do regime, afirma na sua coluna semanal esperar "que nos esteja a escapar alguma coisa", tal é um terrível sinal quanto aquilo que aparenta ser um jogo de roleta russa do Governo para chantagear Bruxelas. O susto transforma-se em terror quando ouvimos na TV o insuspeito (?) Paulo Trigo Pereira, economista da bancada socialista, afirmar que o esboço do OE na realidade não é do PS, mas resulta das imposições da extrema-esquerda antieuropeia de que depende o executivo. Assim se confirma que a “geringonça”, para gáudio das fanáticas claques comunistas e bloquistas, se encaminha descontrolada contra a pesada parede da realidade. De facto, quando a agência DBRS admite cortar o ‘rating’ de Portugal, e com os alertas de entidades como a UTAO, o Commerzbank, a S&P, a Fitch, a Moody's e a Comissão Europeia, resta-nos esperar que nos esteja a “escapar alguma coisa”. Caso contrário estaremos a assistir ao suicídio do Partido Socialista na dimensão e importância com que nos habituámos a conhecê-lo. Considerando aquilo que os portugueses irão penar, isso até será o menos importante.

 

Publicado originalmente no Diário Económico

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por João Távora às 11:46

Segunda-feira, 25.01.16

A grande bizarria

Felizes são os ingleses, os espanhóis, os belgas, os suecos, os holandeses, os dinamarqueses, os luxemburgueses ou os noruegueses, que têm a sorte de não terem de aturar periodicamente esta coisa sinistra das "presidenciais". Decididamente, esta berraria em que se envolveram nas últimas semanas umas quantas obscuras figuras do regime e um bem-sucedido comentador televisivo, foi incapaz de unir ou mobilizar os portugueses. O cargo, uma bizarria assente num enorme equívoco, no final de contas pode constituir uma bomba relógio para a total ingovernabilidade do país. Ao contrário das modernas monarquias europeias, o modelo de Chefia de Estado em Portugal não é um poder moderador, arbitral e suprapartidário. Sempre oriundo duma facção ideológica que disputa o poder, a legitimidade de uma maioria absoluta de votos expressos, alguns deles contrariados, concede ao Presidente a competição com a Assembleia da República pela autoridade para interferir ou até formar um Governo, e em última análise, a sua demissão através da dissolução do Parlamento. Perante este panorama, resta-nos rezar para que o vencedor, não sendo “apartidário”, por mais pressionado que vier a ser pelas piores circunstâncias possíveis e imagináveis, se consiga afirmar como um elemento estabilizador e construtivo. Algo que seria muito mais fácil em Monarquia.

 

Publicado originalmente no Diário Económico

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por João Távora às 18:19

Quarta-feira, 13.01.16

Na crista da onda

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As 15 alterações na avaliação dos alunos em 16 anos são um indicador preocupante da falta de uma verdadeira estratégia para o ensino em Portugal, que tenha em conta as nossas especificidades históricas e sociológicas.

É curioso como, pelo menos desde o 5 de Outubro de 1910, o Portugal revolucionário persegue e importa fanaticamente toda a sorte de modas moderninhas com que vem consolidando a sua posição nos últimos lugares entre os países europeus em matéria de desenvolvimento. 

Se, pelo país fora, os portugueses desconfiam de tanta reversão e súbita prosperidade, a criançada anda radiante com a sanha redentora das esquerdas unidas em matéria de exames. Os mais pequenos até acreditam que um dia se vão libertar da repressão da matemática e eu compreendo porquê. Afinal, a aritmética é a base ideológica da austeridade e as contas de multiplicar a ferramenta preferida do capitalismo. Depois, o resultado exacto e indiscutível de uma conta de diminuir pode significar uma violência traumática para o inocente infante.
De resto, o anúncio do fim dos exames do sexto ano, que António Costa afirmara no parlamento serem para manter, contrariam o seu adágio preferido que ainda lhe vai ser cobrado com língua de palmo: “Palavra dada, palavra honrada”.

 

Publicado originalmente no Diário Económico

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por João Távora às 11:26

Sexta-feira, 18.12.15

A ética republicana

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Nestes dias de surda acalmia, assimilada que está a nova ordem dos socialistas, sobressai com alarido o epifenómeno José Sócrates que com o patrocínio de uma estação de TV se exibe como que num circo de horrores.

O primeiro-ministro da despesa pública, parques escolares, magnânimas PPP e consequente bancarrota, acha-se injustiçado não só pelo Ministério Público mas com o prudente distanciamento usado pelo partido aquando da sua detenção - como se fora um activo tóxico. 

Faz bem José Sócrates em reclamar a lealdade dos seus companheiros de estrada, boa parte deles hoje reciclados no governo de António Costa. O seu partido, que se confunde com o regime, será afinal um bom palco para trabalhar a sua defesa. Relembrando-nos que as patifarias que devastam a harmonia e a paz entre as pessoas nem sempre são ilegais. Ou de como é possível numa vida pôr um povo à mingua e ir viver à grande e à francesa com milhões “emprestados” por um amigo. Uma narrativa esclarecedora do sentido último e primeiro dessa coisa chamada “ética republicana” tão proclamada pela descendência de Afonso Costa de que somos reféns. Maldita sina.

 

Publicado originalmente no Diário Económico

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por João Távora às 10:55

Terça-feira, 01.12.15

O advento

 

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 Aquilo que eu julgava impossível aconteceu, está consumado. António Costa, copiosamente derrotado nas eleições de Outubro, tomou posse como chefe de um Governo socialista com o apoio da esquerda revolucionária no Parlamento.

Os discursos do Presidente e do primeiro-ministro empossado colidiram frontalmente: enquanto Cavaco relevou os riscos de uma inversão das dolorosas reformas encetadas no resgate do país, António Costa ignorou olimpicamente as causas desse resgate e o acordo com a ‘troika’ assinado pelo seu partido em 2011. 

Num discurso rancoroso quanto ao seu antecessor, ensaiou uma mensagem “aspiracional” clamando por amanhãs que cantam, libertos das circunstâncias corpóreas em que se desenrola a vida neste mundo global. Coincide este delírio com o período maravilhoso chamado Advento, em que nós, os cristãos, somos convidados a reviver o nascimento do menino Jesus - que nos devolva a inocência no lugar da tentação do cinismo.

Curioso é como os socialistas tendem a confundir tudo. A mim parece-me que a arte da política decorre de outra dimensão e o seu discurso deveria ser balizado pelos limites da prosaica e humana realidade. Sob o risco de em breve incorrermos em mais um trágico desastre.

 

Publicado originalmente no Diário Económico

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por João Távora às 16:16

Quinta-feira, 19.11.15

O ovo da serpente

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Acontece que a guerra é sempre a pior opção, excepto quando se revela a única forma de assegurar a paz. Imagine-se o que seria se os pacifistas britânicos, já muito activos nos anos 30 do século XX, levavam a deles a melhor e a Inglaterra abestia-se de intervir contra a Alemanha de Hitler?

Mas se há dúvidas quanto a saber se a intensificação dos bombardeamentos na Síria serva para mais que uma catarse para aliviar o orgulho ferido dos franceses, estou convicto que um combate muito mais longo e difícil tem de ser empreendido dentro de portas onde se instalou o inimigo, qual ovo da serpente. Segundo uma pesquiza da ICM Research em 2014 para a agência russa Rossiya Segodnya, 16% dos franceses tinha uma opinião algo favorável (13%) ou muito favorável (3%) do ISIS. Mesmo não dando grande credibilidade a este estudo, a realidade demonstra que as políticas do “multiculturalismo”, que a França, com republicano denodo, vem praticando nas últimas décadas, revelam-se hoje um enorme fracasso de trágicas consequências. Talvez porque o que define uma Nação não resulte de qualquer “engenharia social”, mas duma pertença a um território comum, como uma língua, uma história e aos seus valores fundacionais – enfim, uma identidade.

 

Publicado originalmente no Diário Económico

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por João Távora às 11:13

Terça-feira, 03.11.15

Wishful thinking

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Ainda há uma possibilidade do governo da coligação passar com a abstenção do PS. Porque uma aliança PS, BE e PCP é, como comprovam as dificuldades no acordo, contranatura. Acontece que espaço eleitoral dos partidos de protesto é por natureza limitado mas “garantido”. Ora o BE e o PCP sabem que se o abandonarem para sustentação de um governo António Costa inevitavelmente “austeritário”, outros lhe tomarão o lugar. Pior: até ao último minuto haverá a tentação dos dois entre eles tirarem partido um do outro para se apoderem desse “espaço garantido”. Ou seja, um ou outro saltará fora na primeira oportunidade da última hora. António Costa foi claro ao garantir uma postura “responsável”, só aprovando uma moção de censura se tiver alternativa. Assim se compreende o discurso radical socialista: para não perderem a esquerda, recusam o ónus do falhanço da aliança, e vão assumir o protagonismo deste jogo de sombras para, chegando à 25ª hora, lavarem as mãos perante o alívio da depauperada classe média. Assim, Costa ainda se safa no congresso exibindo o troféu desta sua congeminação, reclamando que o falhanço foi culpa dos radicais.  

Publicado originalmente no Diário Económico

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por João Távora às 10:06

Sexta-feira, 23.10.15

As luzes da ribalta

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Reduzidas as medidas de coacção ao mínimo, e terminado o prazo legal para a conclusão do inquérito judicial sem uma acusação, José Sócrates encontra-se em condições excepcionais para fazer aquilo que mais gosta: actuar sob as luzes da ribalta.

Com extraordinários dotes de retórica e um ego alucinado, o “animal feroz” que com inaudita determinação conduziu os destinos do País ao descalabro financeiro, confronta-se hoje, não já com a sua sobrevivência política que é um caso perdido, mas com o desfio da sua defesa na justiça. 

Uma oportunidade para protagonizar uma novela de grande audiência em que, respeitando um minucioso guião, se vai dedicar a gerir os danos infligidos na sua fustigada reputação. Independentemente do desenlace, para a história constará que foi o primeiro-ministro que levou o país à falência, e que depois foi para Paris viver à grande e à francesa, à custa dos milhões dados em espécie por um amigo que geria uma empresa com negócios com o seu governo. Como foi possível semelhante personagem entrar na História do meu país ao tempo da minha geração, é para mim uma pergunta perturbadora.

Publicado originalmente no Diário Económico

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por João Távora às 12:13




Sobre o autor

João Lancastre e Távora nasceu em Lisboa, que adora. Exilado no Estoril, alienado com política e com os media, é sportinguista de sofrer, monárquico, católico e conservador. No resto é um vencedor: casado, pai de filhos e enteados, é empresário na área da Comunicação e do Marketing. Participando em diversos projectos de intervenção cívica, é dirigente associativo e colabora em vários blogues e projectos comunicação política e cultural.


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