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João Távora


Sexta-feira, 25.07.14

O diletante

 

Pela minha parte tenho como verdadeiros os atributos e competências atribuídas pela jornalista Maria Teixeira Alves a Ricardo Salgado que o Daniel insinua serem padrão da atitude de servilismo existente em relação aos poderosos. Até poderá ter alguma razão mas enganou-se no exemplo. Sei por vários testemunhos pessoais como o banqueiro é uma pessoa de trato fácil, que procura uma proximidade e um contacto directo com as pessoas sem pruridos hierárquicos que, com o dom de uma memória prodigiosa, a todos trata amigavelmente pelo nome próprio. Nada destes traços de carácter me parecem incompatíveis com erros ou crimes que Ricardo Salgado possa ter cometido no âmbito da gestão dos seus negócios e que se espera seja julgado com isenção. Daí que me pareçam abusivas as ilações do Daniel Oliveira, essas sim fruto de ressentimentos ideológicos (desprezo cultural, como o próprio lhe chama) em relação à jornalista do Diário Económico. O problema do Daniel é, além de se deixar subjugar pelos tais desprezos selectivos absorvidos da cartilha revolucionária de que não se consegue libertar, a veleidade de querer encaixar as pessoas no seu arquétipo pequenino e a preto e branco com que interpreta a realidade à sua volta. Ainda bem que verdadeiramente não é um jornalista. Para já é apenas um diletante sobrevalorizado, o que é muito pouco para nos preocupar.

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por João Távora às 18:59

Domingo, 20.07.14

Os novos adamastores

Ontem numa crónica publicada no jornal Expresso a ilustrar uma investigação jornalística sobre a alegada política de exclusão de links no Google “a pedido” no âmbito da questão recentemente levantada pelo Tribunal de Justiça da União Europeia do pretenso “direito ao esquecimento”, o seu autor, Miguel Cadete, além de outros equívocos levanta suspeitas sobre a transparência utilizada na indexação de conteúdos daquele motor de busca. Vale-nos como desconto a declaração de interesses que o jornalista evoca ao assumir má vontade com a Google, companhia a que imputa responsabilidades na crise que “há décadas perpassa pela imprensa”, com as conhecidas consequências no esforço de adaptação que vem exigindo ao sector.
Como apaixonado desta profissão que tenho como das mais nobres, conforta-me saber que os jornais perscrutam e vigiam toda a sorte de poderes e particularmente uma grande empresa como a Google. Sensível às angústias enunciadas pelo cronista, não posso concordar de todo com as suas crenças e julgamentos, certamente motivados pelo medo, um sentimento o mais das vezes inspirado pelo desconhecimento. Nesse sentido, convém esclarecer que o facto de o motor de busca Google “não ter praticamente concorrência”, como refere Miguel Cadete, se deve ao seu complexo algoritmo, exclusivamente indexado à necessidade e proveito do utilizador e não a qualquer tipo de manipulação obscura. Tal implica que, por exemplo,  a sua independência face ao negócio da publicidade constitua um valor crucial e sagrado: os links patrocinados (AdWords), a tal publicidade que segundo o cronista significa “um dos maiores negócios do mundo” (!), aparecem graficamente distinguidos daqueles de indexação orgânica. Depois, agitar o papão duma hipotética utilização abusiva dos dados (interesses) que plataforma Gmail capta nos conteúdos das mensagens para exibição de publicidade “dedicada” (AdSense), parece-me uma falácia, já que a não intervenção humana, para lá de questões éticas, é a única garantia de rentabilização do sistema. Ou seja, o tratamento racional (humano) e sistemático da informação, utilizador a utilizador, requereria uma astronómica quantidade de meios. Não saberá por certo o autor da crónica que o navegador desenvolvido pela Google (Google Chrome) permite configurar o bloqueio de publicidade ou eliminar o registo do histórico de navegação, e que a georreferenciação do utilizador (um dado muito útil em determinadas pesquisas) é meramente opcional.

A maior ameaça ao jornalismo continua a ser o mau jornalismo (seja ele fruto de sectarismo, preconceito ou ignorância), e não deixam de se verificar diariamente lançamentos de novos e ambiciosos projectos de comunicação social que aproveitam as oportunidades concedidas pelas novas tecnologias. Os desafios que estes tempos da Internet colocam à imprensa e à comunicação social em geral, por mais ameaçadores que aparentem ser, têm que ser enfrentados com criatividade e pragmatismo. E quanto a uma regularização racional dos preços da publicidade online e offline, há certamente muito a mudar e reformar pelas partes interessadas, principalmente aquelas que se mantêm presas a arquétipos ultrapassados. Finalmente os motores de busca, como eficazes instrumentos de propagação de conteúdos digitais que são, deverão ser assumidos de uma vez por todas, não como uma ameaça aos jornais mas como uma oportunidade: o factor mais decisivo para uma relevante posição nas pesquisas é a qualidade do conteúdo e a interacção que o mesmo potencia com o leitor. Se eu fosse jornalista considerava tudo isto boas notícias. 

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por João Távora às 16:42

Quarta-feira, 21.05.14

O Observador e o Expresso

Estas últimas semanas foram agitadas no universo da imprensa portuguesa que, como no resto do mundo desenvolvido evidencia uma tão prolongada quanto funesta inadaptação a um novo modelo de consumo de informação emergente da Internet. O anúncio do lançamento do projecto Observador, um jornal de linha editorial definida, integrando um corpo redactorial com nomes consagrados do jornalismo e da opinião como David Dinis, José Manuel Fernandes, Helena Matos, João Cândido da Silva, ou o historiador Rui Ramos, terá acelerado o processo de renovação no projecto digital do jornal Expresso que perante isso se antecipou não só com o lançamento de um inédito vespertino online, mas, last but not the least, ostentando grandes melhorias na navegabilidade, arrumação e adaptabilidade gráfica aos diferentes suportes electrónicos móveis. 
Assim, ao atrevimento do Observador, publicação que se assume como um projecto jornalístico online de conteúdos inteiramente abertos e interactivos com o leitor e as redes sociais, corresponde uma não menos audaciosa aposta do Expresso num modelo de sinal contrário, de acesso pago e num formato de leitura horizontal, reproduzindo uma experiência de leitura à maneira do papel. Munidos que estão, ambos os projectos, de um equipa editorial de grande qualidade, têm pela frente um difícil desafio de afirmação, se não perante os respectivos públicos, certamente pelos anunciantes e patrocinadores único garante da sua viabilidade a longo prazo. Nesse sentido custa-me a entender o modelo algo conservador assumido pelo Expresso, em confonto assumido com o incontornável poder disseminador das redes sociais e plataformas de auto-edição, e também pela assunção de um estranho formato de “vespertino” com horário de publicação à hora certa (às 18:00) claramente contranatura numa plataforma cujo potencial é a actualização contínua de conteúdos em tempo real. Ou seja, este modelo de negócio dá ideia da contrariedade que representa para o velho e institucional jornal Expresso o esforço de adaptação à era da democracia digital que afinal se suporta na agilidade dos meios e na interactividade com o leitor. No entanto estou em crer que é esse distintivo “aristocrático” que lhe vale um público certo, as elites regimentais, quadros médios e superiores do Estado, das grandes corporações e empresas que à volta dele gravitam: o jornal de Balsemão afirmou-se após o 25 de Abril como a bíblia do establishment da esquerda social-democrata e politicamente correcta cujo espaço afinal todos os outros generalistas lhe disputam. 
Sob essa perspectiva é que o Observador nos surge como uma verdadeira pedrada no charco, um autêntico atrevimento: mesmo munido da melhor tecnologia, reunida uma bem calibrada equipa, um projecto editorial criado de raiz para a Internet, financiamento transparente e linha política sem equívocos; mesmo exibindo tudo isso e bons conteúdos num desenho elegante e ergonómico, tendo em conta um público habituado a exigir qualidade à borla e um mercado publicitário desajustado, é de esperar para o projecto de José Manuel Fernandes um duro caminho de pedras. 

 

PS.

Muito inteligente a fórmula escolhida para a “newsletter” de O Observador: duas vezes por dia em texto normal, sem poluição visual, entra na caixa do correio como se tratasse de uma mensagem particular, aborda os principais temas publicados nas últimas horas numa linguagem informal e assinada pelo redactor de serviço.

 

Publicado originlmente aqui

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por João Távora às 10:53

Segunda-feira, 07.04.14

Assim não vamos lá

Um jornal de referência de um País que não quer ter filhos entrega a tarefa de escrever um artigo sobe a natalidade à Fernanda Câncio. Assim, o Diário de Notícias presenteou ontem os seus leitores com "Uma barragem contra o Pacífico" (pretensioso título aproveitado do romance de Marguerite Duras) um longo artigo sobre as escolhas da maternidade e a crise demográfica, exactamente da autoria da conhecida jornalista. É assim a modos que encarregar José Pinto-Coelho, presidente do PNR, para escrever uma peça sobre o 25 de Abril quarenta anos depois. 
Como seria de esperar, da questão base, de mais, menos ou nenhum filho, o texto descamba para uma minuciosa contabilidade de deves e haveres relativos à discriminação sobre a mulher e igualdade de género, sem esquecer a opressão da culpa que se abate sobre as cerca de 8% das mulheres que não querem ter filhos. E a crise do governo Passos Coelho, sempre implícita, pois claro. 
Ora como é evidente a maternidade constitui em si um atentado à igualdade de género. E como eu já referi por diversas ocasiões sou da opinião que o "inverno demográfico" em Portugal apenas pode ser invertido conjugando uma série de políticas de justiça fiscal que gratifiquem os casais com mais filhos com uma grande campanha comunicacional que ajude a relevar os aspectos positivos da maternidade e os arquétipos culturais que propiciam famílias grandes. Uma perspectiva antagónica aos paradigmas da modernidade que nos trouxeram até aqui.
E depois há a opressão da culpa das mulheres que não querem ter filhos – um bicho-de-sete-cabeças que de facto não abona em nada a natalidade. Uma questão do foro exclusivo do indivíduo: a culpa só se resolve mesmo com o perdão... e os complexos de culpa com um psicólogo. 
Mas assim não vamos lá. 

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por João Távora às 18:40

Sábado, 28.12.13

Da banalização do mal ou um estranho síndrome de estocolmo

Estou cansado que me chamem, mesmo em entrelinhas, bárbaro e retrógrado, numa indisfarçada campanha maniqueísta da nomenklatura dominante. É nesse sentido, com alguma impaciência que encontro no Expresso de hoje a notícia assinada por um tal Angel Luís de La Calle sobre o projecto da nova lei do aborto colocado em discussão pelo governo espanhol, que pleno de preconceitos, pré-juízos e moralismo se revela um autêntico artigo de opinião, onde numa selecção de recortes da imprensa internacional favorável à livre interrupção da gravidez, assevera por exemplo esta pérola de propaganda sectária “vai ser a única promessa cumprida do programa de governo com que Mariano Rajoy arrebatou o poder aos socialistas nas eleições de 2011”. Um bitaite que sem qualquer sustentação ou contraditório vale o que vale, isto é, nada. 

Tenho a confessar que admiro a coragem da direita espanhola na assunção dos princípios que defende  e com os quais se apresenta a eleições. Estou convencido que com alguns ajustamentos a nova lei poderá ser equilibrada e justa. É que eu, como milhões de portugueses e espanhóis tenho muitas dúvidas que os direitos de uma mulher se sobreponham à de um outro Ser, em formação é certo, mas já em si único e irrepetível. Como milhões de europeus, tenho profundas dúvidas de que o aborto como recurso anticoncepcional sancionado pela Lei constitua qualquer coisa minimamente parecida com “progresso civilizacional”.
Mas em tudo se vai lendo na imprensa nacional a respeito desta inédita iniciativa legislativa do PP espanhol, o que mais me espanta é a total ausência das vozes contra a corrente, que parecem ter adormecido algures em conformadas vigílias de terços e rosários. Isso é definitivamente pouco: temos muito que aprender com nuestros hermanos.

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por João Távora às 16:51

Quarta-feira, 13.02.13

Entretenimento e propaganda

 

Henrique Monteiro na sua coluna no Expresso do passado Sábado lamentava-se da transformação da política num jogo de criação e gestão “casos” tão estéreis quanto retumbantes. É um facto inegável que os políticos acabam sequestrados, quando não cúmplices desta perversa lógica, que relega para segundo plano aquilo que deveria ser o seu verdadeiro e nobre objecto, o ensaio e a estratégia para a boa governaça da coisa pública. Mas o certo é que do outro lado da moeda está um implacável mercado noticioso (de que são protagonistas jornalistas como o Henrique Monteiro) que cada vez mais depende da abundancia desses “casos”, para satisfação de umas ou de outras clientelas: com um ou dois por semana se incendeia o espaço público, aumentam tiragens e exponenciam page vews através das redes sociais.
É exemplo do que atrás refiro o fenómeno que ora assistimos; o da avidez de certo jornalismo de, para lá da notícia planetária que constitui a resignação do Papa, em encontrar um “caso”, quem sabe até algum enredo opaco e perverso à moda dos romances de cordel de Dan Brown. Assim é, entretidos atrás dum mosquito na outra banda, deixamos escapar o elefante ao nosso lado,

 

Foto: Alessandro Di Meo no  jornal i

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por João Távora às 11:09

Sábado, 05.01.13

Expresso

Ontem numa reportagem na SIC notícias a respeito do 40º aniversário do Expresso, o seu director Ricardo Costa arrogava esfusiante o seu jornal como o semanário dos “Sábados amargos” (subentendidamente de Miguel Relvas), assumindo que o seu papel é de contrapoder, nas suas palavras de “contrabalanço dos abusos dos excessos que a democracia proporciona”. Perece-me óbvio que ao contrário de se pretender contrapoder (um papel que a oposição em geral e o Bloco de Esquerda em particular exerce com requintada competência) cabe a um jornal sério investigar a verdade, seja ela a favor ou contra “o Poder”. Aliás acontece que a Comunicação Social constitui em si um disputadíssimo Poder, o quarto como se lhe usa chamar, e talvez não fosse má ideia incluir os sucessos e insucessos da História no seu balanço de aniversário. Sobre esse ponto de vista e nesta altura do campeonato, talvez Ricardo Costa e Nicolau Santos não tenham assim muitas razões para tanta euforia.
Na edição de aniversário deste histórico hebdomadário nacional - que como bem salienta Henrique Raposo na sua coluna, se confunde com o actual regime - uma das melhores crónicas está escondida na página 53 em forma de carta, pela pena de António Barreto. A determinada altura reza assim: (…) Um semanário tem mais responsabilidades na actividade de “desvendar” os factos opacos ou “misteriosos” do que os diários ou as televisões. Muito do que se passa na sociedade e na política é totalmente incompreensível se não for devidamente tratado e esclarecido. As causas concretas da dívida portuguesa e o deficit dos anos 2005 a 2013, por exemplo ainda estão hoje razoavelmente encobertas. (…) Toda a comunicação social está orientada para o espectáculo e encenação, quando não para a propaganda. É indispensável contrariar essa tendência, o que já se percebeu em Portugal não acontecerá com os Diários, muito menos com as televisões.
É aqui que está o busílis da questão. Estranho, de facto, como um tão atendo e sofisticado “contrapoder” como o Expresso, tenha atravessado a última década de ruina num plano inclinado de indolência e alienação, quando não em absoluta cumplicidade com as oligarquias conservadoras (dos seus crescentes privilégios) que nos trouxeram a este trágico desígnio.
Neste dia em que se celebram quarenta anos do mais reputado jornal deste País que se afunda numa das mais graves crises da sua História, seria aconselhável, ao invés de estéreis troca de gabarolices e de galhardetes entre os seus protagonistas, uma séria análise de qual deverá ser o seu papel no futuro, se ser agente activo no jogo de recados da baixa intriga sectária e fulanista, ou reabilitar o merecimento do seu histórico estatuto nobiliárquico, coisa que sem uma clara mudança de estratégia, se ficará como isso mesmo: um estatuto, que o arruinado e excêntrico fidalgo levará para a sepultura do esquecimento. 

 

Publicado originalmente aqui

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por João Távora às 19:04

Domingo, 30.12.12

O cordeiro imolado


De passagem pelo Jornal da Noite da TVI deparo-me com a enésima reportagem a explorar à saciedade o filão Baptista da Silva onde se evita uma vez mais substância: as suas teses que tanto excitaram a nossa “gente limpa”. De resto há por aí bastantes doutorados e licenciados com curriculum académico e atestado partidário, que do pondo de vista substantivo se limitam a explorar a conveniente narrativa “não pagamos” do burlão. Estes dias de obscura desesperança favorecem a emergência de Baptistas da Silva que afinal por aí pululam em absoluta impunidade. E já agora porque não deixam o outro, o de imitação, em paz? É que já cheira a esturro.

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por João Távora às 21:59

Quarta-feira, 26.12.12

O haraquíri do jornalismo

 

O caso Baptista da Silva é todo ele uma irónica parábola sobre a crise que por estes dias perpassa e se agudiza nos media tradicionais. É curioso como o burlão, promovido por um jornalista de nomeada de um semanário de referência nacional não tenha sido denunciado pelas “convenientes” intrujices que proferiu em vários palcos, mas antes pela descoberta do seu falso curriculum. Como sempre em Portugal o que conta é o estatuto.
Numa altura em que através das novas plataformas “sociais” tanto a opinião e análise de qualidade quanto a gestão de agenda politica ou corporativa se autonomizam cada vez mais dos meios de comunicação institucionais, não tenho dúvidas que a prazo poucos deles resistirão no actual modelo de gestão. Apenas irão sobreviver os que fundarem a sua actividade na excelência do profissionalismo, reflectindo os factos de forma isenta, analisados por atentos e meticulosos peritos, que sejam capazes de aferir discursos coerentes ou contestar raciocínios viciados ou cálculos mentirosos. Para alimentar conversas de café e amplificar bitaites sectários, já há para aí batalhões de blogues e ávidos activistas das redes sociais. Deixar-se seduzir e enredar nesta lógica é simplesmente o haraquíri do jornalismo. 

 

Publicado originalmente aqui

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por João Távora às 17:44

Quinta-feira, 26.07.12

A bloguização dos Media

Nem a proletarização das redacções, nem o tempo de férias, nem a histriónica bloguização do noticiário político nas TVs justificam que durante quarenta e oito horas, boa parte da Comunicação Social, com a SIC à cabeça, tenha vivido agarrada a uma frase bombástica de Passos Coelho, não pela sua substância mas pela utilização de um plebeísmo, afinal tão vulgar e bem aceite entre os camaradas da revolução dos cravos e pelas "elites" da esquerda, pá! Sintomáticas me pareceram as quarenta e oito horas que a oposição socialista, pela voz de Zorrinho, demorou a apanhar boleia do coro da SIC com alguns blogues e "fecebooks". 
A frase do primeiro-ministro "Se algum dia tiver de perder umas eleições para salvar o País, que se lixem as eleições. O que interessa é Portugal" reflecte uma legítima preocupação de uma parte dos portugueses que têm consciência de como o clientelismo e a demagogia eleitoralista dos partidos conduziram, de promessa em promessa, de concessão em concessão, o país ao abismo da bancarrota. 
De facto nunca foi tão pertinente como nestes dias, a máxima do Nobel da literaturade Anatole France “Não há governo popular, governar é criar descontentes”. Não estou nada certo de que o primeiro-ministro tenha a noção profunda deste paradigma, mas tenho a certeza de que a matéria que urge  utilizar para as manchetes e ser debatida com bons especialistas nos Media são assuntos difíceis como as máfias e os lóbis que sequestram o Estado e a política, o próprio sistema que tarda reformar-se, o desmantelamento do sedento monstro que sufoca a economia e a iniciativa privada, a Justiça inoperante que apenas serve os mais poderosos. Aquilo em que uma comunicação social responsável se devia empenhar era no confronto dos governantes com as promessas que tardam cumprir e com as quais sustentavam uma suposta diferenciação de políticas com os seus antecessores.

O jornalismo, como a governação, deveria ser tido como coisa séria, e a sua orientação entregue a gente erudita, íntegra e sem agendas ocultas. No caso dos Media exige-se redobrada responsabilidade porque estes detêm demasiado poder que não pode ser fiscalizado nem é sufragado. 

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por João Távora às 16:06

Segunda-feira, 08.06.09

A grande chapelada 3

Manuela Ferreira Leite revelou-se a grande vencedora da noite eleitoral de ontem: com a sua estratégia de comunicação baseada na sobriedade, e a escolha do cabeça de lista certo no momento certo, o PSD conquistou uma significativa vitória sobre o Partido Socialista. Tudo isto acontece apesar de Pedro Passos Coelho e da sistemática oposição e má fé assumida por um certo jornalismo e uns quantos fazedores de opinião que dominam com mestria o espaço mediático nacional. De facto, durante grande parte do mandato de José Sócrates, uma inaudita “oposição à oposição” que Pacheco Pereira tanto tem denunciado, dominou a agenda política doméstica.

O exemplo paradigmático destes fazedores de opinião e “mensageiros do oculto” é o inenarrável Luís Delgado, opinador militante na SIC Notícias e na Antena 1, onde exibe uma aflitiva pobreza cultural e intelectual. Este jornalista é para mim um incompreensível caso de alguém que supostamente dá a cara pela direita, mas que, em nome de ocultíssimos interesses, consegue ser sempre mais devastador com ela do que os seus “adversários”. É ouvi-lo na Antena 1 num programa ironicamente chamado “Contraditório” em concordância sistemática com os seus “opositores” Ana Sá Lopes e Carlos Magno. Aliás, na sua última edição, na sexta-feira passada, tivemos a possibilidade de o ouvir vociferar contra Manuela Ferreira Leite e o previsível insucesso do PSD, facto para ele escandaloso, tendo em conta uma suposta hecatombe dos partidos no poder dos restantes países europeus expostos à crise financeira internacional. Argumentos falsos quando sabemos como a direita se aguentou em França, Itália e Alemanha, apesar da crise, apesar de tudo. Ontem à noite, era vê-lo na SIC pateticamente empenhado nessa mesma causa, desvalorizando a vitória do PSD. O que fará correr Luís Delgado? E que estranho fascínio exerce esta obscura personagem a alguns directores de informação da nossa praça?

Legitimamente, exigimos dos políticos um mínimo de idoneidade, erudição, cultura e ciência. Implacavelmente, troçamos das suas gaffes, e obrigamo-los a assumir as consequências dos seus erros de avaliação e fracassos eleitorais. Ora não será que, detendo os media um inusitado poder, "o quinto" como lhe chamam, não deveriam também alguns jornalistas e analistas políticos assumir consequências dos seus enganos e desconchavos?

Eu sei de uns quantos que a esta hora, no mínimo, deviam estar a comer os seus chapéus num acto de penitência pública. 

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por João Távora às 11:50

Segunda-feira, 27.04.09

Do México a Massamá

Porcos e Aves são esteticamente diferentes, e tirando o porquinho Babe, a passarada é por defeito mais elegante, simpática e definitivamente mais asseada: se o massacre mediático foi o que foi aqui há tempos sobre a gripe das aves, agora que isto deu nos porcos estamos tramados. As parangonas diárias prometem: mais um caso em Madrid, outro em Frankfurt, falso alarme em Badajoz, suspeito de gripe suína isolado em Massamá...


E se a ameaça não pára antes das eleições europeias, nem que os candidatos aprendam a fazer o pino se vai falar de outra coisa.

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por João Távora às 16:57

Sexta-feira, 24.04.09

Portugal pequenino

Trinta e cinco anos após o 25 de Abril Portugal é uma partidocracia decadente, um país em profunda crise moral, económica e social. Com o debate político amestrado pela agenda politicamente correcta o regime mostra-se incapaz de se regenerar.

Claro que há alguns inconformados que apostam em projectos cívicos alternativos, numa luta desigual contra o poderoso centrão dos interesses.  É o caso de Laurinda Alves, candidata ao Parlamento Europeu (PE) pelo Movimento Esperança Portugal (MEP) que o jornal Público acaba de dispensar da sua lista de colunistas. De notar que neste mesmo jornal escrevem mais dois cronistas candidatos ao PE, o Rui Tavares pelo Bloco de Esquerda e Vital Moreira pelo partido do governo. As razões invocada pela direcção do jornal são “questões orçamentais”.  Laurinda Alves escrevia no Público há dez anos e nenhum outro colunista foi dispensado.

Coincidência ou não, também há pouco tempo Rui Marques presidente do MEP, deixou de escrever para o Correio da Manhã.

Quando falamos de Laurinda Alves e Rui Marques falamos de figuras públicas com prestigio e historial na intervenção cívica que optaram por posições políticas fora do sistema partidário vigente. E isso não tem perdão.

Trinta e cinco anos após o 25 de Abril os portugueses  têm aquilo que merecem: conformados e avessos à participação cívica, acabam por prezar o chavascal em que vivem nem que seja por inércia. Porque  afinal este é o panorama  que se adequa e melhor disfarça a mediocridade padrão.

 

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por João Távora às 23:34

Sexta-feira, 27.02.09

TVI 24


Sem muita disponibilidade para tal, foram poucos os minutos que consegui dedicar ao novo canal de notícias da TVI: a primeira impressão não foi positiva ao ser recebido com um interminável bloco de anúncios que por pouco não me expulsou para outro canal. Depois, como a Cristina Ferreira de Almeida, também me pareceu promissora a mesa redonda com Vasco Pulido Valente, Rui Ramos e Vital Moreira. Claro que à parte de Vital Moreira que tem pergaminhos  como tribuno, os outros dois exprimem-se bem melhor a escrever do que a falar.  Resta-nos esperar que a TVI 24 (site muito lento!) traga ao jornalismo doméstico menos preconceito, mais isenção e mais pluralismo. Para bem do mercado e para bem de Portugal!

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por João Távora às 17:26

Quarta-feira, 31.10.07

Ainda a (des)compostura de Sarkozy

Na república, o lugar da mulher do Chefe de Estado, a chamada "1ª Dama", é um tão ilegítimo como inevitável devaneio patrocinado pelos media para gáudio da turba. Definitivamente o personagem colhe e garante um bom retorno no negócio do circo mediático. Não me parece viável que um candidato a chefe de estado oculte a sua realidade familiar e afectiva. O ideal será de facto que ela promova boa imprensa e simpatia popular à instituição e ao protagonista. Quer se queira quer não, a mulher dum candidato terá sempre o involuntário poder de promover ou estorvar a sua imagem pública. Um verdadeiro berbicacho.
Sendo por natureza o divórcio um penoso acontecimento do foro privado, sendo a figura do casamento alheia à instituição do cargo, indica o bom senso a um mediano jornalista que o assunto é impertinente e que extravasa claramente o interesse público.
Parece-me saudável a atitude de Nicolas Sarkozy perante a indiscreta jornalista americana. Parece-me inquietante o aparente descontrolo emocional que sobressai na tomada de posição do Presidente da República Francesa.

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por João Távora às 11:46




Sobre o autor

João Lancastre e Távora nasceu em Lisboa, que adora. Exilado no Estoril, alienado com política e com os media, é sportinguista de sofrer, monárquico, católico e conservador. No resto é um vencedor: casado, pai de filhos e enteados, é empresário na área da Comunicação e do Marketing. Participando em diversos projectos de intervenção cívica, é dirigente associativo e colabora em vários blogues e projectos comunicação política e cultural.


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