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João Távora


Sexta-feira, 15.09.17

Setembro

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Em Setembro vinha o tempo de férias que sobrava e se arrastava, desenganado e indolente com o sol a baixar e as sombras a crescer, dia após dia, até chegarem as primeiras nuvens e a brisa fresca, como um prenúncio do Outono, o início das aulas, o fim da festa. Eram dias em que fazíamos da rua extensão da casa asfixiante de enfado, a jogar à bola com os outros miúdos desocupados e impacientes, perante a inquietação das mães que espreitavam à janela ansiando pelo novo ano escolar. Aquele tempo era um tempo de gloriosa imprudência em que criançada, sem medos, em pequenos bandos corria pelas ruas de Campo d’Ourique, que lhes conhecia todos os segredos, do recanto que faz de baliza para jogar à bola, aos quintais escondidos entre os prédios, os figos doces que sobejavam nos ramos mais altos da figueira – que valiam tanto ou mais que o gelado que os nossos filhos, numa pausa dum jogo de consola, vão buscar comodamente ao congelador. Aquelas tardes do mês de Setembro lembram-me a minha magnífica bicicleta verde-garrafa, altaneira em cima dos seus pneus 26’ que me obrigavam a esticar todo para chegar aos pedais. Era tempo passeatas pachorrentas ou de corridas contra-relógio entre a malta do bairro a bater recordes ali na Praça Afonso do Paço, onde o rectângulo inclinado convidava a uma pedalada desafiante na subida e estonteante na descida. 

O mês de Setembro também valia umas últimas fugidas à praia, com o areal meio abandonado, de águas tépidas e melancólicas num prenúncio da insurreição das marés vivas que nos iriam devolver de volta a casa, aos longos dias de espera pelo início das aulas que tardava. O tédio é um privilégio que as novas gerações não conhecem, entre o estímulo constante dos videojogos e os canais temáticos com aventuras e animação sem cessar – obrigava-nos a inventar, a ousar e às vezes a desatinar.
O fim de Setembro era o tempo das primeiras incursões à escola ou ao liceu, em busca dos horários e das turmas, cuja publicação tardava – tempos houve depois do 25 de Abril em que as férias se arrastaram até ao final de Outubro. Vinham as primeiras chuvas, as listas do material escolar e a ansiada visita à papelaria: lembro-me do gozo que me davam o cheiro do estojo novo, os cadernos imaculados, quem sabe uma mochila para estrear. Eram dias de um estranho júbilo que disfarçavam a melancolia do fim do Verão, a noite que cavalgava pela tarde dentro, as árvores que se despiam das folhas secas a estalar debaixo dos meus pés no caminho para a escola, nos primeiros dias de um novo recomeço, de rever outros amigos. Verdadeiramente o ano terminava gasto e envelhecido, em Setembro.

 

Dedicado ao meu filhote José Maria que por estes dias começa o segundo ciclo numa escola e vida nova.

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por João Távora às 15:59

Sexta-feira, 18.11.16

A Casa da Avenida

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A «casa da Avenida», como ficou conhecida na família, deixou em mim uma marca indelével, como que um pilar da minha personalidade. Como casa da Avenida entendo não só o primeiro andar direito do n.º 232 da Avenida da Liberdade mas todo um ambiente caloroso de afectos e brilho que lhe imprimiam os meus avós, tios e todo o pessoal que lá servia, que, a seu modo, fazia parte da família.

Com esta crónica, que serve de introdução a uma biografia ficcionada que estou a escrever sobre o tema, pretendo fazer uma homenagem aos meus avós maternos, João e Chunchinha, que, com a minha bisavó, foram os grandes obreiros dessa casa acolhedora e aberta ao mundo, onde se cultivava a antiga arte da boa conversa, elegante e inteligente, como refere Augusto Ataíde no seu livro de memórias Percurso Solitário (Bertrand, 2016) ou Leonor Xavier em Casas Contadas (Asa, 2009), sem descurar a edificação dum sólido e fecundo núcleo familiar de matriz cristã onde cresceram a minha mãe e os meus tios. Ainda hoje nas reuniões familiares com a minha mãe e os meus tios se testemunha esse legado tão nobre de amizade, humor e graça, qualidades que sem mascarar dificuldades que em todo o lado existem, são sementes de civilização e carácter.

Pensando bem, aquilo que mais me marcou na Casa da Avenida foi a liberdade que me era concedida, a mesma que, pressupondo sentido de responsabilidade, fez dos meus tios e da minha mãe pessoas inteiras. Pessoa de enorme carisma, a Avó Chunchinha tinha, de facto, uma forma de relacionamento que sempre me cativou, talvez porque nunca pressenti qualquer sinal da complacência com que habitualmente os adultos se relacionam com as crianças.

Para a forte idealização daquela casa que germinou em mim ao longo da vida, contribuiu não só a enorme saudade das estadias felizes que até aos 12 anos lá passei, sozinho ou com o meu irmão José — onde éramos queridos e obtínhamos mais atenção do que aquela que poderíamos ambicionar em casa dos pais, em que a concorrência era grande —, mas também a memória do espaço físico e do fervilhar de vida circundante, ao mesmo tempo cosmopolita e de bairro, que naquela época fruía naquela zona de Lisboa ocupada por uma mistura bem equilibrada de serviços, comércio e habitação.

A Casa da Avenida foi estreada em 1892 pela minha bisavó Valentina Leitão aos quatro anos, quando para lá se mudou com os seus pais e irmãos. O elegante prédio de cinco andares com direito e esquerdo, situado no quarteirão entre a Barata Salgueiro e a Alexandre Herculano, onde então terminava a Lisboa cidade, tinha acabado de ser construído, e dele reza a lenda de ter sido o primeiro a ter instalação eléctrica de raiz. Os apartamentos eram grandes e tinham um pé direito alto como há muito não se usa.

A casa dos meus avós era atravessada por um longo corredor que ligava a parte nobre, com duas varandas voltadas para a Avenida da Liberdade, à zona de serviço, com entrada pelo n.º 77 da Rua Rodrigues Sampaio. Entre as salas da frente e a generosa cozinha e os aposentos das minhas tias e das criadas nas traseiras, ficavam mais quartos e duas casas de banho, que para um prédio do século XIX era muito avançado. O edifício também ostentava um curioso sistema acústico de intercomunicadores, numas mangueiras com bocal de cobre nos extremos, entre a portaria no hall de entrada e o interior de cada fracção.

A fachada era discreta, mas icónica me parece hoje a altaneira e pesada a porta principal, circundada de alvenaria trabalhada, cujo chiar do amortecedor antecipava um estrondo que me fazia fugir degraus acima, assustado. As escadas de madeira eram muito largas e enceradas almofadadas por uma passadeira encarnada, ladeadas de mármore de um lado e por um elegante e sólido corrimão de madeira que terminava numa estatueta graciosa, e numas largas escadas de pedra com um corrimão de bronze que precediam um hall aristocrático com elegantes frescos.

Vivia intensamente as minhas estadias naquele extenso mundo de descobertas e de liberdade. Se naquele andar tão soalheiro a vida fervilhava logo pela manhã cedo na área de serviço com os afazeres domésticos das empregadas, a chegada do barbeiro que vinha escanhoar a barba do Avô João, do padeiro, do marçano, a mulher-a-dias que esfregava ou puxava o lustro ao chão encerado, a Celeste que saía para a Praça a fazer as compras; a avó Chunchinha acordava mais tarde para, ainda deitada, me premiar com vinte-e-cinco tostões para um gelado com que me punha feliz a andar para a pastelaria Smarta. Depois, uma visita à sala verde onde se sentava a Bisavó Valentina (Avó Tina, como lhe chamávamos) a fazer crochet, dava direito a ouvir histórias, de desventuras de outros tempos que ela tão bem sabia contar, como aquela dum criado brasileiro dos seus pais que se suicidara para não ir para a guerra ou das escaramuças entre republicanos na Avenida, que obrigavam a família a deitar-se no chão do corredor para se protegerem de uma eventual bala furtiva…

Aos almoços uma ementa variada era servida na sala de jantar pela Celeste, sempre bem fardada — e como eu gostava daquela feijoada à brasileira, receita que desconfio tivesse sido importada pela minha Avó Tina. Depois do almoço abatia-se um profundo silêncio que só era quebrado pelas minhas solitárias brincadeiras com carrinhos de brinquedo no chão, pelos caminhos desenhados nos grandes tapetes, quando não tinha a sorte de ir com a Avó Chunchinha à baixa, para comprar algum prato de faiança «cavalinho rosa» para completar o serviço, ou bolachas Araruta e uma mistura de café na casa Pereira ao Chiado.

À noite, o jantar era quase sempre um momento de exaltação familiar, com a mesa cheia e boa conversa, quase sempre com uma ou outra visita de parentes ou amigos da casa, sempre acolhedora, iluminada por grandes lustres que irradiavam festa. Com sorte, os meus primos eram visita e logo armávamos em loucas correrias pelo interminável corredor, a desafiar o António na cozinha, que era noivo da Celeste. Isto até nos mandarem parar por causa de uma queixa do mítico Senhor Cruz, um vizinho muito doente que eu desconfiava ser apenas um pretexto para nos acalmar. Lembro-me do meu avô sempre elegante, com um lenço branco a sair do bolso do casaco, à conversa com os meus tios à volta duma pequena mesa de bar, servindo-se Whisky com gelo e Água de Castello.

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Ao final da noite, com a casa já toda a dormir, aquele corredor de luz fosca parecia-me assustador de atravessar, com os murmúrios vindos dos saguões que soavam da sombra que se adensava lá mesmo ao fundo, que hoje acredito serem choros e lamentos das vítimas de histórias sombrias, acontecidas ali bem perto na rotunda ou lá em baixo ao Terreiro do Paço, e que marcaram de forma tão dolorosa a vida dos meus antepassados naquela casa.

As festas eram magníficas, não por luxos, que raramente os havia naquela casa, mas pelo empenho e generosidade dos donos da casa. Todas as festas do calendário eram assinaladas na Casa da Avenida, sempre cheia de amigos, tios e primos: do Carnaval com partidas para todos os (des)gostos, à Páscoa com ovos de chocolate para todos os netos, mas principalmente a Ceia do Natal, servida depois da Missa do Galo na igreja de São Pedro de Alcântara, com peru, chocolate quente, sonhos e muitas outras delícias da época, que comíamos depois de abertos os presentes que se amontoavam junto à árvore de Natal. A cor do papel de embrulho identificava a proveniência.

Com pouco mais de sete anos dispunha-me, afoito, a explorar as redondezas com umas moedas no fundo do bolso dos calções. Começava pela tabacaria Glória, esquina da Travessa do Enviado de Inglaterra com a Rua de Santa Marta, onde podia cobiçar uma revista do Patinhas ou um carrinho Matchbox, para o qual o meu dinheiro não chegava. Descia então pela fervilhante Rua de Santa Marta, zona de serviço das casas burguesas da Avenida, passando indiferente pelas mercearias, talhos e «lugares» de frescos, por sapateiros, relojoeiros e casas de penhores, até chegar à Rua de São José, onde dava meia-volta, para aí estoirar o dinheiro num qualquer pechisbeque de plástico com rodas numa qualquer drogaria mixuruca. Voltava então a subir a infindável Rua de Santa Marta, com um apetite cada vez mais aguçado, arrependido de não ter guardado o dinheiro para comprar um bolo.

É importante uma palavra sobre o pessoal doméstico, que de facto era parte da família: tenho consciência que nesse tempo, final dos anos sessenta princípio dos anos setenta, se vivia o final de uma era e o começo de uma outra, com uma radical democratização do consumo e uma inflação que tornava proibitivos os ordenados das empregadas. Foi a época do advento dos apartamentos pequenos, a revolução dos electrodomésticos, a vulgarização dos restaurantes e do pronto-a-vestir que substituíam uma ancestral organização doméstica. Na Casa da Avenida ainda tive tempo de me afeiçoar a figuras de referência como a Conceição costureira e a Celeste. Muitas tardes passei eu a brincar na companhia da Maria da Conceição, que me contava histórias dum universo misterioso que eram as suas origens humildes, de um irmão que perdeu em criança. E era a Celeste que me vestia em pequeno, e que eu tanto gostava de acompanhar às compras ou de ficar a vê-la moer a carne no passador, ou dobrar em meias luas a massa de rissóis. Pensava na minha ingenuidade ser ela minha amiga para a vida, e estranhei muito que tivesse desaparecido sem deixar rasto depois do 25 de Abril, supõe-se para emigrar com o seu António. Há pessoas que não suportam a dor de uma despedida.

Com a morte da minha Bisavó em 1973, os meus avós não puderam renovar o contrato de arrendamento, e no ano de todas as revoluções viram-se obrigados a mudar-se para um pequeno andar — ironia do destino — na Calçada Marquês de Abrantes. Apesar da mobília e da decoração que remetiam para a memória da Casa da Avenida, num país em convulsão e já doentes, foi com muita dificuldade que os meus avós enfrentaram a nova realidade. As mortes dos meus queridos avós ocorreram espaçadas de poucos meses pouco tempo depois, desconfio que por desistência, na dificuldade se adaptarem a mais uma nova era.

Será que, apesar dessa derradeira amargura, tiveram alguma vez a noção do extraordinário legado que nos deixaram? Prometo contar-vos esta história em que estou a mergulhar com todo o detalhe e verdade que me for possível.

A estes heróis não devemos nada menos que isso.   

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por João Távora às 19:47

Quinta-feira, 06.10.16

Rua da Saudade (parte i)

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Esta é uma história de tempos felizes. Quando logo a seguir ao 25 de Abril eu arriscava dar uns passos para mais longe do refúgio familiar, com um espírito inocente e deslumbrado com as promessas da vida ao virar da esquina e ainda distante de perturbações existenciais que prenunciam a adolescência. Curioso como é mais fácil reavivar memórias luminosas quando estas estão ligadas a uma casa, a um determinado sítio. E todos sabemos que a saudade vive nas casas onde fomos amados, cheias dos nossos fantasmas, que às vezes somos nós próprios noutras eras, e que só as abandonam quando são demolidas ou nós as abandonamos pela morte separados.

A casa de Agath V. Radey, de quem por estes dias se celebram cem anos do nascimento, apesar da modéstia e degradação, permanece com uma estranha dignidade, se não altivez, ali a dois passos da Praia dos Pescadores na Baía de Cascais, numa ruela de pedra calçada que por ironia do destino se chama Rua da Saudade. O mesmo destino que me faria voltar à Vila de Cascais onde passei tempos soalheiros num estúdio em frente ao Teatro Gil Vicente antes de casar. O mesmo destino que me fez abrir o escritório não muito longe da Avenida Emídio Navarro, a dois passos da Parada dos nossos saudosos reis, na casa que viu nascer a minha mãe, onde os meus avós passavam a longa época estival à procura de uma bonança mais salubre que a ebulição cosmopolita da Avenida da Liberdade. Todos tomamos uma geografia em legado que redesenhamos pela vida fora.

Agath V. Radey era Princesa de Auersperg e nasceu em Goldegg no Estado da Baixa Áustria em 1916. Chegou a Cascais, desta feita para ficar, com o seu filho Joko, em 1948, depois se ter deixado seduzir anos antes por esta vila. Aqui, no extremo ocidental da Europa, nesta terra de paz e segurança, decidiu sublimar os horrores que presenciara, escapando às ruínas deixadas pela II Guerra Mundial, que levara para o céu o seu marido, Rudolf Georg von Radey, morto pelo exército soviético.

A casa para onde veio morar tinha um pequeno quintal, e nele viviam muitos gatos que falavam com a Tia Ágata, que os tratava com imenso carinho, talvez aquele que já não fosse possível dar ao seu filho, já homem feito, que se escondia, reservado, depois do trabalho, numa sala de música que albergava a maior colecção de discos de música clássica que alguma vez eu vi. Já na altura me fascinavam os sistemas de som, e era com alguma frustração que me sentia indesejado naquele pequeno templo de melomania. A Tia Ágata tinha uma silhueta magra e amarrotada pela vida, e eu pressentia-lhe impressos nos olhos silenciosos que me observavam ao jantar, mil imagens por ela vividas… castelos encantados, como aqueles, magníficos, que se agarram às encostas do Reno, soldados a avançar barulhentos com espingardas na mão, marchas sem rumo de refugiados órfãos das suas pátrias, bombas a cair como chuva impiedosa, suja de lama, de fumo e de pólvora, capaz de submergir as memórias mais felizes. A Tia Ágata era ágil e tinha um sentido prático que me parecia extraordinário: por vezes acompanhava-a ao supermercado Jumbo (uma novidade na época) na sua carrinha Morris Mini de lata cinzenta, consumida como os tachos que se penduravam na parede da cozinha, cheia de gatos interesseiros que me fitavam em alemão.

Não sei como se estabeleceram os laços entre as nossas famílias, mas sei que naquele Verão de 1974, quando em minha casa ainda morava esperança, fui convidado a passar uma temporada naquela residência da Rua da Saudade. Fiquei alojado num pequeno quarto ao lado do sótão onde a Tia Ágata pintava. Lembro-me que os lençóis eram de linho fresco e que da janela se ouviam os pescadores a desafiar o mar e as gaivotas que voltavam da faina com ventos de maresia.

Os dias, então, passava-os na praia com os seus sobrinhos que tinham a minha idade, o Alexandre e a Ágata, que moravam no outro lado da Baía, ao cimo da rua curva, quase ao pé da Igreja da Assunção. A pequena Ágata tinha em comum comigo a curiosidade por todas as marcas, todos os modelos, e potência de todos os carros com que nos cruzávamos nas ruas da vila de Cascais ou que saíam nas revistas da especialidade. E tinha um irresistível charme quando falava com o irmão aquele arrazoado que é para mim a incompreensível língua de Goethe. Os três gostávamos de música pop e aquele Verão ficou-me para sempre ligado às cantigas do disco de Paul McCartney “Band on The Run” que ouvíamos repetidamente. Uma ou outra vez, as noites mornas convidavam-nos à praia dos pescadores e aquelas fizeram-se umas semanas inesquecíveis, feitas de praia e de passeios mágicos, sem grande história como são sempre os tempos felizes.

De regresso a casa, enquanto o ódio começava a ser gritado em grafitis e vociferado em manifestações pelas ruas da cidade, enquanto as armas se acicatavam bêbedas pelos quartéis, ainda empreendi umas quantas visitas ao Alexandre e à Ágata com paragem obrigatória na Rua da Saudade: a viagem a partir de Alcântara era ainda mais emocionante quando tinha a sorte de arranjar um estratégico lugar sentado em segunda classe. Aproveitava para me perder no imobilismo do horizonte, que tanto contrastava com a velocidade a que a costa se sumia, e  para ver o rio Tejo fugir mansamente para Lisboa pouco antes da carruagem mergulhar nas águas, ali antes de se chegar ao Bugio. Claro que os comboios de agora já não têm 2ª Classe e limitam-se a passar em seco rente à rebentação. Chegado ao fim da linha, atravessava ansioso as ruelas emaranhadas de Cascais, aproveitando com os meus amigos o dia que se toldava cada vez mais depressa.

Vieram as primeiras chuvas, as rotinas das aulas começaram e Cascais tornou-se uma terra cada vez mais longínqua, eu já só lá chegava por cartas de letra bem desenhada, e os tempos escureciam enquanto os cravos murchavam nas libertárias G3 e o poder entornava-se na rua, excitada, assustada e a espumar de raiva. Antes de chegar o Verão soube da partida da pequena Ágata e do Alexandre com os pais para a Áustria. Gato escaldado de água fria tem medo.

(Continua aqui)

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por João Távora às 21:51

Quinta-feira, 06.10.16

Rua da Saudade (parte ii)

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Há poucos meses, numa inauguração no Museu dos Coches, fui interpelado no elevador pelo R. que, depois de confirmar a minha identidade, simpaticamente se apresentou e me informou que era possuidor de um retrato meu pintado por Agath V. Radey. Foi quando uma cascata de sentimentos e memórias se desprendeu do meu arquivo de histórias – lembrei-me daquele sótão de pintura da Tia Ágata e do quadro que cheguei a ver rascunhado pelo traço do carvão. Soube então do tributo que a família está a preparar por ocasião do seu centenário natalício no mês de Outubro. Soube como Agath V. Radey ainda chegou a ser homenageada no final dos anos 80, uns anos depois da sua morte, com uma exposição organizada pela Câmara de Cascais de algumas das suas mais significativas obras no Museu Conde de Castro Guimarães. Do seu amor a Cascais e às gentes simples com quem se cruzava, a uma vida a que se entregou com o desprendimento que só uma princesa sabe ter, como se fora serviço. Lembrei-me outra vez do seu olhar azul, cansado, com que me velava à mesa de jantar – a Tia Ágata obedecia a uma estranha regra de não jantar – da sua esmerada gelatina recheada de frutas frescas. Lembrei-me de como se movia ágil, com passo estugado, pelas ruas da Vila que adoptou, pela qual foi adoptada e onde morreu em 1983. Lembrei-me como guiava expedita o seu Morris Mini como se fora um Kart, que circulava ruidoso entre os barcos e as redes dos pescadores, ou de como os caminhos da vida são tão sinuosos quanto imprevisíveis, e podem confluir numa rua chamada Saudade. E de como um Verão mágico como aquele não ficou só esculpido na minha saudade, mas afinal está testemunhado em cores vivas numa tela, prova materializada, visível, palpável, dum tempo em que, como criança que pôde ser criança, tive tempo de ser feliz.

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por João Távora às 21:47

Domingo, 07.08.16

A Ponte Sobre-o-Tejo

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Foi um ano depois de eu nascer que se iniciaram as obras de construção da Ponte Sobre-o-Tejo em Lisboa. Tenho difusas reminiscências de atravessar o rio de Cacilheiro, no velho Hillman do meu pai atafulhado de irmãos, e memórias mais sólidas de atravessarmos a ponte no Volkswagen novinho, que o meu pai jurava também ser o meu carro quando eu chegasse aos pedais. Nesses tempos de barbárie e obscurantismo, demorávamos mais de quatro horas a chegar a Milfontes com uma bagageira no tejadilho e a mãe com a minha irmã bebé ao colo no lugar do morto, e nós os quatro restantes no banco de trás, metade do caminho a implicar uns com os outros. Uma autêntica aventura do faroeste.

Curioso é hoje verificarmos o embaraço mal disfarçado com que a Comunicação Social assinala os 50 anos da inauguração da ponte, que para infortúnio da narrativa oficial nasceu oito anos antes do tempo. Desconfio que nas redacções subentendem o caricato que é celebrar 50 anos de uma obra rebaptizada com uma data histórica posterior à sua construção. Às tantas dão-se mal com a história que confundem com propaganda, um guião de lugares comuns, atafulhada de esqueletos nos armários, pois há que evitar a complexidade para não confundir as cabeças volúveis das gentes. Ou simplesmente “há que ignorar”, é mais isso. Hoje uma tal de Katia Delimbeuf assinala num pequeno artigo na revista do Expresso que: “às 15,00hs, passaram os primeiros carros do povo, que a rebaptizou após a revolução de 1974”. Claro que a coisa vinda de uma jornalista é mentira; se fosse da pena dum poeta seria apenas uma tirada de mau gosto. Na verdade o povo nunca seria chamado a baptizar a Ponte Sobre-o-Tejo (como sabiamente sempre se lhe referiu), tanto mais que a coisa poderia dar para o torto, como se verificou aquando daquele desgraçado concurso televisivo sobre “Os Grandes Portugueses”.
Talvez interesse pouco relembrar neste dia de comemoração que a Ponte Salazar foi construída tarde de mais, e notoriamente subdimensionada. A maior parte das recordações remotas que guardo dos seus primeiros anos referem-se a épicos engarrafamentos que enfrentei, a ir ou a vir da Costa da Caparica, que se repetiam diariamente às horas de ponta e especialmente no Verão, só verdadeiramente mitigados aquando da construção da Ponte Vaco da Gama mais de 30 anos depois. Desculpem-me o mau jeito, mas a ponte Salazar também é uma parábola sobre a nossa incapacidade de planeamento a longo prazo. Um embaraço apenas comparável ao expediente das revoluções que nos últimos duzentos anos nos trouxeram a este triste destino.

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por João Távora às 16:07

Sexta-feira, 28.08.15

Alvorecer

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O Vasco Rosa, meu "analógico" amigo de longa data (daqueles a quem temos o privilégio de apertar os ossos de vez em quando), hoje surpreendeu-me com um presente absolutamente extraordinário: dois contos inéditos escritos pelo meu Pai em 1955 para a revista Alvorecer, "Revista académica de cultura" do Porto que descobriu inadvertidamente nas suas infindáveis pesquisas. Serei suspeito certamente, mas acreditem que a qualidade da prosa prenuncia os anos que posteriormente dedicou com tanto afinco à escrita – nomeadamente à História. 

Estranho privilégio este de, como que numa viagem no tempo, poder “ouvir” o meu pai com 18 anos, a contar-me a história da luta de Lúcio o Gladiador gaulês numa luta pela liberdade.

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por João Távora às 20:24

Quinta-feira, 17.04.14

A outra casa de Abrantes ou uma história de resistência

Com uma pose bem-humorada pouco comum numa fotografia
de família do início do século XX (algures em 1908/9) aqui se apresentam,
de cima para baixo, a minha tia avó Carlota,
o meu avô José Maria de Lancastre e Távora
e os meus tios avós, Pedro, Rita e Luísa.

 

Num recanto paradisíaco de Lisboa entre Campo de Ourique e a Lapa, em frente a um prazenteiro chafariz ficava a casa para onde se mudaram no início dos anos quarenta os meus avós paternos, que hoje faço o mote das memórias que aqui partilho.

Não conheci o meu avô José, que morreu três meses depois de eu nascer: muito culto e severo, segundo rezam as crónicas do meu Pai, teve uma vida aventurosa entre a universidade onde a revolução da república o apanhou - e que não abandonou apesar de tudo - as incursões monárquicas que incorporou mais tarde com Paiva Couceiro, depois o exílio político, e finalmente a Iª Grande Guerra nas fileiras da Legião Estrangeira em que se alistou na Bélgica. Com temperamento pragmático, terá sido o primeiro membro da sua família tradicionalista, da antiga nobreza de Portugal, a completar um curso superior, opção que lhe veio a proporcionar uma profissão como engenheiro civil e a independência necessária para fazer face às mudanças de estilo de vida que no início do século XX pela Europa fora se radicalizavam. A fortuna da família que resistira às reformas e perseguições dos liberais, ao fim dos morgadios e a décadas de oneroso apoio ao Rei Dom Miguel, não resistiria às despesas do exílio da família em St Jean de Luz nos durante a 1ª república, à crise económica decorrente da Guerra e a uma manifesta falta de bom senso que a realidade exigia. A venda do Palácio de Santos ao Estado Francês foi consumada pelo meu bisavô João em 1917.

O exílio do meu Avô terminaria 1935 quendo regressou do Luxemburgo sete anos após o seu casamento com Maria Emília Casal Ribeiro Ulrich, senhora quase vinte anos mais nova: foi a minha madrinha, uma pessoa austera mas conversadora espirituosa, que recordo com saudade, de volta dos seus tricots, livros, ou até a assistir à transmissão dum relato de futebol ou ao Grande Prémio de Fórmula I, modalidades de que era entusiasta. 

Outra personalidade inesquecível desta casa que a adoptou e de que era alma também, era a Tia Lalita, sobrinha direita do meu avô, solteira sem filhos e extremamente amiga da minha Avó, que acompanhou até aos seus últimos dias. Lembro-me bem da sua companhia em tardes soalheiras a costurar, numa pequena salinha aproveitada duma marquise, enquanto eu me entretinha com construções de Lego, a desfolhar livros da Becassine ou revistas do Cavaleiro Andante, todos sob o olhar atento do papagaio Jacó. Lembro-me também dos passeios que dávamos para os lados de Belém no Volkswagen carocha que a minha avó conduzia com desenvoltura. Consta que terá sido das primeiras senhoras em Portugal a tirar a carta de condução. 

A casa dos meus avós Abrantes tinha algumas particularidades engraçadas: contrastando com os móveis antigos e os pesados quadros a óleo dos nossos antepassados, era equipada com tecnologias  na época pouco usuais aos meus olhos, como uma grande televisão com comando à distância – por fio se bem me recordo - torneiras com misturadoras na casa de banho, centrifugadora para sumos e outros prodigiosos electrodomésticos. Para gáudio dos netos dispunha dum encantador jardim rectangular com limoeiros, onde podíamos correr e sujar de forma controlada. Era uma casa com uma área não muito grande, mas em três andares e com uma organização logística muito moderna para a altura. No rés-do-chão vivia a Lurdes, a exímia cozinheira da casa e o seu marido Manuel Brito, motorista, com os filhos José e Maria Emília. Era no mesmo andar onde se situava a garagem e uma lavandaria com espantosa maquinaria, que estava na origem dos fascinantes ribeiros, às vezes com espuma e outras não, que corriam em direcção ao muro das escadas para uma misterioso “túnel” escuro, que servia para inúmeras brincadeiras com carrinhos, bonecos e pauzinhos. Foi nesse espaço mágico onde a determinada altura vivia escondida entre o carvoeiro e as capoeiras uma corsa assustadiça de focinho húmido - Seiça de seu nome. Tinha muito medo de mim e dos meus irmãos provávelmente com razão. Numa das janelas

rebaixadas sobre o jardim encontrava-se por vezes a Aninhas atrás da sua máquina de costura, muito velhinha, de que me lembro ouvir queixar-se dos olhos consumidos pelo trabalho...
Uma particularidade inédita desta casa - presumo que por influência do declive da rua - era uma zona, particularmente no segundo andar onde ficava a sala de televisão, em que o sobrado inclinava ligeiramente, favorecendo as corridas com os automóveis miniatura. Da janela dessa sala, nos dias de calor era comum eu observar num misto de inveja e repugnância, a miudagem a banhar-se com espalhafato no chafariz da rua, perante a condescendência do polícia de guarda à embaixada da Suíça, elegante edifício que com a fachada cor-de-rosa fazia do todo um quadro pitoresco.  

De resto, a memória feliz que guardo das vezes que fiquei a dormir na Travessa do Patrocínio, é a sensação de viver no campo que se tinha ao levantar pela manhã; sem ruído de automóveis e com a perfusão de chilrear dos pássaros. Apenas interrompida pelo ecoar do altifalante do centro de saúde da Caixa de Previdência ali mesmo à esquina. Exóticas sensações e panoramas que ainda hoje se podem vivenciar em muitos microcosmos de intimidade quase bucólica, afinal bem no centro da cidade de Lisboa.

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Fotografias:

1 - Arquivo de família

2 - A casa no final do século XIX - Arquivo da C.M.L.
3 - Perspectiva do Chafariz, por Ozias Filho
4 - Aspecto actual, por Ozias Filho

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por João Távora às 23:20

Domingo, 06.04.14

Os Abrantes

Com uma pose bem-humorada pouco comum numa fotografia de família do início do século XX (algures em 1908/9) aqui se apresentam, de cima para baixo, a minha tia avó Carlota, o meu avô José Maria de Lancastre e Távora e os meus tios avós, Pedro, Rita e Luísa. Em breve voltarei ao assunto numa pequena crónica memorialista.

 

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por João Távora às 20:10

Quinta-feira, 09.10.08

Chamem a polícia


 


Tive uma adolescência atribulada: idealista e rebelde, naqueles loucos finais de setenta, princípios de oitenta, protestei e prevariquei quanto me foi (ou não) permitido. Durante esses tempos “de crescimento”, estragos fiz que mais tarde consertei, mas suspeito que até ao fim dos meus dias verei nas ingratidões do mundo e nas insolências das minhas criancinhas todas as cobranças que se me ficaram por saldar.


Vem isto a propósito da Polícia, entidade que a sociedade hoje reclama em força nas ruas, mas que em determinada fase da minha existência ganhou para mim um indesejável protagonismo.

Desde cedo palmilhei a vida com bastante liberdade, e então, as “forças de segurança” passavam definitivamente ao largo dos meus dias: jamais me defenderam dalgum índio da rua, assim como nunca me embargaram uma bola de futebol. No fundo, para mim “o polícia” pouco mais era  do que aquele antipático personagem dos livros do Hergé.

Até que certa vez chumbei por faltas, fui vender enciclopédias e comprei uma ruinosa motoreta para me armar (imagino que nenhuma criação da engenharia do século XX teve tantas avarias em tão poucos anos) -  a minha vida não mais seria a mesma. Nesse mesmo dia, ao chegar a casa montado na reluzente geringonça, tinha um polícia à porta que me multou por falta duma reles licença camarária. Foi o meu primeiro embate com as “forças da ordem”. Dois dias depois, não resistindo à vaidade de levar uma amiguinha à pendura sem capacete, à terceira ou quarta curva, fui interceptado pelo mesmo guarda, e acabámos todos na esquadra do bairro. Ainda hoje desconfio que aquele tipo passou o tempo todo a rondar os meus caminhos para me apanhar em falta.

As noites loucas que se sucederam nos anos seguintes daquela emborbulhada existência trouxeram consigo algumas rusgas, correrias, e muitos amargos de boca. O pudor de pai de família e de cidadão cumpridor impede-me hoje de aprofundar muitas das desventuras então vividas. A certa altura comprei um Mini em 10ª mão, com o qual não conseguia atravessar a cidade sem que se avariasse ou eu fosse "parado" pela polícia, a viatura rebuscada e inspeccionada. O saldo da minha conta na rua de Sta. Marta chegou a tal ponto que tive que me desfazer do "boguinhas", e nem isso chegou para pagar dívidas.

As coisas depois ainda pioraram, mas isso já não interessa nada. O que me importa hoje constatar com alguma surpresa é que, há muitos, muitos anos que não sou interceptado ou multado pela polícia, que afinal pulula pelas estradas do país e pelas avenidas da cidade. Agora que tenho a consciência tranquila, automóvel certificado e impostos em dia, os zelosos guardas não querem nada de nada comigo. Até dá galo!

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por João Távora às 19:13

Sexta-feira, 29.08.08

As melhores férias da minha vida I


As primitivas memórias que guardo dos Verões em Milfontes fazem sentir-me velho. Nos anos sessenta, exceptuando o café da Barbacã, que tinha televisão e gelados, e talvez nalguma casa que eu ignoro, a iluminação utilizada era gerada por lamparinas de petróleo. Nessa época recordo-me de comprar rebuçados a meio tostão, e de na feira de Agosto cobiçar um reluzente bimotor Douglas em folha de flandres. É desses tempos que me lembro das infindáveis horas de sesta a que nós, crianças, éramos cruelmente condenadas todas as tardes. Eu invariavelmente suportava o castigo impaciente, de olhos esbugalhados no escuro, mas com os ouvidos nos sons da tarde mole, que se arrastava lá fora na rua a estalar de calor.


Foi nos anos sessenta que tomei consciência do mundo; quando os americanos chegavam à lua e se atravessava o rio Mira numa chata que o Sr. Joaquim Viola remava com um só remo alçado sobre a ré.

Conhecida como Princesa do Alentejo, a terra das três mentiras (não é vila, não é nova nem tem mil fontes) era principalmente uma aldeia de pescadores e tinha umas dezenas de casas à volta do forte seiscentista, e poucos eram os privilegiados forasteiros que usufruíam daquela encantadora praia, encimada por um areal imenso de altas dunas.

Todos os anos naquela pequena aldeia, durante umas semanas valentes, sentia-me incomensuravelmente feliz: com o nariz e as bochechas empastadas de Caladril, uma pomada cor-de-rosa para as queimaduras, passava todo o tempo possível dentro d’água. Diariamente, pela manhã (aqui presto devida homenagem à minha mãe, que tão perseverantemente pastoreava um rebanho de cinco rebeldes criancinhas), lá íamos todos para a praia junto do rio, que então era suficientemente espaçosa para as poucas dezenas de famílias de veraneantes que aí se encontravam todos os anos. Hoje essa praia encontra-se rasgada por uma estrada de alcatrão e o areal recuou pela erosão das marés tornando-a impraticável, pelo menos no Verão.

 

(Continua em baixo)

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por João Távora às 22:12

Sexta-feira, 29.08.08

As melhores férias da minha vida II


Uma certa manhã de Agosto, no dia dos meus anos, acordei estremunhado e espremido pelas eufóricas meiguices do meu pai. Chegara de Lisboa e trazia embrulhado de presente um minúsculo insuflável encarnado que (mal ele sonharia) me proporcionou uma das melhores férias de sempre. Eu encaixava que nem uma luva no barquito, que com as palmas das mãos remava com destreza. Na minha imaginação, possuía um autêntico veleiro com o qual alcancei a Índia, cheguei a África e ao topo do mundo. Tirarem-me da água é que era uma carga de trabalhos.


Ano após ano fui aprendendo a conhecer as águas e as marés daquele rio, que cheguei a atravessar a nado muitas vezes. E recordo com saudade as vezes que passeava orgulhoso ao lado do meu pai no seu Volkswagen aos abanões pelo meio das dunas dos Aivados. E havia o nosso guia Jacinto, um pescador autóctone que auxiliava o meu pai em façanhas piscatórias, e que nos acompanhava no Canal à lota do peixe. No último ano que passámos juntos nessa aldeia alentejana, meu pai comprou uma velha barca que deixou à guarda do Jacinto, para um imprescindível restauro. Depois do 25 de Abril, ele não voltou a Vila Nova, e eu nunca mais soube o que se passara com o nosso barco, com o qual tenho a certeza ambos sonhámos divertidas aventuras e passeios numas férias que jamais aconteceram. Talvez por mero pudor, nunca falámos do assunto.

Hoje, por lealdade e caturrice ainda reservo todos os anos uma parte das férias com a família em Milfontes, um destino que afinal se tornou numa pequena selva de betão, paredes-meias com dois enormes parques de campismo. Contra isso vale-nos uma casa que alugamos de costas para a vila e sobranceira ao rio, onde nos podemos abstrair da feira que fervilha lá atrás, e de noite ouvir o chapar dos barcos na água ou uma cigarra a trinar. E depois há as dunas e ondas do Malhão, os miúdos tomaram-lhes o gosto. E há os amores e os amigos de Verão que se querem sempre reencontrar, nem que seja só duas semanas para o ano que vem.

 

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por João Távora às 22:10

Quinta-feira, 12.06.08

Uma grande carreira - reeditada


A propósito de "carreiras" e outros deslumbramentos pacóvios, recupero esta crónica originalmente publicada aqui no C.F. há quase um ano.


 

Quando me falam em “grandes carreiras”, lembro-me logo daquela que foi a principal da minha vida. Refiro-me à do autocarro nº 9, de Campo d’ Ourique ao Bairro Madre de Deus e vice versa. Quando os meus pais se instalaram em Campo d’ Ourique, tinha eu 3 anos, foi inicialmente num prédio de gaveto a dar para a Manuel da Maia, por onde aqueles monstros verdes de dois andares iniciavam o seu percurso para a Avenida da Liberdade, Baixa, e enfim, para mais longe onde a minha imaginação não chegava ainda. Nas minhas memórias mais remotas, lembro-me de, com o meu irmão, nos sentarmos divertidos à janela daquele 1º andar a esperar a passagem dos autocarros mesmo ali em frente onde faziam a primeira paragem do percurso. O seu ronco era inconfundível. Na verdade, o fascínio estava na publicidade disposta entre as duas fileiras de janelas, e o anúncio do chocolate em pó Toddy era para nós o mais atractivo. Enquanto nos entretínhamos assim, não fazíamos grandes estragos.

Um dos meus grandes e secretos prazeres era que o exemplar do autocarro que me saísse em sorte tivesse porta atrás, para poder contemplar emocionado a lancinante velocidade do asfalto, logo ali a fugir para longe, tão depressa, tão depressa. Ou então, menos perigoso, era a felicidade de encontrar no piso de cima o banco da frente à esquerda livre, de modo que pudesse imaginar – discretamente para não parecer maluco – que eu era o omnipotente condutor do veículo, ali bem sentado aos comandos.

O facto de ter tido os meus avós maternos a viver na Avenida da Liberdade, estudado na Escola nº 6 da Bela Vista, no Liceu Pedro Nunes e namorado alguns anos lá para os lados de Sta. Apolónia, definitivamente deu à carreira nº 9 da Carris um grande protagonismo na minha vida. Com a passagem dos anos e com o uso, conheci as nuances dos potentes veículos AEC destinados àquele percurso. Às tantas eram nada menos que uma extensão do meu território, do qual conhecia todos os cheiros, ruídos e... perspectivas.

De resto, quanto a esse mito pós-moderno chamado “carreira”, ao qual eu chamo simplesmente “Vida”, essa recomenda-se, muito obrigado.

 

Fotos daqui

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por João Távora às 15:23

Domingo, 08.06.08

O mundo na nossa mão (1)


 


Bem lançado, o Taunus verde eléctrico percorre veloz as tábuas polidas e enceradas do longo e escuro corredor. Na sua peugada chego eu em corrida e aterro de rabo à sua frente para um imaginário grande plano do bólide furtivo. Com o predilecto Lótus Europa em punho, reproduzo um peão bem calculado para, imitando o som duma travagem “à americana”, bloquear o seu caminho. De cara junto ao chão penetro com o olhar dentro da reluzente miniatura Matchbox, qual zoom que aponta ao seu volante, tablier e assentos monocromáticos. Com a imaginação fértil, visualizo o transtornado vilão ali sentado que prepara uma reacção à audaz artimanha de que foi alvo. Então, saco do pequeno carro da polícia que trago no bolso dos calções, encenando a sua chegada ao local da acção. Precipita-se assim o final da contenda e a vitória do “bom e valente herói”, que afinal sou eu próprio congeminado ali ao volante do potente Lótus. É tempo de interromper a brincadeira pois está na hora de ir à cozinha comer uma carcaça com manteiga, ou quem sabe, uma gemada a transbordar de açúcar.


Ainda hoje me extasio na montra daquela loja de modelismo e brinquedos caros nas Amoreiras, com aqueles espantosos modelos à escala quase reais, com conta-rotações no tablier, pedais metalizados, espelhos retrovisores e limpa pára-brisas. E como eram deslumbrantes as locomotivas e carruagens Marklim, aviões telecomandados e pistas Scalextric que na minha infância me detinham intermináveis horas de puro transe, com a cara colada às vitrinas da Quermesse Paris, ali aos Restauradores.

Esses desejos nunca se cumpriram, pois na minha família as prioridades eram outras. Os brinquedos mais parecidos que tive, foram imitações fabricadas no oriente e que acabavam invariavelmente esventradas no fundo do caixote das tralhas inutilizadas.

Isso dificilmente sucedia com os meus coloridos e variados carrinhos Matchbox, brinquedos difíceis de escangalhar. Era com os meus automóveis preferidos que eu passava tardes infindáveis estendido no chão da sala a brincar. Com as figuras geométricas do tapete turco, imaginava avenidas e travessas, auto-estradas e caminhos, cenários urbanos ou bucólicos para as intermináveis aventuras que inventava inspirado no último episódio dos Vingadores, do Fugitivo ou noutra série qualquer. E ao fim da tarde, lá na Praceta, armado com o modelo favorito, juntava-me à rapaziada para umas disputadas corridas desenhadas a giz no alcatrão.

Mais do que a bola e a bicicleta que me conquistariam mais tarde, elejo os meus carritos Matchbox como o brinquedo preferido da minha infância. Nada na vida me dava mais prazer que escolher e brincar com um carro novo, que seria o meu eleito até à chegada do seguinte, oferecido à vinda da missa pela minha avó, ou numa tarde de compras com a minha mãe. Com 12$50 elas sabiam que me podiam fazer absolutamente feliz... por muito tempo.

 

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por João Távora às 20:45

Segunda-feira, 19.05.08

O estádio do Jamor


Ontem, com as gargantas arranhadas, caras bronzeadas e ligeiramente molhados dos aguaceiros, regressámos felizes do Jamor. Com o coração acelerado, ainda parámos para umas farturas quentinhas, oleadas em açúcar e canela. O maralhal dispersava devagar, mais uma bifana e mais uma cerveja pró caminho, entre um cântico rouco e uma provocação aos rivais; o comboio ainda podia esperar por mais uns minutos de festa.


No Estádio Nacional apanha-se chuva, apanha-se sol e toda a sorte de intempéries ou imprevistos. No Estádio Nacional, à moda antiga, os sanitários são atrás de cada árvore, atrás de cada cabeço, entre os fumos das grelhas, a cheirar a febras e a fritos. No Estádio Jamor, à maneira dos grandes jogos de antigamente, entramos em fila indiana, devagarinho e apertados entre empurrões e desagravos, grosseiros ou bem humorados. Se não acontecer nenhuma desgraça, tudo corre bem. No Estádio Nacional só se joga à luz do dia, de preferência na primavera sob um esplendoroso verde natural.

As memórias que guardo do Jamor são diversas e quase sempre felizes. Em pequeno, no final dos anos sessenta, na Escola da Câmara éramos todos convocados para ensaiar o sarau para o Sr. Almirante. Sob a supervisão dum monitor, impecavelmente  equipados de calções e camisa branca, preparávamos ordeiramente o Dia da Raça, orgulhosa festa republicana de então. A viagem era feita em autocarros da Carris e  era o delírio da pequenada: “senhor chofer, por favor, ponha o pé no ‘celerador”; e por aí a fora. Mais tarde, no inicio dos anos 70, com Alvalade interditado uma temporada, o Sporting fez do Estádio do Jamor a sua casa provisória. Nesse tempo os jogos eram à tarde, a lotação era flexível, e assistíamos ao espectáculo sentados nos degraus de pedra. Havia uns espectadores mais sensíveis que alugavam uma almofada: “Olha a almofadinha... a cinco tostões” ...que era costume serem atiradas pró campo no fim do jogo. As coisas de que me lembro!

Hoje, nos modernos estádios, entramos de carro para o parque de estacionamento, passamos o cartão no torniquete e subimos de elevador para o nosso cómodo e seguro lugar. Comem-se hambúrgueres de marca ou pita shoarma, tudo aprovado pela ASAE, e os patrocinadores encarregam-se da animação, com passatempos iguais ao do estádio ali do lado. Mudam só as cores e os dizeres, tudo é de plástico higiénico e previsível, a bem da segurança e das emoções controladas. Recostados em cadeiras ergonómicas assistimos comodamente ao jogo e qualquer dia podemos “pôr pausa” para ir à casa de banho ou fazer um telefonema. Mas na bancada podemos saltar e cantar, “até morrer, Sporting allez” que “quem não salta, é lampião”... e “Só eu sei... porque não fico em casa!”. Em compensação, hoje em dia levamos as crianças sem preocupação, e encontram-se cada vez mais mulheres e cada vez mais bonitas nas bancadas.

Confesso que gostava que a final da Taça se mantivesse no Jamor, assim mesmo como é hoje. Para poder viver com os meus filhos, que são da geração I Pod, uma festa espontânea e popular. Um ambiente castiço de feira e de festa, com genuínos indígenas e forasteiros, mais a Maria e a merenda. Futebol emoção, com picadas de abelhas, apertos e outros imprevistos, além do pão com chouriço e vinho à pressão. E que mal tem isso?

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por João Távora às 16:24

Terça-feira, 06.05.08

Os anormais



Imperdível este datadíssimo desenho animado produzido pela RTP nos obscuros anos 70 e que ditava o recolher obrigatório da miudagem. Suspeito que isto só acontecia com a cumplicidade da polícia de costumes - e dos meus pais que também estavam feitos. Estes Meninos Rabinos que antes de dormir se atreviam a “rezar a Jesus”, hoje, no mínimo seriam rotulados de ignorantes ou marginais... Ecos de uma época cinzenta e triste em que era possível conceber um família com cinco filhos, qui sas fruto dum deficiente planeamento familiar. Uma cambada de infelizes pois então.

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por João Távora às 16:54




Sobre o autor

João Lancastre e Távora nasceu em Lisboa, que adora. Exilado no Estoril, alienado com política e com os media, é sportinguista de sofrer, monárquico, católico e conservador. No resto é um vencedor: casado, pai de filhos e enteados, é empresário na área da Comunicação e do Marketing. Participando em diversos projectos de intervenção cívica, é dirigente associativo e colabora em vários blogues e projectos comunicação política e cultural.


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