Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

João Távora

Jornais em tempo de mudança (IV)

Abordemos agora a questão, para mim verdadeiramente crítica, que é a dos “suportes” dos conteúdos. Dizem por aí que os jornais perdem leitores todos os dias e que se perdeu o gosto pela leitura, com o império da imagem e dos conteúdos “imediatistas” da TV e seus sucedâneos. Será verdade? Só em parte.
Ponha-se outra questão: ouve-se hoje menos música que ontem? Todas as associações da indústria fonográfica se lamentam e nos alertam para a crise que, ano após ano, se agrava na venda de discos e filmes em suporte tradicional, os chamados CDs e DVDs. No entanto, alguém duvida que alguma vez se tenha ouvido e produzido mais música do que hoje? Agora, todos os miúdos do liceu “sacam” a música na Internet de algum “e mule” da vida (sistema “on line” de partilha de ficheiros chamado “pear-to-pear”). O tráfico de ficheiros de música e cinema impera na Internet, sem controlo. Ouve-se menos música hoje do que ontem? Não. Ouve-se muito mais. É ver nos transportes públicos a vulgarização dos acessíveis aparelhos MP3. “Eu tenho mais de 30 gigas de música no meu PC” é conversa vulgar entre jovens e menos jovens nos dias que passam. Quanta dessa música foi adquirida legalmente?
Com os jornais passa-se algo semelhante. Não tenho dúvida de que nunca se leu tanto como hoje em dia. Com os conteúdos de livre acesso, dos jornais desportivos aos sites corporativos ou de comércio, passando pelos jornais “on line”, nunca houve tamanha democratização da leitura. Que não haja dúvidas: lê-se hoje mais do que antigamente. Na empresa em que trabalho, há actualmente cerca de 300 terminais de computadores com ligação à Internet, logo, com acesso gratuito a toda uma parafernália de conteúdos escritos. Isto não acontecia há dez anos, ou há menos tempo ainda. A democratização da Internet trouxe o caos à distribuição, logo, trouxe problemas na rentabilização dos mais variados conteúdos, entre os quais, parece-me, as notícias dos jornais.
No meu caso, todos os dias recebo na minha caixa de Correio Electrónico links ou transcrições de artigos do DN, do Público ou do Expresso. De forma espontânea formaram-se redes de partilha de conteúdos diversos. Recebo todos os dias diversos textos, partilhados por amigos meus, que conhecem os meus gostos e maneira de pensar. Sim, recebo vários artigos de opinião do DN, “recortados” por essas redes anónimas que alteram nos dias que passam as regras do jogo. Mais, repare-se na divulgação e partilha de conteúdos noticiosos ou de opinião através da blogosfera. Afinal, ainda vamos admitir que hoje se lêem mais “jornais” do que há dez anos, só que de forma diferente.

Que não haja dúvidas: muitos consumidores continuarão a comprar jornais na banca, a sujar os dedos com gosto, numa qualquer esplanada de Lisboa, de Paris ou do Cairo. Mas parece-me que, inevitavelmente, seremos cada vez menos.
O esforço pertence, uma vez mais, aos empresários, aos gestores, a alguém que ponha ordem neste caos, discipline e rentabilize a circulação dos conteúdos dos seus jornais pela Internet. É aí que se encontra agora grande parte do mercado. É aí que encontramos os leitores que faltam diariamente nas bancas tradicionais. E é aí que se encontram talvez muitos mais novos e inquantificáveis públicos.

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.