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João Távora

Homenagem à vida (crónica)

Há umas semanas, numa sexta-feira, vinha eu do Algarve e pimba. Pára-me o estúpido do carro na berma da auto-estrada com a cabeça do motor queimada. “Muita sorte temos nós”, pensei, já no reboque, de carro “às costas”, ao lado de um mecânico alentejano, a 70 km/hora em direcção a Lisboa. Já quase se fazia noite e ainda tão longe de casa… Nada controlamos na vida verdadeiramente, mas tudo vai bem afinal. Seiscentos contos de arranjo, sei hoje.

Foi a cabeça do motor. Nessa noite, a minha mulher veio buscar-me à porta da oficina. Jantámos em Cascais e decidimos ir a uma farmácia tirar uma estranha dúvida... Noite dentro. Afinal somos uns jovens quarentões e temos boa idade para sairmos à noite. Os miúdos já se aguentam sozinhos.

Nas duas noites seguintes mal dormi.

Olho-a com atenção ali ao canto e vejo bem como parece uma menina. Ainda. Agora, volta tudo ao princípio. Quarenta e tal "Invernos" não apagam a luz dos seus olhos tão serenos. De onde lhe vem aquela calma? Será que não entende as aflições da nossa vida? Entende, sim. Mas não estrebucha quando não vale a pena. Vai-se embora dobrar a roupa e pronto. Agora parece-me meio ausente… Mas como ficou bonita!

Noite escura. Para além do gotejar da chuva, o silêncio é total. Eles dormem o sono dos inocentes. Há umas semanas, vinha do Algarve e pimba. Pára-me o estúpido carro na berma com a cabeça do motor queimada. Um sinal. Pensava que o meu Rover não avariava. Era só as revisões e acelerar... Agora dizem-me que é velhote, que não vale nem “para abate”.
Vamos mandar pintar o berço de ferro forjado. Nas despesas há muito por onde cortar! E cada coisa será de sua vez. Durante um ano ele vai ficar ao nosso lado, aqui no quarto. E outra vez aquele cheiro morno de casa fechada à luz do Inverno? Vai é fazer bem à Carolina. Ela quer uma menina. E se for mesmo, onde é que a pomos? Se for rapaz, é fácil: um beliche resolve o problema. Vai adormecer como tu num cestinho ao som dos Madredeus?

É tudo tão frágil… Os equilíbrios… Já se faz manhã e veio a chuva arrefecer o chão, que já se preparava para fazer das suas e incendiar o país inteiro outra vez. Assim, fica para mais tarde. Que falta faz um carro? Agora vai ter de ser de sete lugares. Os mais velhos estão contentes, para eles é tudo natural. Não lhes faltem os skates e os “fones” nas orelhas… Têm sido umas semanas “do caraças” gerindo tantas emoções... Da perdição (no meio do Alentejo, com o carro a fumegar) ao espanto das duas noites esbugalhadas, e daí à interrogação, vou aterrando na realidade. Com os projectos todos em revisão. E é da maneira que não calçamos as pantufas… Graças a Deus.

Nota: não resisti a utilizar abusivamente a fotografia da chuva do FAL.

Sobre o futuro da imprensa escrita I

A visão surrealista repete-se ultimamente de manhã quando apanho o comboio da linha do Estoril para Lisboa: dezenas de passageiros, sentados ou em pé de cara tapada a ler o jornal. Mas não. É apenas o Destak. Hoje até com um caderno especial sobre saúde. Verdadeira Kultura: “De como a relação de amizade tende a acabar com o sexo” ou “Emagrecer e a comer”!
Ao fundo, contra a corrente, detecto um verdadeiro intelectual: de farta bigodaça e óculos de ver ao pé, folheia atentamente o Correio da Manhã.
E depois disto, chegados ao destino, qual será a motivação para verdadeiramente se lerem as notícias do mundo a 0,85 €?

Hoje é sobre jornalistas III

E o sentido crítico imanente do “politicamente correcto”, inquisidor e moralista não estará a fragilizar a estrutura e as defesas de um regime representativo que se quer vigoroso e verdadeiramente democrático? Não nos falta um outro ângulo de visão?

É uma pergunta porventura imprudente, mas inocente, sem mais:
Que futuro teria (em termos de carreira e afirmação) um jovem redactor de direita (nua e crua) independente, em Portugal, num órgão de comunicação social generalista de grande tiragem?
Na comunicação social, onde está a "direita dos valores"? Um jornalista com convicções pessoais, por exemplo, contra o aborto, patriota e católico? E independente? E sem concessões aos herdeiros dos históricos “totalitarismos” de esquerda, agora de mangas de camisa ou “caviar”?
O facto de as faculdades não fornecerem este perfil sociológico para o mercado de trabalho é sinal de extinção do mesmo?
Parece-me que estamos todos adormecidos com o modelo imediatista da “saciedade de consumo” do liberalismo pós-moderno, individualista, hedonista e fracturante.
Uma questão que deveria começar a incomodar também a esquerda democrática.

Ilustração: Guernica (Pablo Picasso)

Gostos não se discutem (crónica)

Que estranhos que somos: quando simultaneamente desesperamos na afirmação da nossa “diferença”, como nos gostamos de saber iguais aos outros, estar na “mesma onda”.

Nestas alturas, quando decorrem fenómenos de massas e de grande mediatização, como o Mundial de Futebol, levanta-se um coro de lamentos e vitupérios contra o “ruído” reinante. Os “diferentes” insurgem-se revoltados contra o desporto-rei. Um amargo desprezo vem ao de cima, inconformado, nas mais díspares e exóticas personalidades: “Eu não gosto de futebol”, afirmam arrogantemente. “Eu declaro solenemente que não vou colocar uma bandeira portuguesa na minha janela”, li algures na blogosfera. Ouvem-se os mais desconcertantes comentários, do tipo: “O meu Jorginho, graças a Deus, só gosta de râguebi”; ou “Em Junho vou emigrar para as Ilhas Selvagens, com a minha colecção de DVD' s do John Ford.”

Às tantas, sinto-me um autêntico troglodita (culpado!) por me deixar envolver com este fabuloso espectáculo que por certo vai ser o Campeonato do Mundo de Futebol FIFA 2006. É que eu vou mesmo ver os jogos que puder… Não tenho perdão!

Mesmo que no meu curriculum esteja a leitura de romances de Clarice Lispector; ser fã de João Sebastião Bach e Hemingway. E se eu disser que gosto de Dee Dee Bridgewater e Jacques Brel? Terei perdão?

Mas confesso que (ainda) não passei do 1º volume de Em Busca do Tempo Perdido. E no meio disto, se eu assumir que sou católico praticante… o rótulo é mais que certo: Serei apelidado de “miserável e vulgar alienado troglodita” que para mais não põe o miúdo no râguebi.

Mas o que eu gosto mesmo é de ir com o Francisco (o miúdo, meu cúmplice e lagarto) à bola. Um bom fim-de-semana sê-lo-á por certo se formos os dois a Alvalade ver o Sporting ganhar, fazer a “hola mexicana” e saltar, saltar, pois que – vergonha das vergonhas - “… quem não salta é lampião”. E depois chegamos roucos a casa, felizes e cansados. E ter umas bocas para “amandar” à segunda-feira no trabalho ou na escola… Enfim, arrisco os meus estados emocionais por esta causa vã, a minha tribo da bola.

Afinal eu sou um vulgar cidadão, que não consegue ouvir Jorge Peixinho e gosta das coisas “por gosto”… Que gosta de ouvir um fado pelos irmãos Leitão, que se entusiasma com os musicais do Andrew Lloyd Webber. E que se comove a ouvir Nowhere Man dos Beatles; ou o Concerto nº 2 para Piano e Orquestra de Rachmaninov - Não sei se sabem que é considerado "do mais vulgar" no meio da "nata" melómana gostar deste concerto? Assim, sem desculpas tipo “foi o primeiro que ouvi… ainda na minha tenra idade…” - Pois eu gosto mesmo do Nº 2 de Rachmaninov, sem mais.

Mas que inferno de vida têm afinal os “diferentes”, que têm de gostar de pinturas esquisitas, (em zinco e terracota sobre tela e fita magnética) … Coitados dos que gostam “do que têm de gostar”. Daqueles que sobem aos píncaros com o Concerto para Elevador e Matraca de Gunter Kaegi. O seu silencioso sofrimento…

Finalmente lamento aqueles que hoje estão nas Ilhas Desertas a reverem os seus DVDs de John Ford e não vão ver o jogo Portugal vs. Angola, como eu, com os miúdos mais à minha Maria resguardando-se das emoções a fazer “ponto cruz”.

Mas antes disso temos é que pôr a bandeira portuguesa na janela, como os nossos vizinhos que também compraram o Expresso de ontem.

10 de Junho - Dia de Portugal

Apesar de não parecer, hoje é dia de Portugal.
Nação que fundámos e pela qual lutamos e partilhamos há 900 anos.
Ainda não percebemos bem por quê… este rectangulozito.
O meu desejo é que Portugal seja para nós mais que o imponderável sucesso de uma equipa de futebol. Que Portugal possa ser mais do que a sua história, a nossa língua e cultura.
Que seja um símbolo e uma utopia; inspiradora da vontade e superação de nós próprios. Desta comunidade a que me orgulho de pertencer.

O Código Carrilho


Este intrincado enigma apareceu no meu e mail, e não vem assinado. Provavelmente é de um anónimo freguês do Corta-Fitas… São tantos!



Então com a sua licença aqui vai a transcrição:

1ª Pista
O filho de Carrilho chama-se Dinis.

O Rei D. Dinis morreu com 46 anos.
Pág. 46 do Código Da Vinci:
Aparece a palavra "Portugal".

2ª Pista
A palavra Carrilho tem 8 letras.
Avançamos 8 páginas.
Pág. 54 do Código Da Vinci:
Aparece "campanha da difamação".

3ª Pista
O livro de Carrilho tem 207 Páginas.
Pág. 207 do Código Da Vinci:
Aparece "Toda a gente adora uma conspiração".

4ª Pista
Clara Ferreira Alves foi muito criticada por Carrilho e aparece no livro de Carrilho na página 167
Pág. 167 do Código Da Vinci:
Aparece "A preciosa verdade perdeu-se para sempre".


5ª Pista
Emídio Rangel é apoiante de Carrilho e aparece na página 78 do livro de Carrilho.
Pág. 78 do Código Da Vinci: aparece o recado de Rangel para Carrilho:
"Professor: As consequências poderiam ser desastrosas para si."

6ª Pista

Quem tramou realmente Carrilho?
O filme de Carrilho na campanha tinha 13 minutos.
Somamos à página 78, os 13 minutos do filme e vamos para a página 91
Pág. 91 do Código Da Vinci Aparece " P.S. - P.S. - P.S."

</em>
Conclusão:
Afinal não deviam ter feito o filme "O Código Da Vinci", mas sim "O Código Carrilho".

Sobre o estado da educação

Recomendo este artigo de Maria José Nogueira Pinto publicado no DN do passado dia 2. Encarregado de educação de três crianças (duas adolescentes no ensino público), subscrevo inteiramente as suas palavras das quais transcrevo a introdução.

Em Espanha, a propósito da alteração da Lei da Educação, os professores denunciaram os quatro mitos que consideram responsáveis pelo fracasso do sistema:
- O mito de aprender fazendo; o mito da igualdade; o mito do professor amigo; o mito da educação sem memória.
Declararam-se também, maioritariamente, simplesmente fartos:
- Da falta de esforço; da falta de autoridade na aula; do excesso de especialização; da integração sem meios; da deterioração do ensino público.
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