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João Távora

Ressentimentos básicos


Tristezas não pagam dívidas, diz o povo e é bem verdade. Quinta feira à noite apanhei um melão de dez quilos que ainda hoje me custa a arrastar. Deixei-me embalar no entusiasmo pela selecção de Portugal, quase assenti às crianças colocar à janela aquela bandeira “verde-rubra” que veio de brinde num jornal qualquer. Agora estou ressacado da bola, estou de luto cerrado, estou vacinado, e não me venham com coisas sobre o mundial de 2010 na África do Sul que até o estômago se me revira.


O pior ainda é confrontar-me com os intermináveis suplementos sobre o Euro 2008 que persistem nos jornais generalistas, que os desportivos nem vê-los ao longe. Será puro sadismo dos editores ou não conseguiram cancelar as estadias aos enviados especiais ou não lhes arranjaram lugares no avião para Lisboa? Quem é a empedernida escumalha, o insensível leitor que se detém a ler intermináveis crónicas sobre as razões da nossa derrota, ou sobre as esperanças das selecções que por lá se mantêm numa atitude provocadora e insensível para com os derrotados?

Ler notícias sobre o Euro 2008, bisbilhotar as peripécias deste torneiozeco, parece-me uma atitude de gosto duvidoso, como a do amante rejeitado que doentiamente prossegue e espia os passos da sua antiga parceira, que prospera na sua vidinha pateticamente satisfeita.

Como vêem, padeço dos sentimentos mais básicos, e agora que já me descobriram a careca, peço-vos licença vou terminar esta croniqueta, pois não resisto a ir ver um bocadinho do Rússia – Holanda, duas equipas que têm exibido um imperdível futebol espectáculo.

Carlos Manuel Castro


À espera de Copérnico antes que chegue Godot




A palavra (sentimento?) que mais palpita nestes tempos é crise. Pelo petróleo, pela comida e pela vida. Por isto, aquilo e aqueloutro.


Talvez estejamos mesmo na dita cuja. Mas talvez ainda não estejamos tão aflitos quanto se pensa. Afinal, quando ela aperta mesmo, deixamos de lado as palavras e procuramos mais os actos que nos sirvam para, pelo menos, minorar a condição declinada.


De qualquer modo, a crise, do Ocidente, entenda-se, pois é dessa que falamos, é um sinal destes tempos. Como se pode falar de crise noutros pontos do globo, se muitos tudo dariam para ter a crise que nós temos? Que para algumas bem significaria o paraíso!


O pulsar do globo começa a mudar. Vivemos num tempo de profunda transformação. Como nunca se verificou desde os tempos de Roma. Os centros de poder, decisão e influência começam a dar os primeiros passos de transferência.


As margens do Atlântico norte dão por si, paulatinamente, a perder poder. Que margens no Índico e no Pacífico ganham. E, a médio prazo, perspectiva-se que o Atlântico Sul também obtenha mais proveitos.


Enquanto isto sucede, o Ocidente vai sofrendo nestes dias com o sentimento do tapete escapar-lhe do chão. E pensa-se, e foca-se, apenas, nas questões nacionais, como se fossem estas, isoladas do enquadramento global, o problema. Mas não são. São questões transversais e comuns. E, nada de ilusões! Apesar do aparente e apelativo convite dos nacionalismos, com as suas respostas simples, sem sentido nem fundamento, esses argumentos foram a forma mais célere e desastrada para o infortúnio.


Por mais que se resista e/ou não apreciem estes tempos, os desafios são comuns aos blocos geográficos e culturais. E as respostas que se pretendem dar, isoladamente, a qualquer desafio, estão condenadas ao fracasso, porque uma nova realidade, multipolar, está a emergir como nunca se verificou antes.


É por isso que precisamos de um Copérnico na política europeia, que refira e nos faça sentir, a nós, europeus, que o globo já não gira à volta apenas e para o apêndice asiático que controlou o mundo durante séculos. Nem considerar, como o pensamento ancilosado da Guerra-Fria ainda dominante em alguns círculos europeus, que na outra margem está uma potência rival e sem problemas. O Tio Sam também está a sentir certas coisas a fugirem-lhe da esfera de controlo.


É preciso mudar de paradigma, para que não fiquemos à espera de Godot.


 


Carlos Manuel Castro (do blogue Palavra Aberta)

O tempo e o amor

A miudagem não sabe, a publicidade não exalta; a literatura despreza e o poeta desconfia. Mas é com o amor antigo e cúmplice, batido pelo tempo e pelo conhecimento, que se alcança a mais sublime comunhão e gloriosa intimidade sensual. O resto é propaganda enganosa, estéril sedução.

Às armas, às armas!


Não escondo que tenho um fraco por futebol e que também sofro seriamente pela selecção do meu país. Reconheço-me inteiramente português, com as idiossincrasias inerentes, que bem se espelham através do fenómeno da bola como refere hoje o Pedro Lomba no Diário de Notícias. Também eu estou de ressaca, há quase quinhentos anos que não ganhamos nada, e já nem os castelhanos querem saber de nós.


Confesso que estou envolvido até ao tutano com as venturas e desventuras da selecção portuguesa lá pela Suíça. Abismadamente oiço quase todos os dias na RTP-N as avisadas considerações do Luís de Freitas Lobo sobre a técnica e a táctica que nos poderão levar à glória. Reconheço que estou a ficar nervoso com a perspectiva de vencermos os bárbaros logo à noite. Se formos eliminados amuo e nem me digam nada! Ou quem sabe, ainda vamos gozar o prato de nos crermos um povo vitorioso e destemido... por uma semana que seja. Sensação mais saborosa do que a de comer o melhor dos chocolates suíços. 

Carlos Leone


O convite


 

Só mesmo por convite escrevo em blogs. Assim no Esplanar, assim no Peão, assim, agora, em O Amigo do Povo. E, de momento, no Corta-fitas. Os convites pressupõem um reconhecimento, mais do que apenas conhecimento. Isto é, conhece-se alguém pelo que faz e reconhece-se nisso algo de valioso. O que vale para quem faz o convite e para quem o aceita. No meu caso, aceitei o convite do João Pedro por motivos de amizade. No ano seguinte, o tempo no Peão foi um equívoco sem grandes consequências, mas afortunadamente passei a conhecer o Hugo Mendes (ver blog Véu da Ignorância II). E junto dos amigos do povo faço o papel de ateu de serviço, o que tem a sua piada e razão de ser.

O convite do Corta-fitas coloca um embaraço. Eu conheço este blog desde o «dia 1». Por uma coincidência, o FAL escreveu-me a anunciar o blog no mesmo dia em que entrei no Esplanar. Em 2006, até houve bastantes links recíprocos. E não foi pela mudança de pouso que eles diminuíram. Foi pela tal questão do reconhecimento. Por um lado, o género de coisas que eu faço (fazia, cada vez mais), coisas quase sempre argumentativas, não pesa muito na economia do Corta-fitas. Por outro, o género de comentário (não de análise) do Corta-fitas não me motiva. O reconhecimento não desaparece, mas esvai-se.

Isto não me impede de ler o CF de quando em vez, sem as surpresas de que necessitaria para mudar de ideias (um João Villalobos não faz a Primavera). Ainda recentemente, o «caso FAL-JPP» mostrou os limites do modelo «comentário». Menos bocas ao Governo «socialista» sobre a alegada pressão contra jornalistas e outros vícios afins teria dado autoridade para indignações contra a sugestão descarada de despedimento feita no Abrupto. Mas a profusão de posts «olhem para nós que somos de Direita», deu nisto: quando uma coisa grave acontece, já se gastou as munições em guerras de alecrim e manjerona (antes do Abrupto, o deslinkado tinha sido o Câmara Corporativa, espécie de CF ao contrário, mas se prezassem mais a honorabilidade teriam deslinkado outros primeiro). É, genericamente, o problema (meu) com o convite (e com o CF): muita agitação e certezas, pouco argumento e autocrítica, muita vontade e pouca imprevisibilidade. A seu modo (que não o meu), outro convidado já se referiu a isto (foi o Pitta). Podia alongar-me, mas isto do «reconhecimento» é hegeliano o bastante para eu evitar falar no problema que é ficarmos presos ao olhar que o «outro» tem de nós, no «mau infinito», etc. E nem os blogs servem para conversas destas, realmente.

Pela minha parte, gostei do convite (surpresa, para mim) e de corresponder. O CF é um caso de estudo das tendências da «bloga» nacional e, pela actividade dos seus animadores, da comunicação social portuguesa. Como o parágrafo anterior regista.

Parabéns pela ideia e boa sorte para o futuro.

 

Carlos Leone (do blogue O Amigo do Povo)

Religião

Religião é tudo aquilo que pode libertar o indivíduo de si mesmo, libertar o tempo do instante e recordar ao único animal que tem uma história (e não apenas uma hereditariedade) tudo o que ele deve à tradição nele depositada.


Régis Debray

Gabriel Silva


Corta-Fitas


 

Corta-fitando no corta-fitas, não faço fitas nem cortes. Fitas faço para que não hajam cortes. Nem fitas cortadas. Fitei o corta-fitas, e não me cortei. Cortei toda a fita, sem medo de ser cortado. Mas não, há o Corta-Fitas onde se pode corta-fitar. Eu também fico no Corta-Fitas. Ainda que seja só um Fita. Ou um só Corte. Hei-de de voltar ao Corta-Fitas para cortar a Fita. Outra vez. Outras Fitas. Todo os dias, o Corta-fitas é de cortafitar. Fitemos então, sem cortes. Cortemos, então, sem fitas. Corta-fitas.

 

Gabriel Silva (do blogue Blasfémias)

Contrariedades


Ser contra o aumento do preço da gasolina é uma posição perfeitamente compreensível para as dezenas de milhares de condutores solitários que diariamente invadem a capital.


No que me diz respeito, estou a pensar manifestar-me contra os valores do m2 das casas em Campo d’ Ourique. E já agora fiquem sabendo que a minha filha pequena é visceralmente contra a exorbitância dos preços praticados nas viagens à Euro Disney. A mim também não me agrada nada a especulação feita em torno duma boa colheita de vinho do Douro.

O fado de Mariza


Com a sua voz robusta e sentida, com os habituais arranjos musicais sofisticados, Mariza regressa hoje com um novo álbum de originais. A fórmula do fado de Mariza tem quase tudo para me seduzir. Eu digo “quase” porque há um traço seu que nos separa: mesmo quando ela canta o pitoresco ou as venturas do amor, indiscriminadamente da sua voz soa-me uma expressão zangada, ou no mínimo grave e séria. Querer ser um “caso sério” no panorama artístico não deveria implicar cantar o fado sempre como quem interpreta o Povo que Lavas no Rio. O fado também se canta com um sorriso, e o amor com ternura.

Cristina Vieira


O futuro e o erro


 

Porque será que tanta gente se sente amedrontada com o novo, com o desconhecido, com a incerteza das probabilidades? Porque persiste tanta gente nas certezas arcaicas e ultrapassadas só por medo de que a futura realidade lhes fuja por entre os dedos (como se não fugisse já!), pelo conforto da sensação de que se controla o que nos rodeia? Vergamo-nos tantas vezes sob o peso dum fardo que ainda não carregámos, que quase o obrigamos a tornar-se real. O futuro não pode constituir uma ameaça maior que o passado. E faz-se disso: de incertezas, de um sem número de possibilidades de erro, de críticas, de insucessos, mas felizmente, também, e não há outro caminho, de conquistas e vitórias.

Pior do que qualquer desaire é deixarmo-nos definhar na ilusória segurança do conhecido e dos danos calculados. Não pretendo com isto dizer que o risco não deva ser avaliado e ponderado, mas, apenas, que há uma boa dose de imprevisto em grande parte das decisões importantes que tomamos e que este facto não nos deve travar o desejo de mudança. Ainda que devagar, ainda que à custa de pequenos recuos se necessário, mas sem medos. A diferença entre a euforia estéril e o avanço responsável de uma sociedade é exactamente esse: reconhecer os erros e emendar. Trabalhar as dúvidas e apostar nas convicções, com a ressalva de que não há soluções milagrosas. Mas há vontade, determinação e confiança. E humildade suficiente para aprender, sempre. É isso que nos salva.

 

Cristina Vieira (do blogue Contra Capa)