Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

João Távora

A boa conversa

Nunca me esquecerei dum genuíno elogio feito há muitos anos ao meu avô homónimo, vindo de um desconhecido que com ele privara: “o seu avô foi dos melhores e mais divertidos conversadores que conheci em toda a minha vida”.


Hoje reconheço o valor da rara, boa e sã conversa. Descomprometida e desinteressada, sem constrangimentos. Que desfrutamos com amigos especiais ou em raros estados de graça. Conversa cúmplice que simplesmente acontece, e não se encomenda. Com a qual resolvermos os verdadeiros problemas do mundo e da existência, principalmente a dos outros. Discutindo o tudo e o nada, um livro, um autor; recordando memórias, aventuras, gaffes ou anedotas, risos e gargalhadas. Zombando dos outros, da vida e de nós próprios. Até às lágrimas, até ao silêncio, até à próxima.

A boa conversa é prática rara e fidalga que só os espíritos livres podem alcançar. Sem pretensões, pelo simples prazer de se estar vivo e de nos termos uns aos outros. Para uma bela e salutar cavaqueira.

O alarme de Alegre


Auto-convencidas do seu monopólio sobre as causas dos mais desfavorecidos, “as esquerdas”, herdeiras da cultura revolucionária, rejubilam aos primeiros sinais da anunciada crise económica mundial. Com uma classe média vulnerável e grosseiras disparidades sociais, características do real subdesenvolvimento do nosso país, preocupa-me o eco que um discurso demagógico e populista que a nossa esquerda  Alegre possa causar. Sabemos bem onde a esquerda radical tradicionalmente vai encontrar os bodes expiatórios e as soluções para as complexas entropias do imaturo sistema produtivo e da deficitária economia nacional.


Quando Santana Lopes, o mais mediático politico da direita doméstica, na campanha para a liderança do seu partido, acusava publicamente José Sócrates de “socialista de meia tigela” por não enfrentar as nossas fatídicas questões sociais, não fez mais do que reconhecer implicitamente ao “socialismo” a propriedade intelectual dos ideais de justiça social. Um preconceito tão erróneo quanto enraizado no discurso monolítico da política nacional.


A um ano das eleições legislativas, é com este perigoso caldo politico que o país mergulha lentamente numa crise económica de consequências imprevisíveis: com uma vigorosa esquerda radical e demagógica, uma outra  tecnocrata e incompetente, passando pela direita que se apresenta sem norte, sem liderança e sem causas.  

E porque pior é sempre possível, é bom que o alarme da Trindade nos soe bem alto.


 

Imagem do Público

António Godinho Gil


Minimal


 

I - A vidinha a vidinha a vidinha a prestaçãozinha a vidinha a vidinha o fim de semaninha a vidinha a abstençãozinha a vidinha a cuequinha a vidinha a vidinha a missinha a vidinha o coitadinho o segredinho a vidinha a vidinha o poupadinho a vidinha a queixinha a vidinha o sofazinho a vidinha a vidinha o filhinho na escolinha a vidinha a vidinha o sossegozinho o alternezinho a vidinha o teatrinho a vidinha a vidinha as feriazinhas a vidinha a garagenzinha incluidinha a vidinha a vidinha a promoçãozinha a vidinha devagarinho devagarinho a vidinha a fintazinha a vidinha a vidinha o arranjinho o mais que tudinho as batatinhas a vidinha a vidinha a copulazinha sábado à noitinha a vidinha a vidinha a reformazinha a vidinha o dinheirinho a vidinha a vidinha o dominguinho a vidinha o queridinho a queridinha os pasteizinhos as pantufinhas o arzinho a viagenzinha o zezinho a vizinha o sorrisinho de manhãzinha devagarinho a virtudezinha o cuidadinho devagarinho a vidinha a vidinha a vidinha.

 

II - A vidinha lá fora, a vidinha a querer entrar, devagarinho, a vidinha a escusar-se graciosamente ao soco, ao pontapé, ao empurrão, aos cornos da verdade, a vidinha a crescer, a crescer numa voragem vegetal, imparável, a vidinha e as suas mil desculpas para não ser vidinha, a vidinha embaraçada por não conhecer a vertigem, o medo, o êxtase, a inquietude, a nudez, a vidinha a olhar para o relógio, a vidinha a querer passar por outra coisa, quando só quer ser vidinha, cada vez mais vidinha, exclusivamente vidinha, escancaradamente vidinha, eternamente vidinha, superlativa e esdrúxula, a vidinha circunspecta, a vidinha a esconder as suas grilhetas, a vidinha a assoar-se, a vidinha a ir às putas, a vidinha a corar, a vidinha a vidinhar, a vidinha a puxar as ligas, a vidinha agorafóbica, a vidinha vestida de preto, a vidinha a crescer, a vidinha a puxar a corda, a vidinha a tombar, graciosamente, é claro, a vidinha à minha espera.

 

III - A vidinha acorda. A vidinha irrompe na voz fanhosa do locutor. A vidinha coçante, descolhoante. A vidinha que nos segue para todo lado, com palavras grandes e outras que nada dizem. A vidinha a puxar para um passado que nunca existirá. A vidinha a chamar-nos, sem pudor, para o habitáculo possível. A tal que nos impingem nas escolas, nas cátedras, nos discursos edificantes, nos balcões da burocracia, na cultura, nos dois minutinhos de publicidade bancária na rádio, prometendo o céu em troca de juros a 20%. No final, vai-se ver, e o fato nunca nunca está à medida. Então entra a vidinha, refulgente, gloriosa. A tal. A da mentira sufocante. A esdrúxula, a inquietante, a pasteurizante, a rasticolante. Lembram-se?

 

António Godinho Gil (do blogue Boca de Incêndio)

A Igreja que eu conheço III

Há algum tempo prometi dar a conhecer iniciativas ou causas da Igreja que assumo pertença, tão nobres quanto esquecidas pela implacável Comunicação Social dos Sound Bites e pela cultura burguesa anticlerical. Nesta adolescentocracia leviana e estéril em que vivemos, reconheço a dificuldade em testemunhar o pulsar orgânico desta religião milenar tão complexa quanto plural. A orgânica da Igreja, não obedece à lógica do partido político, da linearidade das facções, muito menos a uma lógica empresarial. O objecto da religião é Deus criador que devolve ao homem a esperança no seu amor. Uma descoberta que tem o poder de mudar as vidas das pessoas comuns, de lhes trazer a felicidade e imprimir um sentido maior. Essa é uma graça que um dia descobri e que continuo a redescobrir numa caminhada de crescimento interior, feita de vitórias e de hesitações, avanços e recuos.


Muitas vezes tida como importante para a formação do indivíduo, a formação religiosa vulgar queda-se normalmente pelo terceiro ano, ocasião da Primeira Comunhão, ritual festivo muito popular nem sempre pela razão certa. Assim, a catequese termina precocemente para quase todos os miúdos com um fatinho de cerimónia e os inerentes festejos gastronómicos. Prevalece assim uma formação religiosa precária, um saber infantilizado, totalmente ineficaz para as questões existenciais de qualquer adulto com um mínimo de criticismo racional.

A catequese ministrada nas paróquias é disponibilizada até ao décimo catecismo, e a partir daí, a Igreja possui diversos movimentos autónomos, onde o crescimento e o aprofundar do conhecimento religioso é concebido para distintas apetências estéticas ou intelectuais: das comunidades Neo-catecomunais, aos intelectuais Comunhão e Libertação, dos grupos GEN aos sensoriais Carismáticos, aos Jesuítas CVX (Comunidades de Vida Cristã) e tantos outros, são muitos os movimentos católicos onde a vivência cristã é apreendida e praticada num crescendo de compromisso e maturidade.

A Igreja que eu conheço IV


 


O Movimento das Equipas de Casais de Santa Isabel, nasceu em 1989 fundado pelo Cónego Carlos Paes e três casais destinando-se prioritariamente a casais divorciados e recasados pelo civil que pretendem fazer parte activa da Igreja Católica Apostólica.  Este movimento de que a minha mulher e eu fazemos parte, foi inspirado na filosofia e estrutura dos Casais de Nossa Senhora que privilegia o crescimento espiritual do casal enquanto tal, na aceitação das orientações da igreja universal. Sendo a espiritualidade uma vertente humana essencial, a sua assunção e aprendizagem como casal potencia a sua realização mais plena e mais adulta. O Movimento de Casais de Santa Isabel é constituído por várias equipas compostas por três ou quatro casais. Com a assistência espiritual de um sacerdote, as equipas reúnem-se rotativamente num jantar em casa de um casal do seu grupo. Estas reuniões acabam por constituir simultaneamente uma caminhada de amizade e aprendizagem de uma catequese viva, com base na leitura dos evangelhos, na oração comum, sem descurar a partilha das ansiedades, dúvidas e naturalmente os sucessos mais mundanos. Como membros da Igreja, reconhecem a responsabilidade de aprofundar as implicações teológicas e canónicas da sua situação, a fim de contribuir para um melhor enquadramento pastoral dos católicos divorciados e recasados.


Todos os membros das equipas são vivamente convidados a exercerem actividades de voluntariados de cariz social, como forma de partilhar e receber de outras fontes o enriquecimento necessário a uma caminhada de santificação.

Para além das reuniões mensais de equipa, os casais também se encontram ao longo do ano com outras equipas, quer para retiros espirituais, peregrinações ou simples convívios. Finalmente, têm como preocupação comum dar a conhecer a existência deste movimento, sobretudo aos casais que partilhem das circunstancias já referidas. Com muito gosto deixo eu então a informação: no mínimo talvez seja uma janela de esperança para quantos a procuram.

Domingo

Evangelho segundo São Mateus 7, 21-27

 


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Nem todo aquele que Me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino dos Céus, mas só aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus. Muitos Me dirão no dia do Juízo: ‘Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizámos e em teu nome que expulsámos demónios e em teu nome que fizemos tantos milagres?’ Então lhes direi bem alto: ‘Nunca vos conheci. Apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniquidade’. Todo aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as torrentes e sopraram os ventos contra aquela casa; mas ela não caiu, porque estava fundada sobre a rocha. Mas todo aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática é como o homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as torrentes e sopraram os ventos contra aquela casa; ela desmoronou-se e foi grande a sua ruína».

 


Da Bíblia Sagrada

Pág. 4/4