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João Távora

Gratidão

Ser nobre é ser-se grato; duas qualidades que estão fora de moda na nossa cultura cínica e materialista. No seu lugar fomenta-se o ressentimento e a depressão, o mais extremo estágio da auto-suficiência.


Mas como seres sociais e criaturas de Deus que somos, só com gratidão nos é possível viver plenamente. Gratos pelas pequenas e grandes coisas que nos acontecem e que em tão pouco verdadeiramente dependeram de nós: um amigo que nos telefona, uma gracinha duma criança, uma árvore cheia de pardais ao fim duma tarde de Verão. Gratos por uma noite bem dormida, o ordenado ao fim do mês, ou por alguma paz que há tantos anos desfrutamos neste recanto do mundo. Gratos para com os nossos amigos, familiares ou vizinhos com quem somos comunidade e somos gente. Finalmente, a gratidão de nada serve se não for afirmada, demonstrada, soletrada... contra o orgulho que sempre nos ameaça apoucar.

A gratidão é a mais importante qualidade da nobreza, qualidade a que eu aspiro e pela qual todo o Homem deveria ansiar.

História de algibeira (32)


José Maria, António e Alberto Eça de Queiroz, filhos do grande romancista português, envolveram-se com a Monarquia do Norte e tomaram parte nas incursões monárquicas de Paiva Couceiro. Como resultado, a viúva, D. Emília de Castro Pamplona, perdeu o direito à pensão devida pela carreira diplomática do seu marido.



Imagem daqui, com a devida vénia ao Afonso Reis Cabral. Da esquerda para a direita: Alberto; António; José Maria; Maria; e a viúva, Emília Eça de Queiroz.


 


Publicado também aqui.


 

Crimes que nos mudaram a vida


Indivíduos houve que por sua acção criminosa determinaram brutalmente a vida de povos inteiros: por exemplo, Gavrilo Princip, estudante sérvio ultranacionalista ao assassinar o arquiduque Francisco Fernando originou a eclosão da I grande Guerra; os suicidas Manuel Buíça e Alfredo Costa que perpetraram o regicídio de 1908 no Terreiro do Paço precipitaram os factos que levariam à revolução de 5 de Outubro e aos caóticos dezasseis anos de sangrenta guerrilha politica e de decadência económico-social da nação. Da história que se  seguiu estamos todos cansados de lamentar.


Porventura sem comparação, tambem Mark Chapman (na foto) um certo dia cuidou de alterar o curso da nossa (minha) história acabando abruptamente com a vida de John Lennon, sem dúvida um dos mais marcantes músicos do século XX.  O facto é que este sujeito agora biografado no filme "Capítulo 27" por J. P. Schaefer pertence ao grupo dessas sórdidas  figuras históricas que num determinado momento da sua existência, com mais ou menos consciência das consequências, detiveram um desmesurado poder sobre a existência dos seus semelhantes. Por mim, sempre que recordo o genial Imagine, oiço o Sgt. Pepper's ou o "álbum  branco" dos Beatles, reforço a minha convicção de que este mundo seria um local bem mais aprazível com Lennon entre nós.

Lisboa Agosto


A grande cidade torna-se mansa em Agosto; adivinha-se-lhe um pedaço de silêncio no asfalto subitamente deserto e tremeluzente do calor. Os poucos que ficaram por conta dos serviços mínimos partilham a calçada com os turistas, de guia na mão e em calções de caqui. Pela rua afora gozo esta descompressão quando sou resgatado à realidade por um táxi envelhecido que passa rotativo e ribombante, num rasto de fumo negro. O estalido dum bater de asas atrai o meu olhar para as pombas recolhidas à sombras num beiral. E nem está muito calor como nos ameaçaram os meteorologistas na primavera.  


De qualquer modo, estamos em Agosto, os jornais e as revistas sobejam amontoados no quiosque junto à avenida. Hão-de faltar algures no litoral a rebentar de forasteiros bronzeados e barulhentos... A vendedora folheia absorta uma revista do coração e nem dá por mim a espiolhar o interior de um jornal que não vou comprar. Ali ao lado um velho engraxador de dedos tisnados, puxa o lustro ao próprio sapato, não vá ele perder a prática.

Chegado à esplanada vazia, dois empregados demoram a detectar a minha presença e sou atendido com consentida displicência. Como era de esperar o pedido vem trocado. Prazenteiramente aceito a adversidade e almoço devagar enquanto leio o jornal pois hoje até tenho tempo. “Agosto é desgosto”, diz o povo na sua anacrónica sabedoria. Por mim não tenho razão de queixa.

 

Imagem roubada à Luísa, com a devida vénia.

Socorro, salvem as gravatas!


Assumido monárquico, católico, conservador e sportinguista, com muita experiência e  larga ascendência de derrotados pela história pelo menos desde o século XVIII, estou há muito habituado ao sentimento de perdedor. Mesmo assim, ainda é com apreensão que leio no Diário de Notícias o ameaçador prognóstico do fim da gravata, esse ancestral e elegante artefacto de moda masculina. É uma questão de "eficiência energética", dizem eles... Naturalmente estou preparado para resistir, e se o seu comércio vier um dia a ser proibido, julgo possuir bastantes para muitos anos de luta.


Sobrevivente nesta sociedade massificada e igualitária, considero a gravata um dos últimos redutos da distinção no trajar masculino formal, um subtil e gracioso indício da personalidade de quem a usa. Durante a semana de trabalho gosto muito de a vestir com um discreto fatinho de bom corte, escolhida a preceito, e que com gosto irei despir ao final do dia num impulso libertador. Do mesmo modo, agrada-me ao fim de semana usar roupa descontraída, umas calças coçadas e umas sapatilhas. Cada coisa no seu lugar, que para mim a roupa é um espelho da alma e das circunstâncias que vivo: por exemplo, detesto às quartas-feiras europeias ir enfarpelado ver a bola, capricho que me obriga a trazer uma muda de roupa para Lisboa.

Aqui nas Amoreiras, onde trabalho, há muito que observo a moda da "camisa aberta" alastrar como uma epidemia, afectando principalmente os mais jovens executivos. Parece-me que essa adesão provém não só da necessidade de se sentirem aceites, mas duma clara inexperiência de vida que não lhes ensinou a técnica de, na loja,  provar uma camisa com um colarinho de medidas adequadas, que não os estrafegue se estiver abotoado. Assim, até acredito que se sintam muito “in”, democráticos e ecológicos, encafuados em fatos de marca, com camisa de gola aberta, mais parecendo empregados de restaurante sem o laçarote, como quando estão a conferir a caixa ou a fazer a mise en place para o turno seguinte.

Finalmente, como declaração de interesses, assevero que não tenho ar condicionado em casa e dispenso-o bem no trabalho. Aguento com naturalidade uma larga amplitude térmica, sem grande afectação de espírito; a minha mulher pode comprová-lo. Possivelmente é  uma característica genética desenvolvida por gerações de Távoras e outros ramos,  habituados a muitos azares e outras contrariedades da história.

São caracóis, são caracolitos, são os espanhóis, são os espanholitos!


Enquanto o novel treinador Quique Flores (isto é nome de gente?) opera uma “limpeza de balneário” sem precedentes no Benfica e enche a equipa de jogadores "espanhóis" do meio da tabela (Aimar por exemplo ajudou a enterrar o Saragoça na segunda divisão espanhola), os  lampiões vibram diariamente com as manchetes dos jornais desportivos e acorrem aos milhares ao campo de treinos do Seixal para assistirem aos treinos numa sofrega euforia. A mim que gosto de futebol, mesmo com a bonomia causada por quase três semanas de férias, custa-me a entender que gente sã tire um dia da sua vida para assistir com a família a um simples treino de futebol. Pelo que pude constatar na televisão o ambiente é aquele que acompanha os grandes jogos, só o que não há mesmo é jogo: o Rui Costa compõe os óculos escuros, um bruá irrompe das bancadas; o Reyes chuta na bola, o publico aplaude em delírio, Luis Garcia cospe uma escarreta e é aplaudido de pé... enfim, o assunto dava uma crónica.


Eu que nunca quis nada com o vermelho e que fui educado a desconfiar dos espanhóis, acho tudo isto um guião burlesco com um final previsível... lá para o Natal. Pode ser que "nuestros hermanos", depois de terem invadido e depauperado o clube da Luz o levem para rifar em Espanha... Não se perdia tudo!

Não são havaianas João, são chinelas mesmo!


Ao contrário do que os mais ingénuos julgam, na vida, a verdadeira ameaça à boa ordem das coisas não são os irritantes progressistas com as suas conspirações fracturantes que o tempo e a sabedoria cuidarão de corrigir, limar e arredondar, mas as boas pessoas que por mera bonomia ou passividade alinham nas modas dos arrivistas e trocam os nomes das coisas julgando-se muito modernos... Bah!  

Uma tarde aziaga

Regressado a Lisboa e a gozar uns últimos dias de férias, não me livrei ontem de uma tarde amarga e tensa: no ginásio onde pratico exercício físico, o meu cacifo foi arrombado tendo o larápio surripiado a minha carteira e o telemóvel. Por sorte, possuo uma recente cópia de segurança dos dados do meu telemóvel que funciona também como agenda e preciosa ferramenta de trabalho de "ínclita geração". Os cartões bancários cancelei-os de imediato e quanto aos outros preciosos documentos pessoais, resta-me rezar para que reapareçam depressa, por forma a poupar umas valentes horas de bichas, burocracias e múltiplos aborrecimentos.


Novato nestas lides, não suspeitava o que ainda me esperava: por volta das 14.30, ainda sem ter almoçado, acedi a acompanhar dois jovens e solícitos policias para reportar o roubo na esquadra mais próxima, de modo a obter um documento que justificasse eu circular sem qualquer documento ou identificação.

Acredite pois o indulgente leitor que só cheguei a casa perto das 18.00, após assistir a uma obstinada batalha entre os dois jovens agentes com as teclas do computador, letra a letra, palavra a palavra, língua mordida ao canto da boca no preenchimento dos infindáveis "pró-formas". Entretanto arrastavam-se uns complexos procedimentos que envolviam inúmeras fotocópias, para diversas grossas pastas, sob a supervisão de um terceiro cioso guarda que trajava à civil. Não têm conta as repetidas vezes que fui convidado  a soletrar o meu nome e dos meus progenitores(!), a minha morada e profissão. É o país que temos, de artistas de playstation e SMS's, na demanda da insondável técnica do “copy & paste” e de um pouco mais de eficiência.

Hoje, passado o choque e interiorizada a realidade, resta-me ir gozar o fim de tarde na praia com uma nota de dez euros dobrada no bolso (estranha sensação!), na expectativa de que os documentos apareçam algures, e o telefone lá em casa toque com a almejada notícia que afinal já tarda!