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João Távora

A dietética jacobina


Folheando um dos jornais do passado fim-de-semana surpreendi-me com uma página inteira de conselhos dietéticos para o Natal que se aproxima. A articulista sugeria aos comensais, aparentemente sem pretensões a fazer rir,  uma racional atitude de frugalidade, e algumas receitas de doces tradicionais alternativos: cozidos em vez de fritos,  pouco açúcar, menos gorduras, hidratos e muitas saladas. Por fim, para rematar as celebrações, o artigo aconselhava um reforço de exercício físico nos dias seguintes. Faltou o sábio conselho de moderarmos as emoções -  que isto dos sentimentos extremados podem fazer mal à vesícula. E como muitas criancinhas eufóricas fazem mal aos tímpanos... 

Pois, estar vivo é deveras perigoso!

Por mim que sou cristão e que levo as celebrações natalícias bastante a peito, não prescindo da festa mundana, colorida pelas crianças endiabradas, pelas luzes intermitentes e pelos papéis de embrulho rasgados no chão. Assim como não prescindo de uma boa caneca de chocolate quente, uns sonhos e umas rabanadas a seguir à Missa do Galo. Também me delicia o almoço de Natal com peru recheado com castanhas e batata palha, precedido pelo fiel amigo acompanhado com todos. É uma alimentação excessiva? Com certeza que é, mas a ocasião concede-lhe toda a legitimidade. Assim nos dê a todos Deus Nosso Senhor saúde e prosperidade para podermos celebrar todos os anos a sua festa de aniversário em paz e com toda a dignidade.

Publicas virtudes...


Faço zapping à procura do jogo dos lampiões induzido pelo bruaaá que escuto do café em baixo da minha casa. Em vão. Só depois me lembrei: dá só no canal Benfica do MEO, que foi a solução encontrada pelo clube para promover alguma discrição e privacidade aos malogros da equipa de futebol.

 

Ir à bica e a boa vida


As máquinas café expresso invadem as nossas casas, e a cada Natal que passa o perigo é redobrado. Cá para mim aquilo do Nespresso dá um café a saber a conservantes, acho que aqueles “preparados” têm uns aromas mais próprios para rebuçados. Sou eu que o digo porque já provei algumas daquelas "drageias" do Sr. George Clooney. O assunto já foi motivo de acesa discussão com amigos e em família, as opiniões divergem, mas aquilo definitivamente a mim não me apetece: além de sair cara cada pastilha, quando tomo café em casa, gosto daquele de saco, e se tiver visitas até o faço “de balão” que tem mais estilo. Cada coisa no seu sítio!

Depois, não me tirem o passeio para o café, na esplanada ou lá dentro, no Paredão ou na Garrett, com o jornal ou um bom livro, sozinho ou em boa companhia. Ir ao café é um ritual imprescindível para o meu equilíbrio, mesmo que seja “à pressa”, ao balcão. É uma boa maneira de começar o dia, comentar com o Sr. Camilo as últimas “da bola” ou do bairro. Nisto de máquinas (caras!) já me basta a Bimbi que geme estridente lá em casa, e por quem (!) eu morro de ciúmes. Aquela treta de mil euros, que só faz um litro de sopa de cada vez, agora domina a culinária doméstica, ninguém mais quer saber dos meus prosaicos petiscos artesanais calóricos e gordurosos. É ver a criançada fazer lasanhas e outras habilidades com molho branco e tomatada, todas contentes com a mãe babada a ver.

Com a Internet já podemos trabalhar e pagar os impostos a partir de casa. Mas não exagerem: depois do "cinema em casa" querem-nos vender cerveja de pressão e a bela da bica “em casa".E até já ouvi falar de uma companhia de teatro que “actua ao domicílio”. Enfim, com um montão de euros e boa tecnologia sempre podemos viver emparedados.


Mas eu gosto mesmo é de sair para ver o povo e respirar outros ares, por isso com a vossa licença termino, que vou lá abaixo tomar a “bica” e ver como param as modas.


 

Texto reeditado

 

Só para terminar o assunto CDS...

Deus queira que no futuro os deputados, a par do partido que representem tenham de prestar contas do seu mandato aos votantes que os elegeram. Mas por ora, parece-me da mais basilar ética política que José Paulo de Carvalho abandone o lugar que ocupou no grupo parlamentar do CDS. Apenas porque no actual sistema eleitoral aquela cadeira não lhe pertence.

O outro advento

Parece-me estranho que perante os mais que previsíveis resultados das directas do CDS apareçam agora alguns inconsoláveis militantes deitando a toalha ao chão. A  grave conjuntura histórica que atravessamos e a violenta revolução orgânica que se adivinha com funestos danos colaterais, tem que ser tomada como uma oportunidade, o emergir de novas prioridades, de novos horizontes.

Neste contexto, com a tendência de fulanização do CDS, em vias de se transformar numa empresa de propaganda unipessoal, a prioridade dos militantes deveria ser de se reforçarem, agrupando-se como reserva por um  projecto politico de puro serviço, para uma nova ordem nacional.

Acredito que muitos portugueses anseiam por um projecto político lúcido e transparente, descomplexado e de direita. Que moralize e resgate as instituições numa atitude ética e reformadora. Um projecto fundamentado em ideais sólidos, nos valores personalistas cristãos que o “centrão dos interesses” desbaratou durante décadas, em nome dum “pragmatismo” eleitoralista.

Que não hajam dúvidas: chegaram novos tempos e vêm aí novas lutas. É urgente uma profunda regeneração de métodos e de conceitos. Acredito que os actuais protagonistas, descredibilizados pela ausência de ideias e ideais, mais tarde ou mais cedo estarão de saída. Assim parece-me que o momento deverá ser de empenho e vigília,  não de abandono.

Os gostos que se discutem

Ainda a propósito de anúncios inquietantes ou irritantes, eu confesso-me demasiado sensível à imbecilidade. A minha reacção a esse tipo de agressão chega a ser fisiológica: ao ver alguns anúncios de rádio ou TV que por aí se exibem chego a ficar com o estômago tolhido de vergonha, quase enjoado: por exemplo acreditem que eu há muito deixei de ouvir a TSF, não por ser despudoradamente facciosa na edição das notícias – um autentico case-study de propaganda ideológica e do discurso politicamente correcto – mas por causa duns delirantes e insuportáveis spots publicitários a uma inconcebível marca “Staples”. De facto tolero melhor a desonestidade intelectual do que o despudorado mau gosto, que por vezes toma foros de pura violência. Acredito que há um limite a partir do qual “os gostos” se discutem.

Gelo nos estádios


As manchetes da bola de hoje reclamam como notícia os cerca de 7.000 adeptos que ontem à noite foram a Alvalade para assistir ao Sporting 3 – Marítimo 0 a contar para a Taça da Liga.

Habitual freguês daquela casa, eu segui sonolentamente o jogo de pantufas pela TV, sem sobressaltos num merecido e preguiçoso recobro. E acho extraordinária a quantidade de voluntariosos lagartos que numa noite gelada de Domingo se deslocaram ao estádio para um jogo daqueles sem rivalidades de maior, a contar para competição sem prestigio nem tradição. Parece-me de facto urgente repensar não só o quadro competitivo do futebol nacional, mas principalmente os inconcebíveis horários dos jogos.

 

Chamar os bois pelos nomes


Sobre os persistentes motins de Atenas muito se tem escrito e discutido. Quase sempre os fazedores de opinião tomam os tristes acontecimentos da capital grega como um aviso à navegação, desta Europa à beira duma recessão económica sem precedentes. A grande ameaça está no poder que vive na rua, diz-nos a História nas suas mais sangrentas e cruéis páginas.

Os materialistas e alguns cientistas sociais (o que quer que isso seja) apressam-se hoje a reclamar que os tumultos de Atenas se justificam numa perspectiva de “luta de classes” com uma geração agastada com o prenúncio de um novo ciclo económico, o primeiro negativo desde há  muitas gerações. Essa conclusão parece-me precipitada, um wishful thinking dos sabichões do costume que nos desvia das mais profundas razões da decadência do “ocidente democrático”. Ora parece-me a mim que não consta que uma “geração”, um grupo etário, por natureza indistinto e heterogéneo, “pense” e muito menos possua “sentimentos”, reagindo como um corpo a quaisquer estímulos.

A mobilidade social hoje é uma realidade, uma conquista reforçada nos tempos modernos com o estado de direito, o liberalismo e o fim dos morgadios: numa família, uma geração ganha e perde poder de compra em relação à outra tendencialmente por força do empenho ou do demérito dos indivíduos. A decadência de famílias e de fortunas é um fenómeno perfeitamente vulgar dos quais conhecemos demasiados exemplos, e histórias. Os tempos que se aproximam serão de crise e de decadência para muitos, e naturalmente constituirão uma oportunidade para outros se destacarem e vencerem.

Relativamente aos motins de Atenas, quanto a mim o foco da análise não se deveria afastar da questão principal que reside na perda de autoridade do Estado: perante a realidade da natureza do homem, a democracia, o menos imperfeito dos regimes políticos, a ser viável, só o é com o exercício firme da autoridade, noção antagónica ao relativismo moral promovido pela cultura esquerdista que mina por dentro o sistema, numa lógica de "quanto pior melhor".

As rebeliões na Grécia começam com um caso de polícia e de delinquência juvenil que descamba desastrosamente por causa de uma crise profunda de autoridade do Estado. Sem que no entanto deixem de facto de constituir um caso de polícia e de delinquência juvenil.

 

O guarda freio


Do diferendo entre o governo e os professores, dessa grotesca novela de faca e alguidar, paradigma da total falência do regime, há um personagem chave – não sei se ele representa a faca ou o alguidar - que ultrapassa a mais delirante ficção: falo do grande líder Mário Nogueira cuja figura me sugere um guarda freio da carris. Numa hipotética  sessão de casting para um figurante assim, eu escolheria o sindicalista. Está visto que o homem tem futuro.