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João Távora

Sabores de vida


É simplesmente deliciosa aquela cena de Peter Falk  no filme "Nas Asas do Desejo" de Wim Wenders junto a uma roulotte de bebidas quentes, quando ele esfrega as mãos enregeladas pelo Inverno de Berlim, descrevendo os mais prosaicos prazeres humanos ao ingénuo anjo Damiel (Bruno Ganz).

Gosto muito do Verão, do sol, de luz e do mar, de roupas leves e noites mornas com trinar das cigarras de fundo. Mas o frio do Inverno possui uma estética própria, uma magia que os anos nos ensinam a apreciar.

Ao contrário do calor que acicata os ânimos e enerva as pessoas, a chegada do frio torna-as afáveis e cúmplices perante o incómodo. No café, enterrados em casacos e cachecóis comenta-se o tempo com desconhecidos. E apenas com uma bica escaldada conquista-se o céu.


Nesta altura até os mais desapegados casais se aninham à noite na cama. É o tempo do aconchego e da intimidade, de tardes em família, dum bolo feito no forno e chá quente para consolar. O frio também tem o seu encanto.


 

Soares Franco

O problema de Soares Franco é o seu fraco tacto político, falta de jogo de cintura...  não ter o necessário “sangue de barata”. Ele é apenas um pragmático gestor que se agasta com as emoções básicas e demais casualidades que caracterizam a industria da bola. A dinâmica deste negócio colide por natureza com a mais pura racionalidade ou estratégia de administração virada para o longo prazo. Ele já devia saber isso.

O drama é que num clube de futebol, uma má gestão é certamente fatal, mas o contrário não garante o seu sucesso: pode haver um golo batoteiro, uma bola na barra, uma claque indomável, um qualquer factor aleatório que baralhe as contas e comprometa a época. Acontece que na vertigem da clubite, a paixão dos adeptos é indiferente aos meios, tendo unicamente em vista os fins: a vitória - nem que seja “com a mão”. Ele já devia saber isso.

Com um património invejável de credibilidade e grande parte das metas atingidas, Soares Franco sai mal na fotografia ao desistir do seu projecto no Sporting. E quer esteja a fazer bluff quer esteja a ser sincero, duvido que desta vez os sócios o perdoem. Ele já devia saber isso.

Stº António dos Olivais


É verdade que passei uma boa temporada em Coimbra, vivi em Sto. António dos Olivais. Lembro-me que ouvia Lloyd Cole de mais, e que um dia uma bem intencionada alma me ofereceu um gatito siamês para minha salutar companhia. Acho que o animal chegou demasiado crescido às minhas mãos, já elegante e lustroso. Desde então tentámos com afinco domesticarmo-nos mutuamente, mas a causa era perdida - foi curta e inglória a sua passagem na minha vida. O bichano, além de não me ligar peva, possuía uma estranha extravagância: subir às arvores que não sabia descer. Uma noite, de madrugada, acordei estremunhado com os seus miados aflitos. Espreitei ensonado para o quintal, e lá estava ele, empoleirado num tronco da alta árvore. Na noite seguinte ao chegar a casa, àquela pacata rua de província, o gato lá permanecia, balanceante, num ramo ainda mais alto e mais frágil, com um miar mais sonoro e desesperado. Pressenti os olhares estremunhados e recriminatórios dos meus vizinhos, ocultos pelas suas térreas gelosias. Ao terceiro dia, finalmente entrou em casa despenteado, rouco e a coxear. Dei-lhe uma reconfortante refeição, e nessa noite ambos dormimos um sono profundo e retemperador.

Que eu me lembre, a cena repetiu-se mais duas vezes. À medida que o tempo passava, o bicho subia mais alto, para os mais frágeis e trémulos ramos, ao nível de um segundo andar. O pânico da vertigem impelia-o para o alto. Atirei-lhe com pinhas, chamei os bombeiros, a situação era desesperada. Até que o gato caía de maduro, pelo cansaço ou pela força do vento.

O bicho era bonito. Olhos verdes claros, por detrás duma mascarilha castanha a condizer com as botas e luvinhas, sobre um pelo sedoso bege claro. Uns dias mais tarde o bichano desapareceu. Foi algum incauto forasteiro que o roubou, atraído pela fidalga figura do estúpido animal. Ou então um vizinho mais zeloso lhe deu um curativo fatal. Para bem da boa vizinhança.

Demorou algum tempo mais para que eu próprio, pelo meu pé, descesse da minha árvore.


 


Texto Reeditado

Pedido de esclarecimento

De modo a apurarmos o nível da nossa discussão sobre a monarquia, desafio o Tiago Moreira Ramalho do Corta-fitas a sustentar a afirmação de que terá sido no tempo da Dinastia Bragantina e até 1910 (repare-se na subtileza do final do período em questão) que Portugal perdeu o comboio europeu, depois de termos sido uma super-potência mundial. Gostava que o Tiago me referisse as suas fontes, e já agora nos desvendasse tais números, os quadros comparativos com as outras economias europeias.

Num modesto contributo para a sua elucidação, sugiro que visite o site da Plataforma do Centenário da Republica onde encontrará dois brilhantes artigos do Ricardo Gomes da Silva sobre a manipulação dos dados estatísticos, e outro do meu colega de causa Carlos Bobone, sobre a propaganda republicana a respeito do pretenso descalabro nacional.

Penso que a pertinência destas questões justificam a generosidade do Tiago em manter o debate à tona da blogosfera e fico a aguardar os seus esclarecimentos.


 


Também publicado aqui

Aimar e mar, ai ir e voltar


Siempre he tenido dudas de la eficacia de la Armanda Invencible de nuestros hermanos, plantada  por Almirante Flores en el patio de Seixal. Ahora se estaban hundiendo!

Una vez más la propaganda sólo funcionó bien para la pre-época… Ahora a los lampiones tendrán que se entender en español asta el final de la temporada.

A bomba-relógio

O regime nos últimos trinta anos sustentou-se na ascensão artificial de uma classe média espiritualmente pobre, pouco ágil e inculta, só possível através do endividamento e do emprego artificial às expensas do estado. Paralelamente conquistou hegemonia a cultura do contra-poder, uma adolescentocracia triunfante patrocinada pelas esquerdas radicais.

A bem da paz social tem-nos valido essa falsa progressão social massificada e sustentada no consumismo estéril que alimentou as urnas, elegeu deputados e governos. Ora agora consta que o circo acabou.

Os tempos de crise que se adivinham são um ameaça à terceira república e no mínimo representarão muita instabilidade social  e o retorno à Política. Mais, suspeito que o descrédito nas instituições, em conjunto com o desemprego massivo e uma negra recessão económica, aconselharão a breve trecho a uma  profunda regeneração do sistema político. Para assim se desartilhar a bomba.

 

Uma discussão sempre pertinente


Em jeito de provocação, o Tiago Moreira Ramalho do Corta-fitas lançou um repto aos monárquicos (segundo ele estranhamente numerosos!) para que sustentassem as suas   convicções. Confesso que inicialmente pressenti a questão eivada dos habituais e levianos preconceitos fruto da intoxicação de cem anos de propaganda ou simplesmente por falta de conhecimento.

Mesmo fora da sacrossanta agenda política, a discussão vingou e a resposta dos monárquicos na blogosfera surpreendeu-me não tanto pela quantidade, mas pela qualidade argumentativa e doutrinal, e disso presto aqui homenagem ao Tiago. Assim, aconselho vivamente a leituras de Nuno Castelo Branco no Estado Sentido, do Samuel Paiva Pires no blog do Centenário da República, do João Gomes n’O amor em tempos de blogosfera, do Ricardo Gomes da Silva no Somos Portugueses, do Rui Monteiro na Causa Monárquica, do Professor Mendo Castro Henriques também no blog do Centenário da República e do Miguel Castelo Branco no Combustões. De notar algumas valiosas intervenções nas caixas de comentários das quais destaco interessantes réplicas do Leónidas e do Costa. De resto a bandeira republicana, além do Tiago só a vi hasteada pelo intrépido André Couto da Câmara dos Comuns


Finalmente, acreditem que não subestimo a doutrina republicana: respeito os fundamentos morais e reconheço-lhe uma “racionalidade” sistémica estimável. Aliás acredito que esse regime é o ideal nalgumas nações do mundo, sendo disso exemplo máximo os Estados Unidos da América. Mas por favor, os republicanos que não menosprezem a questão infantilizando um debate que como se comprova é sempre pertinente e substancial.


 


Imagem: caricatura dos protagonistas do "caso das bandeiras" Guerra Junqueiro e Teófilo Braga (autor desconhecido, jornal a Luta) daqui

A grande epidemia


A benemérita comunicação social, está empenhada em serenar os receios do seu público com notícias actualizadas sobre o “pico da gripe”. Esta estranha epidemia propagou-se entre nós após o Natal e tem ocupado entusiasticamente as redacções dos jornais, rádios e televisões, assim como os farmacêuticos, bancos de hospitais, centros de saúde e a população em geral. Diz que tem sido um ver se t’avias. Até estranhei o presidente da república anteontem não ter feito referência ao caso.

Custa-me a entender a necessidade de tanto estardalhaço mediático, comunicados e avisos à população para não entupirem os bancos de hospitais, coisa que aliás não chegou a acontecer e que logo se tornou numa “não notícia” destacada e repetida em uníssono pelos telejornais do prime time.

A mim é que não me apanham no banco de hospital ou no centro de saúde por causa de uma gripe, mesmo que seja do tipo “pico”. Tenho para mim uma máxima que reza: “pagar, morrer e ir ao médico, quanto mais tarde melhor”. A mim só me apanham no centro de saúde para ministrar as vacinas às criancinhas, ou quando uma moléstia nos  pequenotes não se resolve com as fórmulas habituais. Eu explico: ao fim duns valentes anos de paternidade múltipla, qualquer pai, além de louco torna-se também médico um pouco. Conhece as propriedades milagrosas do xarope para a tosse, do paracetamol, do ibuprofeno, e à oitava otite ou amigdalite também já arrisca o antibiótico certo. Por exemplo para mim, que tenho duas constipações por ano e uma gripe (com febres, etc) aproximadamente nos anos bissextos ou assim, ir ao médico e ao centro de saúde só se for para sociabilizar, coisa que não apetece e menos se aconselha já que o recolhimento é meia cura. “Abafa-te e abifa-te” lá diz a sabedoria popular, a mesma que depois predispõe as nossas gentes a romagens massivas aos hospitais e centros de saúde a aviar uma receita de aspirina.  Não dá para entender...

Sementes de regeneração (1)

Ontem na Quadratura do Círculo, António Lobo Xavier afirmou a sua decisão de ir ao Congresso do CDS. É pouco mas não deixa de ser uma boa notícia.

Urge que os pesos-pesados da lucidez nacional desçam das seus tronos de comentadores e façam-se ao caminho. Porque é de prever que Portugal sobreviva a José Sócrates e aos Queijos Limianos de circunstância.

 

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