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João Távora

Seis verdades e três mentiras

Aqui vai a minha resposta ao desafio da Luísa e do João Amorim. Garanto-vos que a minha vida dava um filme, mas liquidaria de imediato a minha frágil reputação, pelo que tive que moderar as minhas revelações verdadeiras. Arrisque o leitor apontar as falsas!


 


1 - Tenho dois filhos e dois adoráveis enteados adolescentes que me dão muita luta.

2 - Saí de casa dos meus pais aos dezanove anos para descobrir o Mundo e perdi-me.

3 - Estive para morrer afogado arrastado pela corrente na foz do rio Mira.

4 - Estive muito perto de abraçar a vida monástica.

5 - Sou uma pessoa pragmática e austera.

6 - Por uma temporada em 1970 na Casa da Comédia representei a personagem principal numa peça de teatro.

7 - Em várias fases da minha vida arranhei uns acordes de viola para cantar umas cançonetas populares - lá voltarei quando me reformar.

8 - Gozei a vida até aos limites e casei-me trintão.

9 -  Aos quarenta e sete anos não resisto a uma valente borga no Bairro Alto ou na 24 de Julho.


 


Excepcionalmente não interrompo a corrente e lanço o desafio ao Rui Castro, ao Luís Novaes Tito, à Cristina Ferreira de Almeida, ao Carlos Medina Ribeiro e ao Nuno Castelo Branco.

Os novos fariseísmos

Parece-me que a Ana cai aqui num inocente equívoco, confunde os “princípios” com a subjectividade da acção concreta e relacional: a Igreja de Cristo deverá ser absolutamente determinada quanto aos princípios e só assim faz sentido como religião como absoluto que “religa, e confere sentido” sob o risco de o deixar de ser. Já no âmbito do concreto, das pessoas e das suas atitudes nas suas circunstâncias, a tolerância (caridade, sim!) e o perdão são premente dever dessa Igreja (entendida como hierarquia e comunidade de cristãos), seguindo os ensinamentos de Cristo que se fez crucificar ao lado de dois ladrões (chame-lhes mulher adultera, carrascos nazis, comunistas, pedófilos, o que quiser), a quem, mediante o arrependimento sincero lhes concedeu a remissão dos seus pecados “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso”. Esta é a grande revolução cristã, ainda hoje mal compreendida.

De resto não nos podemos deixar iludir pelo fariseísmo dominante como tão bem refere aqui o João Miranda: o valor que as pessoas atribuem à Liberdade de Expressão não se mede pela tolerância em relação a ideias populares. Mede-se pela tolerância em relação a ideias impopulares. Recentemente, um bispo foi expulso da Argentina por negar o Holocausto. Ninguém protestou. Eu por mim convivo conformado e quotidianamente com maoistas e estalinistas, que até têm representação politica em diversos órgãos de soberania nacionais.

TVI 24


Sem muita disponibilidade para tal, foram poucos os minutos que consegui dedicar ao novo canal de notícias da TVI: a primeira impressão não foi positiva ao ser recebido com um interminável bloco de anúncios que por pouco não me expulsou para outro canal. Depois, como a Cristina Ferreira de Almeida, também me pareceu promissora a mesa redonda com Vasco Pulido Valente, Rui Ramos e Vital Moreira. Claro que à parte de Vital Moreira que tem pergaminhos  como tribuno, os outros dois exprimem-se bem melhor a escrever do que a falar.  Resta-nos esperar que a TVI 24 (site muito lento!) traga ao jornalismo doméstico menos preconceito, mais isenção e mais pluralismo. Para bem do mercado e para bem de Portugal!

Assim com’assim, bom fim-de-semana!

Em Janeiro na zona euro o desemprego aumentou para 8,1 em Janeiro, enquanto os preços os preços recuaram 0,8 por cento acentuando a eminência de deflação. Preocupações suficientes para fazer disparar a febre de qualquer zeloso primeiro-ministro europeu, sem que deixe de estar presente na Cimeira Europeia de Domingo. José Sócrates é que não está para maçadas e antes prefere abrilhantar o seu congresso socialista, evento preparado com minúcia e sobre o qual Portugal inteiro permanecerá em suspenso todo o fim-de-semana na expectativa de muita malhação ou de algum faits divers. Mesmo sem Alegre.

Dessas e doutras peripécias nos dará conta o nosso João Gomes, que nos próximos dias estará de serviço em Espinho pelo seu Portal de Lisboa e... pelo Risco Contínuo - claro!.

 

O perdão a história e o erro

Independentemente do que me parece ser a intransigência dos ofendidos, considero  louvável o pedido de perdão do bispo Richard Williamson, por ter negado o Holocausto. Afinal os cristãos não se distinguem por qualquer dom especial de inocência, mas pela pressuposta exigência de arrependimento e regeneração face ao erro.


“Para todas as almas que ficaram verdadeiramente escandalizadas com o que eu disse, diante de Deus, peço perdão” declarou o bispo numa carta, escrita ao Vaticano. Nela, Richard Williamson afirma que “o Papa e o meu Superior, D. Bernard Fellay, solicitaram que eu reconsidere as observações que fiz na televisão sueca há quatro meses atrás, pois suas consequências têm sido muito pesadas”.


Segundo explica, “observando essas consequências, posso verdadeiramente dizer que lamento ter feito essas observações, e que se eu soubesse de antemão o dano e dor a que elas dariam origem, especialmente para a Igreja, mas também para os sobreviventes e parentes das vítimas da injustiça sob o Terceiro Reich, eu não as teria feito”.


De resto, exigir-se que a Igreja Católica, uma instituição global, milenar, eminentemente orgânica e plural, reflicta uma imagem unívoca à maneira dum partido político gerido por uma agência de comunicação, é um equívoco tremendo, só possível por má fé ou ignorância potenciada pela ditadura do sound bite, ou da "informação chiclete".


 

No Carnaval ninguém leva a mal, mas convém não abusar!


 


A paupérrima tradição carnavalesca nacional - meia dúzia de desfiles pindéricos e umas quantas criancinhas envergonhadas a fingir de personagens da TV e da cassete pirata - foi este ano abrilhantada pelo ministério público em Torres Vedras e pela PSP em Braga, duas impolutas instituições da republica com jeito para a paródia. 

E quem não podia faltar à festa era a impagável Fernanda Câncio, veneranda autoridade nestas questões da moral dos bons costumes. Chegou atrasada, mas escreveu aqui tudo o que desejávamos saber sobre sei lá, arte e explicitação da “sexualidade” (o que quer que isso signifique) e não tivemos coragem de perguntar aos nossos pais. Enfim, uma carnavalesca divagação sobre os assuntos que só a sofisticada jornalista realmente percebe.

Outros Carnavais

Nunca aderi espontaneamente à festa do Carnaval. A chegada das serpentinas, máscaras e bombinhas às montras das tabacarias despertava-me algum interesse, mas esse não superava um leve sentimento de melancolia provocado pelas recém-finalizadas festas natalícias e pelo reinício da implacável disciplina escolar.
As minhas mais remotas recordações do Carnaval referem-se à casa da Avenida, onde a minha bisavó Valentina imprimia ao evento uma marca particular, fruto sua vivência no Brasil. Por exemplo, lembro-me de um grande boneco que nos aguardava, medonho, à entrada da sala de jantar. Era feito de roupas e enchimento em cima de um cabide de fato e usava o chapéu do meu avô João. Os croquetes feitos com algodão e outras partidas célebres desses Carnavais da Avenida não alcança a minha memória.
O que me desagradava profundamente era que me mascarassem. Mesmo de Cowboy, figura por mim mitificada todo o ano. Detestava que me pintassem com bigodes e patilhas de cortiça chamuscada, ou me espetassem com um chapéu de plástico que me caía continuamente da cabeça a baixo. Além disso ficava com uma intimidante “noção de mim”, que liquidava qualquer espontaneidade e assim o divertimento. O que eu gostava mesmo era dos lustrosos revólveres prateados e umas cargas de fulminantes para correr aos tiros atrás dos meus primos. No recreio da escola, a figura de Cowboy ainda valia o esforço de pôr a bata xadrez entalada para dentro das calças de ganga. Era o que bastava para me sentir um autêntico Cartwright. Mas isto nada tem que ver com o tema desta crónica. Divertidas eram as semanas precedentes à festividade, em que eu e os meus colegas da escola experimentávamos as mais endiabradas aventuras com bisnagas, bombas e “estalinhos”. Com cinco tostões comprávamos cinco estalinhos ou… uma bomba verdadeiramente assustadora. Com cinco escudos adquiríamos um verdadeiro arsenal. À saída da escola, munidos de uma carteira de fósforos, corríamos o bairro, de caminho para casa a rebentar bombas nos sítios mais insólitos: nada como uma boa explosão dentro de uma funda sarjeta, ou na escadaria de pedra de um prédio. Até os vidros tremiam, enquanto já a milhas corríamos em fuga. Ainda pelas ruas de Campo d’ Ourique armados com coloridas pistolas espaciais, esgueirávamo-nos à volta dos carros estacionados disparando potentes esguichos de água uns aos outros. Até esbarrarmos com uns quaisquer índios do Casal Ventoso que, violentos, com uns gritos e uns socos se apoderavam das nossas preciosas armas. Era a lei da rua, a lei do mais forte.
No entrudo era a festa de anos do meu primo Manuel. Festas inesquecíveis, com muita criançada, em que acabávamos a tarde exaustos, enrolados em quilómetros de serpentinas, às escuras, a ver projectados desenhos animados Silly Symphonies de Walt Disney ou umas curtas-metragens do Charlot em Super 8.
Na entrada da adolescência, no Liceu Pedro Nunes, por altura do PREC, quando qualquer divergência se resolvia democraticamente à pedrada, as partidas carnavalescas atingiam requintes de malvadez. Por pudor escuso-me a relatar algumas arbitrariedades por mim testemunhadas. Mas era comum detonar uma dessas poderosas bombas no WC dos rapazes, a que chamávamos “metromijas”, instalações subterrâneas que como uma paragem de metropolitano estavam situadas no meio do pátio. Depois era esperar, após o estrondo, que as vítimas assomassem ao cimo das escadas, esquálidas e despenteadas…
Chegados ao Carnaval, os excessos e a brincadeira estavam feitos e gastos. Por esses dias, sempre me pareciam patéticas as figuras daqueles miúdos passeando-se mascarados com os seus babosos pais, com quem me cruzava a andar de bicicleta no Jardim da Estrela. Que tristonhas “espanholas” e “noivas do Minho”, que expressões infelizes exibiam aqueles inúmeros “Zorros” e “campinos”, de bochechas maquilhadas e olhos esborratados. Com uma matinée no cinema Europa, umas voltas de bicicleta e muita televisão se passavam as minhas férias. No final de contas, que bem me sabiam aqueles cinco dias sem ir à escola!

Adaptação da versão publicada aqui
 

Uma boa notícia


Nesta conturbada adolescentocracia em que vivemos, época de desagregação dos mais sólidos valores cristãos e fracturas culturais de pendor niilista, a canonização de D. Nuno Alvares Pereira no próximo dia 26 de Abril é uma reconfortante notícia para os acossados católicos portugueses. Assim é: o nosso Condestável (alto cargo da esfera militar) de D. João I, há muito “santificado” pelo povo, acaba de obter do Vaticano o reconhecimento formal como tal. Os cristãos têm os seus heróis: são os santos, diferentes homens e mulheres de vidas e obras tão diversas, mas sempre exemplares na busca da coerência de vida cristã. São os santos que devem inspirar o povo de Deus para uma vida de liberdade e plenitude.

D. Nuno Alvares Pereira, grande general português do séc. XIV fundador da casa de Bragança, após a morte de D. Leonor Alvim, sua mulher, tornou-se monge carmelita (entrou na Ordem em 1423, no Convento do Carmo em Lisboa, que fundara como cumprimento de um voto). Toma o nome de Irmão Nuno de Santa Maria. Aí permanece até à morte, ocorrida em 1 de Novembro de 1431, com 71 anos.

 

Amanhã é dia de festa


Gostar de futebol a sério é viver a vertigem dum derby. É assumir uma apaixonada rivalidade. É agigantar as expectativas e atirar os foguetes todos, mesmo antes da festa. Desdenhar os rivais, arranjar lenha para nos queimar. É a desonestidade intelectual com antecipado perdão. É um jogo perigoso para uma eufórica glória... ou apenas uma efémera desilusão. Uma salutar criancice.


 


Texto reeditado

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