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João Távora

Lágrimas de crocodilo

É normal nos dias que passam escutar virtuosos analistas a lamentarem a ausência dos grandes temas europeus nas campanhas dos partidos, cobrando aos candidatos o previsível abstencionismo no próximo Domingo. Tal parece-me uma explicação algo simplista: tenho ideia que o esforço dos candidatos na abordagem dos “assuntos europeus” não é reconhecido pelos media, preocupados que estão com sound bites e parangonas com as quais conquistam audiências e vendem jornais. Além disso não me parece razoável que a discussão da política europeia, reduzida à regulamentação das colheres de pau durante quatro anos, assuma miraculosamente preponderância e interesse em duas semanas de campanha eleitoral.

Finalmente, parece-me que o partido de Vital Moreira e José Sócrates ao desprezar ostensivamente a co-responsabilização dos portugueses pela adesão ao Tratado de Lisboa, assinou-lhes um atestado de irresponsabilidade, tendo desse modo o PS perdido toda legitimidade para exigir uma adesão significativa de votantes ao acto eleitoral do próximo Domingo.


Quanto ao mais a proverbial preguiça tuga faz o resto, como refere aqui em baixo o Duarte Calvão.

 

Crónica mal comportada

À conta da latente depressão de um exército de inadaptados e excluídos sociais patrocinados pelo inefável regime do sucesso, das aparências e do consumo, vive uma incomensurável trupe de profissionais da psiquiatria e psicologia clínica. No topo da pirâmide social, nesta nova classe de obscuros feiticeiros tribais, há-os para todos os gostos e maleitas, sejam da telha, da pila ou da falta dela. Com a árdua tarefa de justificar o inexplicável, normalizar a excepção, declaram-se cientistas especializados num variado menu  de complexos e manias. Eles ncontram facilmente um manancial de freguesia, as vítimas do materialismo predatorial, do socialismo niilista vigente: um regime promotor do mais forte, do mais hábil, do chico mais esperto e da legalíssima ausência de valores.


Com mais ou menos resultados, com mais ou menos psicanálise, com mais ou menos químicos e drogas legais, com mais ou menos internamentos, suicídios e demais efeitos secundários, esta pseudo-fidalguia regimental pulula nos mais inúteis institutos e organismos estatais. São os novos inquisidores da nação, moralistas e carniceiros das almas, oráculos pós-modernos, que se dedicam esmeradamente a debitar as regras da nova moralidade nos órgãos oficiais de comunicação. Encontramo-los a verberar vulgaridades e redundantes lugares comuns sempre politicamente correctos na mais selecta revista feminina ou encarte de entretenimento dominical, ao lado da rubrica de astrologia, num qualquer jornal, rádio ou televisão. Sempre em benemérita promoção das mais radicais e estimáveis minorias. Estes novos e populares cientistas da existência, emitem despudoradamente um discurso sempre redundante e vazio, que não é mais do que a imperativa fórmula de segurar as suas mais suculentas franjas do mercado. Afinal somos todos “porreiros” desde que paguemos a conta da consulta, seja privada ou através da previdência social. Jamais mordas a mão que te dá de comer...

Tragicamente vi passar pelas mãos destes “feiticeiros da psique” gente boa que nunca mais foi gente, gradualmente enterrada em químicos ou relativismos alienantes, psicoterapias e demais placebos. Ironicamente tive a sorte de constatar o seu sucesso na intervenção terapêutica em gente que sempre me parecera saudável. E como tal resistiram úteis cidadãos. Apesar de tudo.

 


A reedição deste meu texto, publicado em tempos no Corta-fitas,  foi  inspirada pela incrível crónica da Marta Crawford no jornal i onde a senhora se insurge contra a possibilidade reorientação terapêutica da homossexualidade indesejada. De resto, o que me preocupa seriamente é o poder que esta gente tem hoje em dia.


 

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