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João Távora

Quadraturas

Sou daqueles que escutam e lêem com atenção o Pacheco Pereira, porque lhe reconheço um pensamento invulgarmente inteligente. Além disso, longe de concordar com tudo o que ele diz, reconheço-lhe o mérito de protagonizar há muitos anos, actualmente em conjunto com António Lobo Xavier e António Costa, o grande clássico dos debates políticos da Comunicação Social, a Quadratura do Circulo. Parece-me que a chave do sucesso deste programa de Carlos Andrade, nascido na TSF dos anos 90, sempre foi a heterodoxia e a liberdade, constatadas numa linguagem liberta do marketing partidário, simplista e oficial.

De resto, contrariamente ao que proclama o nosso Pedro Correia, considero que o público tem uma grande vantagem quando escuta a prédica de Pacheco Pereira: ao contrário de muitos dos habituais comentaristas da rádio e televisões, quase sempre jornalistas no activo ou em licença,  todos lhe conhecemos os interesses e agenda.

Por mim, ainda sonho com o dia em que os órgãos de Comunicação Social, em prol duma oxigenação e desinfestação ambiental, declarem o seu engajamento politico-partidário.  Como se faz nas democracias mais avançadas.

Do preconceito e xenofobia

A respeito desta brincadeira do Tiago, apetece-me dizer que também eu tenho os meus preconceitos sobre a estética, usos e costumes, dos mais variados nichos sócio-culturais coexistentes na nossa sociedade. Acontece que não me orgulho deles, nem faço disso alarde: reconheço que por uma questão de insegurança todos tendemos para uma certa xenofobia à qual a minha educação cristã se opõe radicalmente. Além disso a vida ensinou-me a descobrir que as pessoas são muito mais complexas e ricas do que os nossos rótulos e chavões. Mais uma vez, é o medo que sentimos pelo desconhecido que nos condiciona, diminui ou até... inspira ao ódio.

Tive o privilegio de crescer no seio de uma família lisboeta católica e tradicionalista (e culta, convém ressalvar), que nunca me protegeu “do mundo”: desde cedo tive bastante autonomia para enfrentar a rua e fiz a escolaridade integralmente em escolas publicas. Com isso hoje reconheço que ganhei uma privilegiada perspectiva de vida: aprendi que o preconceito e os constrangimentos sociais só nos impedem de ver mais longe, de sermos mais livres. Estou em condições de garantir ao Tiago que uma pessoa é muito mais do que os seus trejeitos e sinais exteriores, e que somos todos muito mais iguais do que aparentamos à vista desarmada. Aprendi isto em casa, com os meus pais e avós, e depois com a vida. 

 

 

Equinócio

Há o Outono do calendário que chegou ontem, há o Outono “metrológico”, das folhas caídas, chuvadas e ventanias. E há ainda um outro Outono que é subjectivo, que depende da nossa percepção: com as rotinas recuperadas, os miúdos nas escolas, o trabalho a bulir, deitar cedo e cedo erguer, trânsito, reuniões, stress e ares condicionados, eu já me despedi do Verão. De pouco me valem estes dias radiosos e quentes como os de Agosto: de mansinho acabaram os serões à varanda a ver estrelas, e mesmo a poucos metros da praia já não me chega à alma o cheiro da maresia e o horizonte do mar.
Olá Outono, aqui vamos nós!

A chave do sucesso

Sou um pragmático de direita, seja lá o que isso for: no PREC cheguei a aclamar Mário Soares quando o poder estava na rua e pendia para os soviéticos em prejuízo das liberdades mais básicas. Em todos os sufrágios reclamo por uma vitória da direita, o que quer dizer que acabo torcendo pelo PSD, apesar de quase sempre votar no CDS.

Dito isto, considero pouco recomendável que estes dois partidos briguem pelos votos um do outro. Parece-me que Marcelo Rebelo de Sousa perdeu ontem uma boa chance de estar calado, pois o seu partido só tem a ganhar com um CDS forte. E Paulo Portas também deveria disfarçar sua voracidade pelo voto Social Democrata, partido que inevitavelmente será o seu único aliado natural. De resto, nesta derradeira semana de campanha parece-me que ambos os partidos ganhariam em disputar acirradamente as centenas de milhar de votos dos indecisos e da abstenção. Para uma derrota das esquerdas que é o único cenário que verdadeiramente nos poderemos rejubilar. 

Complexo d’ Édipo

O Bloco de Esquerda é assim um “partido comunista” versão adolescente urbano depressivo, revoltado contra a sociedade que lhe deu tudo menos um sentido para vida. Afinal a rapaziada anafada não quer a luta de classes, apenas se rebelou contra "o pai", contra "o sistema", contra "a autoridade". Se as suas desventuras não acabarem mal, na simples marginalidade ou num asilo psiquiátrico, a moléstia ainda vai passar com a maturidade: um bom tacho na administração publica ou o acasalamento com descendência terminarão com todas as veleidades. Para já o importante é salvaguardar a nossa liberdade desta caprichosa demanda: é que a vida não é um festival de rock e a história não é um filme experimental.

O enterro do PPM

  

 

Já referi por diversas vezes que considero não fazer qualquer sentido um partido monárquico: a causa monárquica é, pela natureza da instituição que defende, supra-partidária. Tão supra-partidária quanto a causa republicana: ora digam-me quem é mais republicano se Nuno Ramos de Almeida, Vítor Dias, João Gonçalves ou Jorge Ferreira?

Apesar de assim pensar acabei respeitando o Partido Popular Monárquico, afinal um partido fundador da democracia no qual o meu avô João de Castro, um dos mais fiéis monárquicos que conheci, ainda sentiu a (ingénua) felicidade de votar pouco antes de morrer.

Hoje graças ao cisma do inenarrável Câmara Pereira, o PPM caminha para a total desmobilização e completa inexistência. O tempo do antena do PPM ridicularizado pelos Gatos Fedorento é o espelho da negligência e declínio a que o partido chegou: tornou-se uma anedota. E como seria um acto misericordioso que um grupo de indefectíveis tomasse o partido em suas mãos para liquidação e com alguma dignidade fechar as suas portas, acabando com aquele triste espectáculo! Em honra e memória dos seus ilustres fundares: Gonçalo Ribeiro Teles,  João Camossa e Henrique Barrilaro Ruas.

Alerta máximo

No entrecruzar de duas importantes eleições nacionais, o essencial da discussão vai submergindo à progressiva gritaria e às mais desconchavadas manobras de distracção e propaganda partidárias. Estão em jogo muitos e mesquinhos interesses dos respectivos aparelhos e assim sendo os fins justificam todos os meios. 

Enquanto isso o País, com mais de dois milhões de pobres e quinhentos mil desempregados caminha alegremente para o abismo:  adivinha-se que qualquer solução de governo que saia das próximas legislativas ao fim de uns meses estará sobre brasas, debaixo do fogo das oposições, do mal estar social, da artilharia pesada dos sindicatos e corporações. Casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. 

Com a nossa economia fortemente estatizada e dirigida, a “crise financeira” em Portugal foi atenuada e serviu de tábua de salvação dum governo autoritário, sem soluções ou resultados. O facto é que a verdadeira crise portuguesa é estrutural, e para não perder popularidade nenhum partido a promete enfrentar: por agora o estado de coisas e a paz social só são possíveis com um enorme endividamento, uma pesada carga fiscal e um alto deficit orçamental. Tudo isto incomportável a curto prazo. 

Se adicionarmos a este caldo a previsão da OCDE de que não iremos crescer mais do que 1,5% ao ano no próximo decénio, uma cifra que não dá para baixar o desemprego, talvez entendamos como se torna urgente uma profunda mudança de paradigmas na gestão da coisa pública. Só nos falta bater no fundo, porventura condição necessária para uma profunda mudança de mentalidades e politicas. Isto sim deveria ser o tema do debate. Para que não haja surpresas.

Do provincianismo

 Na velha capital do império, porto de abrigo e porta de esperança de tantos imigrados das miseráveis províncias, o epíteto “provinciano” sempre funcionou como eficaz rotulo para a exclusão. Sempre existiu uma Lisboa deslumbrada, presunçosa e segregacionista.

É neste sentido que apelidar alguém provinciano, significa muito mais do que contestar o seu cosmopolitismo ou a sua proveniência geográfica: significa a velha tentação de pretensas elites de colocar o interlocutor “no seu lugar”, que é menor. Uma atitude chauvinista, uma linguagem preconceituosa e arrogante, típica duma esquerda engajada e burguesa. São eles que mandam, é aquilo que temos.