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João Távora

A noite da má língua

Ontem na SIC Notícias Manuela Ferreira Leite perderia sempre o debate “na secretaria”. Escolhido a dedo, o painel de "analistas" (à excepção de Graça Franco) foi redundantemente impiedoso para com a líder do PSD. Ricardo Costa, Bettencourt Resendes e Luís Delgado destilaram cada o seu ódio de estimação para com a candidata social democrata. De resto pareceu-me patética a intervenção de Ricardo Costa, sempre aos saltinhos na cadeira a repetir ad nausea as pretensas gaffes de MFL: o estribilho patriótico da questão TGV ou ao "escândalo" da visita à Madeira.

Esta lamentável exibição de preconceito e má fé só foi superada mais tarde no programa Eixo do Mal que por inércia assisti a uma boa parte: um programa inaudível em que os participantes semanalmente gritam impropérios à desgarrada, sem qualquer racionalidade ou pedagogia, os quais, suspeito, apenas os próprios acham graça. Uma vez mais a eminência parda Clara Ferreira Alves não teve o menor pudor em disfarçar um doentio despeito quase xenófobo para com MFL. Só faltou o social democrata Pedro Marques Lopes assumir-se a favor de Sócrates, e no meio desta crucificação Daniel Oliveira até teve uma intervenção moderada, imagine-se!

Passada a "borrasca", o panorama começa a ser analisado com mais clareza: o engenheiro técnico despediu um gabinete inteiro pela televisão, é legítima a candidatura à AR de Alberto João Jardim para que depois de terminado o seu mandato no Governo Regional da Madeira possa ingressar na AR, e o governo francês também está a rever as suas parcerias do TGV com a Espanha. Afinal, a aldrabice sempre tem as pernas curtas.

A grande asfixia

Preocupam-me seriamente as tendências de voto reveladas pela generalidade das sondagens: em Portugal cresce e predomina um pensamento de esquerda mais ou menos primário, mais ou menos radical. Nos dias que passam qualquer propósito de liberalização da economia, de incentivo ao mérito ou à iniciativa privada é pura veleidade. O pior de tudo é que a crise internacional parece ter legitimado na cabeça de muitos um crescente peso do estado na vida das pessoas, tornando o desafio da modernização do país um sonho ainda mais longínquo. Do Estado dependem as empresas, os empregos, as artes, as minorias, as maiorias, os agricultores, a educação, os professores, os costumes, os funcionários e a boa ordem. Esta é a grande asfixia nacional.

Esta é uma maldição que cem anos de república só conseguiram acentuar: somos um pobre país de um povo pobre, rude, ressabiado e dependente. Terreno fértil duma medíocre oligarquia que disto tudo se alimenta e que há muitos anos se governa.

Os Beatles para sempre

Sou daqueles que não resistiram à tentação de encomendar e gastar uma pipa de massa com a colecção remasterizada dos Beatles que hoje é lançada no mercado. São duas as justificações principais para o meu pecado: a primeira é porque em CD só tenho 3 álbuns (Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, Magical Mystery Tour e The White Álbum) e os discos em vinil que resistiram à audição intensiva, às mudanças de casa e empréstimos a amigos, estão muito degradados. A segunda razão tem a ver com a minha veia audiófila: ao contrário do que afirma Luís Pinheiro de Almeida ao i , não me parece menosprezável a questão da remasterização e consequente melhoria de qualidade sonora: reconheço que as boas canções sobrevivem às limitações dos suportes tecnológicos de reprodução, mas quanto mais aperfeiçoada for a sua qualidade e realismo, mais prazer retiramos da audição. Negar este facto parece-me tão falso quanto pretensioso. 

O grande buraco

No mesmo dia em que se reconhece a falência da Quimonda Solar, o inevitável despedimento de quase mil trabalhadores da Rohde foi adiado para depois das eleições, após uma intervenção in extremis do Ministério da Economia que negociou a aplicação do lay-off.

O governo saído das próximas eleições irá enfrentar um panorama empresarial em estado comatoso, ligado às máquinas do assistencialismo de conveniência socialista. O longo e sequioso braço do estado, alimentado pelos impostos duma depauperada classe média, inevitavelmente acabará por ceder à implacável realidade, não sem antes ter consumido preciosos recursos e energias. À voragem do pesado e ancestral centralismo que teima contrariar o mercado, menosprezar o mérito e o consequente empreendedorismo, talvez se salvem as grandes empresas do regime, à conta do trabalho e dos impostos duma geração ainda por nascer. Por tudo isto é urgente denunciar o grande buraco, o resto é conversa fiada. 

A imparcialidade e a crendice

Sou daquelas “pessoas bonitas” que o António Figueira refere no post aqui em baixo: nunca vi o jornal Nacional de MMG pela prosaica razão que lá em casa a essa hora estamos a jantar ou na lufa-lufa dos preparativos. Mas confesso que me dava muita satisfação o facto de saber da sua existência, e constatar o incomodo que ele causava ao nosso primeiro ministro.

Enquanto o militante Emídio Rangel esta manhã na TSF lamentava as reacções dos partidos da oposição à suspensão do referido noticiário declarando que estes “vivem bem neste esquema de intriga” a chorarem “lágrimas de crocodilo por ter terminado um espaço que violava leis, códigos, as regras do jornalismo” e que a TVI “há muito que desejava acabar com aquele espaço, que não honra o jornalismo” eu pensava para com os meus botões como seria preferível e bem mais honesto um posicionamento editorial explicito como o do Jornal Nacional, à pseudo-imparcialidade da generalidade dos media, coisa que afinal não passa de uma mera crendice.

O último cartucho

 

Liedson é a mais recente contratação da equipa de carlos Queiroz, o seu último cartucho, com vista à redenção da sua desinspirada campanha para o Mundial da África do Sul. Confesso que nunca vi com bons olhos a abertura da Selecção Nacional a jogadores de origem estrangeira, mas a convocatória do levezinho foi a gota d’água que transbordou: a selecção de Carlos Queiroz é cada vez menos “nacional”. Equipa por equipa, já tenho a minha, para a qual pago quotas e  sofro irracionalmente ao fim de semana. 

Sei muito bem que o significado de “nação” é algo impreciso e o termo é envergonhado nestes tempos de relativismo que atravessamos. Mas eu sou teimoso e acredito que os portugueses partilham algo de comum, um património afectivo, histórico, cultural, linguístico e geográfico. Acredito que algo que nos une e nos dá corpo como povo, como grupo, para o bem e para o mal. Que tem um desígnio e um legado por cumprir, algo bem mais importante do que o resultado imediato de um qualquer torneio desportivo internacional. Por isso é que estes sinais de relativismo me preocupam: que devagarinho nos tirem pátria, o nosso último reduto.

 

Imagem daqui

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