Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

João Távora

Carolina

 

Também foste minha predilecta e eu embalei-te ao som dos meus sonhos. Em pequenina, desvendei-te o meu mundo: cantei-te todas as cantigas que sabia, de roda e de amor, desfolhei-te histórias de mistério e aventura que contrastassem com o teu sonho cor de rosa. Altiva, sempre me olhaste sossegada e compreensiva, com os olhos fundos da tua mãe, dum mundo distante... sem aflições ou respostas complicadas. Para o caminho que é cada vez mais teu, que te afasta devagar numa dança solitária de segredos de menina, sei bem que levas o necessário, tens contigo o principal.

Discriminação positiva

 

 

Ainda sobre o casamento gay, debate tendencialmente tão agreste e fracturante, gostaria para terminar, de clarificar a minha opinião sobre a incontornável questão das adopções.

Exceptuado o aspecto, para mim não despiciendo,  da nomenclatura do contrato de união civil entre dois homossexuais, concordo com tudo o que o Luís Naves refere no seu ponderado texto em baixo. Ou seja, em última análise reconheço que deveria ser contemplada a possibilidade de adopção de crianças por homossexuais, desde que salvaguardado o perfil psicológico e social garantidamente idóneo. Admito que pessoas com este perfil dariam melhor conta duma perfilhação do que qualquer casal de grunhos heterossexuais. Claramente uma solução dessas seria sempre preferível à do internamento em qualquer precária instituição de acolhimento existente. Só que, last but not the least, parece-me que deverá ser regra, sempre que possível, a preferência de soluções de adopção mais próximas quanto possível o modelo natural, biológico, de um pai e mãe, desde que garantidamente competentes para o exigente papel. Esta parece-me uma incontornável e positiva discriminação. 

A Fuga Ao Segredo De Justiça que merecemos

A nossa proverbial Fuga ao Segredo de Justiça (FASDJ) verdadeiramente não tem qualidade nenhuma. Tome-se como exemplo o Caso das Sucatas: além de lhe faltar bom gosto e rasgo, não possui qualquer propósito filosófico ou estético: redunda com demasiada facilidade numa vulgar deprimente novela, enfadonha e com final previsível, donde nunca nada de decisivo resulta. O mordomo é que levará com as culpas.  

Já a conversa ao telemóvel entre Sócrates e Vara suspeito daria uma FASDJ de grande espectacularidade e inegável valor higiénico-patriótico, digna de um país do outro Mundo. Então, não haverá por aí um patriótico artista que, entre os corredores da judiciária de Aveiro, as gavetas fundas dos procuradores (e porque não do Supremo), que divulgue a gravação, mesmo que em curtos episódios? Não haverá uma alma generosa que liberte todo um país suspenso nas imaginativas congeminações de cada cidadão? Para que não seja por falta de meios, desde já ofereço os meus serviços e um blogue: em favor da higiene, tudo pela pátria.

Das trevas à esperança

Quando Domingo de madrugada acidentalmente sintonizei na TV o final do programa Eixo do Mal, em que os seus intervenientes blasfemavam unanimemente numa despudorada risota por conta da posição da Igreja sobre o “casamento” entre homossexuais, confesso que cedi a um certo desânimo. 

Aquele triste espectáculo não me deveria surpreender, pois resulta, para além da vulgar má criação e mau gosto dos intervenientes, duma perda radical de influência dos católicos na sociedade portuguesa, fenómeno que propícia um primário e despudorado discurso anti-religioso e anti-clerical a que nos vamos habituando. Por todo o lado, dos blogues aos meios de comunicação de referência é cada vez mais vulgar observar um patológico ressentimento e as insinuações mais vis sobre a Igreja, a sexualidade dos padres ou sobre a ignorância dos fiéis: um dia destes na Antena 1, num programa de debate em prime-time “O Esplendor de Portugal” que versa assuntos de actualidade, um dos participantes gracejava, sem causar  qualquer reacção para além de risota, que não deveria ser permitida a circulação de crianças perto dum seminário. Assim, sem mais!

Confesso que a minha primeira preocupação resulta algo egoísta, prendendo-se com a minha manifesta dificuldade em proteger os meus adolescentes deste envenenamento ideológico, que se reflecte implacável nas suas vidas em que, para lá dos ambientes familiares, dificilmente encontram "na rua" referências aos nossos modelos de educação. De facto, nós os católicos praticantes (ou cristãos em geral) somos hoje uma ínfima minoria, e eu não vislumbro inversão da tendência: ao fim de dois mil anos de história a Igreja Católica vive na Europa a sua mais profunda crise desde a fundação, que conduzirá a prazo ao seu desaparecimento na forma como hoje a conhecemos, talvez tornando-se numa minoritária organização semi-clandestina. Uma previsão apocalíptica para a qual não é necessário ser perito.

De resto a História não acabará assim: habituada às mais duras provas de vida, a Igreja de Pedro encontrará sempre lugar nos corações dos homens simples que buscam consolo e redenção, seja na Europa ou em qualquer lado do Mundo. E acredito que, para lá dalgumas criteriosas reformas, o catolicismo sobreviverá e florescerá em África, nas Índias e na Ásia, na senda da dignificação e conforto dos homens e mulheres, espantosos seres únicos e divinais criados à imagem e semelhança de Deus. 

Casamentos e divórcios: algumas considerações empíricas

Tenho muita dificuldade em aceitar que o conceito de “casamento”, que define uma vetusta instituição (actualmente fragilizada, eu sei, e muito por causa da desconsideração com que tem sido tratada), seja hoje corrompido pela intenção de que este abarque a relação homossexual que, sendo respeitável,  não deixa de ser de natureza diversa. Eu temo que a soma duma precipitada revolução demográfica e de costumes perpetrada tão abrupta e radicalmente no ocidente, acabe por debilitar irremediavelmente o tecido social, de espalhar muita inadaptação e dor em muitas existências anónimas. Falo por exemplo do paradigma cada dos cada vez mais comum dos filhos únicos de famílias desmanchadas e perdidas nos grandes subúrbios por conta da prenunciada extinção das pequenas comunidades provincianas, e do modelo de família sólido e literalmente fecundo que estruturou a sociedade durante séculos, e de que eu privilegiadamente ainda usufruí. Extintas tais realidades, não haverá Estado que substitua essas redes de afecto, solidariedade e pertença. E suspeito que não serão os “Facebooks” da vida a colmatar os vazios deixados por tão profunda revolução. 

A Cruz da Europa

 

 

Lamento profundamente uma Europa que  renegou a sua génese cristã, inspiradora de valores inalienáveis como o do livre arbítrio e o da compaixão entre os homens, em troca dum fundamentalismo laico hedonista e estéril. A quem favorece a cultura niilista que há mais de duzentos anos emerge imparável da velha cristandade? Da inevitável disputa do Estado moderno com a Igreja, que durante séculos estruturou as nações latinas e não só, acabámos deitando fora o bebé com a água do banho. 

Eu, por mim, não me revejo na iconografia do espectáculo de consumo que tomou o lugar da simbologia e mensagem de Cristo hoje paradoxalmente diabolizada: é assim que o Povo definha, substituído por um insaciável público, que prolifera nos estudos de mercado e sondagens, sôfrego por mais entretenimento. Para não se deprimir quando acidentalmente se prescutar afogado num oceano de vazio. 

Lamentavelmente os crucifixos há muito saíram das salas de aula, e em muitas, de facto, nunca verdadeiramente entraram: disso é prova tanta ausência de esperança.

Pág. 2/2