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João Távora

Relativismos tíbios

  

Na voragem da discussão sobre o casamento ente homossexuais, desgosta-me especialmente a indignação duma certa direita moderninha ou complexada que por aí anda contrafeita, perorando entre dentes contra o governo, que “cada um case com quem quiser” e que "Portugal tem outras prioridades". Esta gente não percebe como os seus argumentos são fracos e acabam dando razão àqueles para quem as suas convicções são prioritárias e as quer levar a bom termo. Na minha opinião, como é bom de ver, concebo o casamento como uma instituição fundadora da família baseada na complementaridade masculino/feminino que possibilita a geração de vida. É fundamentalmente por isto que eu acho um disparate o casamento gay e ainda ninguém me bateu por isso nem perdi o emprego.

A alma portuguesa e o fundo da gamela

A respeito deste meu texto sobre o mais que previsível pico na nossa endémica crise, o Bruno Alves dedicou-me há alguns dias n’O Insurgente algumas apreciações menos simpáticas, que eu encaixo com o necessário fair play. Sou o primeiro a admitir que as minhas palavras padecem de um inevitável wishful thinking patriótico: talvez isto não seja aceitável pelas forças alimentadas pelo sistema, mas eu suspeito que todos os poços têm um fundo, e acredito que pela sobrevivência se reúnem vontades. 

Já me parece abusivo o Bruno afirmar que “a alma portuguesa” que eu reclamo urgente recobrar esteja reflectida nos 2.077.695 votos no partido socialista nas últimas legislativas. Quanto muito, o adormecimento da “alma” reflecte-se na abstenção e indiferença reinantes. 

De resto não sou ingénuo para acreditar em mudanças radicais, mas creio em autênticas “correcções”, que surgem inevitáveis em determinados momentos e que não coincidem necessariamente com revoluções – antes pelo contrário. Se eu estiver enganado, então parece-me que não estamos aqui a fazer nada, nem o Bruno nem eu.  

 

Genesis sempre

Por vezes é da caixa de comentários que são chamados à colação assuntos verdadeiramente de-ci-si-vos. É o que acontece com esta intervenção do Rui Albuquerque sobre os Genesis, em que faz afirmações extraordinárias como a de que o "Peter Gabriel é um chato". Pois bem, se aqui há uns anos alguém me dissesse tal sacrilégio não sei como reagiria. E fique a saber que eu em vez de me ter doutorado em Génesis, aprendi com a prática, na pele, com a vida: a ouvi-los deleitado horas e horas e horas a fio, vezes sem conta. Conheço cada ai, cada ui, cada pling, cada plong, cada verso, de trás para a frente e de frente para trás, e todas as sensações que me despertam ainda hoje. A banda de Peter Gabriel, Steve Hackett e Mike Rutherford, Tony Banks, e Phil Collins revela para mim a mais fantástica reunião de talentos pop que eu conheci na minha vida. Todos fundamentais, juntos geniais. E se tivesse que tirar algum, acredito que o baterista seria o que menos se notava. De resto, caro Rui, as interpretações de Gabriel são verdadeiramente únicas, a sua voz incomparável. Basta ouvir atentamente Back in New York City para perceber o que os Génesis perderam depois de 1975. Sem a contribuição de Peter Gabriel a sua música tornou-se demasiadamente melosa, por vezes enjoativa com tantos harpejos, adocicadas melodias e letras patetas. Claro que depois sem Steve Hackett a banda bem podia ter mudado de nome, como alguns reclamam ao Corta-fitas nesta nova fase.

Portanto, fique lá o Rui com a sua cátedra, com o Trick of the Tail e com o Wind and Wuthering, que a mim me bastam os quatro magníficos Nursery Cryme, Foxtrot, Selling England by the Pound, The Lamb Lies Down on Broadway, justamente os discos que eu ainda hoje escolheria para levar para uma ilha desertaSobre o Peter Gabriel a solo, isso dava uma outra conversa, mas enquanto isso não acontece aconselho-o a começar pelo do carro azul, o primeiro, ainda com muitas reminiscências genesianas, bom para iniciados. E aceite um complacente e forte abraço, deste que o preza e assina, 

 

O grande embuste

O meu rapaz mais velho que está este ano no 12ª ano tem Psicologia como cadeira opcional, uma daquelas para servem encher balões e que não contam para os exames. A leccionar a cadeira saiu-lhe na rifa um personagem animadíssimo que se reclama Astrofilósofo (o quer que isso seja), assunto sobre o qual disserta nas aulas e escreve numa publicação popular. 

Entre as várias afirmações bombásticas deste senhor que chegam  à mesa de jantar lá de casa, estão verdadeiras pérolas da incultura vigente: que as religiões são todas perversas, ou que ele  não está ali para ensinar a matéria mas para fazer dos seus alunos “melhores pessoas”. Lindo serviço este que estamos a patrocinar com a nossa anuência e os nossos impostos. 

 

Diz-me com quem andas...

O meu pai, um inveterado tradicionalista e conservador, não dispensava rasgados elogios a Vasco da Gama Fernandes com quem trabalhou no final dos anos setenta na Assembleia da República. Por este histórico socialista, ele nutria profundo respeito e acabou até travando uma boa amizade. Para que tal acontecesse, o interesse pela História serviu como pólo de contacto, e a boa educação encarregou-se do resto. Não podia haver duas pessoas politica e culturalmente mais antagónicas. 

Ao contrário do que parece é mais aquilo que pode unir os indivíduos do que os vernizes que as separam: os Princípios duma qualquer Pessoa de Bem são inequivocamente Universais. 

Isto serve para dizer que sempre existiu uma esquerda educada e culta com quem tive a sorte de me cruzar e o privilégio de conviver. Para quem as  ideias servem para fundamentar Ideais sempre muito maiores que os interesses e protagonismos individuais. Mais depressa me repelem uns certos liberais, uma pesudo-direita “porreiro pá” que faz caminho pelos partidos do arco do poder. E como é curioso verificar como eles se dão tão bem, tão modernos e tal, convencidos que o Mundo começa e acaba no seu ávido umbigo.

Nós homens, eternos incompreendidos

 

 

Aos Sábados a coluna semanal de Marta Crawford preenche a quota de “revista Maria” do jornal I, um inalienável direito que os seus diligentes leitores já não prescindem. A cada semana, o bom conselho da sexóloga revela-se uma irresistível e atrevida lição de cidadania sexual, para bem e felicidade do povo ignoto.

Na sua mais recente crónica a psicóloga desvenda-nos a sua última descoberta, pura ciência descortinada no seu consultório, pelo testemunho dos seus doentes: afinal o “macho homem” não é o grunho egoísta que todos conhecemos, antes pelo contrário até por vezes se preocupa com o prazer da sua parceira: ele tem muitas erecções ao longo do dia sem que tenha necessidade imediata de sexo, ou fique "doente" se não puder ejacular,  afinal sabe muito bem gerir a sua excitação e, imagine-se, “quer” amar a sua parceira e que no fundo lhe desgosta o sexo ou o amor “vividos unilateralmente”. As coisas que se aprendem num consultório... 

Enfim, eu que como é bom de ver sou uma besta, confesso que pensava serem os homens saudáveis uns predadores insaciáveis, que só não ejaculam várias vezes por dia por limitações práticas ou morais.  Eu que pensava que um homem sadio, sendo capaz de praticar uns abnegados carinhozinhos,  jamais desperdiça umas fogosas cambalhotas se a coisa der. Espantoso é verificar como afinal nós os homens de tanto amar acabamos tão incompreendidos. Certamente para a semana Marta Crawford vai esclarecer-nos sobre o que é Amor, e pode ser que me surpreenda. 

 

O fim da dinastia de Abril

Nos últimos dias começou a despontar um discurso alarmado para além do de Medina Carreira: na sequência da situação de pré falência verificada na Grécia, das medidas drásticas tomadas na Irlanda, a comunicação social doméstica dá progressivamente mais destaque à incontornável realidade económica portuguesa: um deficit que caminha para os 10%, um Estado sem margem de manobra “pelo lado da receita” e os custos com a dívida que remontam já a dois milhões de euros a cada hora que passa.

Ontem no programa Roda Livre na TVI 24 Rui Ramos antecipou timidamente uma questão primordial para a discussão política que se impõe: não se vislumbra uma solução governativa dentro do actual sistema partidário, nem com os actuais protagonistas, cujo discurso encontra-se demasiado distante da realidade, das medidas disruptivas que se adivinham inevitáveis. Se é de todo improvável um “perdão da dívida” a uma democracia europeia, suspeito que a resolução do imbróglio português só poderá sair duma solução de “salvação nacional” amplamente consensual e de forte liderança. Enfim, é sobre os paradigmas da nossa sobrevivência  como país que urge centrar a discussão política nacional: a terceira republica está moribunda e é urgente redescobrir a verdadeira alma portuguesa para fundar um novo ciclo. 

Blogue Corta-fitas: uma vida nova

Após a surpreendente debandada dos meus colegas do blogue Corta-fitas nos últimos dias, não tenho dúvidas que será um duro desafio para os poucos que ficam manter o blogue com os requisitos mínimos. Como alguém me comentava num sms, é claro que nada mais será como dantes. Só não sei qual é “a coisa” a utilizar como comparação, já que ele tem passado por diversas fases, e a maior parte dos desistentes já pouco intervinham.

De resto concordo com o Duarte Calvão quando ele refere que este blogue pertencerá sempre àqueles que durante anos o construíram: aqui terão sempre o seu lugar reservado à distância dum clique e duma palavra passe. Para já compete aos que ficam fazer o melhor que souberem para que o Corta-fitas continue a merecer os seus fiéis leitores. Para os que não são assíduos aproveito para desafiar a visitarem-nos amiúde: é só adicionarem http://corta-fitas.blogs.sapo.pt/ aos "favoritos".

 

Até sempre

De novo, o Grande Advento

 

 

Para encanto dos mais pequenos e a satisfação dos mais velhos, na nossa casa já resplandece a festa de Natal: desde a porta da rua exibindo a coroa de azevinho dourado, até à sala onde a grande árvore de natal, cheia de luzes, estrelas, e tarecos coloridos se ergue ao lado do presépio de Jesus, Maria e José. À porta da cozinha um calendário do advento reserva para cada dia, além de um chocolatito para cada habitante, um pequeno texto para ser lido diariamente em família ao serão. De resto, este ano temos a novidade do estandarte vermelho à janela indicando o motivo da nossa alegria, O Convidado para a nossa festa. 

O mais fácil está feito: agora o verdadeiro caminho de Encontro será realizado dentro do coração de cada um, de modo que o profundo sentido do Natal não seja deturpado pela estéril berraria mundana. O caminho faz-se andando.