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João Távora

Altamente - do melhor que há

 

O Senhor Fredricksen arrastando Russel e a sua casa pelo ar. 

 

Ronda a genialidade o pouco ortodoxo argumento da última grande produção da PIXAR, Up, (recentemente disponível para venda ou aluguer) traduzido para Altamente na versão (muito bem) dobrada em português: esta surpreendente aventura, a segunda da produtora protagonizada por  humanos, tem como personagens principais um viúvo de 78 anos, o senhor Fredricksen um reformado vendedor de balões, e acidentalmente por um desajeitado menino, um escuteiro “amigo da natureza”, o inocente Russel que nunca saiu da implacável cidade, onde a sua frágil estrutura familiar se dilui. É na companhia desta improvável parelha que nos deixamos levar pelos céus das Américas, a caminho do Sul, das terras perdidas no tempo, as “Cascatas do Paraíso” a bordo duma casa suspensa em centenas de balões. Trata-se duma tão delirante quanto ternurenta aventura em que as cenas se sucedem imprevisíveis e desconcertantes: enquanto o hélio dos balões se vai esvaindo, o velho ranzinza inspirado em Spencer Tracy arrasta o pequeno escuteiro e a sua casa amarrada às costas, cheia duma história tornada tarecos, e recordações da sua amada Ellie: atravessa um deserto de rochas, ao encontro do sonho duma vida e inusitadamente do seu ídolo de infância, Charles Muntz, um mítico explorador desacreditado pela comunidade cientifica, que vive num enorme dirigível na vã tentativa de apresar um pássaro fantástico, Kevin, servido por uma matilha de cães que falam e pilotam aviões entre outras habilidades. 

Esta é uma anacrónica história de amor e amizade, acompanhada a balões coloridos e duma magnífica banda sonora; uma lição de vida para toda família, com o requinte técnico e artístico dos produtores de Toy Story e Finding Nemo, realizado por Pete Docter o mesmo do não menos surpreendente Monstros e Companhia. De resto, um dos segredos do sucesso destas produções tecnicamente quase perfeitas, está na consistência dos guiões, das múltiplas "histórias" que correm em paralelo tendo como alvo diferentes grupos etários: atrai os mais pequenos pelas cenas de cor e movimento, atrai os jovens pelo humor e irreverência, e os adultos pela consistência dos personagens e sofisticação da história.  

Por gosto e inerência das minhas funções de paternidade, há muitos anos que estou condenado a seguir muita da produção do cinema de animação. E garanto-vos que por entre o banal e a mediocridade ”a metro” desta indústria se encontram verdadeiras Obras de Arte. É o caso de Up da Pixar: um filme para ver de coração aberto, também para os que não têm filhos nem preconceitos; não têm desculpa: alugue um exemplar e delicie-se em casa com o que de melhor se faz no cinema de ficção moderno. Se é “bonecada”, para o caso é secundário. É bom, é altamente. 

 

Um quarteto fantástico: Dug, Kevin, Russel e o Senhor Fredricksen

Alegre ma non troppo

 

Talvez se enganem os que exultam com o anúncio de Manuel Alegre de disponibilidade para uma candidatura unitária de esquerda, que comprometeria seriamente a reeleição de Cavaco Silva em 2011. Acontece que ainda falta muito tempo, e uma coligação entre as esquerdas parlamentares significa um saco de gatos difícil de aguentar por um tão longo período, mesmo mantendo o pagode entretido em debates “fracturantes”. Num ano em que, tragicamente, se antevê uma agenda dominada pela economia, um tema que espectro politico do centro para a esquerda trata de forma gradualmente mais irresponsável, facilmente se adivinham divisões e combates entre os apoiantes de Alegre; comunistas, blocos, sindicatos, fenómeno que entrincheirará o candidato numa oposição ao governo, ostensiva ao PS institucional e ao eleitorado do centro que é quem decide as eleições. Esta previsível pressão entre grupos geneticamente incompatíveis e contraditórios durante mais de um ano viabilizará uma qualquer outra candidatura à esquerda do poeta, que verá assim gorada a sua utópica estratégia de unidade.

Mundo Cruel

Quando vou deixar o mais pequenito à sala de aula não deixo de ficar apreensivo com a paisagem com que me deparo: pouco mais de uma dúzia de criancinhas, cambaleiam desordenadamente pelo espaço, “grosso modo” divididos em dois grupos, as meninas de volta da auxiliar que penteia ou compõe uma delas, e os rapazes que se desafiam, empurram, e fogem com os brinquedos uns dos outros.  São de facto dois “géneros” bem diferentes. A essa altura o meu filhote, (que também não é flor que se cheire), fixa-me de olhos húmidos e agarra-se ao meu pescoço com força numa vã esperança de não trocar de filme. 

Tudo isto serve para contar que ele tem um novo coleguinha, o Fletcher, um menino inglês que caiu de pára-quedas a meio da temporada e que não entende ou diz uma palavra de português. Os outros dizem poucas, mas ao que vejo faz alguma diferença: adivinha-se uma integração difícil, e contou-me a minha mulher que à hora da saída anda ele pela sala desesperado, a chamar “mummy”, “mummy”, disposto a saír com a primeira senhora sem bata que se dispuser a tira-lo dali.

A vida às vezes é cruel e começa cedo. Ontem, enquanto enfiava umas colheres de sopa na boca do miúdo, pedi-lhe encarecidamente para ser amigo do Flecher, como do Lucas de boa memória, em honra da Velha Aliança, da antiga tradição lusa. Claro que isto não são coisas que se encomendem e o apelo não foi compreendido: foi antes uma luta para comer a fruta, em ânsias de ir brincar. A vida custa a todos. 

 

Para quando uma ecologia do Homem? (II)

 

 

As luzes da grande urbe, como um grande e feérico cenário, ofuscam o firmamento e roubaram  ao Homem o Universo que hoje se cinge a uma equação matemática ou a algum passageiro postulado. Sem perspectiva, espanto ou angústia, a sua avidez e imodéstia há muito se vem avultando por conta doutra cegueira: a do coração. Na cidade eléctrica, sem noite e sem silêncio, o Homem arrisca-se a perder-se definitivamente de Deus, e de si próprio. 

Para quando a ecologia do homem?

Em tempos da minha juventude li o Macaco Nu (The Naked Ape), livro em que Desmond Morris, o autor, descrevia com graça a espécie humana sob um prisma da etologia, uma disciplina da zoologia com influências evolucionistas onde se relaciona o reportório comportamental das espécies com as suas peculiaridades anatómicas. Citando de memória, a determinada altura o autor abordava o pacto de monogamia do casal humano (casamento) como um compromisso determinado pela necessidade duma aliança duradoura com vista à promoção da autonomia às suas crias, que em comparação às outras espécies se prolonga extraordinariamente. O  autor exemplificava o caso dum potro, que ao fim das primeiras horas já anda, e que após  poucas semanas é completamente autónomo, enquanto este processo numa criança pode durar entre seis a dez anos. 

Tudo isto para dizer que o homem possui a sua própria ecologia, e que me parece inegável que o “casamento” tem como fundamento original potenciar a geração de descendência com eficácia – daí o Amor, sentimento desconhecido nas outras espécies. Num tempo em que tanto se apregoa a protecção do ambiente, das florestas aos mais insignificantes insectos, não será altura de proteger o Homem de si próprio?  

 

As coisas são como são

O problema que sempre terá qualquer primeiro-ministro que sustente a sua eleição em qualidades exteriores como “uma figura elegante, cuidada, simpática; numa voz sólida, bem colocada, timbre de orador e comportamento em publico seguro e auto-confiante” é que esses são requisitos que favorecem a sua mediatização, não a governação. Como bem sabemos, ao fim de dois anos de governo, qualquer primeiro-ministro terá perdido muito cabelo, a pose, e sobra-lhe colarinho no pescoço. O timbre de voz estará artificialmente modelado por aconselhamento dos assessores, e a auto-confiança tenderá a para a mania da perseguição. Um grande estadista faz-se com substância e carácter, o resto não resiste: como diz Anatole France, Governar é criar descontentes. E resistir-lhes. 

A talho de foice (em seara alheia)

 

O fenómeno da conflituosidade e anticorpos granjeados por Pedro Passos Coelho na sua a longa e fratricida batalha pela liderança laranja, atingiu hoje níveis verdadeiramente fracturantes dentro do partido. Em resultado disso estão definitivamente comprometidos os intentos desta candidatura, ou no caso contrário, se for eleito líder da oposição, suspeito que assistiremos a uma sangria de quadros e dirigentes jamais vista, que remeterão o PSD para um plano de menoridade política em favor do CDS ou de novos projectos reformadores que surjam à sua direita.

De resto, confrontado com a crise no capitalismo mundial e com uma estrutura económica cristalizada numa extrema dependência na despesa pública, Pedro Passos Coelho há muito deixou cair a bandeira do liberalismo e parece que vai cedendo à quimera dum bloco central como bóia de salvação, não do país que já deu tudo para esse peditório, mas dum discurso esvaziado de ideias. 

 

O Corta-fitas renovado

 As mudanças verificadas nos últimos tempos no Corta-fitas consubstanciam-se hoje na renovação do seu visual, um nosso desejo antigo cheio de significado, a recuperação da imagem com que este blogue se afirmou e que transmite a seu espírito original. Afirmação desta vida renovada é também a adesão de novos colaboradores: para já contamos com dois reforços de peso:  Vasco Rosa e o Rui Crull Tabosa que por sinal já está cortar em força, sem medo das palavras como é tradição nesta casa. Aos dois aqui ficam as boas vindas e os votos de muita inspiração. Quanto aos nossos estimados leitores, sabem bem o que podem aqui encontrar: Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios. E uma miúda às sextas. Sempre.  

 

 Corta-fitas

O conto do vigário

O odioso Maltazard

 

Ontem, como é costume duas vezes por ano, em Agosto e pelo Natal, levámos os miúdos mais pequenos com os primos da mesma idade para uma  tarde de cinema. À falta duma produção de qualidade que pudesse ser vista por todos (duvidámos do arcaboiço dalguns para verem a nova versão dO Conto de Natal de Charles Dickens pela Disney), imprudentemente escolhemos o segundo da saga Artur e os Minimeus, A Vingança de Maltazard do realizador francês Luc Besson, fita que se veio a revelar uma verdadeira e dispendiosa burla: quando nada fazia prever, e após mais de uma hora de uma confusa mistura de “acção” Play Station e exaustivas explicações sobre o obscuro guião feitas pelos próprios protagonistas, a sessão é interrompida com a mensagem “Continua”, deixando os espectadores atónitos com o abrupto final. Tenho ideia que nem um episódio duma má telenovela acaba desta forma. De resto este precipitado desenlace, afinal veio a meu contento: este filme, que mistura imagens reais e desenhos computorizados, gnomos e insectos,  uns misteriosos e gigantescos nativos africanos, os guardiães duma propriedade algures na América onde vivem os avós de Artur, pretende ser uma apologia à fantasia, ao amor à Mãe Natureza em geral e aos insectos em particular, uma prece  ao Sacrossanto Ecossistema e à irreverência das criancinhas, em contraste com a imbecilidade dos pais em particular, e da civilização ocidental em geral. Nesta salganhada ideológica não é de subestimar a maldade encarnada, o terrível Maltazard, um horrendo insecto que exibe uma cabeça fundida numa espécie de mitra cardinalícia. Enfim, tudo afinal não passa de um chorrilho de lugares comuns suburbanos da moda, uma estúpida fraude para poluir as mentes confusas das criancinhas e entreter o burguês ignoto. Um conto do vigário a evitar. 

 

Artur após os rituais de iniciação

O insondável mistério do Bolo Rei

 

É para mim um grande mistério a tradição do Bolo Rei,  um pitéu que afinal  poucos apreciam, mas que nem a fúria jacobina de Afonso Costa conseguiu liquidar, vai fazer cem anos. Disponíveis em impressionantes quantidades pelos cafés e pastelarias, e empilhados em promoções nos supermercados,  há  casas especializadas onde se faz bicha para comprar um exemplar. Mas pelo que me é dado observar, com mais ou menos frutas, mais ou menos ovos ou açúcar, esta é, entre as iguarias da quadra, a menos apreciada: as crianças regra geral enojam-se só de ver as frutas cristalizadas, e os adultos estão de regime, depois do peru e das filhoses. Quando muito  é o dono da casa que come uma fatia por descargo de consciência ou sentido de missão. Assim, chego à conclusão que o Bolo Rei é uma espécie de penitência pagã para “aliviar” a sã alegria da quadra, não vá o diabo tecê-las.

Em tempos, quando o Bolo Rei tinha um brinde, (em boa hora eliminado em nome da sacrossanta segurança alimentar, que isto de engolir bijutaria não é agradável) o pessoal ainda o escarafunchava para habilitar-se a ir à fava. Já o bolo que me oferecem no escritório todos os anos, por norma resiste incólume à consoada e segue directo para o congelador, donde é sacrificado ainda antes do fim de ano no aniversário da minha filha. Acaba feito em torradas numa caixa de lata ilustrada com animais de Beatrix Potter, donde segue para o caixote do lixo por ocasião das limpezas de Primavera. Tão certo quanto o Natal ser em Dezembro.

 

Inspirado aqui 

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