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João Távora

A campanha suja

 

O Diário de Notícias há muito que nos habituou a uma abordagem facciosa das informações sobre os assuntos fracturantes em geral e da Igreja em particular, submetendo-as sempre a pontos de vista marginais ou mesmo externos aos interesses da comunidade católica que insiste menosprezar. Essa linha editorial é tanto mais estranha quanto, em matéria de “Opinião”, o jornal demonstra um posicionamento pluralista, reunindo católicos praticantes como a Maria José Nogueira Pinto, Adriano Moreira, João César das Neves, Pe. Anselmo Borges, e também outros tantos cronistas cuja posição perante a Igreja é pacífica e de boa-fé.

Neste sentido constitui um profundo mistério as razões pelas quais este periódico instituiu como agenda uma abordagem editorial claramente contestatária e anticlerical. Pergunto-me se a posição é política ou comercial: suspeito que nestes dias do materialismo ridicularizar pessoas religiosas, padres, bispos e Papas renda popularidade, um atributo que raramente anda a par da seriedade.

Veja-se como nos dois últimos dias, dois artigos — ontem com a entrevista a dois padres casados contra o celibato (redigido pela Fernanda Câncio, uma «desinteressada» especialista na «matéria») e hoje um outro sobre católicos (?) homossexuais e contestatários — denunciam uma linha anticlerical, uma campanha a favor duma revolução no interior da Igreja de acordo com descartáveis cânones mundanos como o casamento homossexual. Certamente a receita mais eficaz para uma rápida extinção desta milenar instituição.

Suspeito que o fundamento da inquietação que muitos não crentes manifestam a respeito do celibato do clero, a ser tida como altruísta, esteja bem explicada na forma como a jornalista Fernanda Câncio titula o seu artigo: "E eles não viveram sós para sempre". Não sabem os pobres, que um verdadeiro cristão conquistou e usufrui da melhor e mais calorosa das companhias: Jesus Cristo. Acredito que essa é uma realidade muito difícil de entender para um descrente, quem sabe causadora de incómodos ressentimentos.

De resto, parece-me absurdo que, ao lado destas capciosas peças jornalísticas estejam colocados anúncios de merchandising de apoio à visita do Papa, que se subentende responsável máximo da instituição que se nos pretendem fazer crer como hedionda e criminosa.

Finalmente deixo um desafio: porque é que o Diário de Notícias não intercala estas “notícias” com outras, dando a conhecer a fundo a Igreja viva no terreno e a sua fé em Cristo que inspira milhares de pessoas de boa vontade a viver com harmonia e ajudar os outros?

Incómodos como Cristo


Por estes dias os diligentes zeladores do "pensamento bom" urram quais virgens ofendidas com a tolerância de ponto concedida para a visita de Bento XVI no mês que vem. Desta vez, a brigada dos bons costumes, para além dos habituais prosélitos ateus, reúne em coro as duas grandes estruturas sindicais numa rara unanimidade de causas: a sacrossanta “igualdade” do laicismo, e imagine-se, uma burguesa e mercantil preocupação com a “produtividade”. Infelizmente, suspeito que uma paralisação dos serviços públicos em Portugal não belisque significativamente a criação de riqueza nacional, antes pelo contrário.

Eu sou daqueles que considera uma mera questão de higiene a redução aos mínimos essenciais o relacionamento entre o Estado e a Igreja Católica, como salvaguarda da instituição cristã que tanto prezo. E presumo que esta transigência do Estado para com os católicos, não reflicta mais do que uma atitude de bom senso, tendo em vista a prevenção de aspectos ligados à segurança e mobilidade dos cidadãos que desejem - ou não – bem receber em Portugal o sucessor de S. Pedro.

De resto, considerar de igual modo aquilo que é diferente constituiria sempre um grave erro de avaliação da realidade: para os portugueses, a visita do Papa não é a mesma coisa que uma visita do Dalai Lama. É que, apesar da assanhada cultura do hedonismo e superficialidade mediática que vivemos, o processo de descristianização da sociedade portuguesa ainda demorará umas quantas gerações, e remeter os católicos resistentes para as catacumbas não será do pé para a mão. Enquanto assim for, e os zeladores não optarem por politicas de repressão mais despóticas, terão de aguentar-nos assim: muitos e incómodos.

Bullying Presidencial

 

Após Václav Klaus, presidente da República Checa, ter aproveitado a visita do seu homólogo Cavaco Silva para o achincalhar publica e insistentemente a respeito do deficit excessivo português, foi fechado o espaço aéreo com a justificação da nuvem de poeira vulcânica, prevendo-se que o nosso presidente permaneça lá retido por tempo indeterminado a matutar no assunto. A última alusão às más contas nacionais foi hoje de manhã num encontro entre empresários dos dois países em que Klaus fez humor da situação, confessando ter ficado muito surpreendido por Portugal não estar "nervoso" com o seu défice de oito por cento, aconselhando o seu homólogo português a não revelar que o desequilíbrio é superior ao da República Checa.

Louçã, um exemplo de ética republicana

 

Bem prega Frei Tomás...

 

É publicada hoje no Diário de Notícias (não encontro o artigo online) uma elucidativa carta aberta de Paulo Teixeira Pinto a Francisco Louça sobre a sua atitude de se manter cobardemente escudado no estatuto Imunidade Parlamentar, após o ministério público o ter tentado constituir como arguido pela prática de crime de difamação. Assim o DIAP se viu obrigado a dar por encerrado o processo “embora se verifiquem fortes indícios da autoria do crime pelo Sr. Deputado Francisco Louçã” segundo despacho de 25 de Fevereiro.

Da intolerância e má fé


Nestes duros dias de despudorado achincalhamento aos católicos, “a Igreja absolve os Beatles” tem sido uma abusiva manchete glozada e abusada pela comunicação social e pelos jacobinos do costume. Este inusitado tema surge a propósito dum artigo publicado no L'Osservatore Romano em que o editor chefe da publicação, Giovanni Maria Vian, se afirma encantado com a música da mítica banda dos anos sessenta. Naquilo que considero uma clara demonstração de bom gosto, há uns meses atrás o mesmo jornal elegera "Revolver" como um dos dez melhores álbuns da história da música Pop e agora anuncia que as atitudes e declarações libertinas dos Quatro de Liverpool ocorridas nos loucos anos sessenta, são hoje águas passadas, e que o que permanece é um precioso legado artístico.
Para além da expressão dalguns legítimos protestos, afirmados à época por alguma hierarquia a propósito das provocações dos rapazes (principalmente John Lennon), a Igreja nunca teve nem poderia ter uma posição oficial sobre o assunto. Custa-me entender a má fé com que os media tratam este tema e quase tudo o que a Igreja Católica afirme: diga o que disser, uma coisa ou o seu contrário, essas afirmações, retiradas do seu contexto, são rapidamente julgadas queimadas na voraz fogueira do pensamento único.

A verdade é que naquele tempo até o meu saudoso pai, uma pessoa culta e criterioso melómano, contemporizava apreensivo, a forma apaixonada e insistente como o meu irmão e eu aderíamos à onda da beatlemania. Também ele acabou passados alguns anos por se render à fascinante criatividade musical dos quatro de Liverpool. O caso, é que a adolescentocracia instaurada não descansa enquanto não matar o pai. Essa é a razão porque o desafio à santidade proposto por Cristo, colocada ao lado do sacrossanto relativismo moral que desobriga o indivíduo da sua perene responsabilidade na História tende a ser mal interpretada. De resto, suspeito que a fogueira com que o mundo, intolerante, hoje queima a Igreja e as religiões em geral, há-de queimar muito mais à sua volta. Quem sabe a própria civilização.

O cinismo - a nova religião de massas

 

Também eu nalguns raros momentos de ócio venho espreitando uma ou outra série dos canais temáticos como os Fox e AXN: além do inevitável House, divertem-me em particular alguns policiais como "Lie to me", o "CSI Miami" ou "Ossos". Outras, como “Family Guy”, “American Dad” ou “Os Simpsons”, vejo acidentalmente com os meus miúdos adolescentes. Tal como acontece hoje no cinema de massas, nestes eficazes produtos de entretenimento, para além dum exacerbado relativismo moral, emerge uma nova regra que é quase absoluta: um modelo de herói cínico ou afectivamente traumatizado, com contextos familiares complicados e em permanente crise. Este é hoje o mais vulgar pano de fundo de qualquer filme de acção ou comédia: ele é crises conjugais, padrastos e madrastas em joguetes de sedução com crianças malcriadas, mergulhadas em jogos electrónicos ou de manipulação afectiva. Se para prender um leitor ou espectador é necessário algum sarilho, um acontecimento ou personagem invulgar, aquilo que aqui descrevo é uma uma estranha iconografia, meros cenários, sobre os quais uma determinada acção irá decorrer, seja cataclismo natural, invasão planetária ou investigação policial. 
Este é o destino dum alucinante percurso estético percorrido sob a liderança da literatura, com consequências na vulgarização do cinismo e na liquidação da esperança. Da requintada e fascinante “malvadez” de Flaubert, de Eça e tantos outros romancistas do Séc. XIX que exploraram novas perspectivas e densidades humanas, rompendo preconceitos e tabus, a estética d’hoje inverteu radicalmente os seus valores: sem originalidade ou densidade, o Homem e a Sociedade, desconstruídos, por norma são representados na sua mais negra perspectiva. Hoje, nesta complacente “modernidade”, o cinismo, a descrença e a obscenidade são o mote para consumo das massas, explorado até ao tutano nas mais reles revistas, séries e produtos de entretenimento, influenciando uma dinâmica humana depressiva e autodestrutiva, que, se um dia foi uma moda “chique” de algumas elites, hoje se revela uma óptica quase totalitária, tremendamente vulgar e cansada. 
De resto, entre a mosca que encontra o detrito num idílico campo florido e a borboleta que descobre a flor num pântano de detritos, a minha escolha é clara.

A política como serviço

 

Não consta que tenha sido uma velha de colar de pérolas em Bruxelas a alertar o governo português para a manifesta insuficiência das medidas previstas no Programa de Estabilidade e Crescimento para o controlo do deficit e da divida pública. Para lá do folclore e das estratégias de propaganda do governo e das oposições, a questão fundamental foi ontem muito bem sintetizada pelo insuspeito Carlos Félix Moedas num artigo publicado no jornal I: tendo em conta a nossa fraca produtividade, a curto prazo restam-nos duas soluções, ou abandonamos o euro ou reduzimos o custo do trabalho. Despertando lentamente dum estratégico "estado de negação", o governo de José Sócrates encontra-se hoje sitiado pela trágica realidade e perante ela não se vislumbra uma forma “elegante” de Pedro Passos Coelho se descartar dum discurso tão responsável quanto impopular: suspeito que não lhe resta outra alternativa do que dar bom destino à sua voz de barítono e pose de estado para alertar e motivar os portugueses para os duros tempos que se aproximam. A gravidade da situação não concede espaço para grandes jogadas ou demagogias e os portugueses, que terão que se assumir como parte da solução, têm que saber o que os espera: trabalho e sacrifícios.

O triunfo do desamor

 

O provedor do ouvinte da Antena 1 Adelino Gomes, ao mesmo tempo que veio dar razão à queixa de um ouvinte sobre a inaceitável evocação de Deus por um locutor de futebol numa rádio com serviço público, veio uma semana depois defender e legitimar o conteúdo e horário de transmissão duma crónica duma tal de Raquel Freire no programa da manhã sobre o clitóris em que a senhora proclamava com entusiasmo as vantagens duma mulher se masturbar “uma vez por dia”. Sem ter nada a favor ou contra a masturbação, tenho profundas dúvidas sobre o benefício dum exacerbado egocentrismo nos afectos para felicidade dos indivíduos. Ao contrário, e no que refere ao erotismo, estou plenamente convencido de que é na partilha, no plena entrega e descoberta "do outro" que uma Pessoa se realiza e descobre. Mas isto, claro, é beatice; crendice pura, perigosos preconceitos, que eu aliás inculco nas minhas indefesas crias as quais afinal não consigo resguardar desta contraditória adolescentocracia carregada de novas culpas, superstições e obscuras quimeras.

O cansaço

 

Jorge Jesus passou as últimas semanas a falar de prioridades e cansaço, numa eficaz preparação psicológica aos seus atletas e adeptos para a eliminação do Benfica duma prova internacional de inegável prestigio internacional. À conta da falta de ambição a equipa maravilha do campeonato nacional quase foi humilhada escusadamente: tinha condições para fazer história. É difícil entender a gestão e as adaptações de última hora feitas à equipa: com seis pontos de avanço sobre o segundo, os lampiões tinham e têm margem de manobra na liga nacional. De resto sabemos bem como as equipas inglesas disputam o ano todo dois jogos por semana, sem parar no Natal e Ano Novo, e não consta que os treinadores andem por aí a queixarem-se em publicamente de cansaço. Suspeito que seja esta a grande diferença entre os portugueses e outros povos mais desenvolvidos: auto complacência e falta de ambição.

Ainda o PPM

 

 

O João Gomes de Almeida manifesta aqui a sua legitima discordância com estas minhas palavras sobre o PPM onde o considero uma organização incoerente com a Instituição supra-partidária que defende. Mas, porque as Causas das Coisas de facto não são a preto e branco, eu próprio nem sempre fui coerente com essa opinião, e militei naquele partido nos anos oitenta aquando da candidatura de Miguel Esteves Cardoso que quase foi eleito para o Parlamento Europeu. Extravasasse o escritor o seu carisma da pena para o palanque da política, e os monárquicos teriam feito história nessas eleições. Eu até concedo que a existência dum partido monárquico possui algumas vantagens, uma delas é aquela que constitui a debilidade da Causa Real e Reais Associações: não elegendo autarcas, deputados ou presidentes, não possuindo a organização, apesar do forte suporte social que detém, aspirações aos poderes formais da republica,  luta esta com enormes dificuldades de financiamento e patrocínio por parte dos  grandes lobbies e empresas que não vislumbram quaisquer chances de retorno em apoios financeiros. De resto, a disputa republica vs. monarquia constitui um assunto de natureza disruptiva, uma discussão que assusta muita gente que possua ou defenda grandes interesses dependentes do regime e do status quo. Só assim se entende como os diversas personalidades políticas, algumas de grande craveira e capacidade influência, simpatizantes da monarquia e dispersos pelos vários partidos sejam tão prudentes na afirmação das suas convicções monárquicas. Na verdade esta questão ainda desperta os piores instintos a alguns actores da política supostamente moderados, e ela foi causa de uma quase guerra que estragou a vida a muita gente por muitos anos.

De resto, caro João, concedo que para além da lealdade ao Duque de Bragança, o ilustre deputado municipal da Ilha do Corvo Paulo Estêvão detenha méritos que concedam os mínimos de dignidade que o símbolo do PPM merece. E espero sinceramente que consiga resgatar o partido da completa insignificância nacional a que hoje chegou e que nos envergonha a todos
Finalmente insisto que não se pode exigir aos numerosos simpatizantes da monarquia em Portugal, cuja única causa que os une é a formula da chefia do Estado (e talvez as cores da bandeira nacional), mas que divergem no resto em quase tudo o que são as suas questões prioritárias para o dia-a-dia, - das estratégias politicas ás económicas e passando pelos costumes - que se unam à volta dum mesmo partido.