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João Távora

Rock in Rio

 

Apesar de ser um apaixonado pela música pop, genericamente não gosto de festivais de rock, eventos industriais para a catarse da rebeldia juvenil, concentrações toleradas de álcool, alucinógenos e outras substâncias, excessos que o jovem burguês toma hoje como inalienáveis direitos. Debaixo de condições sonoras deploráveis, estes “concertos” decorrem no meio duma imundice total, de poeira e detritos orgânicos, onde quase sempre os artistas actuam pateticamente, qual pianista de saloon a martelar as teclas enquanto a malta se engrossa, joga póquer e se esmurra mutuamente, indiferente ao que se passa no palco.

O Rock in Rio é isto tudo em tamanho gigante, mas com pretensões humanitárias e bazófias ecológicas: trata-se duma enorme operação de marketing, espelho da nossa cultura de consumo e aparências, sem causas ou valores. Toda a sua lógica é mercantilista: não é mais do que uma feira de vaidades com bilhetes e produtos muito caros, patrocinado por um grande banco e dezenas de grandes marcas que o publico consome com uma passividade bovina. A fraude do Rock in Rio solidário é um negócio brilhantemente concebido: abençoado pelo poder, nele congrega os colunáveis, os famosos do regime, e, para cumulo, angaria voluntariado para mão dobra, a troco duma t shirt, como se dum campo de refugiados se tratasse. Mas é apenas comércio, um verdadeiro caso de estudo.

É a politica, estúpido!

 

Aproveitando o estado de choque nacional, o PCP vai apresentar uma moção de censura ao Governo. Assim numa penada ultrapassa o Bloco de esquerda e cola a direita a José Sócrates. E agora quem vai pedir desculpas a quem?

A entrevista ao Senhor Dom Duarte e outras leituras

 

A entrevista de João Céu e Silva ao Senhor Dom Duarte publicada na revista Notícias Sábado do Diário de Notícias, confirma um competentíssimo jornalista e revela um entrevistado culto e sabedor, com uma interessante e desempoeirada visão sobre os grandes temas políticos da actualidade. Estranho no entanto a parangona de primeira página com uma frase descontextualizada, a respeito das fatais questões de costumes tão moda. De resto ao longo do artigo esses temas são explorados e destacados ao limite, coisa que não me parece inocente, seja por razões políticas ou comerciais. Tal não seria um problema se os temas “fracturantes” sobre os quais o Duque de Bragança possui uma opinião legitimamente conservadora, não tendessem a esbater a importância doutros, politicamente bem mais reveladores e urgentes sobre a complexa realidade que aflige os portugueses. Essa análise, preparada e perspicaz está lá, nas linhas e nas entrelinhas, para quem quiser ler.

Outra fascinante entrevista é a publicada na edição de fim-de-semana pelo jornal i ao neurologista e Alexandre Castro Caldas: uma bela e interessante peça jornalística de Sílvia Oliveira, a ler com atenção.

Vergonha

 

Numa cultura que exalta os direitos em detrimento dos deveres, em que se venera a imagem, o prazer e a juventude, os velhotes estão basicamente tramados. Pouco interessa que diariamente na cidade eles se descubram cadáveres abandonados, quem sabe à custa do cheiro da putrefacção, que a amargura é inodora e o sofrimento silencioso.
O assunto não é mediático, dificilmente sai do círculo dos voluntários e da paróquia, quando alguém os acompanhou nos últimos dias de desamparo e solidão: inestético, exala a morte e espelha cruamente uma sociedade hedonista e decadente, cuja solidariedade apenas se move por poderosos lobbies de interesses e causas da moda.

Com a família e comunidade tradicional em acelerada fragmentação, os velhos serão cada vez mais um problema por resolver, e afianço que a última coisa que me preocupa é a higiene pública: aflige-me a desumana solidão a que eles vão sendo votados, pela voracidade e dinâmica urbano-consumista.

A campanha para a mercantilização da solidariedade aos idosos que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa vai lançar no final do mês, prevê a atribuição de subsídios àqueles que se dispuserem a acolher um idoso na sua casa. Acredito este programa, perante o trágico panorama de sofrimento e solidão de milhares de velhos, seja porventura um mal menor. Se não forem causa de ignóbeis oportunismos, talvez os seiscentos euros sejam bem empregues e sirvam para alugar uns meses ou anos de decoro e… companhia. Uma detestável realidade que nos devia questionar e envergonhar a todos.

Desculpas de maus pagadores

 

A questão retórica criada á volta dum improvável pedido de desculpas pelo assalto aos contribuintes sobreviventes determinado ontem pelo governo, demonstra o nível indigno e rasteiro da política doméstica.

Se Passos Coelho, que há menos de dois meses proclamava aos sete ventos jamais vir a apoiar uma subida nos impostos, teve a dignidade de pedir desculpas aos portugueses pela inflexão assumida, já José Sócrates justifica-se com o Mundo que mudou nos últimos quinze dias (sic), e logo surge o inefável Francisco Assis criticando o líder da oposição com o argumentando que um pedido de desculpas implica má consciência e consequente abandono da vida política. Obviamente não implica nem uma coisa nem outra.

De facto, a certos criminosos de delito comum um pedido de desculpa é pouco mais que inútil, não chega. Uma mentira é uma mentira e a gestão danosa da coisa pública é um crime grave. E afinal "a velha do colar de pérolas", que alertava para o abismo da dívida pública e do descontrole do deficit é que tinha razão: a bomba há muito que estava armadilhada, a verdade não vence em política e agora é que estamos mesmo lixados. E isto não pára por aqui.

Eu, Confio.

 

Fui um daqueles milhares de portugueses anónimos que esteve no Terreiro do Paço na tarde de terça-feira. Confesso que por umas horas o meu coração impetuoso destroçou alguma réstia do pessimismo das espumas dos dias. Por umas horas, arrebatado, comovi-me como uma criança e intimamente clamei, e chorei, e rezei pela minha Pátria, pela minha Igreja, pelo meu Povo e pela minha Família. Há muito tempo não sentia tão confortado na Fé, nesta minha já longa caminhada de Encontro. Naquela tarde eu senti-O imponente no trono de Pedro, naquele belo e descarado Altar no meio da Polis, de vistas para o Tejo e para a História. Senti-O vigoroso  na expressão do meu semelhante, no querer do Seu Povo a que pertenço com orgulho. Ali estava Jesus Cristo que um dia me resgatou à morte, cuja ínfima parte do Seu amor gostava eu de saber devolver, pela fidelidade da minha vida concreta.

Alguém me telefonou no final da celebração perguntando se não me sentia mais optimista. Uma necessária resposta rápida não me permitiu retorquir que tenho desses sentimentos, optimismo ou pessimismo, vivas reservas: são afecções às quais é necessário sempre sobrepor a realidade, e essa, no que concerne à Igreja, neste tempo e nesta Europa, não me parece promissora. A Mensagem de Cristo é bela e delicada e o barulho e a vulgaridade hoje se lhe sobrepõe com demasiada facilidade: neste nosso velho e anafado continente, onde a inquietação se trata com uma pastilha, impera o ruído e a trivialidade foi democratizada, massificada. Mas também sei que a História é como uma longa corrida de fundo para um glorioso e inevitável Encontro. Nas palavras de bento XVI: a ressurreição de Cristo assegura-nos que nenhuma força adversa poderá jamais destruir a Igreja.  «Eu estou sempre convosco, até ao fim dos tempos» (Mt 28, 20). Eu, confio.

O quarto poder

 

As baboseiras proferidas por boa parte dos jornalistas na cobertura da visita do Papa são muitas e demonstram regra geral, além do preconceito, uma confrangedora ignorância: ontem uma jornalista da Antena 1 afirmava encontrar-se de costas para o Teatro D. Maria e de frente para a estátua do Rossio. Digo isto sem escárnio e com tristeza, pois parece-me que esta profissão designada também como "o quarto poder",  deveria exigir uma qualificação cultural e cientifica superior à média, mais que suficiente para saber que a estátua daquela praça representa D. Pedro IV. Mas isso não interessa nada: a vulgaridade e o soundbite é o que chega para alimentar as necessidades e expectativas da adolescentocracia.

Os dias da História

 

Já aqui afirmei diversas vezes que nada me move contra aqueles que nutrem distintas crenças ou convicções das minhas: alguns dos meus bons amigos são ateus ou agnósticos, e tais traços afectivo-culturais jamais interferiam na nossa relação. Há espaço para todos e o convívio é sempre possível desde que sejam respeitadas as diferenças. Jamais pretendi constranger quem quer que seja a adoptar as minhas crenças ou opções de vida.

A blogosfera e a opinião publicada em geral espelham quanto a mim uma fractura político-ideológica bastante exagerada que não reflecte de todo o verdadeiro sentimento “da rua”. Assim sendo, por estes dias enquanto o Papa inicia a sua visita a Portugal, considero primordial que todos vivamos o acontecimento de forma pacífica e saudável, com a noção de que o acontecimento é excepcional e que liberdade de cada um acaba onde começa a alheia. Que o inevitável incómodo causado pela grande mobilização católica seja tolerada pelos outros: afinal é inegável que por uns dias esta nossa “casa” comum se vai tornar porventura um pouco apertada para todos, como acontece quando organizamos uma grande festa com muitos convidados. Espero que saibamos todos viver esta ocasião muito especial com alegria, civilidade e fair-play. Eu, com a vossa licença vou preparar-me para a festa, para testemunhar estes dias em que a História se faz. Bem-vindo seja a Portugal o Papa Bento XVI.

Desta já escapámos!

 

 

Hoje pela manhã deitei o rabo do olho na banca dos jornais e aquela preponderância de vermelho soviético pareceu-me insuportável. Na imprensa o regabofe deu até direito a brinde: imperdível a comovente crónica do benfiquista Manuel Pinho "Explode Coração" no Diário de Notícias, uma revelação, o homem simples por detrás do génio.

Dizem-me que não há sentimentos bons ou maus, simplesmente temos que viver com eles, é bem verdade e não me refiro à azia que a isso quase cinquenta anos de sportinguismo me tornaram imune. De resto se querem saber eu ontem sobrevivi graças à boa literatura e a uns tampões nos ouvidos que me ajudaram bastante. Além disso para a semana termina esta malfadada época, o Porto ganha a Taça no Jamor e tudo volta ao sossego, tanto mais que afinal o €uro foi resgatado com vida em Bruxelas, e o nosso tombo vai ser amparado, há vida para lá da Grécia, pilim para mais uma legislatura. E afinal quem se lixou foi a Merkel.

No intervalo deste turbilhão recebamos o Papa com a festa e a dignidade que ele nos merece, rezemos muito por nós e pelo País que por esta altura pouco mais podemos fazer.

Os malabarismos da propaganda, ou uma mentira mil vezes repetida

 

Com uma simples pesquisa no google para as palavras “Cronologia da República”, verifica-se como enquanto a Plataforma do Centenário apresenta e analisa os factos subsequentes à implantação da mesma, o site oficial expõe alguns faits divers criteriosamente escolhidos relativos aos anos precedentes da revolução, que o mais das vezes revelam um regime tolerante e democrático. O mesmo acontece com os temas das diversas rubricas radiofónicas que tenho ouvido aleatoriamente nalgumas estações reverentes ao regime como a TSF e a Antena 1. Este desplante não é de espantar, tais foram as trágicas consequências da dita revolução que ninguém com um mínimo de honestidade pode negar, e que só alguém com má fé se poderia orgulhar. De resto vale tudo para promover a confusão entre os ideais de 1826 e as intenções jamais cumpridas pelos republicanos de 1910. Como um dia vaticinou Eça de Queiroz: O Partido Republicano em Portugal nunca apresentou um programa, nem verdadeiramente tem um programa. Mais ainda, nem o pode ter: porque todas as reformas que, como Partido Republicano, lhe cumpriria reclamar já foram realizadas pelo liberalismo monárquico. (…) A república não pode deixar de inquietar o espírito de todos os patriotas.


 

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