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João Távora

Catrapás!

 

 

Pffsss!, glugluuuuu!, pum! Zipppp! jnaslacccc! são supostamente ruídos duma cópula reproduzidos em fidedignas onomatopeias pela inenarrável Mart@ Crawford na sua destacada crónica de fim-de-semana Jornal i. Sem esta ousada abordagem, talvez inspirada no atrito sonoro das vuvuzelas durante um jogo do mundial, certamente seriamos todos mais labregos, menos cosmopolitas; encerrados em preconceituosas inibições e tabus. A insubmissa sexóloga, possuidora dum invejável traquejo (o termo não é inocente) de prática clínica, não se abstém de classificar alguns destes ruídos de “embaraçosos” e “íntimos”, conferindo esta última característica mais gozo à autora a dissecar o importante tema. No entanto atrevo-me a corrigi-la a respeito do som jnaslacccc, que na minha limitada mas já longa experiência de vida mais me sugere um pé a descalçar um sapato molhado. Enfim, desde os imemoriais tempos de Nina Hagen que não me deparava com tanto despudor e audácia. Uma rebelde e abnegada educadora do povo é o que é esta arrojada sexólog@.

Joguem à bola!

 

 

O campeonato do mundo de futebol começou hoje em Joanesburgo e na Cidade do Cabo enfastiado e em passo de caracol: dois jogos, dois golos e dois empates. Um enorme bocejo com um insuportável enxame de vuvuzelas em fundo. Nestas circunstâncias dá para perceber a caricatura que os norte-americanos fazem do nosso desporto rei, vergado pelos milhões dos patrocínios a tácticas de jogar para os lados, sem rasgo ou espontaneidade, à imagem da decadência do Velho Continente. No pasa nada!

Não fossem os assaltos aos jornalistas, os caprichos esmiuçados dumas quantas "celebridades" e os estados d’alma de Nelson Mandela, pouco haveria a reportar da África do Sul. Nas rádios e televisões, nos intermináveis e omnipresentes debates, análises e mesas redondas, sobram lugares comuns e vulgaridades ad nauseam – uma incontornável praga. Acontece que quanto mais anos vive um consumidor minimamente instruído, menos crédulo ele é nas piruetas de marketing e demais folclore: torna-se exigente em relação ao produto final - o futebol, quando acontece é no relvado, magia pura, jogo e vertigem. Que os atletas joguem à bola e deixem-se lá de tretas.

Valeu a pena

 

Como tenho aqui referi, decorreram ontem, as eleições para os órgãos distritais do CDS em Lisboa. Consta que foram as mais participadas da história do partido, em que votaram mais de 1000 militantes, quase o dobro de 2008. Isso evidencia a importância da participação dos militantes independentes do aparelho. A lista liderada por Pedro Pestana Bastos obteve a confiança de 32% dos votos expressos, venceu as eleições nalguns concelhos e elegeu cinco delegados à assembleia distrital. Da minha parte, para lá da grata experiência adquirida, sinto nestes resultados um estimulo para novos desafios. De resto, o caminho faz-se andando e o CDS merece mais.

O advento da modernidade

 

A sala de aula já não é o espaço mais importante da escola, acredita a Parque Escolar. A arquitectura poderá transformar o ensino?

Não obrigado: para estragar mais não é preciso. Demolido o professor, substituído pelo amigalhaço, faltava acabar com a sala de aula, essa inutilidade. Devagar para não dar muito nas vistas. E ao final de contas, quando todos forem igualmente ignorantes e cábulas a “questão” será finalmente administrativa.

A nossa imprensa "livre"

 

Definitivamente a realidade gera acontecimentos que são um grande incómodo para o jornalismo modernaço: atrevem-se a acontecer sem aviso, sem um press release, é o que nos relata hoje José Queiroz, o provedor do leitor do Público. Foi o que aconteceu na Segunda-feira passada, quando uma procissão iluminou a noite no Porto, reunindo cerca de cinquenta mil crentes que percorreram da Igreja da Lapa até à Sé, num mar de velas acesas em honra da imagem da Nossa Senhora de Fátima. Consta que o evento foi inusitado, que há mais de cinquenta anos nada de parecido se via na cidade, para mais com intervenção de individualidades públicas pouco prováveis. Acontece que o mui portuense jornal Público, com o argumento de que “não terá sido avisado”, ignorou liminarmente este sucesso, sendo certamente por mera coincidência a notícia da primeira página subsequente, o almoço entre José Sócrates e os homossexuais.

Já desconfiávamos, mas confirma-se que por estes dias fracturantes o arquétipo duma notícia, mudou definitivamente: para o ser, tem que ser expectável e anunciada, não se vá tornar num incómodo para o redactor, ou pior, contrariar as suas “convicções editoriais”.

O som da frente

 

Não sei que mundo é esse em que vive o António Figueira onde as pessoas andam a ouvir Haydn a 128 kbps no Ipod: à parte dum ou doutro excêntrico melómano sem critérios audiófilos, não haverá muitos - a malta nos fones ouve outras coisas bem menos elevadas. Depois, na escolha do som podemos sempre promover um pouco a ecologia dos sentidos. Será preciso enfiarmo-nos dentro dum violoncelo para vibrar literalmente com a sua música? Hoje em dia música de grande consumo é gravada e comprimida para impressionar os surdos (não só no sentido literal) em mp3.

E definitivamente a democracia digital não promove a música erudita. Eu, que à boa maneira do século XVIII não posso comprar ao editor uma partitura e ter em casa uma orquestra de câmara para ma tocar, prefiro a alternativa duma boa gravação analógica, reproduzida dum bom vinil numas pesadas colunas de madeira. Uma questão de alta fidelidade

Prevaleceu a esperança


Hoje de manhã o Nuno Pombo e eu deslocámo-nos ao Infantado em Loures à Escola EB 2-3 João Villaret sob um simpático convite da direcção para, no âmbito das Comemorações do Centenário da República, debatermos com os alunos a monarquia e a república. O debate foi dividido em dois grupos: um, renuindo os alunos e professores do terceiro ciclo, decorreu na biblioteca da escola e contou com Germano Marques da Silva advogando a república e com o Nuno Pombo defendendo a causa monárquica. No auditório teve lugar o outro debate com os cerca de sessenta alunos do 2º ciclo, que não puderam contar com a presença do lado “republicano”, na pessoa do presidente da junta de freguesia de Loures, que se viu impedido de comparecer por um imprevisto de última hora. Ficando o contraditório ao meu discurso a cargo da professora de história que se confessou republicana pouco convicta, o diálogo estabeleceu-se principalmente com as crianças que me conseguiram surpreender, com irreverentes e inteligentes perguntas, por exemplo, sobre a monarquia constitucional, o regicídio ou o porquê das monarquias europeias se terem desenvolvido mais do que as repúblicas em geral e a nossa em particular.

No final da sessão, que apesar da idade dos participantes decorreu surpreendentemente viva e interessada, fiz distribuir documentos antigos, jornais, cartas e fotografias sobre a 1ª república: fotografias de assaltos a jornais, cartas e fotos de presos políticos, caricaturas dos caciques e dos tiranos, material de história viva que obteve grande sucesso. Mas aquilo que maior êxito obteve, com um bruáa de espanto e entusiasmo, foi uma grande bandeira monárquica que desfraldei, na qual os miúdos puderam tocar e mexer com inusitada excitação.

No final, todos reconhecemos que independentemente da forma de Chefia de Estado, o importante é a democracia, que nos permitia estar ali todos a conversar em liberdade. Uma valorosa conquista com génese nas constituições monárquicas, resgatada e desenvolvida a partir de Abril de 1974. Não em Outubro de 1910.

Uma canseira

 

Esta velha contenda entre Israel e a Palestina sempre me deixou perplexo e dividido, num incómodo limbo de indefinição nunca consegui aderir a um partido. Por uma questão de feitio, o abstencionismo sempre foi para mim uma dura provação. Mas neste caso tomar um dos partidos seria sempre uma fuga para a frente: é demasiado fácil cair na comiseração para com os irredutíveis palestinianos, ou comover-me com os judeus vítimas crónicas de sanguíneas hostilidades.

A detestável saga do conflito israelo-palestiniano, a par de outros insanáveis nós cegos do direito internacional e da geopolítica, constitui uma tão insuportável quanto inabalável prova da estagnação civilizacional do homem, e de como a paz e o amor constituem uma impossibilidade administrativa: só se edifica com o coração, de baixo para cima, de dentro para fora, como numa pessoa, como na biologia. Com o coração. O resto é demagogia e propaganda, e quem procurar a justa razão, encontra-la algures dispersa e decomposta no meio das duas partes.

Sunset Boulevard (II)

 

Santana Lopes, o conhecido dandy, liberal e populista, não possui qualquer credibilidade no eleitorado conservador que subitamente pretende cativar. De resto a questão, parece-me, mais do que vingança é de ego, pois ele não resiste e dois minutos de tempo de antena, nem que sejam patrocinados pela situação socrática. Além do mais, para muitos de nós, o problema é mais profundo do que Cavaco: é de regime, coisa que se resolve com um voto em branco, sem mais desperdícios de recursos.

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