Oiço e leio todos os dias os opinadores encartados nas televisões constatarem que a campanha e os discursos não geram entusiasmo, divididos entre a demagogia dos candidatos que reclamam matérias fora do seus poderes, e os que se desculpam por não possuírem prerrogativas para intervir. O problema é que os analistas chegados a este ponto bloqueiam, não desenvolvem a partir daqui, quando seria lógico questionarem o regime. Porque tem um cargo simbólico como este de ser de sufrágio universal e directo? Porque não adoptar um modelo como o da Alemanha ou da Itália em que os elegem nos seus parlamentos? Porque não referendar a monarquia?
Mas recentrando-nos na questão principal: o que receiam os operadores da política (em que incluo os jornalistas) ao não debatem o modelo da Chefia de Estado e sua eleição? Será que receiam cuspir na mão que lhes dá de comer? É o medo da mudança?
O facto é que a monarquia constitucional e as duas primeiras repúblicas caíram de podres, não se adaptaram ou desenvolveram, com as trágicas consequências que conhecemos. Estamos fartos de saber o que não funciona... Até quando vamos continuar neste circo a fingir que tudo está bem
Ontem à noite vi na televisão uma estudante universitária a responder à repórter que acompanhava um candidato um chorrilho de asneiras sobre os poderes do presidente da república. Desconfio que este caso é somente a ponta do iceberg, o fenómeno de enorme alheamento da população face à realidade na qual seria suposto participarem com responsabilidade e empenho. É a democracia que temos, sustentada em equívocos, apatia e demasiada ignorância. Assim os políticos bem podem dizer os seus disparates ou omissões que poucos dão conta. Esta é a endémica causa do nosso endémico atraso.
Anda pelo Facebook uma discussão acesa sobre a melhor atitude a tomar por um monárquico face às eleições presidenciais que se aproximam para a qual julgo convém imprimir alguma racionalidade.
1 - Votar: Nada impede moralmente um monárquico votar numas eleições presidenciais, quando na sua consciência mais altos valores se elevarem.
2 - O voto branco: esta opção presta-se facilmente à fraude.
3 - A abstenção: se esta for muito significativa pode (se os media e os agentes políticos assim o entenderem, o que não é liquido) colocar na agenda o tema da legitimidade do regime. Por outro lado este "não gesto" legítimo confunde-se com a irresponsabilidade dos comodistas ou alienados, não significando uma mensagem política clara contra a república.
4 - O voto nulo: tem a vantagem de explicitar um protesto contra o regime, no entanto contará como voto expresso com efeitos na eleição: deduzindo-se à abstenção obriga o vencedor a aumentar o score para a maioria.
Como em tudo na vida, não há uma receita "absoluta" e são legítimas diferentes opções, sendo que pela minha parte escolhi votar nulo.
O problema é que a nossa cultura individualista desacreditou o valor da renúncia, atitude individual sob a qual erradicam os mais preciosos equilíbrios, sob os quais assenta a sobrevivência duma civilização. Não há ética, ecologia, economia, família ou geração sem renúncia. A civilização ocidental vive fundada numa paradigmática fantasia, na ilusão de que o prazer individual é um recurso interminável e… exterior à pessoa. O mais grave, é que a democracia adoptou essa utopia como moeda de troca pelo poder, uma quimera que nenhum politico se atreve a por em causa.
Acontece que da guerra à relação, da ecologia à corrupção, tudo começa e acaba com escolhas e atitudes pessoais. Porque jamais se construirá um mundo bom sem pessoas boas. A construção de uma Família, duma Cidade ou dum Mundo harmonioso e habitável é um caminho estreito. Para um profundo prazer, sempre diferido feito de pacificação interior. Uma lógica toda ela inversa àquela que a cultura predominante nos quer fazer acreditar e que afinal nos impele para o abismo.
O apregoar desta campanha presidencial lembra-me a orquestra do Titanic freneticamente a tocar enquanto o navio abalroa na iminência do trágico naufrágio. No meio da aflição de alguns e da inconsciência de outros, os mais destacados passageiros da 1ª classe já acomodados nos salva-vidas, discutem de charuto na boca e conhaque na mão, se são contra ou a favor, se é justo ou injusto, o rombo que afunda o navio.
Ontem no programa Contraste moderado por Ana Lourenço na SIC notícias, José Miguel Júdice confrontava um repto de Francisco Assis sobre a premência dum consenso entre os dois maiores partidos sobre as grandes questões nacionais, com a suspeição de que tal aliança, mesmo na idealizada fórmula de "Salvação Nacional", já não obteria real correspondência das bases, uma adesão social, "territorial", imprescindível às inevitáveis mudanças que irão ter que ser implementadas. Estamos a falar da baixíssima representatividade real das estruturas político-partidárias que preenchem os diversos órgãos de soberania, do esvaziamento da democracia lusa, cada vez mais uma formalidade. Esta profunda desagregação representa uma incalculável tragédia perante a urgência duma motivação redobrada dum país à beira duma dura e longa travessia do deserto.
Razão tem Fernando Nobre quando reclama contra a insistência dos candidatos presidenciais no tema dos negócios do seu adversário Cavaco Silva com a SLN, que afirma apenas contribui para descredibilizar a política e a campanha. Não vale tudo para captar a atenção dos cidadãos numa eleição que é verdadeiramente irrelevante para a vida real das pessoas, nem isso justifica um debate tão rasteiro e demagógico. Cegas pela disputa mediática, as candidaturas entretêm-se a cuspir no tacho em que querem comer, e nem reparam que já está vazio.
As medidas de austeridade, a campanha presidencial, o caso BPN, há algum tempo evidenciam um fenómeno esquizofrenia no partido do governo, que se vem afirmando simultaneamente como de oposição: as tropas socialistas, de Ana Gomes que se insurge contra os Negócios Estrangeiros, a Alegre que apoiado pelo governo apoia a Greve Geral e reclama a inconstitucionalidade da cobrança de taxas moderadoras da minsitra Ana Jorge, passando pelas vozes mais improváveis que se insurgem contra o escândalo do BPN, como se a decisão da sua nacionalização não pertencesse ao executivo, ou os notáveis que hoje reclamam contra a suposta "agenda liberal" da União Europeia e que há bem pouco tempo nos Jerónimos se acotovelavam íntimos de Durão Barroso & Cia. Afinal toda esta cacofonia levanta uma nuvem de fumo que espelha bem o pântano em que o país se atolou e se teme aprenda a sentir-se bem.
Acontece que a política não permite espaços vazios, e perante o persistente silêncio de Passos Coelho (lembram-se da crucificação Manuela Ferreira Leite por essa mesma razão?), o discurso anódino de Cavaco Silva, e a direita envergonhada que nos coube em sorte, compete por estes dias ao Partido Socialista fazer a festa, atirar foguetes e apanhar as canas.
Verifico com algum espanto como a previsível eleição de Aníbal Cavaco Silva afinal significa um profundo divórcio entre o país real que o elege e o “sistema” que o despreza profundamente. Chamo sistema aos actuais barões da política, aos académicos e intelectuais, fazedores de opinião e jornalistas em geral. De resto se no PSD a adesão à candidatura está longe de ser entusiástica, no CDS a assumpção do inevitável apoio foi quase caricato, sabe Deus como foi engolido a contra-gosto. Certo é que na noite da vitória a cobrança será feita, lá estarão umas bandeirinhas laranjas e azuis a acenar vitoriosas.
Assim, somos forçados a admitir que apesar de ser Fernando Nobre o candidato anti-sistema, esse mesmo sistema é anti-cavaco e será Cavaco a derrotá-lo, a cilindrá-lo.