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João Távora

A luta continua

 

Apesar de não electivo e sem polémicas expectáveis, foi inegável o grande impacto político do XXIV Congresso do CDS, um dos mais participados e entusiásticos de sempre. O acontecimento revelou-se uma grande demonstração de unidade quanto às prioridades, perante a oportunidade de crescimento e afirmação do partido, no culminar da falência do socialismo a que Nação Portuguesa vem resistindo há décadas. Se dúvidas houvesse sobre a competência e tenacidade de Paulo Portas, elas seriam dissipadas pela forma como o partido tem cavalgado o esgotamento desse modelo, e pela renovação de quadros de inegável qualidade que a direcção vem patrocinando e protegendo.

Do outro lado do espelho, vislumbram-se preocupantemente palpáveis os vícios que emanam da desmesurada ambição do líder na perspectiva de controlo absoluto do partido. A vergonhosa instrumentalização do Congresso de Viseu, expressa na tentativa de anulação duma iniciativa independente como a Moção Alternativa e Responsabilidade, retirando-lhe maquiavelicamente o palco, revelou-se tão gratuita quanto desnecessária: uma liderança forte e aglutinadora não se compadece com estas pequenezas. 

. Das vinte intervenções para abordagem na especialidade das matérias da Moção, às 3,00hs. da manhã tinham-se realizado três, e a Mesa havia reduzido o tempo para dois minutos por pessoa. Paulo Portas ao desmultiplicar a sua Moção em sete “sectoriais”, e repartindo as apresentações pelas suas figuras em “promoção”, acabou por monopolizar, desvalorizar e restringir um debate que se desejaria construtivo e plural. Estranho é que o mesmo líder que diagnostica a tal emergência duma sociedade “pós-partidária” (indiferente aos partidos e organizações), não promova a credibilização e transparência dos processos para dentro da estrutura, numa demonstração do mais ordinário desprezo pelos militantes empenhados. 

Dizia-me um amigo que o golpismo regimental dentro dos partidos e particularmente em congressos é moeda corrente, sendo que a sua banalização pouco comove os aparelhos instalados, muito menos a comunicação social. Esta é uma triste realidade a que as bases inconformadas e livres não podem jamais ceder, para que em tempo certo os bons costumes e propósitos não deixem de fazer a diferença, contra uma Direita enfeudada ao politicamente correcto e com tiques relativistas.

Finalmente, como balanço, fica o reforço da iniciativa liderada por Filipe Anacoreta Correia, demonstrada na entrada para a comissão política de Pedro Pestana Bastos, um dos grandes dinamizadores da Moção, e de Gonçalo Maleitas Correa, além do aumento de cerca de 40% votos para o Conselho Nacional em relação ao congresso anterior, mantendo-se a sua representatividade em cerca de 20% dos eleitores. A luta continua.

Jornalismo à rasca

 

O aparato com que a televisão estatal intermedeia as reportagens da geração à rasca e “directos” ao estúdio ao lado, onde uma mini redacção improvisada exibe e comenta imagens da tragédia no o Japão, constitui verdadeira uma parábola sobre a pobreza franciscana do nosso jornalismo… e sobre o relativismo editorial.

A nova etapa

Sem que nutra especial simpatia por Cavaco Silva reconheço-lhe a virtude de ter sido imprevisivelmente responsável, denunciando realidade nua e crua aos portugueses. A verdade também (?) fica bem à política. Claro que foi calculista: o presidente conhece melhor que ninguém a hecatombe financeira que nos espera e as suas trágicas consequências. Entre os paninhos quentes e ficar conotado com o destroço de governo que nos trouxe aqui, ou servir aqueles a quem mais tarde ou cedo caberá a missão de reconstruir o País, preferiu os segundos.

A minha única Alternativa

 

O fenómeno do crescimento da extrema-direita, ou do alheamento dum certo espectro conservador da população, está quanto a mim intimamente ligado com a falta de competência da Direita democrática, que, na ânsia de ser aceite e aceder ao poder, se domestica ao centro, encravada num discurso politicamente correcto, penhorando assim as suas bandeiras naturais por troca duns quantos chavões populistas.

O CDS desde a fundação incorporou como sua esta ambiguidade. Obrigado a assumir um discurso “Centrista” para sobreviver num espectro político e eleitoral amputado pelos senhores da revolução, o partido acabou por constituir acolhimento de todos aqueles que não se reviam no unívoco discurso progressista saído do PREC. O pensamento então predominante, com mais ou menos lirismo significava à época, em termos de posicionamento político, aquilo a que hoje chamamos “Centrão”.  Em consequência disso em 1976 coube ao CDS assumir a sua natureza sociológica, e na Assembleia Constituinte afirmar-se como o único partido a rejeitar o socialismo como desígnio constitucional, veleidade que ainda hoje lá perdura inscrita, mesmo que com expressão meramente (?) estética.

Daqui decorre que, ontem como hoje, a mensagem da Direita não pode jamais ceder na sua forma, por natureza sóbria e realista; ou conceder no conteúdo, guardiã que se deverá afirmar dos valores da Vida e da Família, de Valores como o da Honra e da Verdade, de Valores desacreditados como os do Trabalho, do Mérito e do sentido de Serviço. Estes são aspectos que muitos portugueses ainda aspiram ver defendidos com autoridade e convicção, antes que um dia, desiludidos, se virem para radicais quimeras, ou, tão mau quanto isso, se alheiem definitivamente do seu próprio destino, incrédulos e descrentes naqueles que os deveriam representar.

O meu envolvimento na Moção Alternativa e Responsabilidade ao XXIV Congresso do CDS tem a ver com tudo o que atrás escrevi. Para além disso, tem a ver com a sintonia ideológica e profunda amizade que me une a alguns dos seus subscritores, para além duma uma ligação sentimental antiga que nutro por este Partido que me acolheu ainda em tenra idade, depois do 11 de Março de 1975.

Para finalizar estas considerações, não quero deixar de afirmar estar eu certo de que no próximo dia 19 em Viseu a actual Direcção saberá valorizar uma iniciativa como esta, que como um salutar sinal de crescimento e maturidade do partido, confere densidade critica e ideológica a um projecto que queremos acima das pessoas que circunstancialmente o representam. 

Plástico falsificado

 

Definitivamente é ao mau gosto, assunto que não discuto, onde tenho mais dificuldade de aplicar a minha consumida e esforçada tolerância. A cantiga de intervenção, vulgarizada, plastificada e polida como uma unha de gel, além de não arranhar, é coisa medonhamente inestética. Ou um rentável golpe de marketing, politicamente inconsequente.

Carnaval é quando um homem quiser... menos no Carnaval

Tempos houve em que o Carnaval desfilava na Av. Da Liberdade e no imaginário da comunidade urbana que vivia sob grande influência do Calendário Litúrgico. Então, este era um período de folia e de excessos que precedia a sobriedade e o recolhimento da Quaresma que transpunha as portas das igrejas para o quotidiano das pessoas comuns, como ciclos que seguiam o ritmo da natureza, no temor da morte e celebração da vida. Hoje, o Carnaval é quando um homem quiser.

 

 

Hoje o Entrudo, com os seus traços de frivolidade, folgança e luxúria imperam em todo o calendário de festividades: a mais radical diversão e toda a espécie de devaneios, fantasias e alienações, encontram-se disponíveis no mercado, todos os dias a todas as horas, para todas as bolsas. Isso explica o patético espectáculo em que caíram estas descontextuadas e incaracterísticas festas, alimentadas e mantidas em desespero por algumas teimosas autarquias. Um confrangedora exibição de pobreza.

 

 

Fotos: Av. da Liberdade 1906 - Desfile de Carnaval

Selecção natural

 
A máxima de Anatole France, Nobel da literatura em 1921 “Não há governo popular, governar é criar descontentes” nunca foi tão pertinente como nestes dias. Com o País na falência, a inevitável “verdade” apregoada por Manuela Ferreira leite aterrou com estrondo nas nossas vidas e entrou pelos olhos a dentro dos jornalistas e fazedores de opinião encartados. A bolha de ilusões que vem animando a democracia rebentou de vez. 
O lado bom disto tudo é que pela primeira vez em muitos anos a política tem a possibilidade de se regenerar, animada por ideias e desígnios mobilizadores em vez de promessas demagógicas e pagamentos de favores. Talvez esta realidade explique a crescente intriga e os manifestos receios e hesitações nas hostes do PSD. 

A política não é parva

 

Muito bem vai a jornalista Isabel Stilwell quando desafia a geração “à rasca” ou “que parva que sou”, a deixar-se de vitimismos e dar expressão à sua revolta arregaçando as mangas e imiscuindo-se na política. Isso mesmo, na Po-li-ti-ca: ganhava a democracia, ganhava Portugal, ganhavamos todos. Pode parecer muito pouco, mas é incomensurável o privilégio de se ter uma voz que conta sem abolir a dos outros (e vice-versa). Sendo este um objectivo difícil, cumpre aos organismos políticos existentes, através dos nossos representantes, a delicada gestão desses equilíbrios. A quem lhe desgostar os partidos que temos, há que mudá-los e renová-los por dentro ou criar novos – é uma batalha cansativa, com reuniões, votos e desgostos, assembleias e congressos, mas a alternativa garantidamente é bem pior. De resto, facilmente se adivinha como é um mundo sem política, pondo os olhos no Líbano, no Iémen, no Egipto e na maior parte das repúblicas africanas. Estes tempos mais difíceis que se aproximam, apelam à acção, mas convém não perder o norte, e definitivamente não armar em parvo. 

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