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João Távora

O triunfo da barbárie

Ferreira Fernandes no seu apontamento de opinião hoje no DN analisa os motins de Londres pela perspetiva menos simpática aos cânones do politicamente correto: a do vandalismo puro, as hordas de delinquentes comparados a hienas. Pela parte que me toca, sou pouco sensível à visão “culta” tão atreita à esquerda intelectual: nutro uma profunda desconfiança sobre a tal metáfora da implosão do capitalismo “e os bairros dos pobres a explodir causas”. Tenho profundas dúvidas que os jovens encapuçados que se divertem a destruir lojas, casas, quarteirões, sejam outra coisa que não pobres de espírito. Conheço bem como a ausência de valores e sentido de vida une muitos jovens em bandos, sejam do Estoril, da Av. Infante Santo, ou do Fim do Mundo. Une-os para além da iconografia da delinquência pop suburbana a total falta de educação e autoridade parental.
Leio no jornal I que hoje se iniciam mais dois festivais juvenis “da pesada” para onde os progenitores, a troco de umas centenas de euros enviam os seus jovens sedentos de libertinagem e experiências radicais: o festival de trance Freedom, em Elvas e o Rainbow no Gerês, eventos industriais para a catarse juvenil, concentrações toleradas de álcool, alucinogénios e outras substâncias, excessos que o adolescente burguês ocidental hoje toma como inalienáveis direitos. Descredibilizados os ancestrais valores e instituições para a formação dos indivíduos, assim se “controlam” os danos na adolescentocracia. Até ao dia...

Qual é o seu Plano de Emergência Social?

Esmola é uma pequena quantia de dinheiro dada a alguém necessitado por caridade. Caridade é um sentimento ou uma ação altruísta de ajudar o próximo sem buscar qualquer tipo de recompensa. Fui buscar estas definições à Wikipédia a propósito da chinfrineira que por aí grassa a propósito do Plano de Emergência Social apresentado ontem pelo ministro Pedro Mota Soares. Resolvida a questão semântica, que é por onde a oposição laica, republicana e socialista pretende afrontar o projeto, o importante, mais do que saber se os portugueses merecem a desinstitucionalização da pobreza, para que possa ser encarada como um acidente, uma transitória, mesmo que trágica circunstância, é preparar toda a comunidade, suas instituições e organismos, para o que aí vem. As perspetivas são negras e mesmo que tudo corra bem, a breve trecho será difícil evitar a multiplicação de situações de indigência e profundo sofrimento das pessoas. O desafio é ciclópico e dispensa a tralha ideológica ou preconceitos fúteis. Na certeza de que o dinheiro deixou de brotar das pardes dos multibancos, hoje todos somos chamados a este combate. O resto são balelas.

A importância da razão de ser

O Benfica apresentou ontem no jogo com o Trabzonspor, pela primeira vez na sua história, uma equipa sem um único jogador português. O facto em si é de pouca monta face aos desafios que o País enfrenta, mas definitivamente constitui um terrível sinal dos tempos, além duma radical reviravolta no Clube, se tivermos em conta o extremo nacionalismo que ele ostentava orgulhosamente nos anos 70.
Sobre o tema da internacionalização das equipas e selecções, há dias o Daniel Oliveira opinava na sua coluna do jornal Record que a questão não o incomodava. A coisa percebe-se do ponto de vista do pensamento dominante, com raízes na interpretação da História sob a perspectiva da Luta de Classes numa dinâmica “internacionalista”… ou simplesmente “desconstrutiva”.
Indo ao fulcro da questão, pela parte que me toca, continuo a atribuir grande importância ao conceito de Nação, por estes dias uma maldição inflamada por um tarado Norueguês. Pela simples razão de que entendo o Homem como um Ser essencialmente gregário, e cuja civilidade emerge duma lógica fundada numa diversidade hierarquizada de associações interactivas, complementares e concorrentes. Como aqui defendi em tempos, considero como núcleo fundamental desta dinâmica a família alargada, que quando alicerçada em sólidos valores constitui o garante duma diversidade estética e cultural da sociedade: cada uma possuidora do seu legado de informação transgeracional, a família resulta num insubstituível microcosmos, plataforma insubstituível de mediação dos seus elementos com a Polis e com o Mundo, sem a qual os cidadãos se tornam mais vulneráveis, qual papel em branco fácil de ser preenchido e doutrinado por qualquer sinistro poder exógeno.
Com todos os seus defeitos, as diversas formas de organização comunitária das pessoas, constituem em si e entre si, pelos factores e carismas que os constituem, elementos que promovem a autodefesa, promoção e competitividade dos grupos. Não é por acaso que a Cidade, Vila ou Aldeia de origem é usualmente considerada com orgulho na apresentação das pessoas. Tal como uma família desfeita ou Nação desvirtuada dos seus valores, gentes e costumes, uma equipa de futebol sem referências da comunidade em que se insere está fragilizada, tornada um bando mercenário, numa lógica mercantil, sempre assim exposta à desagregação. A cor de uma camisola, ou duma bandeira sem consubstanciação numa determinada (definida) cultura ou carisma, é definitivamente fraca inspiração para a superação dos indivíduos, logo do grupo e dos seus apoiantes, tornados órfãos da sua razão de ser. Estas fragilidades, parece-me, influenciam a decadência das Nações. 

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