Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

João Távora

É próquéquié, D. Esmeralda!*

 

Quando a europa económico-financeira se desmorona neste fatídico fim-de-festa, dir-se-ia que a sua "cultura" seria o cimento para manter o projecto com futuro. Mas afinal o que é ser europeu, quando muitos dos países, constringidos pelo seu inverno demográfico e relativismo politicamente correcto, não se entendem sobre na sua própria definição? Renegada que foi à Europa a sua matriz cristã pelos seus "arquitectos", não sei bem o que é que sobra para unir os cacos. E depois, a verdade é que a união europeia nunca foi por amor.

 

*Duma velha piada do Herman José no seu auge. 

Uma pedrada no charco

A pequena colectânea de crónicas do Henrique Raposo, “Portugal do Avesso”, constitui uma requintada selecção de textos que hoje podemos descobrir ou revisitar de trás para a frente e de frente para trás, uma barrigada de inteligência em papel, em curtas, astutas e deliciosas doses. Encadeadas por um subtil fio temático, são servidas fora da linha dos dias, cuja espuma os inspirou.
Os escritos do Henrique Raposo, pela sua acutilância, coloquialidade e humor são quanto a mim um verdadeiro serviço público: como seríamos uma pátria mais feliz se todos os portugueses o lessem em casa logo de tenra idade (como seríamos um país melhor se os portugueses simplesmente lessem).
Confesso que acompanho mais o Henrique em diferido na blogosfera, e que as suas crónicas são nos dias que correm das poucas razões para eu comprar pontualmente o Expresso: é irónico que seja deste jornal, o mais conformado e situacionista, que ecoam as suas palavras de irreverência e inconformismo contra a inimputabilidade e decadência de uma sociedade indolente, veneranda e obrigada a um destino socialista. Curiosamente o Henrique Raposo desponta no mesmo jornal em que se popularizou há trinta anos o Miguel Esteves Cardoso, à época uma pedrada no charco com a sua escrita informal e humorada, sempre consensualmente ambígua, que assim seduziu e entusiasmou quase toda a minha geração. Com qualidades semelhantes, o Henrique é diferente: conciso, não concede um Cm à forma se esta ofuscar minimamente o conteúdo. A mensagem é objectivamente clara e sectária, quase sólida, porque o seu enredo emana de profundas convicções, inconformismo e de um indisfarçável amor à Pátria, essa ideia transcendente e transgeracional em que também eu coabito. E apesar dos “ambientes” sociológicos que nos afastam (?), algo de fundamental nos une: também eu vi muitos filmes de cobóis com o meu pai. E não há nada nas pessoas ou escrita que mais me inspire e atraia do que o reflexo duma alma bem-amada.

Ai vida dura...

 

 

Sobre a manifestação desta tarde, no Diário de Notícias d'hoje em quatro curtas em pé de página lêm-se os seguintes títulos: “Professores pretendem juntar mais de dez mil”, “Médicos estão contra reduções nos subsídios”, “Polícias querem menos cortes e mais garantias” e “Militares exigem evolução na carreira”. Ontem por volta da uma da tarde passei em frente à assembleia, e, cá em baixo a borrar a harmonia arquitectónica da rua de S. Bento (a do palácio não é grande coisa) deparei-me com um acampamento. Eram pouco mais de uma dezena de indivíduos desgrenhados e com cara de poucos amigos, aqueles que a imprensa designou de “indignados”, e que por ali apodrecem desde 15 de Outubro, o seu momento de glória brandido de cima dum leão. Consta que ontem pela tardinha chegaram à centena a protestar contra a austeridade enquanto o orçamento ia a votos.
Provavelmente à hora em que passei alguns terão ido a casa buscar uns trocos e tomar um duche que isto da vida de acampamento tem os seus incómodos. Enfim, aquela rapaziada leva uma existência dura que nem nas obras, trabalho para imigrantes: permanecem estoicamente há quase um mês no meio de cartazes e lonas e plásticos à mercê dos caprichos meteorológicos, escrupulosamente vestidos de freaks entretidos entre entrevistas à imprensa da especialidade e a pintura de novos cartazes ou simplesmente explorando os seus telemóveis espertos manufacturados por chineses.
Tudo isto para vos aqui deixar a minha impressão de que a diferença entre as corporações profissionais que hoje descem a avenida e os “indignados” é que estes últimos, se internados numa comunidade de auto-ajuda, a maioria seria certamente recuperável para a sociedade (e para si próprios). À parte disso, todos vivem convencidos que a coisa pública deve ser gerida da rua e que o dinheiro nasce nas paredes dos multibancos.

 

Foto Paulo Novais Lusa

A derrocada do delírio do betão

 

Hoje desloquei-me àquele surrealista mastodonte à entrada de Cascais projectado pela vereação de Judas em pleno delírio imobiliário do final dos anos 90, e reparei como no espaço de uma semana fecharam pelo menos 6 restaurantes 6 no piso da restauração. Para que conste, trata-se apenas duma pequena amostra da derrocada do eldorado do betão socialista, e a senhora Merkel tem pouco a ver com isto. 

Greve nos transportes: o bloqueio ao trabalho

 

O monstro insaciável 

 

A série de greves que hoje se iniciam nas empresas de transportes constitui uma aviltante afronta aos portugueses que ainda têm emprego e cujos impostos as sustentam. A verdade é que a alimentação dessas insaciáveis empresas públicas é um penoso dever de cada vez menos contribuintes: são cada vez menos aqueles que diariamente por mérito e num constante desafio ao empreendedorismo e esforço de trabalho lutam pelo sucesso ou sobrevivência dos seus projectos, avenças, empresas ou simples postos de trabalho em empresas privadas.

Repito: nas actuais circunstâncias, que qualquer classe bafejada com empregos vitalícios, independentes de mérito, eficácia ou rentabilidade, faça uma greve parece-me uma aviltante afronta para com os que a custo lutam pela sobrevivência. Uma imoralidade patrocinada pelos sindicatos que hoje se tornaram em forças cegas de conservadorismo na defessa dos interesses e privilégios de meia dúzia de castas e corporações.

 

Texto recuperado e adaptado originalmente publicado legislatura anterior

Lampiões e portistas à distância duma dentada

 

O Sporting ontem deu um espectáculo impróprio para cardíacos entre laivos de inspiração e aflitiva tremedeira. Aquela equipa remendada com jovens promessas conseguiu ser a boa notícia neste Portugal que hoje amanheceu resplandecente de sol e azul esperança. 
Um conselho avisado a Carlos Freitas, e não diga que vem daqui: contratem imediatamente aquele jovem cabo-verdiano Djaniny. Arte e genica pura.

Um ano com doze meses: uma causa

 

Enquanto não forem “tecnicamente” possíveis despedimentos na função pública, pouca coisa será possível fazer para domesticar o monstro que verdadeiramente consome os recursos financeiros do nosso país subjugado pela dívida. Por isso é com alguma apreensão que leio aqui que o governo pondera atender à proposta de António José Seguro de sustentar em 2012 um dos subsídios aos funcionários do Estado, coisa que se resolve com mil milhões de euros que logo se vê onde se os vai buscar, que isso da receita fiscal já deu o que tinha a dar.
A aberração paternalista dos “subsídios” de Natal e de Férias, um vício há muito inculcado nos portugueses como panaceia da baixa média salarial, carece de urgente terapêutica de desabituação. Até porque sabemos bem como isso das “médias” promove equívocos grosseiros, como a velha história do meio frango por habitante, que ilude a realidade dos que verdadeiramente comem e dos que não comem frangos. Além do mais, o 13º e 14º meses constituem a maior parte das vezes um quebra-cabeças para as tesourarias das empresas, porque não crescem o dobro das alfaces nem se pesca o dobro dos peixes, não se limpa o dobro do lixo ou se fazem o dobro das camas nem se vendem o dobro dos jornais por ser Natal ou tempo de praia.
A ser verdade que o governo equaciona desembolsar mil milhões de euros da senhora Merkel com os seus funcionários, seria bom que os facultasse em doze avos, ou seja na forma de vulgar actualização salarial, por forma a serem geridos pelos próprios, não em função dos eventos do calendário mas das suas concretas prioridades.

Quanto custa?!

 

A notícia de fundo de hoje do Diário de Notícias baseia-se numa reportagem da simpatizante socialista, a militante Fernanda Câncio, que foi para as estações de metro e autocarro fora d’horas dar voz à indignação dos utilizadores nocturnos dos transportes públicos ameaçados pela revisão dos horários, obra dum malandro chamado Pedro Almeida Gonçalves, suspeito de no passado ter dirigido a expansão do metro da capital. Bem vistas as coisas trata-se duma criteriosa investigação cientifico-jornalística que visa contrariar um estudo misteriosamente vindo a público, parte de um relatório em curso para uma eventual racionalização das redes de transportes públicos das áreas metropolitanas do Porto e Lisboa. Os jornais ao serviço das agendas partidárias… a que preço?

Melomania

 

A música deve cumprir unicamente a função da satisfação “espiritual” do ouvinte, algo de categoricamente íntimo e pessoal, sujeito a incontroláveis estados de alma. O certo é que quanto mais se junta criatividade e sofisticação conceptual na obra mais profundo e perene será o prazer proporcionado pelo(s) criador(es): pouco interessam os rótulos e categorizações. 
Irónico é de como neste processo é o compositor que acaba se eclipsando como um mero operário e o ouvinte tornado o verdadeiro protagonista que interiormente se apropria da obra numa reconstrução inteiramente subjectiva e... hedonista. Afinal, o gozo da audição musical é desesperantemente solitário, intransmissível.

Dia de Todos os Santos

Hoje celebra-se o dia de Todos os Santos, ou seja, de todos os cristãos que de forma coerente, anónimos ou canonizados pela hierarquia, devotaram o esforço das suas vidas à felicidade de serem "dos de Cristo". Hoje pelas igrejas de Portugal reza-se por intenção dos seus heróis, Todos os Santos, a Guarda Avançada de Jesus Cristo na História.

Pág. 2/2