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João Távora

A palavra contra a ambiguidade do silêncio

 

O valor da Palavra, nestes tempos de aparências, anda pelas ruas da amargura. Importa admiti-lo. Noutras eras a palavra dada pesava na consciência do homem comum. A desonra de um incumprimento era duramente cobrada, em primeiro lugar pela consciência do próprio. Hoje a palavra, tão banalizada, já não veicula o indivíduo. Tudo se descarta, a mentira é tolerada, aceite como normalidade, do mundo empresarial à política e até nas relações pessoais.

A cultura do individualismo tudo dessacralizou e promove uma extensa gradação de meias verdades e meias mentiras, um jogo de sombras e subjectividades que desfigura o conteúdo em favor da forma, de uma “narrativa” ou de uma “ilusão eficiente” que seduza o patego.

Relativizar o valor da Palavra abre caminhos sombrios e ambíguos ao relacionamento do homem consigo mesmo e com o mundo. Em contraposição, no lugar de seu chão fecundo, o Silêncio, esse pode bem tornar-se um jogo, uma fórmula oportunista de abstenção.
Os textos sagrados referem que no início era o Verbo. Para lá da sua dimensão ontológica, não podemos destituí-lo de significados como “Narração”, “Pregação”, “Comunicação”, “Intenção”, “Notícia”, enfim “Palavra”… que aqui se entende com a densidade que lhe confere o precioso silêncio em que ela assenta e se valoriza.

Ora acontece que a Palavra é libertação, catarse, autoconsciência. Através dela sintetizamos, materializamos as nossas percepções pensadas em vários níveis de consciência, concretizamos as nossas emoções, clarificando-as por mais obscuras que sejam, num exercício que dá à vontade libertadora o protagonismo que a nossa condição humana exige.

Assim é quando declaramos o nosso Amor romântico ou fraternal; relevamo-lo também para o domínio da vontade, do compromisso. Como acontece quando pronunciamos o nosso Credo, numa confirmação das nossas razões profundas e empenho numa adesão fecunda. A Palavra, mesmo papagueada, para o bem e para o mal, produz efeitos na nossa consciência. Dispensá-la, desvalorizá-la, mais não significa do que o medo que temos dela, do seu poder de nos responsabilizar, de nos desafiar onde dói, na nossa consciência profunda, na vertigem da liberdade de escolher.

A relativização e descrença na Palavra é sinal de decadência civilizacional. Para que nos possamos entender, tem que ser usada com liberdade, mas sempre num comprometimento com a verdade e vontade da pessoa, em todas as suas dimensões, principalmente onde verdadeiramente nos realizamos e temos existência: na relação.

 

Orignialmente publicado no Jornal i de 19 de janeiro