Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

João Távora

O livro infantil e o reino do relativo

  

Sem querer ser injusto com as honrosas excepções, o facto é que o panorama editorial do livro infantil apresenta-se por estes dias pouco menos do que deplorável. Acontece que nos últimos trinta anos qualquer pretendente a escritor acha que sabe contar histórias às crianças. A tarefa tornou-se facilitada a partir do momento em que estas deixaram de requerer um enredo, muito menos uma moral para ensinar. Para não incorrerem no risco de serem eliminados pelo índex do politicamente correcto, os livros infantis deixaram de ter uma trama com bons e maus, heróis ou cobardes muito menos qualquer amostra de emoção. Esterilizados, quando os assuntos se limitam à lavagem dos dentes ou a promover saladas de alface, contemplar fadas com antenas e purpurinas ou relatar um passeio com a mãe à sapataria, ninguém se aleija e os miúdos aborrecem-se como perus em véspera de Natal; a melhor garantia de que crescerão com pavor dos livros. Alguns autores mais afoitos entretêm-se a confundir os infantes em exercícios de desconstrução dos clássicos, em que o Lobo é uma mansa vítima da crueldade dos caçadores, e a avó do Capuchinho uma campeã de caraté retirada dos jogos electrónicos. 

Na edição infantil o pior ainda é a ilustração: os artistas licenciados que por aí brotam como cogumelos desfrutando da imperante concepção relativista de "arte", convenceram-se que com a estilização do rústico desenho infantil (que é o estágio em que estagnaram) “interagem” em liberdade com as criancinhas. Um pouco como se dirigissem a elas na sua linguagem “gugu dada, papa, tutumimimimi”, sem a noção do ridículo com que são encarados pelo interlocutor. Assim qualquer borrão de cores garridas com uma boca escancarada pode ser considerado um protagonista duma “não história” infantil em promoção no escaparate da livraria. Mas não desespere, não precisa de recorrer a um alfarrabista ou importar da Amazon “O Capuchinho Vermelho” com desenhos de Walt Disney, ou uma antiga fábula ilustrada por Beatrix Potter: com persistência, lá escondido no fundo da prateleira encontrará certamente algum livro de jeito para o seu catraio. Que os há, há, apesar de ignorados pela intelligentsia.