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João Távora

Do futebol e o mau-feitio

 

A experiência de vida entre outras coisas rouba-nos a inocência com que olhamos o Mundo. A muita gente faz crescer amargura e desilusão, que é uma patologia própria dos iludidos. Escrevo estas palavras, imaginem, a respeito do Euro 2012. Porque detecto por aí, fora dos circuitos publicitários e mediáticos, uma envergonhada descrença e até algum azedume em relação ao Evento. Tirando o caso dos marretas militantes que sempre existiram, descontado a critica fundamentada à alienação que estes certamos sempre sancionam, percebe-se que a população portuguesa envelheceu e tem hoje dificuldade em alinhar com o circo da bola. Os seus feéricos rituais, hinos, rubricas noticiosas, debates, cromos de coleccionar, são os mesmos de sempre, mudando apenas alguns detalhes da moda e suportes tecnológicos - não se percebe a razão para atitude tão blasé.

Mas este sentimento não é transversal e não é visível na malta nova com que convivo. Incrédulos com uma crise que lhes pode mudar a vida tal como conhecem,  os miúdos roubam-me as páginas de desporto do jornal, conhecem os craques das selecções, e quando joga Portugal até saem com os amigos para as esplanadas a dar largas às emoções.
De resto hoje em dia ninguém tem razão para ficar zangado ou amuar com estes fenómenos de histeria: a verdade é que nunca como agora foi tão fácil ao comum dos mortais exilar-se num qualquer canal temático, seja de séries americanas, sobre a sexualidade do caruncho, análise económico-financeira, filmes antigos, barcos à vela ou touradas. Qualquer um pode entrincheirar-se na sua casa a ler Proust ou a Bíblia, na Igreja a rezar pela humanidade perdida, ou nos blogues a debitar comentários e opiniões. É tanta liberdade que até enjoa, e definitivamente não justifica tanto azedume pelo circo da bola. E se, por um improvável golpe das circunstâncias, Ronaldo e Ciª. chegassem às meias-finais, estou mesmo a ver que muitos desses Velhos do Restelo rapidamente se converteriam fascinados pela bola. E isso não tem mal nenhum. Mas que todos devíamos aprender com a saudável alegria de viver o futebol dos Irlandeses. Na vitória e na derrota, porque aquilo é só um jogo, e muito divertimento.