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João Távora

Medalhas

 

Nem a fraude de quarenta anos de determinismo socialista justifica a rabugice generalizada por causa das medalhas falhadas por uns quantos mais ou menos abnegados atletas nas Olimpíadas de Londres. Acontece que não depende disso nem a glória da Pátria nem a saída da crise – coisa que, desculpem-me o incómodo, é mesmo coisa séria. Eu sei que as pessoas nesta época estival têm alguma tendência para a frivolidade e facilmente caem na armadilha de projectar as suas frustrações num triplo salto falhado, num tiro ao lado ou corrida perdida por atletas anónimos a quem nunca ninguém, nem os jornais desportivos, prestou a mínima atenção.
Eu sei que o Estado há quarenta anos vem investindo avultados milhões de euros com auspiciosas infra-estruturas desportivas, dignas de filmes americanos ou da velha propaganda dos países da cortina de ferro: como cogumelos despontaram nas cidades, vilas e aldeias ginásios, pistas, piscinas, campos de futebol, de basquete, de Beisebol (é verdade – é em Abrantes!) de voleibol ou polivalentes, com a vã promessa de gloriosos amanhãs que tardam cantar. Mas acontece que assim como o betão não substitui a vontade, inspiração e crer dum povo, também não resolve a espinhosa contrariedade das probabilidades estatísticas. De resto os mais atormentados com o fenómeno bem podem consolar-se com o facto de até à data a Áustria, ditosa pátria da música, não ter obtido nenhuma medalha, e os suíços que produzem cronómetros como ninguém apenas ontem terem alcançado a primeira.