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João Távora

O primeiro reduto

 

Martim Avillez Figueiredo na sua crónica de hoje do Expresso traz à estampa o interessante debate sobre a importância da família, no lugar do “indivíduo” como alvo alternativo das políticas sociais. Aludindo a teses do académico dinamarquês Gota Esping-Anderson e da democrata americana Isabel Sawhill, ele refere como as pessoas podem ser ajudadas através da melhoria do background familiar, e como afinal é esse o pilar que falta privilegiar nas modernas políticas sociais. É aí, defende, onde melhor “circulam os apoios, suavizando assim o estigma dos subsídios e assegurando uma rede de solidariedade entre pessoas que se conhecem” num sistema orgânico de auto-regulação.
Supondo que sobrevivia às instaladas tendências libertárias, receio que este pertinente debate tenha chegado tarde demais. Tenho muitas dúvidas de que a família na sua concepção tradicional, de comunidade solidária, necessariamente hierarquizada, simultaneamente tolerante e reguladora, acolhedora mas circunscrita, sobreviva à voracidade da adolescentocracia predominante. Porque uma família, mesmo sem a rigidez de outrora, nunca pode ser “relativa” e volúvel à precariedade das paixões momentâneas individuais. A família, sendo um espaço promotor de liberdade, cobra caro as infidelidades e é exigente nas contrapartidas. Acontece que limitados que são os recursos materiais e afectivos disponibilizados ao grupo, a salvaguarda da sua coesão obriga os seus membros ou candidatos a desafiantes rituais de entrada e à repressão de veleidades hedonistas, que afinal constituem a ameaça a um irreversível processo da extinção.