Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

João Távora

Prazeres da vida

 

Resulta particularmente agradável aos sentidos ouvir o tema "Lotus Flower" dos Radiohead, do seu último álbum em versão analógica, composto por dois maxi-singles de 45 rpm em vinil transparente de 180 gr, com uma qualidade de impressão absolutamente admirável: com a agulha ortofon OM 5E do meu gira-discos a deslizar vibrante e quente, o resultado é um espectro musical tão dinâmico como o digital e encorpado e sólido como só a realidade o pode ser. De olhos fechados quase que posso afirmar que Thom Yorke e companheiros estão à minha frente vivinhos a tocar.
Mesmo reconhecendo a virtude ao cd ou mp3 da impossibilidade de degradação do conteúdo, tenho para mim que uma boa impressão em vinil é sempre superior a qualquer codificação digital por menor que seja a compressão, por mais disfarçados que sejam os espaços vazios. Além disso, ao contrário do que acontece com o CD, dependendo do edição ou ano de lançamento, o valor de um vinil vai aumentando progressivamente face à procura dos coleccionadores. Por exemplo, segundo um estudo da Popsike, o Álbum Branco dos Beatles (de 1968) chega hoje a atingir 24 mil euros o exemplar.
Quando apareceu o disco compacto, o meu pai refreou o meu entusiasmo afirmando que esta fórmula desumanizava a gravação. De facto, acontece que com o "analógico" as vozes e a música estão mesmo lá entranhadas na cera, no acetato ou no vinil. Sei bem disso porque fiz a experiência quando era pequeno: um dia encostei ao disco a rodar no pick-up a minha unha que espantosamente zunia reproduzindo pelo meu corpo o som da gravação.    

 

Foto: Edisom Home Phonograph Model A de 1901 - Aplicação de efeitos Instagram