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João Távora

O grande bruxedo

 

 

Enquanto os adultos andavam num desinço a discutir o insondável significado de “refundar” e as criancinhas excitadas com o Halloween promovido com esmero pela escola pública e outros estabelecimentos comerciais, suspeito que tenha passado despercebido à maioria das pessoas que vivemos na 5ª feira o último feriado de Todos os Santos, ancestral solenidade da cristandade criada em honra dos seus heróis, consagrados ou anónimos, consolidada entre os séc. IV e VIII, quando ser “de Cristo” era uma arriscada escolha de profunda radicalidade.
Revela-nos a História que então, como ainda hoje acontece no Natal e na Páscoa, as comemorações cristãs não dispensavam uma acolhedora vigília noite dentro, culto para o qual as comunidades se deslocavam a comemorar atraídas pelo Encontro nas iluminadas e aquecidas Igrejas e Catedrais. No norte da Europa medieval, era costume bruxas e druidas nessas noites organizarem cultos satânicos, literalmente “alternativos”, assinalados à entrada com abóboras iluminadas, para aliciar os caminhantes.
Dou de barato que numa sociedade laica e hedonista, os católicos tenderão a ser cada vez menos… talvez mais conscientes e temerários como os primeiros clandestinos. Mas provoca-me sincera apreensão que, para bem do comércio e do circo, a adolescentocracia dominante tenha imprimido às principais solenidades religiosas um cariz consumista, exterior e leviano. O chocolate e o coelhinho ocuparam a páscoa de Cristo, o Pai Natal e as renas instalaram-se no Presépio, e o Halloween impõe-se ao Dia de Todos os Santos. Os portugueses penhoraram a soberania económica, mas a identidade cultural há muito que se vai diluindo, desnaturando. E a maior patranha que a modernidade nos vendeu é a de que Satanás não existe.

 

Foto: Outono profundo - efeitos Intagram