Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

João Távora

A grande bizarria

Felizes são os ingleses, os espanhóis, os belgas, os suecos, os holandeses, os dinamarqueses, os luxemburgueses ou os noruegueses, que têm a sorte de não terem de aturar periodicamente esta coisa sinistra das "presidenciais". Decididamente, esta berraria em que se envolveram nas últimas semanas umas quantas obscuras figuras do regime e um bem-sucedido comentador televisivo, foi incapaz de unir ou mobilizar os portugueses. O cargo, uma bizarria assente num enorme equívoco, no final de contas pode constituir uma bomba relógio para a total ingovernabilidade do país. Ao contrário das modernas monarquias europeias, o modelo de Chefia de Estado em Portugal não é um poder moderador, arbitral e suprapartidário. Sempre oriundo duma facção ideológica que disputa o poder, a legitimidade de uma maioria absoluta de votos expressos, alguns deles contrariados, concede ao Presidente a competição com a Assembleia da República pela autoridade para interferir ou até formar um Governo, e em última análise, a sua demissão através da dissolução do Parlamento. Perante este panorama, resta-nos rezar para que o vencedor, não sendo “apartidário”, por mais pressionado que vier a ser pelas piores circunstâncias possíveis e imagináveis, se consiga afirmar como um elemento estabilizador e construtivo. Algo que seria muito mais fácil em Monarquia.

 

Publicado originalmente no Diário Económico