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João Távora

Atenção, pessoal do Norte!

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No próximo Sábado dia 19, quando se celebram 100 anos da proclamação da chamada Monarquia do Norte, estarei no Ateneu Comercial do Porto para numa pareceria da Real Associação de Lisboa com a Real Associação do Porto promover uma conferência sobre o tema, que terá como oradores os historiadores Carlos Bobone e Nuno Resende. A "Monarquia do Norte" foi um movimento de resistência dos monárquicos na tirânica 1ª república, surgido na sequência do assassinato de Sidónio Pais, cujo sucesso foi ingratamente comprometido uns dias depois, quando a indecisão dos regimentos de Lisboa levou ao isolamento e cerco de um grupo de comandantes monárquicos entrincheirados em Monsanto, que se renderam ao fim de dois dias já sem munições e com pesadas baixas. Sem Lisboa a heróica insurreição do Norte foi derrotada e Paiva Couceiro capitulou a 13 de Fevereiro. A conferência promete ser cativante.

Um "statment" (como se usa dizer agora)

Se querem saber até acho que sou um privilegiado: a minha educação humanista (chamemos-lhe assim) exercitou-me mais na curiosidade e reflexão que no julgamento dos outros. Desde a infância frequentei o ensino público - uma autêntica escola de vida; viajei, e fiz-me homem pagando o elevado preço que às vezes pagam as pessoas demasiado livres (ou com um apurado sentido do trágico como me confidencia o meu Conselheiro Espiritual). Conheço bem as periferias da vida, e quem me conhece sabe que não estou a ser pretensioso. Talvez por isso nunca discriminei pessoas por causa da sua maneira de pensar, afinidades culturais ou outras sensibilidades. Sempre gostei do confronto de ideias; a inteligência e o desafio intelectual são para mim os aspectos muito sedutores na relação com os outros. Talvez isso justifique a diversidade de amigos que com que me fui cruzando, (e agora não me refiro à vida real) primeiro nos blogues e depois nas redes sociais. Só acho estranho que alguns, ao final do dia, ainda amuem com dificuldade em aceitar que eu sou Católico Apostólico Romano e daí tire as devidas consequências. Que a Igreja de Pedro é a minha verdadeira casa, penhor da minha liberdade. Da forma como as coisas estão, desconfio que aquilo que em breve voltará à ordem do dia é a liberdade religiosa...

Um amigo com 90 anos

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A ler este belo ensaio do André Abrantes Amaral sobre oo 90º aniversário de um dos melhores amigos que tive na infância. Sim, também eu descobri os livros do Tintim antes de saber ler num armário do quarto dos meus tios na casa da Avenida e os folheava inebriado, na pele do meu herói. Lembro-me bem com seis anos quando saiu o Voo 714 para Sydney de devorar cada quadradinho, das fúrias do Capitão Haddock com o insuportável Senhor Carreidas, multimilionário dono daquele fascinante avião que antecipava a chegada do Concorde – e como me fascinavam aqueles carros e aviões desenhados por Hergé que pareciam verdadeiros modelos daqueles que se vendiam nas lojas de brinquedos para mim inacessíveis. O facto é que fui descobrindo as diferentes camadas narrativas de cada aventura à medida que fui ganhando habilidade na leitura. Ficámos mesmo amigos, e recordo-me de em pequeno estranhar o facto de Tintim se tratar apenas de uma personagem de ficção, tão vivo que parecia dentro da minha mente. Fui com ele à Lua, às florestas tropicais da Índia ou da América Latina, fui à China, mergulhei entre tubarões, corri pelas galerias de Moulinsart, entrei no Palácio do bondoso rei da Sildávia que enfrentava os revolucionários republicanos, foi na alvura dos Himalaias que mais me emocionei com o verdadeiro sentido da amizade e da nobreza de caracter dos meus heróis na busca do jovem Tchang capturado pelo descomunal Yeti. Como o André fiz questão de introduzir aos meus filhos todo o universo do Hergé, que para lá dos livros, há longos anos acompanha as rotinas da família na forma de um elegante calendário Tintim que a cada mês de Janeiro penduramos na cozinha. Na verdade, acreditem ou não, o Tintim não é apenas um ícone para a minha família, é nosso amigo mesmo - de longa data.

Livros

O problema é que compro e oferecem-me mais livros bons do que aqueles que consigo ler com o tempo que tenho. Assim vão nascendo aquelas pilhas de livros à espera de leitura, antes de irem estrear uma prateleira ou estante nova numa réstia de parede cada vez mais inacessível. Uma dor de alma: acontece que tenho medo de, ao arrumá-los, me esqueça de os ler depois, enquanto umas pilhas novas de apetecíveis livros novos se vão formando matreiras nos sítios do costume em ordem de prioridade. Ai vida dura... Não tenho perdão.

Quadros

A bem dizer João Quadros é um humorista (?) falhado que se dá mal com a sua irrelevância. Para a maioria das pessoas é um desconhecido, mas eu relembro: foi aquele idiota que em tempos, a propósito da doença da mulher de Passos Coelho, gracejou que “pensava que só havia uma cabeça rapada em casa do Passos", um truque sujo para dar nas vistas. 
Vem isto a propósito de um conjunto de imbecilidades que ele publicou ontem a respeito do Duque de Bragança, com o único intuito de chocar pela vulgaridade, sem qualquer esforço de fazer sorrir o interlocutor – escusado é divulga-las.
O riso é uma expressão exclusivamente humana que exige inteligência e mais ainda o requer a irreverente arte de fazer rir, mesmo no uso grosseria. Já o chamar a atenção sobre si qualquer idiota consegue fazer, se não tiver escrúpulos. Percebo que João Quadros – de que já não ouvia falar há anos – queira palco. Mas tem de o saber merecer, e para já tem a irrelevância que merece.

Viva o Rei!

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Há muito tempo que me confronto com o facto de haver muita gente, por norma pessoas simples duma faixa etária avançada, que sendo simpatizantes da monarquia - pelas razões mais improváveis (todas válidas, claro), confrontadas com o convite de se inscreverem na Causa, incrédulas, acham que isso é ilegal.

Para além desses casos, há toda uma multidão de pessoas letradas que, com as mesmas simpatias, têm receio de que um vínculo assumido prejudique os seus interesses económicos e ambições políticas.
A propaganda populista republicana (Salazar incluído) foi obra profissional.

Mudam-se os tempos...

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Numa pacífica manhã de sábado hoje passada com rituais nem sempre possíveis, logo depois do pequeno-almoço (em que ao fim-de-semana faço questão de comer torradas com manteiga) fui notificado no meu telemóvel da publicação da crónica do Alberto Gonçalves que li com gosto e divertido no telemóvel, já sentado na sala com boa música por companhia. Após me inteirar e responder a algumas mensagens no WhatsApp (aplicação culpada da vitória de Bolsonaro, dizem), pensei que estava na hora de ir comprar o Expresso, mas fiquei preso pelo artigo sobre o "Mata Sete", aquele hediondo crime ocorrido em 1987, no Observador. A manhã corria plácida, e ainda com o telemóvel na mão e o David Sylvian a tocar deliciosamente no gira-discos, inebriado pelo sol que entrava pela varanda, fui alertado por uma notificação dos e-mails do telefone da mensagem do "Macroscópio" do José Manuel Fernandes que li absorto, navegando por algumas ligações. Serviço público. Foi então que me lembrei de que ainda não tinha comprado o Expresso e que a tabacaria estava a fechar. Foi com algum esforço que contrariei o meu bem estar e fui à rua comprá-lo, agora que vem num inútil saco de papel. Resumindo, está minha tradição com décadas está por um fio. O Pedro Santos Guerreiro é um chato (para dizer o mínimo); e tirando o Pedro Mexia, os Henriques (Monteiro e Raposo) e a desconcertante Ana Cristina Pereira Leonardo, o tom geral do semanário é de uma snobismo bafiento - "nós somos os maiores e a virtuosa ordem do mundo desmorona-se à nossa volta por culpa da internet e das redes sociais". Um conservador é um conservador, mas tem limites. E começo a sentir que este hábito se tornou num imposto à oligarquia - nada de bom.

Processo dos Távoras - 260 Anos

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Saiba mais aqui

«A aurora do dia 13 de janeiro de 1759 alvorejava uma luz azulada do eclipse d’aquelle dia por entre castellos pardacentos de nuvens esfumaradas, que a espaços saraivavam bategas de aguaceiros glaciaes. O cadafalso construido durante a noite, estava humido. As rodas e as aspas dos tormentos gottejavam sobre o pavimento de pinho. Ás vezes rajadas de vento do mar zuniam por entre as cruzes das aspas e sacudiam ligeiramente os postes. Uns homens que bebiam aguardente e tiritavam, cobriam com encerados urna falua carregada de lenha e barricas de alcateia, atracada ao caes defronte do tablado. Ás 6 horas e 42 minutos ainda mal se entrevia a facha escura com umas scintillações de espadas nuas, que se avisinhava do cadafalso. Era um esquadrão de dragões. O patear cadente dos cavallos fazia um ruído cavo na terra empapada pela chuva. Atraz do esquadrão seguiam os ministros criminaes, a cavallo, uns com as togas, outros de capa e volta, e o corregedor da côrte com grande magestade pavorosa. Depois urna caixa negra que se movia vagarosamente entre dois padres. Era a cadeirinha da Marqueza de Tavora, D. Leonor. Alas de tropa ladeavam o prestito, e á volta do tablado postaram-se os juizes do crime, aconchegando as capas das faces varejadas pelas cordas da chuva. Do lado da barra reboava o mugido das vagas que rolavam e vinham chofrar espumas no parapeito da caes. Havia uma escada que subia para o patíbulo. A marqueza apeou da cadeirinha, dispensando o amparo dos padres. Ajoelhou no primeiro degrau da escada, e confessou-se por espaço de 50 minutos. Entretanto rnartellava-se no cadafalso. Aperfeiçoavam-se as aspas, cravavam-se prégos necessarios á segurança dos postes, aparafuzavam-se as roscas das rodas. Recebida a absolvição. a padecente subiu, entre os dois padres, a escada, na sua natural attitude altiva, direita com os olhos fitos no espectaculo dos tormentos. Trajava de setim escuro, fitas nas madeixas grisalhas, diamantes nas orelhas e n’um laço dos cabellos, envolta em uma capa alvadia roçagante. Assim tinha sido presa um mez antes. Nunca lhe tinham consentido que mudasse camiza nem lenço do pescoço. Receberam-a tres algozes no topo da escada, e mandaram-a fazer um giro no cadafalso para ser bem vista e reconhecida. Depois mostraram-lhe um por um os instrumentos das execuções, e explicaram-lhe por miudo como haviam de morrer seu marido, seus filhos, e o marido de sua filha. Mostraram-lhe o masso de ferro que devia matar-lhe o marido a pancadas na arca do peito, as thesouras ou aspas em que se haviam de quebrar os ossos das pernas e dos braços ao marido e aos filhos, e explicaram-lhe como era que as rodas operavam no garrote, cuja corda lhe mostravam, e o modo como ella repuchava e estrangulava ao desandar do arrôcho. A marqueza então succumbiu, chorou muito anciada, e pediu que a matassem depressa. O algoz tirou-lhe a capa, e mandou-a sentar n’um banco de pinho, no centro do cadafalso, sobre a capa que dobrou devagar, horrendamente devagar. Ella sentou-se. Tinha as mãos amarradas, e não podia compôr o vestido que cahira mal. Ergueu-se, e com um movimento do pé consertou a orla da saia. O algoz vendou-a; e ao pôr-lhe a mão no pescoço, - não me descomponhas - disse ella, e inclinou a cabeça que lhe foi decepada pela nuca, de um só golpe.»

 

In "Perfil do Marquês de Pombal" de Camilo Castelo Branco em 1882, por ocasião do centenário da morte do minsitro de Dom José.