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João Távora

José Maria de Lancastre, o fidalgo austero

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(em actualização)

José Maria da Piedade de Lancastre nasceu 21 de Agosto de 1816 e foi o segundo de dois varões, filhos do VI Marquês de Abrantes, também chamado José, e de Helena de Vasconcelos e Sousa. Os dois rapazes da casa de Abrantes viram-se órfãos precocemente por causa da prematura morte do seu pai exilado em Londres – aquilo que se conhece da sua acidentada biografia foi assunto de outra crónica.

Ditaria o destino de José Maria de Lancastre que o seu irmão mais velho, o VII Marquês de Abrantes, de seu nome Pedro, morresse sem geração aos 31 anos, tendo José Maria assumido a chefia da Casa de Abrantes a partir de então, sem no entanto adoptar o título de Marquês de Abrantes por não se ter querido sujeitar ao reconhecimento da coroa constitucional a quem não reconhecia legitimidade. Nesse sentido, dando continuidade à tradição familiar, nomeadamente através da sua mãe, “senhora de carácter forte e intrépido” responsável pela organização de uma "Pensão Alimentícia" para o Senhor D. Miguel no exílio, José Maria cedo se juntou ao partido legitimista tendo servido de correio nas suas manobras secretas. A partir de 1842 e até ao fim da sua vida integrou a Junta Directiva e Lugar Tenência do malogrado rei e depois do seu filho.

Curioso é como José Maria da Piedade, como acontecera com o seu pai, acabaria experimentando também ele o cárcere, como se pode verificar na correspondência diplomática do embaixador em Lisboa Henry Southern em 1847 com o Visconde de Palmestron, secretário de Estado dos Negócios estrangeiros do Reino Unido, por ocasião do desenlace da guerra da Patuleia, dando testemunho da agitação em Lisboa com prisões em massa, nomeadamente de vários nobres miguelistas, suspeitos sem provas de se terem aliado aos setembristas (radicais liberais) para deitar abaixo o governo cartista de Saldanha. Na missiva o diplomata dá-nos notícia do meio-irmão (filho natural) do Marquês de Abrantes Francisco de Sales de Lancastre que já tínhamos encontrado mencionado na Devassa de 1824 a respeito das suspeitas de assassinato do Marquês de Loulé em Salvaterra de Magos.

Testemunho da sua actividade política é conhecida entre os coleccionadores uma fotografia duma reunião ocorrida em Londres em 1863 que juntou Dom Miguel e os seus mais próximos partidários e que eu aqui reproduzo – o Marquês de Abrantes está assinalado com o nº 5 *. José Maria terá recusado a nomeação de Lugar Tenente de Dom Miguel II, ainda menor a viver na Alemanha, segundo refere o meu pai na sua “Heráldica da Casa de Abrantes”, em virtude das inevitáveis dificuldades operacionais causadas pela distância geográfica entre os dois. 

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O que estranhamente as notas do meu pai a respeito do meu trisavô não referem, é a sua veia literária e poética e o seu perfil erudito. Católico devoto, chegaram às nossas mãos inúmeras cartas e poemas, transcrições de clássicos e reflexões de pendor religioso, inclusivamente a respeito da funesta morte do seu filho primogénito com oito anos, acontecimento que o marcou profundamente. É precisamente ao seu malogrado filho que José Maria dedica comovedoramente o seu livro “Scenas de Thebaida ou Paulo de Tarso o Primeiro Hermita” (Lisboa, Imprensa Nacional - 1866), uma história/ensaio sobre os últimos dias de vida de Paulo de Tarso, que resulta numa reflexão sobre as virtudes do monaquismo e a decadência do seu “século do orgulho, do desvairamento da razão em proveito do individualismo, e do império da força material, que invocando uma philosophia quasi toda falsa, que despreza até os axiomas em que se baseia, sempre que isso convem a seus fins particulares”. Uma obra bem actual, como se confirma.

Sobre as actividades literárias de Dom José Maria de Lancastre, encontramos-lhes referência numa divertida carta de Júlio Castilho de 1909 ao seu filho João Maria de Lancastre, IX marquês de Abrantes, décadas depois da sua morte fazendo referência à relação que os pais de ambos teriam mantido em meados do século. Reza assim: “Era eu um pequenito que mal falava já o Senhor Marquês D. José Maria da Piedade de Lancastre ia lá a casa mostrar versos ao Mestre [António Feliciano de Castilho], e ouvir-lhe conselhos paternais. Um belo dia chega um criado, levando-me de presente um enorme cesto cheio de bonitos, que me encantaram, trombetas, uma espada, uma caixa de música, um grande cavalo de papelão, etc. e eu fiquei, como era de supor, doido de gosto. Uma vez, perguntando ao nosso saudoso António Pereira da Cunha como teria conhecido Castilho, explicou-me ele que lhe tinha sido apresentado por Garrett no teatro, e que no dia seguinte, indo fazer a sua visita, encontrara lá o Sr. Marquês D. José, a quem foi apresentado por meu Pai.” De facto António Feliciano Castilho (1800 – 1875) foi na sua época um renomeado poeta ultra-romântico, considerado retrógrado pela Geração de 70 (Antero de Quental, Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão) que fustigou o velho poeta a quem atribuíam o sucesso por ser cego, no celebrizado episódio da Questão Coimbrã, também conhecida pela polémica do Bom-Senso e do Bom-Gosto e que opunha as duas correntes em confronto: uma “progressista”, do realismo e naturalismo, e a outra “reaccionária” do ultra-romantismo. Como sabemos a tese que vingou, como nos mostra a notoriedade e reconhecimento alcançados pelos seus protagonistas, foi a da geração de 70. Pelos vistos o gosto pela escrita corre há muito no sangue da família, mesmo que não dite modas. 

José Maria de Lancastre morreu subitamente em 1870 quatro anos depois da morte da sua mulher Rita Correia de Sá, tendo deixado órfão o meu bisavô João com seis anos, que ironicamente, nas palavras do meu pai, se veio a revelar um homem mundano e esbanjador, tendo levado uma vida luxuosa a vender património, como o Palácio de Santos e o Morgado de Santa Iria que era a jóia da coroa da família. Tendo morrido em 1917 passou os últimos anos em tempos de república assanhada entre os insurgentes monárquicos em Vigo e um exílio  dourado em Saint-Jean-de-Luz. Voltarei para contar o que se conhece da sua história.

Imagens:

1) Fotografia de José Maria da Piedade de Lancastre.

2) Legenda da fotografia dos Fidalgos que estiveram com o Senhor Dom Miguel em Englaterra no anno de 1863

Legenda: 

1 - João de Lemos

2 – António Ribeiro Saraiva

3 – José Correia de Sá

4 – Conde de Bobadella

5 – Marquês de Abrantes

6 – Luís Cândido Ozório Tavares

7 – Francisco de Lemos

8 – Dr Gomes de Abreu

9 – António Pereira da Cunha – Deputado

10 – Pinto Coelho

11 – Conde de São Martinho

Fontes:

A Heráldica da Casa de Abrantes, vol. 2 do tomo 4, por Luís de Lancastre e Távora.

Quinta de Nossa Senhora da Piedade. História do Seu Palácio Jardim e Azulejos por Celso Mangucci, Vila Franca de Xira, 1998.

Documentos de família e testemunhos orais

Com um agradecimento especial ao meu amigo e bom conselheiro Nuno Pombo

O azar não veio só com os Távoras

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Um dia destes ainda publico a história contada pelo meu pai na "Heráldica da Casa de Abrantes" sobre meu antepassado, Dom João Rodrigues de Sá e Meneses (conjurado de 1640), que foi a Londres em 1652 em embaixada do rei D. João IV para negociar a paz com o Cromwell (exigiam a eliminação de taxas aduaneiras e a entrega de dois príncipes Stuarts acolhidos por Portugal entre outras impossibilidades). Se a situação já era delicada ao fim de vários meses de impasse na capital londrina, numa noitada fatídica dá-se o terrível caso de Dom Pantaleão, do irmão mais novo que o Embaixador em má hora decidiu fazer-se acompanhar na comitiva, ter-se metido numa escaramuça em que resultou um Lord inglês morto acidentalmente. Pois vejam lá que o rapaz, depois de 8 meses preso na Torre de Londres, e de muitos pedidos de indulto e intervenções diplomáticas, foi impiedosamente mandado enforcar por Cromwell - diz-se que o morgado nunca se refez desta desgraça. Isto também ajuda a explicar a aversão à república na minha família que como se vê já vem de longe. E que o azar não veio só com os Távoras.

Já vos tinha dito como sinto uma enorme vergonha do meu país?

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Ontem à noite fui surpreendido no carro por uma alocução do Presidente da República em directo e até pensei que era por causa de alguma coisa de grave acontecida recentemente. Mas não, era ele a dizer que nos portámos muito bem, que somos os maiores e que por isso merecemos desconfinar.

Não percebo a relutância de Marcelo abordar aquilo que verdadeiramente aflige os portugueses por estes dias. A desculpa da não interferência entre órgãos de soberania soa-me a falso, tanto mais que todos estão envolvidos no edifício da nossa Justiça: Marcelo Rebelo de Sousa, preocupado com a sua inoperância, teve como bandeira até há pouco tempo o célebre “Pacto para a Justiça” para uma reforma do sistema, e na realidade são os partidos políticos que, no parlamento, aprovam com as leis que o aparelho judicial vai ter de lidar.

Como é previsível vai tudo ficar na mesma, o assunto esquecido, Sócrates a banhos na Ericeira e o povo conformado à cata das migalhas que lhe são destinadas e não são garantidas. Os principais actores políticos e as elites estão enterradas até ao pescoço no lodaçal em que sobrevive o nosso regime irreformável, tolerante para com a corrupção e o clientelismo. 

Ontem à noite não ouvi a entrevista a José Sócrates porque tenho pudor e sinto uma enorme vergonha alheia - limitei-me a ouvir hoje os comentários na telefonia. Mas percebo a curiosidade mórbida daqueles que tiveram estômago para aquilo. É como o mirone que não resiste a espreitar os escombros de um desastre sangrento. 

A brincar com o fogo

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Parece-me evidente que a comoção nacional da passada sexta-feira não teve expressão clara nos partidos do sistema. Ademais o silêncio de Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa quanto às questões levantadas pela decisão instrutória de Ivo Rosa é gritante. O respeito pela independência dos órgãos de soberania que não se dão ao respeito não explica tudo. Para mim que sou um conservador que preza instituições sólidas tudo isso parece-me um grave prenúncio. Que nos habituámos definitivamente a viver no pântano, ou o regime, incapaz de se olhar ao espelho, ameaça cair com estrondo um dia destes, incapaz ler o alarme da rua. Por agora ainda é possível a um antigo primeiro-ministro corrupto que enterrou o nosso país numa brutal crise financeira vir gozar com a cara de todos nós num canal de televisão – eu por pudor não vou assistir.

Caminhamos em gelo fino. Com uma dívida pública que fechou o ano de 2020 nos 133,7% do PIB de 274,1 mil milhões de euros,  com a economia confinada há mais de um ano, prenúncia-se de uma crise de proporções inimagináveis. Talvez seja tempo das oligarquias que se alimentam do regime parar para pensar. É que quando a crise chegar ao estômago dos portugueses não haverá geringonça que os salve nem causas fracturantes que os distraiam.

Se não vai a bem então vai a mal!

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Esta manhã escrevi no Facebook que, se Ivo Rosa isentasse José Sócrates de ser julgado por corrupção, tal justificaria uma profunda comoção nacional, constituiria um sério golpe nos alicerces do regime e a completa descredibilização do nosso sistema jurídico. Terei sido demasiado cândido?

Não é preciso ser jurista nem ler as milhares de páginas da acusação para ficarmos terrivelmente inquietos com o que permitimos que se passasse nas nossas barbas. A comprovada entrega de milhão e setecentos mil euros em dinheiro vivo a José Sócrates "com o propósito de ele ser ser simpático", (o eufemismo utilizado hoje por Ivo Rosa) talvez seja dinheiro a demais. Para isso talvez chegassem “meia dúzia de robalos”. O problema que esta decisão instrutória levanta, mesmo que o ministério público recorra com sucesso, é a acelerada e irreversível deterioração da confiança dos portugueses nas instituições que tudo isto causa. É o fundo do poço que como país continuamos a cavar envolvidos num nauseabundo lodaçal. Sinto uma enorme vergonha alheia.
Não conseguimos mudar isto a bem? Onde estão afinal os insurgentes?