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João Távora

Inoculado

Já cá mora a primeira dose da vacina. Uma máquina de vacinar está montada aqui no pavilhão de S. Domingos de Rana - antes assim. Éramos centenas avançando disciplinadamente em várias filas, da mesma faixa etária, com paragens em diferentes salas, sempre com publicidade estática de grandes dimensões à Câmara Municipal de Cascais, até acabar na sala de recobro com 100 cadeiras viradas para um ecrã onde o Carlos Carreiras paternal nos discursa coisas ininteligíveis intercalado com imagens de acções camarárias contra a pandemia, como a "fumigação" de passeios públicos - que como se sabe é o maior dos embustes no dito "combate" mas resulta em imagens sensacionais. Dou isso de barato, eu quero é que se vire esta página e que me deixem viver a minha vida em paz.

A mais merecida das homenagens

"Sporting Clube de Portugal é o título duma associação composta de indivíduos de ambos os sexos, de boa sociedade e conduta irrepreensível."

Artigo 1 (dos primeiros estatutos do Sporting em 1907)
 

Aqui chegados, é importante não esquecermos o caminho que aqui nos trouxe, e homenagear os resistentes que tornaram esta incomensurável alegria possível, resgatada a ferros de tempos sombrios e difíceis. De volta às grandes vitórias que fizeram do Sporting Clube de Portugal tão grande e popular, por estes dias de euforia lembremos todos os sportinguistas caídos nos últimos anos e aqueles que permaneceram até ao fim fiéis a este nosso emblema. Relembro em particular o meu saudoso tio Manuel de Castro, que me abriu os olhos para a beleza de um jogo de futebol no estádio, e principalmente me ensinou os valores da perseverança e do fair-play, que são as mais sólidas fundações do nosso clube.

Hoje deixemos para segundo plano uma equipa de jovens promessas, a maioria delas nascidas sob a bandeira das cinco quinas. Hoje pomos de lado o presidente vilipendiado mas corajoso que, herdando um conjunto de escombros, conseguiu inverter a decadência do nosso clube. Hoje não falarei do jovem e inspirado treinador, que liderou um balneário heterogéneo para as páginas mais douradas da nossa História. Hoje esqueçamos as claques predatórias e outras enfermidades que nos quiseram roubar a esperança de voltarmos a ser felizes. Porque hoje é dia de lembrarmos todos aqueles que não desistiram de estar onde era preciso nos momentos mais negros da nossa História, para resgatar a dignidade que nos tinha sido roubada. Que com obstinação nunca desistiram do Sporting naqueles dias tristes que pareciam ter chegado para sempre. Hoje é dia de homenagear os associados que se mantiveram firmes nas filas das assembleias, nos lugares do nosso estádio, naqueles tempos sombrios, sempre a apoiar o clube para que pudesse sobrevir um amanhã de esperança. É essa a alma enorme que nos distingue dos demais.

Foi essa alma enorme que eu aprendi com o meu tio Manuel que partiu cedo demais. Uma lição que espero deixar de legado aos meus filhos. O Sporting somos nós, a vitória foi nossa. Somos nós os campeões.

Publicado originalmente aqui

Já não é proibido proibir?

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Anda p'raí um escarcéu nas redes sociais por causa dumas “denúncias” de alegados assédios a figuras públicas como se fora uma campanha de sensibilização – não é razão para menos. Pela minha parte tenho a convicção de que haverá poucas atitudes mais cobardes e indecentes do que o assédio sexual, e que tal terá de ser radicalmente condenado socialmente. Fazer disso uma “guerra de sexos” é que não me parece que faça sentido.

A questão é que não é possível uma sociedade boa sem pessoas moralmente bem formadas. As soluções aos desafios sociais e humanos não se resolvem só com legislação, muito menos com ideologias. E hoje reconheço que, antes de nós cá em casa, já os meus pais travaram uma dura batalha contra o "ar do tempo", que nos anos setenta era da democratização da vulgaridade, não das virtudes. 

Uma coisa boa deste “movimento” é um certo cheiro contra-revolucionário que dele emana e que me agrada. Durante décadas tivemos a impressão que a boa educação, a delicadeza e o cavalheirismo, fundados em valores fundamentais como o “respeito” tinham caído em desuso, como que atributos considerados hipócritas, caretas, pouco viris. Será que é desta que os bons valores da boa educação voltam de novo a estar na moda entre as elites ou será que estou a perceber mal? Ou será esta indignação fogo fátuo, mero entretenimento de burgueses anafados com demasiado tempo livre, a importação de uma histeria colectiva? 

O meu bisavô João Abrantes

Bisavô João IX M de Abrantes.jpg

Filho do austero e devoto católico José Maria da Piedade, sucedeu-lhe com personalidade bem distinta o meu bisavô João Maria da Piedade, o IX Marquês de Abrantes, que nasceu no Palácio de Santos a 28 de Dezembro de 1864 e morreu em Sintra na Freguesia de São Martinho, em Dezembro de 1917. Ele foi o último senhor e administrador dos morgadios e vínculos da sua Casa de Abrantes e o primeiro a retomar o apelido Távora depois da proibição pelo governo Pombal. Filho tardio e muito desejado que nasceria seis anos depois da morte prematura do seu irmão mais velho aos oito anos – João ficou órfão de pai e de mãe com apenas 6 anos tendo sido educado pela sua Tia paterna, a Condessa de Murça, D. Helena. Com uma personalidade bem diferente da do seu pai, como filho único que era, quis o destino que não o afectasse na herança dos bens da família o fim dos morgadios decretado por carta régia em 1863. Desse modo, como varão de uma das mais importantes famílias legitimistas foi enviado ainda criança para estudar em Viena onde conviveu muito com o Senhor Dom Miguel II, facto que o terá favorecido mais tarde quando assumiu um papel activo nas negociações do Pacto de Dover. Regressado a Portugal em 1884 veio a casar a 16 de Abril do ano seguinte com Maria Carlota de Sá Pereira e Menezes, da casa dos Condes de Anadia, como refere o meu pai no volume I do Tomo IV da sua obra “Heráldica da Casa de Abrantes” dedicada ao ramo dos Sás. Desse casamento sobrevieram seis filhos: Carlota Maria da Piedade, o meu avô José Maria da Piedade, Pedro Maria da Piedade, Maria Rita da Piedade e Maria Luiza da Piedade.

Frustrantemente, o projecto de “memórias” deixadas incompletas pelo meu pai foi interrompido justamente quando ia biografar o seu avô João – acredito que lhe tivesse assaltado alguma resistência para enfrentar esta complexa personalidade com quem não chegou a conviver – morreu em 1917 exactamente vinte anos antes do nascimento do seu neto e meu pai. Ainda assim, no capítulo em que se refere às recordações deixadas pelo seu pai e meu avô José Maria de Lancastre e Távora, o X Marquês de Abrantes, já por mim anteriormente aqui referenciado, nos desvenda a impressão que sobre ele sobreveio aos descendentes, como sendo responsável pela péssima administração dos bens da família que foram alienados quase na totalidade durante a sua vida num período de grande instabilidade económica: "Com a república os meus avós resolveram emigrar, fazendo-se acompanhar por toda a família, criados, e até parte do Arquivo de Família; só meu Pai se recusou a acompanhá-los, por não querer interromper o seu curso. Meu Avô não compreendeu a atitude do filho mais velho; com efeito, meu Pai, que desde muito novo era muito realista, via que a vida ia forçosamente mudar, e que o luxo inexcedível com que meu Avô se rodeava não era compatível com a sua fortuna, embora esta fosse enorme para Portugal. E, na realidade, poucos anos decorridos, meu Pai era o único entre todos os filhos de meus Avós, que se bastava a si próprio, e que mesmo estava em condições de ajudar os seus irmãos."  Não se estranha que o relacionamento entre os dois varões não fosse o melhor. Sintomático é que o meu avô José não tenha baptizado nenhum dos filhos com o nome de seu pai.

Avô José e os irmãos.jpeg

Ao delicado assunto das finanças da família faz o meu bisavô referência num precioso documento que me chegou às mãos recentemente intitulado “Apontamentos sobre minha saída do Partido Miguelista” (aqui na íntegra), no qual, a páginas tantas, a propósito da sua partida para o exílio com a família refere que “A minha situação financeira no momento [1911] permitia-nos ausentarmo-nos de Portugal por algum tempo pois tinha uma determinada quantia em ouro num banco. É verdade que se o movimento gorasse ou demorasse muito, ver-nos-íamos em sérios embaraços, seguidos fatalmente da ruína total. Se ficássemos, porém, a ruína viria igualmente embora mais demorada, pois o meu rendimento não me chegava de maneira nenhuma para viver, e como estavam as coisas públicas não via maneira de aumentar de maneira nenhuma. A ter de cair na miséria antes fazê-lo com honra.”

Desconfio que o meu pai não tenha conhecido este riquíssimo manuscrito legado pelo seu avô João pouco tempo antes da sua morte em 1917. De facto, sem que com ele o possamos isentar do rótulo de esbanjador, ou pelo menos de mau administrador, o preciso testemunho histórico revela uma personalidade que, longe de ser fútil, exibe uma inteligência política e profundidade de pensamento fora do comum, já para não falar dum domínio muito rico da língua portuguesa e da escrita narrativa.

Nesse sentido, por exemplo, parece-me de uma grande argúcia o seu posicionamento a favor de tréguas entre as duas linhagens desavindas, logo expresso por ocasião do regicídio, argumentos que na ocasião expôs a Dom Miguel II, opinião reforçada com a revolução republicana, bem explícita nesta sua frase: “a solução única era refazermos o que a revolução tinha desfeito e repormos tudo como estava, mesmo porque se me afigurava tão mais fácil restaurar um regime caído havia meses do que irmos reatar uma tradição de havia quase um século”. Já no que refere à vertente política, que não apenas pela questão de legitimidade dinástica que jamais é por si posta em causa, defende o meu bisavô nas suas notas que o “programa do partido na parte conservadora e católica (…) exequível nos tempos actuais tanto se podia executar com ele [Dom Miguel] como com Dom Manuel”. Aliás, os "apontamentos" em apreço, comprovam o bom relacionamento existente à época entre os Abrantes e Dom Manuel II, facto que já tínhamos testemunhado numa sua carta dirigida aos meus bisavós Ulrich de "consentimento" do casamento entre os meus avós paternos que em tempos aqui publicámos. É de realçar de resto o papel que João Maria da Piedade assumiu após a frustração das incursões na tentativa de conciliação entre os régios primos desavindos, entre Saint-Jean-de-Luz e Londres, contactando os mais importantes protagonistas na realização do Pacto de Dover, desde Paiva Couceiro, Luís Magalhães, Alexandre de Saldanha da Gama, a Sua Majestade Dom Manuel e a Sua Alteza Real Dom Miguel. 

1912 - Satúrio Victor MarqAbrantes PedroLancTávo

É fácil depreender dos muitos documentos que me vêm passando pelas mãos que a morada da Família Abrantes durante boa parte do século XIX e até ao princípio do Século XX se dividia entre o Palácio de Santos, em cuja igreja constam quase todos assentos de baptismo e óbito, e a Quinta da Póvoa (de Sta. Iria) como lhe chamavam, ou Morgado da Póvoa, actualmente conhecido como Quinta de Nossa Senhora da Piedade, que é a padroeira da minha família – era a jóia da coroa dos Abrantes. Afinal, em 1856 inaugura-se o troço de linha férrea que, passando na Póvoa, liga Lisboa ao Carregado, inovação que facilitaria o trânsito entre as duas casas. Curiosa é a nota escrita pelo historiador Bramcaamp Freire a respeito de uma visita ao meu bisavô em 1900: “Não posso deixar de agradecer aqui ao meu amigo e vizinho Dom João de Lancastre e Távora representante dos Marqueses de Abrantes a amabilidade com que ontem 18 de Outubro de 1900 me permitiu examinar alguns documentos do precioso arquivo que guarda na sua bela casa da Quinta da Piedade, antigo Morgado dos Valentes na Póvoa de Santa Iria, onde vi uma das mais belas, senão a melhor colecção de retratos de pessoas da alta fidalguia portuguesa no século de 500 e daí para baixo: é um tesouro.” 

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Sobre a importância que terá tido a Quinta da Póvoa para o meu bisavô já financeiramente arruinado, é comovente a referência que ele inclui a páginas tantas nas suas notas, e que vale a pena trazer para aqui: Eu ia radiante [para a Galiza] e supunha que a nossa volta seria uma marcha triunfal da fronteira a Lisboa. Estranhei muito ao sair do portão da Quinta na nossa carruagem de ver chorar a Maria e o Pedro. Eles disseram-me então que tinham o pressentimento de não tornarem a ver a Póvoa. Com efeito o Pedro tornou a vê-la quando já não era minha e fui lá recolher as nossas coisas [algures em 1916]”.

Estranho me parece que estes apontamentos que nos desvendam um pouco da personalidade deste meu antepassado tenham sido escritos no ano em que viria a falecer com 53 anos. Será certamente mera coincidência pois morreu com uma hemorragia cerebral meses depois. Certo é que desejou deixar claro para a sua descendência o seu pensamento e esclarecer e as razões da sua acção naqueles funestos anos de decadência nacional.

Não será mera especulação concluir que o meu bisavô João de facto vivia sob padrões de vida demasiado luxuosos e incomportáveis para os seus rendimentos, e sou levado a acreditar que, para ele, a representação da Casa de Abrantes em que tinha nascido, a isso obrigava, por uma concepção algo materialista dessa “dignidade”, compreensível sob uma perspectiva cultural da época (contra a qual o seu pai José Maria de Lancastre curiosamente tanto se tinha insurgido). Por isso não o julgo tão severamente quanto o fazia o meu pai. De facto o meu bisavô vendeu o Palácio de Santos em 1908 ao governo francês que à época era arrendatário de parte do edifício, tendo feito esse negócio o ministro (embaixador) francês George Saint-René de Taillandier que vamos encontrar referido nas suas notas quando o reencontra em 5 de Outubro de 1910 em Sintra. Curiosa é a exigência de João Abrantes para que não fosse transmitida ao comprador a serventia entre os dois pisos superiores do palácio à tribuna familiar no coro da Igreja de Santos o Velho (um dia destes ainda iremos reivindicar esse direito ao laico governo francês!). Enfim, até à sua morte João Maria da Piedade desfez-se da maior parte dos bens de família e, reza a história relatada nas memórias do meu pai que a forçada ausência de meu Pai [Na Grande Guerra] muito o prejudicou nas partilhas da herança paterna, da qual apenas exigiu os quadros e o arquivo da família”. Com muitos destes objectos ainda privei, posteriormente dispersos que foram pela casa dos meus avós, pais e tios. De resto, grande parte do arquivo foi entregue pelos meus irmãos e por mim em depósito à Câmara Municipal de Abrantes (outra parte já tinha sido entregue na Torre do Tombo), assim como o quadro do 1º Marquês de Abrantes o foi ao Museu dos Coches onde é actualmente exibido ao lado dos carros de aparato por ele utilizados aquando da grande embaixada a Roma em 1717.

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Importante nesta modesta tentativa de biografar o IX Marquês de Abrantes, o meu bisavô João, é salientar a sua profunda fidelidade à pessoa de Dom Miguel II que é bem patente nas suas notas, e na forma leal como batalhou pelo sucesso do Pacto de Dover, sempre com o fito da restauração da monarquia, que para si era penhor da independência nacional. Não lhe guardo qualquer animosidade, tanto mais que cada vez estou mais que convencido que o principal legado da Casa de Abrantes me foi transmitido com sucesso, e que ele é essencialmente intangível, residindo no âmbito dos valores éticos e morais, no amor a Portugal e em histórias fantásticas para contar. É isso que gostaria de transmitir aos meus filhos e sobrinhos.

Proximamente voltarei aqui para vos falar dos V e VI marqueses de Abrantes, Pedro Maria e José Maria. 

Legendas das fotografias:

  • Fotografia 1 

João Maria da Piedade de Lancastre e Távora, IX  Marquês de Abrantes quando jovem.

  • Fotografia 2

No início do século XX de cima para baixo:

a minha tia bisavó Carlota,
o meu avô José Maria de Lancastre e Távora
e os meus tios avós, Pedro, Rita e Luísa.

  • Fotografia 3

Em 1912, Saint-Jean-de-Luz:

Vitor Menezes (à esquerda em cima)
Pedro de Lancastre e Távora (à direita em cima)
Sartúrio Pires (à esquerda em baixo)
IX M. de Abrantes, João Maria da Piedade de Lancastre e Távora (à direita em baixo)

  • Fotografia 4

Quinta da Póvoa (de Sta. Iria), ou de Nossa Senhora da Piedade.

  • Fotografia 5

Dom Miguel II

Fontes: 

"A Heráldica da Casa de Abrantes", vol. 2 do Tomo 4, por Luís de Lancastre e Távora

"Le Palais de Santos" por Pierre Samoyault

"Quinta de Nossa Senhora da Piedade - História do Seu Palácio Jardim e Azulejos" por Celso Mangucci

Documentos de família e testemunhos orais

Apontamentos sobre minha saída do Partido Miguelista

João Maria da Piedade de Lancastre e Távora - IX Marquês de Abrantes

1912 - Satúrio Victor MarqAbrantes PedroLancTávo

Para enquadramento histórico destes apontamentos aconselha-se a leitura desta crónica.

"Cada vez mais me convencia que a solução única era refazermos o que a revolução tinha desfeito e repormos tudo como estava mesmo porque se me afigurava tão mais fácil restaurar um regime caído havia meses do que irmos reatar uma tradição de havia quase um século."

Quero deixar aqui escrito para os meus filhos a maneira e motivos porque deixei de ser Miguelista, se bem que três deles sobretudo os rapazes foram testemunhas de como tudo se passou e já em idade de poderem apreciar. Nada me desgostaria mais do que pensar alguém que mudei de casaca. E sobretudo que eu fiz por motivos interesseiros. Eu sustento que não mudei de casaca pois conservo os mesmos princípios que sempre tive. Julgo o senhor dom Miguel o rei legítimo e professo por ele e pela sua Augusta família o respeito de sempre, diria mesmo amizade, se esta palavra se costumasse aplicar ao sentimento para com tão altos senhores.

Um ano depois do regicídio em Fevereiro de 1909 deliberou o Senhor Dom Miguel procurar acabar com a divisão da família real portuguesa. O que então se passou foi por mim já relatado noutro apontamento ao qual me reporto. Pouco depois de se terem malogrado essas tentativas, casou Dom Miguel filho com uma senhora americana. Tive nessa ocasião o palpite que uma das razões que influenciaram o ânimo do pai para desejar tão ardentemente as pazes com os seus parentes era para evitar esse casamento proporcionando outro melhor ao filho o que teria sido mais fácil sendo o Infante de Portugal por tal oficialmente reconhecido. Não tive porém disto nunca a menor prova nem indício. Seja como for esse casamento era na minha opinião o fim da Causa Miguelista, pois que sendo difícil fazer do segundo filho um pretendente sério, era o terceiro uma criança que já não seria homem a tempo para vir a suceder ao avô sem uma regência se no trono ou uma prolongada tutoria se se conservassem no exílio. Ambas as coisas difíceis e perigosas deixando para trás as linhas dos dois primogénitos mais ou menos satisfeitas com a resolução do caso. Além disto a questão dinástica em Portugal precisava então já de soluções mais rápidas e simples. Isto mesmo disse ao Alexandre Saldanha da Gama, Lugar-Tenente do Senhor Dom Miguel, acrescentando que por estes motivos era resolução minha se sobrevivesse ao mesmo senhor reconhecer depois da sua morte a ordem de coisas existente então em Portugal. Fiquei mesmo de lhe escrever uma carta neste sentido, carta que ele guardaria até se darem estes acontecimentos para que a minha saída do Grémio Miguelista nunca pudesse ser tomada como derivada de interesses de ocasião. Acrescentei que não deixava imediatamente de ser miguelista por atenção com aquele Augusto Senhor a quem não desejava dar em vida esse desgosto. Os tempos foram passando e eu por mero descuido nunca escrevi infelizmente essa carta.

"Em minha casa reuniam todos os que ficaram em Sintra e ali passamos dias bem tristes. Foi em minha casa depois de jantar no próprio dia em que El-rei e as rainhas embarcaram e que pela primeira vez se falou em contra-revolução."

Devo dizer aqui que, considerando-me partidário do Senhor Dom Miguel, nunca oficialmente fiz parte do partido por me não entender com os correligionários. E só mantinha as melhores relações com Alexandre de Saldanha com quem me entendi sempre muito bem, de quem era amigo e ele meu, desabafando mais de uma vez comigo sobre os correligionários que ambos conhecíamos bem.

As minhas únicas manifestações de miguelista eram um programa no dia 19 de Setembro ao Senhor Miguel, alguma carta em ocasiões políticas importantes, e não ir ao Passo, mantendo porém as melhores relações com a rainha e seus filhos, sobretudo El Rei Dom Manuel que muito bem compreendiam e apreciavam a minha situação. Até ao facto que acabo de apontar nunca me passou pela cabeça minha situação política pudesse mudar.

Em 1910 sobreveio a revolução estando nós em Sintra a passar o verão, coisa que me não sucedia havia vários anos e que tão me satisfez gozando daquele lindo sítio e sobre tudo da companhia assídua de amigos são queridos da qual os acontecimentos dos últimos anos da minha vida não me tinham permitido gozar com a frequência acostumada. Foram estes meses da minha estada em Sintra em 1910 os últimos para mim felizes e de uma relativa Tranquilidade. O despertar foi tristíssimo logo que soubemos que a revolução tinha estalado. Encontrei-me com João de Azevedo Coutinho que desejava um automóvel para ir a Mafra ver se conseguia levar consigo a tropa que lá estava e cair sobre a retaguarda dos revoltosos entrincheirados no alto da Avenida. Pensava ele encontrar em Mafra uns 400 homens que de facto não existiam lá. Vem o João Coutinho a casa dos Schindlers, e a Condessa de Carnide prontamente cedeu o seu automóvel. Nesta altura já Coutinho sabia que encontraria lá muito pouca tropa e pensava trazê-la para Sintra a reforçar a Guarda das Rainhas que na verdade era muito fraca. Falei lá com o João Franco que achei muito pouco confiado e pouco entusiasmado também com a defesa das instituições. Como se julgasse naquele momento que a situação em Sintra se poderia tornar perigosa para as rainhas e pessoas do Paço, não acompanhei a Mafra o João Coutinho e preferi ficar no sítio que julguei mais perigoso indo em meu lugar meu filho José, que encontrámos fardado, tendo-se ido apresentar à autoridade militar. O José frequentava então o último ano da escola do exército no curso de Engenharia Civil. Afinal fora encontrar em Mafra El-rei e resolveram lá, irem as rainhas para Mafra com a Guarda que estava em Sintra para todos juntos irem caminhando para o Norte até encontrarem em força suficiente para resistir. Foram estas as notícias que os dois trouxeram à noite, e assim se fez no dia seguinte. Nesta mesma noite falou João Coutinho com o presidente do conselho que achou tudo bem. Fomo-nos deitar satisfeitos porque as últimas notícias que deram do governo para a Pena foram que a revolução estava sufocada. De manhã porém quando me vestia soube que a república estava proclamada em Lisboa e o João Coutinho mandara-me chamar para conversarmos. Isto fez com que não chegasse a tempo para me despedir da Rainha, encontrando no caminho a família Figueiró que vinha refugiar-se para minha casa menos a condessa que tinha seguido com a Rainha. Tinha encontrado antes o ministro de França Saint-René de Taillandier que me disse augurar tão mal para Portugal do advento de semelhante República, tanto ele como a mulher e filhas foram óptimos para nós monárquicos nesta ocasião.

Em minha casa reuniam todos os que ficaram em Sintra e ali passamos dias bem tristes. Foi em minha casa depois de jantar no próprio dia em que El-rei e as rainhas embarcaram e que pela primeira vez se falou em contra-revolução. E eu logo declarei ao João Coutinho que contassem para isso comigo e com os meus dois filhos. O Pedro estava nesta ocasião de perninha [muleta] por causa de uma canelada e não podia sair de casa. Tratei logo que ele desse a sua demissão da escola onde frequentava o curso de cavalaria. Nessa ocasião tive uma conversa muito curiosa com o comandante da Escola, General Morais Sarmento e que foi mais uma prova da fraqueza do ânimo geral e da desorientação de aqueles que mais deviam dar o exemplo.

Passadas poucas semanas fomos para a Póvoa de em pouco saí meditando muito e conversando com os meus filhos sobre os acontecimentos. Pelas razões expostas no princípio destas notas cada vez mais me convencia que a solução única era refazermos o que a revolução tinha desfeito e repormos tudo como estava mesmo porque se me afigurava tão mais fácil restaurar um regime caído havia meses do que irmos reatar uma tradição de havia quase um século. Isto mesmo disse e escrevi ao João de Almeida para ele o repetir ao Senhor Dom Miguel acrescentando que eu e meus filhos entraríamos no primeiro movimento que se fizesse a favor de um príncipe português e que serviríamos depois esse príncipe se triunfasse. Mas que este príncipe pelas razões supra ditas só poderia ser Dom Manuel.

"Soube que conspiração caminhava se daria uma incursão pela Galiza com Paiva Couceiro à frente o qual já lá se encontrava. Tratei então de pôr as minhas coisas particulares em ordem para lá nos encaminharmos enquanto fosse possível sair de Portugal."

Soube pelo meu filho José e por outros que se conspirava mas ao princípio não dei grande apresso à conspiração, parecendo-me coisa de rapazes exaltados. Pelo visconde de Asseca porém soube que a coisa era muito séria e de felizes augúrios. Por esta ocasião tive ensejo de falar com o João Coutinho que me confirmou nesta opinião e a quem eu propus irmos ambos a Saint-Jean-de-Luz aonde se encontrava então o Senhor Dom Miguel para obtermos dele autorização para reatarmos as negociações interrompidas pela vontade de José Luciano de maneira a haver um só pretendente, Dom Manuel. João Coutinho recusou-se por temer que em Londres fosse mal interpretada a sua démarche dadas as suas origens miguelistas.

Soube que conspiração caminhava se daria uma incursão pela Galiza com Paiva Couceiro à frente o qual já lá se encontrava. Tratei então de pôr as minhas coisas particulares em ordem para lá nos encaminharmos enquanto fosse possível sair de Portugal, e sobretudo persuadir minha mulher a acompanhar-nos até lá com as pequenas, pois não queria principalmente que ela pusesse dificuldades em deixarem os filhos entrarem no movimento, o que eu reputava um ponto de honra. A minha situação financeira no momento permitia-nos ausentarmo-nos de Portugal por algum tempo pois tinha uma determinada quantia em ouro num banco. É verdade que se o movimento gorasse ou demorasse muito ver-nos-íamos em sérios embaraços seguidos fatalmente da ruína total. Se ficássemos porém, a ruína e viria igualmente embora mais demorada, pois o meu rendimento não me chegava de maneira nenhuma para viver, e como estavam as coisas públicas não via maneira de aumentar de maneira nenhuma. A ter de cair na miséria antes de fazê-lo com honra.

Foi meu confidente único nestas coisas o Pedro que estava comigo na Póvoa pois o José só lá ia aos domingos, continuando a frequentar a escola pois como o seu curso era para uma carreira civil julguei poder deixá-lo terminar. Muito debatemos o caso, o Pedro e eu e dali data a nossa intimidade maior e diferente do que é usual entre pai e filho.

Quando me resolvi abrir-me com a minha mulher achei-a de perfeito acordo em tudo comigo e pronta para o que quiséssemos. Nunca lhe serei bastante grato por isto. Fiquei deveras contentíssimo, pois quando olhava para os retratos dos avós na Póvoa parecia-me que eles me aprovavam, e que renegariam 3 netos 8 homens se eles vendo a Pátria perigar, essa Pátria que eles ajudaram a fazer tão grande, não esquecessem tudo para vir em seu auxílio. E para mim, a independência de Portugal no futuro mais ou menos próximo, dependia da restauração da monarquia, oito vezes secular.

"Estranhei muito ao sair do portão da Quinta na nossa carruagem de ver chorar a Maria e o Pedro. Eles disseram-me então que tinham o pressentimento de não tornarem a ver a Póvoa. Com efeito o Pedro tornou a vê-la quando já não era minha e fui lá recolher as nossas coisas."

Chegaram ao meu conhecimento indícios certos de que o movimento estava para breve. Dirigi-me então ao Visconde dos Olivais que eu tinha descoberto estar muito metido no negócio. Disse-lhe as minhas intenções e pedi-lhe que me avisasse a tempo para eu partir com os meus de maneira a não me eternizar em Espanha pois os meus meios mo não permitiam mas também a não correr risco de achar a fronteira fechada.

Ele disse-me que partisse brevemente e pusemo-nos a caminho para o Porto a 17 de maio dia dos anos do Pedro a cuja saúde bebemos no vagão restaurante do rápido duplo do rápido do Porto uma garrafa de champanhe. Eu ia radiante e supunha que a nossa volta seria uma marcha triunfal da fronteira a Lisboa. Estranhei muito ao sair do portão da Quinta na nossa carruagem de ver chorar a Maria e o Pedro. Eles disseram-me então que tinham o pressentimento de não tornarem a ver a Póvoa. Com efeito o Pedro tornou a vê-la quando já não era minha e fui lá recolher as nossas coisas.

Descansamos um dia no Porto e chegados a Vigo tratei de me pôr em contacto com o João Coutinho. Disse-lhe que a última hora tinha ouvido uns rumores em Lisboa de que o movimento não seria puramente monárquico mas neutro. Que eu tinha vindo com os meus filhos para nos alistarmos num movimento monárquico, que se o fim dos nossos esforços devia ser o advento de uma república melhor, eu não estava disposto a expor a minha pele e dos meus filhos para semelhante empresa. Respondeu que sossegasse, pois ambos Couceiro por necessidade ocasião, deixariam essa cor ao movimento o seu resultado seria na vontade do próprio Couceiro o advento da monarquia com Dom Manuel, que o próprio Coutinho se assim não fosse não entraria nele como entrava. Achei asneira mas conformei-me. Qual não foi porém meu espanto quando passados poucos dias de ver que havia entre os conspiradores uma assaz forte corrente miguelista. O Coutinho encontrava-se então em Londres. Como tínhamos cifra telegrafei-lhe escrevi-lhe o que tinha encontrado, e suplicava-lhe que obtivesse do Senhor Dom Manuel que se reatassem as negociações para as pazes dos dois ramos brigantinos. Estava-se aonde fazer porém porque acho opôs Álvaro Chagas. Então a primeira pessoa da conspiração depois do Couceiro.

Esqueci-me de dizer que antes de sair de Lisboa me despedi do Alexandre de Saldanha e que terminantemente declarei que ia trabalhar por Dom Manuel.

"Só com monárquicos podíamos e deveríamos mesmo querer contar. Para isso era preciso uni-los, dar só força ao rei e andar para diante abertamente pela monarquia com todos os monárquicos que quisessem seguir-nos começando por acabar com as desinteligências da Família Real"

O José tinha ficado em Portugal para terminar o seu curso que ele de maneira nenhuma quis abandonar. Foi-me várias vezes ver a Vigo e eu sempre a temer que lhe acontecesse alguma coisa na volta a Portugal. Conseguiu concluir o curso e foi para a Galiza nas vésperas da primeira incursão na qual entrou assim como Pedro que até foi ferido, e eu.  Fomos vencidos, e eu prevendo que haveria um longo compasso de espera e que já não podia aturar Vigo e a companhia que lá estava resolvi ir para o sul de França a esperar os acontecimentos. Na véspera da nossa partida para França tive uma conversa com Augusto de Magalhães do Porto meu vizinho no hotel Continental e um dos homens mais metidos na conspiração. Disse-lhe as minhas impressões sobre o futuro da nossa causa. Não a julgava perdida se se corrigissem os defeitos de que tinha enfermado a nossa intentona, sendo a primeira a neutralidade do movimento. Só com monárquicos podíamos e deveríamos mesmo querer contar. Para isso era preciso uni-los, dar só força ao rei e andar para diante abertamente pela monarquia com todos os monárquicos que quisessem seguir-nos começando por acabar com as desinteligências da Família Real, de maneira a haver um só pretendente Dom Manuel e pô-lo no Trono sem consultar o país, a consulta que só poderia servir para enfraquecer a Coroa. Contei-lhe o que se tinha passado com a reconciliação, tanto da primeira vez que se tratou disso pela iniciativa do Dom Miguel após o regicídio, como o que ultimamente sucedera com a minha tentativa. Partimos para França e não posso descrever a paz e contentamento que se apoderou de nós todos nos primeiros tempos da nossa estada em Saint-Jean-de-Luz, sobretudo na Vila Arocca depois de 7 meses de estada no péssimo hotel de Vigo em promiscuidade com todos os conspiradores e suas famílias, que sendo muito boa gente nem todos eram agradáveis para uma convivência tão íntima. Pouco tempo depois chegou o Augusto de Magalhães vindo já de Paris e que me deu a agradável notícia que inspirado pela nossa conversa tinha ido a Londres e Paris e conversado com El-rei e com o Alexandre Saldanha que o levou ao Senhor Dom Miguel e finalmente o acordo que estava feito e só dependente da aprovação do Couceiro que decerto a não negaria a uma tão louvável coisa. Imaginem o meu contentamento e surpresa. Pouco tempo depois chegou o Senhor Dom Miguel a Saint-Jean-de-Luz. Entretanto empatavam-se em Paris e Londres as diligências para o acordo com os miguelistas por o Alexandre e Saldanha exigir que o senhor Dom Miguel e a sua linha passassem na sucessão ao trono antes de Dom Afonso e da sua linha. Nesta ocasião estava eu para partir para Londres a ver os parentes e amigos que lá tinha e de que estava separada havia tanto tempo. Quando me fui despedir do Senhor Dom Miguel disse-lhe que apressava a minha partida porque não queria ir a Richmond sem cumprimentar o Senhor Dom Manuel e sua Mãe e não queria cair lá quando as relações entre miguelistas e Manuelistas estivessem pior do que nunca. Perguntou-me porque temia eu isso e eu respondi-lhe que a exigência da precedência na linha de sucessão a isso conduziria sem dúvida alguma. Disse-me então que essa exigência não era sua, e que lhe era até sumamente antipática. Regozijei-me com ele por esses sentimentos bem dignos do seu cobre carácter. Acrescentei que além de tudo era antipolítica tal pretensão da parte dos seus partidários, pois que se depois de restaurado Dom Manuel no trono, houvesse um atentado contra sua majestade, a eles poderia ser assacado a iniciativa de tão nefando crime por colher neste caso ele Dom Miguel o seu fruto, visto ser o sucessor imediato no trono.

"Quando me fui despedir do Senhor Dom Miguel disse-lhe que apressava a minha partida porque não queria ir a Richmond sem cumprimentar o Senhor Dom Manuel e sua Mãe e não queria cair lá quando as relações entre miguelistas e manuelistas estivessem pior do que nunca."

Não me sentia porém autorizado a referir a nossa conversa que dada a intimidade entre nós punha ser tida por confidencial e por isso insinuei ao Augusto de Magalhães a ir falar-lhe no assunto sem contar porém o que lhe tinha ouvido. O Senhor Dom Miguel repetiu nesse mesmo dia ao Magalhães o que me dissera a mim e eu pude então um grande prazer meu repetir a todos em Londres a opinião do nobre Príncipe sobre as linhas de sucessão o que regozijou a todos. Posso afirmar que só encontrei sinceros desejos de paz e união entre a família real e os monárquicos de Londres mostrando-se a rainha satisfeitíssima e chegando o Luís de Magalhães a desejar o casamento d’El-Rei com a filha mais velha do segundo casamento do Senhor Dom Miguel.

A única coisa que me perguntavam era se o desejo de paz seria bem sincero da parte do Senhor Dom Miguel, o que eu afirmei sob minha honra, pois ele mo tinha expressamente dito “Diga a todos que para o bem de Portugal farei tudo quanto for compatível com a minha honra para que este acordo se faça". Em grande parte por causa destas minhas afirmações reataram-se as negociações que acabaram pelo chamado Pacto de Dover. Repito mais uma vez que não encontrei em todos se não a melhor vontade que o acordo se fizesse.

Um pouco mais tarde chegou Couceiro a Saint-Jean-de-Luz de volta de Londres e a caminho da Galiza para onde voltava. Dizia ela que tudo ficar acordado em Londres. Mas na manhã em que devia partir recebi um telegrama do Magalhães (Luís) para que dissesse ao Couceiro de voltar a Londres. Palpitou-me que o acordo tinha tropeçado mais uma vez e de uma conversa que tivera com o Senhor Dom Miguel havia poucos dias depreendi que seria por dificuldade em achar uma fórmula que Dom Miguel aceitasse e que ao mesmo tempo exprimisse bem o que se pretendia fazer. Disse isto tudo ao Couceiro e que pelo meu conhecimento da pessoa do Senhor Dom Miguel e da sua maneira de encarar os seus deveres para com a memória de seu pai e também para com o seu partido me parecia que a frase a adoptar era de que ele Dom Miguel “punha de parte das suas pretensões à Coroa” para coadjuvar a restauração da monarquia portuguesa na pessoa de Dom Manuel. Disse-lhe mais, que convinha que esta frase fosse por ele Couceiro submetida à aprovação do Senhor  Dom Miguel como sendo achada por ele sem em nada mencionar o meu nome. Couceiro aceitou e eu fui a correr pedir uma audiência imediata para ele ao Senhor Dom Miguel que morava em uma vila pegada à minha e perto do hotel em que ele estava. Tudo se arranjou assim e na volta do Couceiro a correr (porque eram horas do seu comboio), me disse ele que a frase tinha sido aceita com mais ou menos relutância depois do Couceiro ter apelado para o seu patriotismo.

"Quero ainda aqui acrescentar que nunca acreditei nem acredito que tivesse havido a menor ideia de deslealdade na omissão de aquela frase da parte do Senhor Dom Miguel e que fez com que tudo ficasse pior do que antes. Qual foi o motivo, as influências que a isto levaram não o sei, e morto agora o Alexandre nunca provavelmente o saberei."

Passados poucos dias voltava o Couceiro de Londres e me disse que tudo estava enfim terminado e que os dois primos Dom Manuel e Dom Miguel se tinham encontrado na véspera em Dover. Foi-me isso confirmado no dia seguinte pelo próprio Senhor Dom Miguel por sinal que no dia 2 de Fevereiro ao sairmos juntos da missa por alma de Dom Carlos e Dom Luís Filipe, disse-me nessa ocasião que eu devia receber um telegrama do Soveral aceitando ou não que El-rei e a Rainha fossem padrinhos da filha do senhor Dom Miguel que acabará de nascer em Saint-Jean-de-Luz [a Infanta D. Maria Adelaide].

O tal telegrama demorou-se. E em uma conversa que tivemos a esse respeito na sua Vila interveio a Condessa de Bardi [D. Aldegundes de Bragança] de uma maneira bastante desabrida, incitando o irmão que não esperasse mais pela resposta e dizendo coisas desagradáveis d’ El-Rei. O Senhor Dom Miguel não concordou com ela e estranhou o seu procedimento. Em outra ocasião desculpou a irmã como tendo dito o que não pensava, em um momento de exaltação, e frisou bem que não concordava em nada com o que Sua Alteza tinha dito e que estava muito satisfeito com o Pacto que tinha dado o que já de muito desejava dar: a reconciliação. Afinal veio o telegrama tendo-se efectuado o baptizado com a concorrência de todos os portugueses que se encontravam em Saint-Jean-de-Luz e tendo tocado por padrinhos em nome d’El Rei e Rainha o João Caldeira e Marquesa de Rio Maior. Passado tempos recebi carta do Salvador Asseca com cópia da carta do Senhor Dom Miguel em que não aparecia a frase principal que era a que eu tinha dado ao Couceiro, o que era deveras estranho pelo menos, pois as cartas trocadas tinham sido de antemão combinadas e aceites pelos dois príncipes. Reporto-me aqui às cartas do Salvador e mais papéis referentes a este incidente que possuo. Nada podia fazer para esclarecer o caso como desejava pelo motivo que lá vem na carta do Salvador.

No entanto por essa ocasião veio a Saint-Jean-de-Luz o Alexandre de Saldanha e eu tive com ele a conversa a este respeito que escrevi logo a seguir e que guardo nos meus papéis. A ela me reporto aqui. Ficou pois a minha consciência sossegada a este respeito e deliberei seguir a causa de Dom Manuel, o que disse ao Alexandre.

Quero ainda aqui acrescentar que nunca acreditei nem acredito que tivesse havido a menor ideia de deslealdade na omissão de aquela frase da parte do Senhor Dom Miguel e que fez com que tudo ficasse pior do que antes. Qual foi o motivo, as influências que a isto levaram não o sei, e morto agora o Alexandre nunca provavelmente o saberei. É tanto mais para estranhar que essa frase que eu julgava inventada por mim a vim encontrar em uma carta para mim do Senhor Dom Miguel como exprimindo precisamente o seu pensamento, quando depois do regicídio se tratou pela primeira vez destas coisas. Foi pois da minha parte uma reminiscência e não uma invenção como eu julgava.

As minhas relações pessoais com o Senhor Dom Miguel continuaram excelentes depois disto tudo. Conservo mais de uma carta dele tão amável e mesmo, ou melhor, amiga, posterior e estes acontecimentos e sei que me quis uma vez encarregar de uma missão de confiança.

Resumindo este arrazoado que eu não queria tão comprido:

a) Antes do casamento de Dom Miguel filho nunca pensei separar-me da Causa de seu pai embora julgasse que do programa do partido na parte conservadora e católica o que era exequível nos tempos actuais tanto se podia executar com ele como com Dom Manuel.

b) Depois desse casamento vi a impossibilidade de reinar em que em que se encontrava a sua sucessão. E resolvi mesmo separar-me da Causa se eu sobrevivesse ao Senhor Dom Miguel.

c) Depois da revolução trabalhei abertamente pela restauração de Dom Manuel embora me não tivesse separado oficialmente da Causa.

d) Só me separei quando me foi assegurado pelo chefe do partido que essa causa findara, pelo menos como oposição dinástica, e ao mesmo tempo por me julgar a isso obrigado pela minha honra em atenção ao meu papel dos antecedentes do Pacto de Dover.

d) Continuei por palavra e por escrito a tratar por Majestade o Senhor Dom Miguel por cortesia visto tê-lo feito até então e porque afinal o reputo por direito rei legítimo de Portugal.

Veja-se mais a minha correspondência sobre estes assuntos com o Luís de Magalhães então chefe do Comité de Londres.

João Maria da Piedade de Lancastre e Távora

Cascais, de Janeiro de 1917

Legenda da fotografia (em 1912, Saint-Jean-de-Luz):

Vitor Menezes (à esquerda em cima)
Pedro de Lancastre e Távora (à direita em cima)
Sartúrio Pires (à esquerda em baixo)
IX M. de Abrantes, João Maria da Piedade de Lancastre e Távora (à direita em baixo)

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Agradecimentos: 

Maria João Lencastre na digitalização do manuscrito
Nuno Pombo na decifração da letra manuscrita