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João Távora

O V Marquês de Abrantes, ou o "Marquês Velho"

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(em actualização)

Inicialmente, pensei em escrever esta crónica sobre o V e o VI Marquês de Abrantes em simultâneo porque o que nos chega das suas vidas mostram-nas bastante embrulhadas, entre as invasões dos franceses e as lutas contra os liberais, ou seja, ambos com excepcional protagonismo na viragem das mais trágicas páginas da História de Portugal. Refiro-me a D. Pedro de Lancastre, VII Conde de Vila Nova de Portimão e V Marquês de Abrantes – título e mercês que resgata à sua tia-bisavó, D. Maria Margarida de Lorena, IV Marquesa de Abrantes, que morreria sem geração - e seu filho José Maria da Piedade, VI Marquês de Abrantes, que no meio do turbilhão das lutas entre legitimistas e liberais morreria em 1827 com 43 anos desgraçadamente exilado em Londres longe da família, um ano antes do pai.

Mas concentremo-nos em D. Pedro de Lancastre, personalidade porventura excêntrica, sensível às artes e amante do requinte, chefe de uma das mais exuberantes casas nobres do Antigo Regime, de quem nos chegam testemunhos depreciativos através dos diários de William Beckford e das memórias do Marquês de Bombelle, embaixador de França em Lisboa entre 1786 e 1788, ambos o considerando “ridículo”, nomeadamente as suas “infantis e ostensivas manifestações piedosas”.   

No entanto foi o V Marquês de Abrantes o nomeado pela coroa como Presidente do Conselho de Regência na retirada da Família Real para o Brasil, sob “severas recomendações” deixadas pelo Príncipe Dom João para, em defesa da ordem pública, receber o exército francês invasor como “aliado”. Desse cargo viria a ser demitido três meses depois por Junot. Ainda assim, foi escolhido para integrar uma delegação portuguesa a Bayonne para a humilhante tarefa de cumprimentar Napoleão, coisa que terá feito certamente a contragosto acompanhado pelo seu filho primogénito José Maria de Lancastre. Certo é que, perante as notícias da revolta dos portugueses apoiados pelos ingleses contra os invasores, os dois ficaram detidos em França como reféns até ao final da Guerra Peninsular em 1814. Não tendo propriamente estado presos num carcere, presumem-se terem estes anos sido muito duros para os meus antepassados.

Sobre os gastos sumptuários do V Marquês de Abrantes, sabemos que Dom Pedro de Lancastre foi responsável por grandes obras no Palácio de Santos, empreendidas entre 1802 e 1805, incindindo sobre duas grandes áreas do edifício: o corpo principal da ala fronteira e respectivo acrescento de dois vãos, a ala paralela ao Tejo sobre os jardins, e a construção do coro da Igreja de Santos o Velho que inclui as duas grandes tribunas actualmente existentes, uma para a família e a outra para a Irmandade do Santíssimo de Santos o Velho. São da mesma altura os trabalhos de ornamentação das salas de recepção: casa de jantar, galeria e salão principal, orientadas por Felizberto António Botelho que dirigia uma equipa que chega a ser constituída por dez pintores, alguns deles artistas consagrados. Nem sonhava o “marquês velho”, como viria a ser chamado, os tempos conturbados que se aproximavam – não posso deixar de concluir que a má leitura das realidades da época evidenciada por esta figura representativa do antigo regime é prenúncio da sua queda.

Do bom gosto e erudição do V Marquês de Abrantes decorre também o seu apoio à música como refere Joseph Scherpereel num artigo publicado em 1999 na Revista Portuguesa de Musicologia, “Patrocínio e «Performance Practice» em Lisboa e proximidades na segunda metade do século XVIII e começo do século XIX”, tendo Dom Pedro de Lancastre chegado a desembolsar uma média anual entre seiscentos e setecentos mil réis (uma soma avultada para a época) em patrocínios musicais no decénio de 1790.

De resto a má gestão da Casa de Abrantes não estará certamente desligada do enorme rasto de filhos bastardos (comportamento já não muito aceitável na época) que Dom Pedro de Lancastre deixa para trás, dos quais legitimou três, o terceiro deles filho de Plácida Scapesis, cantora lírica italiana. Era literal e definitivamente um grande amante da música.

Certo é que Dom Pedro de Lancastre foi “demitido” da administração da Casa de Abrantes por decreto régio que a atribui ao seu filho José Maria da Piedade, assim como o uso do título de Marquês em vida do seu pai, facto que não sendo caso único, era pouco comum na época – a intervenção da coroa na “defesa” das grandes casas senhoriais - e terá certamente causado algum escândalo na sociedade.

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Casado com D. Maria Joana Xavier de Lima, filha dos primeiros Marqueses de Ponte de Lima, dessa união teve quatro filhos. Com uma vida aventurosa e acidentada, profundamente ligado à causa legitimista de Dom Miguel, ainda teve tempo de com ele participar na insurreição Vilafrancada, tendo-se retirado depois para o Palácio de Marvila onde morre em 1828 um ano depois da nomeação de uma junta administrativa para evitar a falência da sua Casa provavelmente sem saber porque fora nomeado Par do Reino por Dom Pedro IV um ano antes. O País ainda mal refeito das invasões francesas estava prestes a entrar em guerra civil, o seu filho mais velho morrera em Londres - suspeita-se que assassinado pelos seus adversários políticos por envenenamento – e a viúva Helena Vasconcelos e Sousa, tomava em suas mãos a administração da Casa e segurava o património de família. É sobre a vida trágica do seu marido e meu quarto avô, o VI Marquês de Abrantes, que versa a próxima crónica.

Legendas das fotografias:

  • Fotografia 1 

Dom Pedro de Lancastre, aguarela da autoria de Sta. Bárbara. 

  • Fotografia 2

Palácio do Marquês de Abrantes em Marvila

Fontes: 

"A Heráldica da Casa de Abrantes", vol. 2 do Tomo 4, por Luís de Lancastre e Távora

"Le Palais de Santos" por Pierre Samoyault

"Quinta de Nossa Senhora da Piedade - História do Seu Palácio Jardim e Azulejos" por Celso Mangucci

“Patrocínio e «Performance Practice» em Lisboa e proximidades na segunda metade do século XVIII e começo do século XIX” Joseph Scherpereel - Revista Portuguesa de Musicologia, 1999

Documentos de família e testemunhos orais

São as histórias que nos salvam

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Vem-nos da infância o irresistível fascínio por histórias. Uma história que nos resgate do vazio, dos medos e angustias, da fria solidão que se esconde na camada mais interior de nós mesmos. Talvez por isso, naquele sombrio lusco-fusco de alma que era a hora de adormecer, da criança largar as amarras ao dia agitado pelos espantos, afectos e sensações novas, antes do mergulho no escuro, na ausência, fosse tão precioso consolo ouvir uma boa história contada pelo pai ou pela mãe à beira da nossa cama.

Se na infância é uma boa história que nos salva a vida, não o é menos na maturidade; afinal passamos a vida à procura de histórias, somos caçadores de histórias, que nos restabeleçam as energias e o ânimo para abraçar a luta diária de deveres e maçadas. É assim que nos descobrimos ávidos por uma história oculta num retrato todo formal, numas ruínas duma casa, numa obscura gravação sonora antiga ou nas glórias passadas exibidas em símbolos, num emblema ou brasão de armas ou através de testemunhos confidenciados em documentos amarelecidos pelos séculos. A perdermo-nos num nunca acabar de pistas e enigmas, de parentescos por desvendar, contradições que reclamem pela nossa curiosidade e atenção, e a não menos necessária especulação, que no fim do dia nos permita ganhar uma história que nos resgate para longe das nossas misérias, da nossa precaridade, que nos expanda para outros horizontes temporais e existenciais. A descodificar, a investigar as pontas soltas duma história mal contada, numa relação íntima, o mais das vezes um mensageiro do passado, a que nos rendemos como a um velho amigo. Através de frases que nos chegaram por testemunhos vividos (quase sempre temos direito a uma tia ou parente com uma memória prodigiosa, repositório de mil e uma histórias), caracteres desvendados em vetustas fotografias que carecem de nomes; feições ou trajes, recados nas entrelinhas de diários ou cartas. As condecorações retratadas ao peito dum ufano antepassado do século XIX dizem muito das suas andanças políticas…  

Se é esse o trabalho do historiador, sistematizado com as suas ferramentas, métodos científicos e ciências auxiliares, esta é também uma actividade eminentemente humana, responder à democrática inquietação que nos desafia a enfrentar o mistério, descobrir os dramas que se escondem à nossa volta, as peças escondidas de um puzzle sempre inacabado, que reclama pela nossa curiosidade e onde vamos à procura de mais humanidade, quem sabe o projecto de Deus lá escondido. Era isso que procurava o meu pai, que venho redescobrindo tardiamente pela sua obra historiográfica, estudos e publicações, em particular à volta da genealogia e da heráldica medieval. Agora percebo que o que ele pretendia não era apenas listar nomes e ligações genealógicas, ou enumerar as regras e as formas dos antigos “emblemas” de famílias ou comunidades geográficas. O que o meu pai procurava era conhecer as pessoas que daí emanavam e quem sabe descobrir alguma história. Porque a história é feita de histórias com pessoas lá dentro, de onde resgatamos a nossa humanidade.  

Primeira Comunhão

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Descubro-me nesta fotografia – partilhada pelo meu amigo Manuel Castro Fernandes - tirada há exactamente 53 anos quando o Colégio “Nosso Jardim” não hesitou organizar no dia de Santo António a Primeira Comunhão dos seus meninos – na altura ninguém fazia pontes, ou as prioridades eram levadas a sério; era possível mobilizar um colégio inteiro para este propósito num feriado.

Sou o segundo da fila da esquerda com uma pala no olho, que era uma terapia na moda contra o estrabismo que me foi inteiramente nunca foi curado. Ver o mundo com um olho estrábico tem-me ajudado muito a percebê-lo, se querem que vos diga.
Lembro-me bem desse dia, nomeadamente de uma Bíblia Ilustrada que recebi de presente e de umas sandálias brancas que detestava e que a minha mãe fez questão de fazer render naquele Verão. Foi a primeira de muitas comunhões a uma comunidade a que retornei com muita convicção já crescido: sou dos de Cristo.

A maçã de Adão

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Talvez a festa dos 50 anos do Adão e Silva inclua uma cimeira de chefes de Estado, uma ópera, um festival de cinema, outro de teatro, um pavilhão novo no Parque das Nações e uma ida à Lua - eventos é connosco. Talvez assim justifique o orçamento - afinal temos de gastar a massa da bazuca, não é?

Agora a falar a sério: acho um enorme disparate um festejo demasiado ostensivo do regime pelos seus autoproclamados donos. Cada vez é mais evidente a fractura social entre os que pagam e os privilegiados que usufruem economicamente dele - com pensões, empregos e privilégios garantidos. Se assim for, previsívelmente as celebrações dos 50 anos do 25 de Abril irão resultar ao contrário do pretendido - o nível de rejeição vai ser muito alto, mais ainda se a previsível crise económica post-covid se confirmar para os próximos anos. Somos um país muito, muito empobrecido, dos mais pobres da Europa, pouco preparado para o que aí vem. Por isso é que esta comissão do Adão e Silva é chocante, e uma enorme falta de sensibilidade política.

A propósito da gestão da crise sanitária…

Estava há bocado a ouvir o Rui Ramos no programa “E o resto é história” a desmontar falácia por falácia o celebre ensaio “A Causa da Decadência dos Povos Peninsulares” (deu-me tanto gozo, meu Deus!), tão bem escrito pelo mestre da prosa que foi Antero de Quental, suportado nos mais cientificos e estruturados preconceitos republicanos da época, terminando o historiador por asseverar que a historiografia actual reconhece que em termos relativos Portugal foi muito mais avançado nos séculos XVII e XVIII. Foi quando me apercebi da inquietação em que ficou o João Miguel Tavares e fiquei a pensar como estamos sempre a cair na mesma esparrela da arrogância de querer encaixar a realidade complexa em explicações simples e convenientes que tranquilizem e caibam na nossa cabeça quadradinha. 

Morrer na praia… ou por não querer viver

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Estranho é encontrar tanta gente convencida que era possível convidar os ingleses para vir ver a bola e beber uns canecos ao Porto e obrigá-los (à bastonada?) a usar máscara e a circular com distanciamento. Na sua habitual crónica no Jornal Público, João Miguel Tavares explica explica como o governo inglês recusou a realização da final da Liga dos Campeões que este ano se realizava entre duas equipas inglesas em Wembley, um estádio neutro, por rejeitar as isenções de quarentena exigidas pela UEFA. Tenho para mim que a razão terá sido outra, o ónos político duma "experiência social" deste calibre, assustada que anda a opinião pública britânica. Já o governo português aceitou o risco (político, não sanitário, evidentemente) de trazer cá os bifes “como se o país fosse uma casa de câmbio desesperada pela liquidez da moeda estrangeira” e António Costa, “um empregado de pastelaria da praia da Oura, nos anos oitenta” a destratar os portugueses. Ou seja, o que o cronista releva essencialmente é que somos muito pobres e que, quarenta anos de socialismo depois, talvez com um pouco mais de sofisticação, continuamos a ser um país de hoteleiros, uma gigante esplanada da Europa à beira-mar - melhor que nada. E salienta que as restrições relativas ao Covid-19 são uma panaceia de gente rica, que não está ao alcance do nosso bolso enquanto a economia dos portugueses for tão dependente do turismo – só ontem aterraram em Portugal 53 voos vindos de Inglaterra – “condenados” a receber muitos milhares de turistas para alívio dos empresários e da autoridade tributária. Desconfio que quase tão difícil quanto nos libertarmos do socialismo que nos oprime, vai ser reaprendermos a viver em liberdade, sem restrições, que o pessoal habitua-se a tudo. Ou então, como já reclamam as carpideiras hipocondríacas, estaremos nós condenados neste Verão a morrer na praia infectados com a estirpe indiana?