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João Távora

A minha enxada

Enquanto o mundo inteiro andava entretido com prioridades inadiáveis e assuntos de suma-importância, na terça-feira passada quando enviava um orçamento a um cliente, o meu fiel computador portátil já com doze anos de trabalho em cima e algumas letras do teclado desvanecidas, entregava a motherboard ao criador. E eu a pensar que tinha uma vida difícil... privado da minha enxada, vi-me subitamente numa grande aflição - que foi como se me tivessem cortado os dois braços. Claro está que adquiri logo um novo que me chegou cheio de mariquices que é donde agora vos escrevo esta crónica. Evidentemente que desde ontem tenho andado fanaticamente a formatá-lo para que a organização, funcionalidades e eficiência se pareçam tanto quanto possível com o meu defunto companheiro. Certo é que com estes maus-tratos iniciais já perdeu aquele irritante ar imaculado e daqui a uns dias nos iremos entender às mil maravilhas. Mas pronto, é só a minha enxada e a vida dos outros continua como se isso fosse óbvio.

Sintra, 1962

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Gosto muito desta fotografia, julgo eu que tirada pelo meu pai no jardim da nossa casa em Sintra (foi morada de família durante cerca de dois anos antes de irmos em definitivo para Campo de Ourique) cálculo que verão de 1962. Com um ótimo enquadramento, nela figuram a minha saudosa avó Xunxinha, Condessa de Castro, que tanto marcou a minha infância; ao seu colo está o meu irmão José e à esquerda o meu primo homónimo João de Castro, que foi também um belo companheiro de brincadeiras e até de escola, com o olhar atraído pelo carro de plástico que está no chão.

A metáfora dos pilaretes

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Sou sempre muito crítico com as regras e restrições que me impõem talvez porque fui educado para cumpri-las ao contrário da maioria dos meus compatriotas. A praga dos pilaretes que empestam as nossas cidades, e a de Lisboa em especial, é toda uma metáfora da nossa dificuldade de viver em liberdade. Os portugueses têm uma relação ambígua com as regras, relativizam os princípios que gostam de usar consoante as suas conveniências a cada momento – não, não somos rebeldes, apenas oportunistas (o exemplo chega-nos de cima). Se um automóvel estacionado em segunda fila bloqueia a sua saída, o português, ufano do alto do seu apurado sentido de justiça vocifera contra a falta de civismo alheia, independentemente de no dia anterior ter feito o mesmo – talvez sem consequências de maior a não ser empatar o tráfego - só para beber a bica ao fundo da avenida a caminho do escritório.

O que seria dos nossos passeios, das nas nossas ruas e calçadas, sem os pilaretes de que toda a gente se queixa por serem inestéticos ou armadilhas para os invisuais ou os mais distraídos? Todos nos lembramos a balburdia do estacionamento automóvel quantas vezes impedindo a passagem de peões antes de surgirem os malditos pilaretes.

Mas o importante é percebermos como nos relacionamos com as regras de civilidade estabelecidas e a atenção ao próximo para entender se merecemos ou não ser tratados como crianças pelas “autoridades” que no sofá em frente à televisão bajulamos a vê-las por na ordem os hooligans da equipa adversária, mas que desprezamos quando nos manda parar numa operação stop por excesso de velocidade, quando julgávamos que ninguém nos estava a ver.

Voltando ao início desta conversa: sou muito crítico com regras e restrições, gosto de indagar sobre o seu sentido e protestar pela falta dele, porque fui educado para obedecer.  No fim de contas acabo por entender o porquê de nesta fase da pandemia sermos um dos povos da Europa que ainda reclama por mais e mais restrições (caso contrário o goveno já as tinha aliviado há muito): isso acontece porque cultivando o chico-espertismo (o exemplo vem de cima), poucos são os que lhes obedecem verdadeiramente, pois que cada um se sente no direito de ser excepção.

Não nos queixemos portanto de viver num emaranhado de pinos e pilaretes. Essa é a única forma dos portugueses comportarem-se com civilidade, e um sinal do nosso grande atraso. Temos aquilo que merecemos, somos tratados como criancinhas com direito a uma ração ao final do mês. Triste sina a nossa.  

Os bares, as discotecas e o puritanismo impante

No início achava que demasiados artistas sobrevalorizavam a importância da dança e entretinha-me com boas canções e poemas desafiantes. Rapazes e raparigas que mal se conheciam a dançarem freneticamente melodias simples com ritmos fortes? Não percebia o interesse.

Chegado à adolescência, rapidamente fui convertido a esses rituais rebeldes, tantas vezes mal aceites pelos adultos: de tarde ou de noite, e quantas vezes até de madrugada, dancei até próximo da loucura, em festas particulares, do liceu ou em espaços próprios, fosse no Jamaica, no Tokyo ou no 2001 no Estoril de onde saia com os ouvidos a apitar - desse modo conheci algumas miúdas bem giras.

Foi assim que me fiz uma pessoa inteira e livre e escolhi o meu caminho, acidentado é certo; mas graças ao qual, anos mais tarde conheci a minha mulher com quem casei para fazer família. Livre, com conhecimentos de causa - sabe Deus!

Nesse sentido suspeito que ainda estão por avaliar as mais profundas cicatrizes da paranóia do Covid19 na geração dos meus filhos. Que têm da minha parte total autorização de serem livres para gozarem em plenitude o que é próprio da sua idade.

Na clandestinidade se assim tiver de ser - diga-se.

O VI Marquês de Abrantes, o exilado

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Esta é a trágica história de D. José da Piedade, meu 4.º avô paterno. Reconhecido como VI Marquês de Abrantes ainda em vida do seu pai, que lhe sobreviveu, cedo se iniciou nas lides políticas a seu lado, tendo começado precocemente a pagar o preço de ser o primogénito de uma das casas nobres mais prestigiadas do Antigo Regime em estertor. Com aquilo que pude apurar, vejo-o como um espírito forte e carácter intrépido, porventura algo ingénuo ou voluntarista, que se tornou uma espécie de mártir do regime, por via da forma como se entregou às suas crenças e se empenhou nas causas a que foi chamado dar o corpo ao manifesto. Primeiro enfrentando os invasores franceses e depois na luta pela causa tradicionalista, pelos valores e convicções contra-revolucionários de que a sua família emergia e era pilar. Desse modo, cedo se tornou valido do Infante D. Miguel, com quem desenvolveu grande cumplicidade e ao lado de quem participou em conspirações e intentonas, até cair em desgraça acusado dum alegado assassinato. Certamente não sabia que estava a lutar contra os ventos que a História seguiria, e por isso pagaria elevado preço. Aliás, todos nós pagámos e continuamos a pagar os custos desse maldito espírito revolucionário a que o povo português é especialmente volúvel.

Filho de D. Maria Xavier de Lima e de Dom Pedro de Lancastre, D. José Maria da Piedade de Lancastre Silveira Castelo Branco de Almeida Sá e Meneses nasceu em 1784 e foi o VI Marquês de Abrantes. Começou por seguir a carreira militar aos 17 anos como era próprio dum rapaz com aquele estatuto, tendo começado como Ajudante de Campo do Marechal Duque de Lafões (1716-1806). Foi pouco mais de um ano depois de casar com D. Helena Vasconcellos e Sousa que viria a interromper o seu serviço no exército em 1807: por ocasião da primeira invasão francesa viu-se na obrigação de acompanhar o seu pai, presidente do Conselho de Regência, a Baiona numa delegação portuguesa para prestar vassalagem a Napoleão e negociar a entrega da Coroa portuguesa que, como sabemos, se ausentara para o Brasil. Na sequência disso, perante as notícias da revolta dos portugueses apoiados pelos Ingleses contra os invasores, com o seu pai sofre um grande revés, ficando detido em França como refém do Imperador até ao final das Guerras Peninsulares, em 1814. Curiosamente chegam-nos notícias que durante esse cativeiro José da Piedade, então com 25 anos, tirou o curso agrícola do botânico André Thorin enquanto esteve detido em Paris. Regressado a casa mantém-lhe o gosto e constitui-se sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa.

Na sua vida política, José da Piedade, envolvido nos negócios da corte, cedo abraçou a causa tradicionalista com o Infante Dom Miguel de quem foi valido. Dessas andanças lhe advém a maior das desgraças, pelo seu protagonismo "com um bando de campinos armados" na insurreição da Vilafrancada a 27 de Maio de 1823 (curiosamenete Vasco Pulido Valente no seu brilhante ensaio  “A contra revolução (1823 – 1824)” reclama que a proclamação por Dom Miguel do rei "restituido aos seus direitos" terá ocorrido no morgado da Póvoa da família Abrantes e não em Vila Franca de Xira) um ano depois no falhado pronunciamento Abrilada de que falaremos a seguir, e — pior que tudo — com a acusação da autoria, em conluio, com o Infante do alegado assassinato do Marquês de Loulé, em Salvaterra de Magos, na noite fatídica de 29 de Fevereiro de 1824. Esse acontecimento irá valer-lhe a prisão, o exílio, e inevitavelmente o ostracismo da corte, incluindo de Dom Miguel também ele em posto em maus lençóis, enviado de castigo em passeio pela Europa por ordem de seu Pai.

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Que se terá passado em Salvaterra onde boa parte da Corte, fracturada nas duas facções beligerantes, se reunia no teatro do Paço para celebrar o Carnaval em grande folguedo na companhia de Dom João VI, a ensaiar a farsa Manuel Mendes Enxúndia de António Xavier Ferreira de Azevedo e uns quantos «arremedilhos» (um antigo género de teatro baseado em imitações, comummente de figuras públicas) com que abrilhantariam a Terça-feira Gorda?

Para lá da jornada de festa, estavam em acirrado confronto, naqueles anos que antecedem a Guerra Civil, duas concepções antagónicas do Estado: o fundamento religioso e realista do mesmo — as velhas estruturas nacionais fundadas nas famílias e na religião — e o representativo e proto-republicano apoiado pela academia ascendente e pela maçonaria afrancesada, a «pestilenta cáfila dos pedreiros-livres». Ao meio deste assanhado antagonismo, Dom João VI procurava empenhadamente equilíbrios, que todavia se mostravam insustentáveis. A disputa era deveras fratricida.

A morte do Marquês de Loulé, Estribeiro-Mor e pessoa muito próxima do Rei, naquelas misteriosas circunstâncias e sob um clima de acirrada intriga política, constituiu um enorme escândalo. Vasco Pulido Valente na obra atrás referida, ao seu estilo é taxativo: “Em 28 de Fevereiro, por ordem de Dom Miguel, o marquês de Abrantes e alguns criados mataram à paulada o marquês de Loulé no palácio de Salvaterra, a dois passos do rei” com a intenção de “isolar Dom João e derrubar o governo”. No entanto não fundamenta a sua tese, que não seja na notícia veiculada pela Gazeta de Lisboa onde se afirmava ter sido um crime, e na opinião do Embaixador de França, Hyde de Neuville. Será que leu os relatórios da devassa mandadada instaurar por D. João VI? A verdade é que nos inquéritos iniciados no dia seguinte à tragédia foram desde logo inquiridas 130 testemunhas em Salvaterra, num longo processo que resultou inconclusivo e foi encerrado um ano depois. Se para uns a morte de Loulé não teria passado de um terrível acidente (queda por uma “porta” que saía dum escuro corredor directamente para um saguão com quatro metros de altura, que ali surgira na sequência da derrocada do edifício anexo, entretanto ardido, sob o “efeito dos vapores do álcool” que o sinistrado teria bebido durante o serão de ensaios e folia), para grande parte das testemunhas o acontecimento fora um crime perpetrado a mando de Dom Miguel em conivência com D. José da Piedade e o Sota Leonardo Joaquim Cordeiro, com 40 anos, cocheiro das reais cavalariças e pessoa muito próxima do Infante, morador nos Anjos e em casa de quem viria a reunir um mês depois com os oficiais do exército na preparação da Abrilada. Sob suspeita estava também D. Francisco de Sales Lancastre, o único filho natural reconhecido ao VI Marquês de Abrantes, 24 anos, e que na ocasião acompanhava seu pai. Interrogado como testemunha na devassa, nenhum ilícito foi assinalado contra ele. Outras testemunhas atribuiriam culpas a conspirações maçónicas. É o caso de D. José da Piedade, que declarou no interrogatório ter-lhe sido dito por D. Miguel que o assassinato afinal «seria obra de pedreiros livres, por não querer o Marquês [de Loulé] fazer alguma coisa que eles lhes pedissem». Pelo que nos é dado ler nas devassas transcritas no livro de António Cabral Uma Tragédia na Corte: A Morte do Marquês de Loulé (1936), todas elas constituem meras opiniões, sendo difícil através das mesmas chegar a conclusões irrefutáveis. 

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Para desgraça do Marquês de Abrantes, ao lado de Dom Miguel vai assumir — apenas um mês depois — grande protagonismo na Abrilada, um pronunciamento fútil que resultará na capitulação deste (contra a vontade do Marquês) perante a posição intransigente do rei Dom João VI, que mandaria prender os principais partidários do filho. Esta derrota resultaria na retirada «punitiva» do Infante para uma viagem pela Europa e na expulsão do Marquês de Abrantes para o exílio, depois de passar pelos calabouços da Torre de Belém, onde novos interrogatórios tentariam inculpá-lo do assassinato de Loulé.

Estava Dom José da Piedade caído definitivamente em desgraça. Num Decreto Real de indulto, publicado em 24 de Junho de 1825, a acusação ao VI Marquês de Abrantes é mantida, sendo condenado ao exílio com os mais próximos participantes no pronunciamento. Nesse decreto pode ler-se:

Da generalidade d’este indulto e perdão exceptuo somente os indivíduos, que mais se cumplicaram e manifestaram constituindo-se como chefes, e fautores da federação para tão abomonáveis crimes, os coaes deverão sahair em direitura para fora dos meus reinos, e não poderão voltar a eles, sem expressa licença minha, expedindo-se-lhes para esse effeito os passaportes necessários. Com esta limitação de que não pode prescindir a Minha indefectível justiça, gozarão estes mesmos réos das outras graças aos mais. Os exceptuados vão inscriptos na relação junta, assignada por Fernando Luís de Sousa Barradas, do meu Conselho de Estado e Meu ministro e Secretário d’ Estado dos Negócios Ecclesiasticos e de Justiça a qual faz parte do presente decreto.

Eram eles os infelizes “exceptuados”: D. José da Piedade - Marquês de Abrantes; Inácio António de Paiva Raposo - Tenente de Caçadores 6; Dr. António de Paiva Raposo – Advogado; Carlos António de Gambôa – Ten. Corel. De Milicias de Trancoso; Manoel António Cotta Coelho de Araújo – Médico; Sebastião Duarte de Ponte de Andrade Negrão – Cap. Mor de Albufeira; José Veríssimo – Sarg. De Cavalaria da Polícia e o Leonardo Joaquim Cordeiro – Sota das Reais Cavalariças.

Importa saber quem era, afinal, Agostinho Domingos José de Mendoça Rolim de Moura Barreto, o Marquês de Loulé [1780-1824], estribeiro-mor de D. João VI. Homem da confiança do rei que em tempos fora maçon de grande importância, conseguiu ser condenado à morte por traição, pela sua ajuda às tropas napoleónicas nas invasões francesas. Desse crime viria a ser perdoado por Dom João VI, na sequência duma viagem que empreendera ao Brasil com o propósito de lhe implorar perdão. Partidário das ideias liberais, a sua carreira política e militar alimentou uma forte rivalidade e hostilidade com o VI Marquês de Abrantes.

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Considerado principal suspeito, recusando todas as acusações que sobre si incorriam, o meu 4.º avô defendeu sem sucesso a tese de que o assassinato do Marquês de Loulé bem podia ter sido congeminado pelos seus antigos companheiros da Maçonaria, por causa da sua deserção, ou até pelo facto de possuir segredos que os outros maçons, entre os quais o Conde de Paraty — D. Miguel Rafael António do Carmo de Noronha Abranches Castelo Branco (1784-1849) —, receavam ver divulgados.

O VI Marquês de Abrantes foi preso na raia de Espanha, para onde tentava escapar depois de falhada a Abrilada. Assim regressou aos calabouços da Torre de Belém, e interrogado de novo, entra em graves contradições: defende a certeza da inocência do Infante, mas por outro lado afirma que aquele Senhor «guardava grande reserva e dissimulação no que queria», insinuando as suas suspeitas por saber da aversão que o Infante nutria por Loulé «por motivos particulares a que não estava autorizado a referir-se», como por lhe parecer uma espécie de «reparação» a nomeação pelo Infante do filho natural de Loulé como seu camarista após a tragédia. Este depoimento desastrado, que revela um homem desesperado e abandonado, temendo pela pior das sortes, chegaria ao conhecimento de Dom Miguel. De acordo com os ofícios do embaixador de Portugal na corte austríaca, Dom Miguel não mais abriu a correspondência do seu valido D. José da Piedade, a quem apelidaria de «desavergonhado», e que do seu exílio em Londres implorava por uma audiência que nunca aconteceu.

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Não sabemos até que ponto o Infante Dom Miguel estaria a agir em plena liberdade, tanto mais que permanecia «de castigo» em Viena, num «exílio» ordenado por seu Pai, Rei de Portugal, e a quem o embaixador respondia. Tendo o meu 4.º avô morrido em 1827, e o Infante regressado a Lisboa no ano seguinte, não podemos saber qual seria a atitude de Dom Miguel para com ele nos acontecimentos que se sucederam. No entanto, sabemos que se reencontrou com o Sota Leonardo Joaquim Cordeiro, também ele feito bode expiatório e condenado ao exílio, pessoa de grande proximidade ao Marquês de Abrantes (cujos testemunhos ambíguos tinha validado na devassa, nomeadamente o facto do Senhor Infante nunca mais ter falado da morte de Loulé, donde concluía que ele «ou por si ou por outrem tinha conduzido aquelle delicto para os fins que tinha em vista, que provavelmente erão os de trinta de Abril [a Abrilada], e os com elle conexos»).

Como terá passado o meu avô esses dois anos em exílio permanece um mistério. Quanto sei, não se encontra na posse da família qualquer correspondência desse período — nessa altura a Casa de Abrantes não estaria ainda refeita de uma grave crise financeira.

Julgando estar incluído na amnistia promulgada aquando da morte de D. João VI, D. José da Piedade tentou voltar a Lisboa, mas o ministério não lhe permitiu desembarcar. Rejeitado em Lisboa voltou a Londres em Novembro de 1826, para, estranhamente, morrer de apoplexia em Fevereiro do ano seguinte, por ocasião duma visita ao embaixador de Portugal. Suspeita-se na família que tenha sido envenenado. Segundo o Evening Mail de 19 de Fevereiro de 1827, os seus restos mortais foram depositados nas criptas do templo católico de Moorfields, onde decorreram as cerimónias fúnebres, a que compareceram o próprio embaixador e muitos portugueses residentes em Londres.

Contactada a paróquia em Londres para saber onde estará o corpo do meu avô, fui informado que, tendo a igreja sido demolida em 1899, os corpos nela enterrados até 1853 foram transladados para um cemitério católico em Wembley actualmente encerrado e sem lápides visíveis. Até à data ainda não conseguimos obter resposta por parte do serviço de arquivos da Igreja de St. Joseph's para onde os mesmos terão sido transferidos, e esperamos contenham respostas às nossas dúvidas. 

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Cerca de um ano depois, supomos que em grande angústia, morreria no Palácio de Marvila o V Marquês de Abrantes, seu pai. Por cá ficaria a viúva Marquesa de Abrantes, D. Helena Vasconcellos e Sousa, a criar os dois filhos, Pedro Maria e José Maria, ao mesmo tempo que procurava resgatar a Casa de Abrantes da ruína financeira.

Filha dos Marqueses de Castelo Melhor, nascida em 1786, tem o seu retrato lugar de honra na minha casa: como conta o meu pai, «D. Helena foi senhora de carácter forte e intrépido e também como o marido, fiel partidária de Dom Miguel». E com certa ironia, depois da morte do seu marido abandonado por todos em Londres, foi ela quem organizou a chamada «Pensão Alimentícia» ao Senhor Dom Miguel, recolhida de um grande número de seus partidários em Portugal. Acrescenta o meu pai que «ao ficar viúva, soube chamar a si a educação dos seus filhos, regendo e administrando a Casa, que ficara muito diminuída com a vitória do partido liberal». Para reforçar a ideia do génio que possuía a Marquesa D. Helena, conta o meu pai que, não tendo ela aceitado bem o casamento do seu filho mais velho D. Pedro Maria da Piedade (VII Marquês de Abrantes) com a filha dum desembargador, D. Joana Perpétua Feo Sanches Guião, «sempre ela se recusou a receber em casa o seu filho e nora», atitude tão excêntrica «visto que, tendo o VI Marquês de Abrantes morrido antes da extinção dos morgadios, ficara sendo seu filho primogénito o único senhor de toda a Casa». D. Pedro, diga-se, morreu aos 31 anos sem deixar geração, tendo a administração da Casa sido herdada pelo seu irmão José. 

Nunca na família se verificou qualquer rancor a estas desventuras do VI Marquês de Abrantes com o Infante Dom Miguel, tão angustiantes quanto mal contadas. Até o seu filho segundo, com o mesmo nome, Dom José de Lancastre, aquele austero poeta e filósofo que anteriormente biografei, foi um fiel partidário Tradicionalista. Dele, D. João de Almeida publica postumamente Algumas notas coligidas em Bronnbach, após o falecimento de El-Rei D. Miguel I, pelo Sr. Marquês de Abrantes Dom José de Lancastre, sobre o assassínio do Marquês de Loulé em Salvaterra, e narrando a despedida do Senhor Dom Miguel de seu pai a bordo da nau inglesa, quando o Sr. Infante depois da Abrilada, foi mandado viajar pela Europa. Uma brochura com que pretende provar a inocência do seu rei e do seu pai neste trágico evento, da qual possuo um exemplar.

Talvez não seja estranho a tudo isto que, da longa galeria de retratos dos marqueses de Abrantes e seus ascendentes que era propriedade da Casa de Abrantes (com alguns dos quais convivi quotidianamente), não exista pintura, desenho ou aguarela do VI Marquês de Abrantes, com que era tradição, desde o século XVI, a família perpetuar na história as suas maiores e principais personalidades. Dom José da Piedade, o exilado, é o único senhor da Casa que tendo chegado à idade adulta não possui qualquer imagem ou representação gráfica. Com uma existência breve, tão agitada quanto aventureira, imagino que pouco tempo deve ter tido para comungar com os seus filhos e mulher uma vida normal, muito menos terá tido sossego para posar umas dúzias de horas à frente dum retratista.

Mas o mais irónico desta história toda plena de matizes e mistérios, é que a Casa de Abrantes não muito tempo depois se cruzou de novo com a família Loulé, nomeadamente através do aluguer — em 1853 — de parte do seu palácio em Santos, então sob administração do filho segundo do nosso protagonista, à infanta D. Ana de Jesus Maria, casada com o 2.º Marquês e 1.º Duque de Loulé. Caso para dizer: ironias do destino…

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Imagens:

1) Chegada a Vila Franca do Infante Dom Miguel.

2) Aspecto do Real Teatro de Ópera de Salvaterra de Magos, hoje totalmente desaparecido.

3) Retrato de Domingos José de Mendonça Rolim de Moura Barreto, o Marquês de Loulé.

4) O palácio dos Marqueses de Abrantes em Santos, Lisboa (actual Embaixada de França).

5)  Retrato da Marquesa de Abrantes, D. Helena Vasconcelos e Sousa.

Fontes:

A Heráldica da Casa de Abrantes, vol. 2 do tomo 4, por Luís de Lancastre e Távora.

Le Palais de Santos de Pierre Samoyault, Éditions Internationales du Patrimoine, Paris, 2011.

Quinta de Nossa Senhora da Piedade. História do Seu Palácio Jardim e Azulejos por Celso Mangucci, Vila Franca de Xira, 1998.

«Patrocínio e Performance Practice em Lisboa e proximidades na segunda metade do século XVIII e começo do século XIX», de Joseph Scherpereel, Revista Portuguesa de Musicologia, 1999.

“O Fundo da Gaveta” Vasco Pulido Valente (Dom Quixote 2018)

Documentos de família e testemunhos orais

Com um agradecimento especial ao meu amigo e bom conselheiro Nuno Pombo

À conquista da liberdade

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Faz-me muita impressão a quantidade de moralistas por aí a julgar os pais dos alunos da escola de Famalicão por terem princípios e quererem aplicá-los na educação dos seus filhos. Esquecem-se que a coerência é a única maneira de nos fazermos entender com as crianças. Toda esta novela que ainda não acabou, é uma lição de amor condenada ao sucesso (a felicidade dos filhos), porque estes miúdos são uns privilegiados - têm pais que olham por eles.

Mal andam os pais que delegam acriticamente a responsabilidade da formação dos seus filhos ao Estado e às modas das maiorias ruidosas de circunstância.