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João Távora

O Senhor D. Luís, um fidalgo na república

Uma biografia do X Marquês de Abrantes

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(em actualização)

Começo estas “crónicas de família” por vos contar um pouco sobre o meu pai, o 10º Marquês de Abrantes. Profundamente envolvido o autor com o biografado, e, portanto, com evidentes dificuldades de avaliação objectiva de muitos aspectos da sua vida, para além de um projecto de memórias por si iniciado e nunca terminado, para escrever esta crónica servir-me-ei de alguns testemunhos de seus amigos e confrades, principalmente os expressos aquando da homenagem por ocasião dos 25 anos sobre a sua morte, prestada pelo Instituto Português de Heráldica em 2018.

Luiz de Gonzaga de Lancastre e Távora nasceu no 2° andar do número 129 da Calçada da Estrela a 8 de Fevereiro de 1937, num dia de Carnaval, nas suas palavras “filho terceiro e primogénito varão de meus Pais” (1) os IX Marquês de Abrantes D. José Maria da Piedade de Lencastre e Távora e D. Maria Emília de Carmo do Casal Ribeiro Ulrich, chegados a Lisboa havia pouco mais de um ano antes do Luxemburgo. Foi baptizado na Igreja de Santos-o-Velho como os seus antecessores, tendo sido seus Padrinhos D. Pedro Maria da Piedade de Lencastre e Távora, III Conde de Alvor, seu tio paterno, e Nossa Senhora da Piedade como era tradição ancestral na família, tendo tocado como Madrinha D. Maria Cecília Van Zeller de Castro Pereira.

O “livro do bebé” iniciado nessa altura pela minha Avó, desvenda-nos que assistiram ao nascimento D. Adriana Abrantes, D. Isabel Ulrich C. Pereira e Beatriz Nunes Vieira, tendo sido presente o médico, o Prof. Dr. Francisco Gentil. No mesmo “diário” encontramo-lo descrito aos 7 meses como um “bebé de reclame” a pesar “mais de 9 kilos”. Desse diário consta que em 1939 se tornara um rapagão grande e gordo (…) de olhos castanhos-escuros e cabelo todo aos caracóis (…) com um génio péssimo, bastante estragado”. De facto, viria a tornar-se em adulto numa figura proeminente com quase de 1,90m, “com uma poderosa e exuberante personalidade e opiniões categóricas” (2) como bem se lembram todos aqueles que com ele conviveram. Aos seis anos escrevia a sua mãe que “É esperto e aprende com certa facilidade, mas é um pouco trapalhão nos seus cadernos (…) Tem bom coração, é generoso, mas tem mau génio; e é um pouco imaginativo demais, defeito que bem combatido deve passar-lhe.” Imagino que esse combate encetado contra a sua imaginação deva ter-lhe causado bastante sofrimento principalmente por parte do seu pai austero e de espírito militar de que falaremos adiante, mas decididamente tal não sortiu qualquer efeito: aos 18 anos, salvo outros escritos que não nos tenham chegado ao conhecimento, tinha já publicado 2 imaginativos contos na revista Alvorecer, "Revista académica de cultura" do Porto; intitulados respectivamente “Quatro Pétalas de Rosa” e o “Gladiador”.

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“O espírito do senhor Marquês deleitava-se na resolução de problemas e enigmas (...) lia vorazmente tudo o que lhe pudesse alimentar a curiosidade e em breve se tornava capaz de se pronunciar, com raro poder de penetração, sobre uma nova área de interesses” (2) e a sua vasta obra escrita vem a ser disso prova.  Mas não só, podemos observá-lo de outros ângulos: com um sentido de humor apurado, se possível não perdia um desenho animado na televisão, fosse da Disney do Bip Bip, Bugs Bunny, Flinstones ou outra série, não sendo raro encontrá-lo a rir a bandeiras despregadas. Gostava de cozinhar, de jogar Xadrez (comigo), de Ópera, era sportinguista de sofá, um fervoroso amante de banda desenhada, de ficção científica e de contos policiais que consumia com grande avidez – na verdade os pequenos livros da colecção Argonauta e Vampiro espalhavam-se pela nossa casa aos magotes.

Luiz Abrantes, como era conhecido entre os amigos, obteve dos seus pais uma instrução esmerada: foi educado em casa por uma "Mademoiselle" até aos 9 anos, a Sra. D. Maria Lucília Moniz, uma senhora dos Açores contratada para a sua formação e com quem confessou ter criado uma forte ligação. Apesar disso nunca foi brilhante nos estudos, característica que segundo o próprio escreveu “entristecia os seus pais” e era realçada pelo facto das suas irmãs mais velhas serem óptimas alunas. Segundo o próprio justifica, para este insucesso terá contribuído o facto de, em 11 anos lectivos, da Instrução Primária ao Liceu, ter mudado, nada mais nada menos, do que 13 vezes de estabelecimento de ensino. Afinal as escolas por onde deambulou não conseguiram disciplinar a sua mente irrequieta e sôfrega inteligência.

“Tinha boas notas a português, francês, inglês e alemão, literatura e história” e “o pior defeito como estudante, era apenas aplicar-me nas cadeiras de Letras que eram as que verdadeiramente me interessavam" (1). Entre as disciplinas de Ciências, "só no desenho conseguia manter uma média elevada", conta-nos. De facto, um traço seu pouco conhecido era o jeito que tinha para desenho – lembro-me bem dos retratos, fardas, armas, condecorações e aviões da II Guerra Mundial, entre outros “bonecos”, que desenhava com desenvoltura e precisão, com a mesma caneta de tinta permanente com que compunha os seus manuscritos, numa letra muito bem traçada em folhas de papel almaço quadriculadas.

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Casou-se a 10 de Outubro de 1959 aos 22 anos com Maria João de Carvalho Gomes de Castro, tendo sido seus padrinhos António Lavradio e o seu Tio José Frederico Ulrich; as madrinhas da minha mãe foram a sua avó Valentina, Condessa de Castro, e a Senhora Infanta D. Maria Adelaide de Bragança. O copo d´água foi servido na casa dos seus sogros, no 232 da Avenida da Liberdade, quase como num conto de fadas. Cinco desaustinados filhos (como são todos) e uma sociedade em rápida mutação iriam desafiar o casal para uma vida muito árdua.

Luiz Abrantes cresceu num meio profundamente católico e convictamente monárquico, e numa sociedade estabilizada pelo Estado Novo ainda na ressaca da 1ª república, com algum conforto material, tendo adquirido consciência política e maturidade intelectual no pós-guerra e no início da Guerra Fria, seduzido pela melhor literatura francesa e anglo-saxónica, o grande cinema americano e pela Banda Desenhada Franco-Belga, que nos anos 50 atingia o seu auge. Não será a isso estranho as posições que o ouvi afirmar por diversas vezes a favor dos direitos cívicos dos negros na América e visceralmente contra a pena de morte, por exemplo.

Com o seu espírito irrequieto e a pressa de se casar desistiu de estudar aos vinte anos, empregando-se na Cidla, “com um ordenado de 800 escudos por mês, máximo que então ganhava um aspirante a 3.° escriturário” (1). Sobre o carácter impetuoso do meu pai contou-me um seu amigo chegado este episódio bastante elucidativo: passados uns tempos sobre a morte do seu pai, decidiu ele ir reivindicar umas espingardas que ele havia emprestado ao seu padrinho, o tio José Frederico Ulrich - que era administrador da Cidla, onde o meu pai com 24 anos já fora promovido a inspector. Na sequência desse incidente – não deve ter sido diplomática a abordagem - encontrou-se subitamente desempregado, razão pela qual se terá visto obrigado a mudar-se da bela “Casa Branca” em Sintra para aquela que foi a nossa primeira morada em Campo de Ourique, na Rua Pereira e Sousa.

Terá sido por esses tempos que, com a ajuda do advogado Mário Albuquerque, pai do seu amigo Marim de Albuquerque – mais tarde prestigiado Professor catedrático de Direito, terá obtido o sucesso num empreendimento que iria revolucionar a sua vida para sempre: o resgate do Arquivo da Casa de Abrantes que o seu pai tinha em tempos entregue em depósito no Ministério das Finanças. De facto, boa parte da sua vida seria passada a investigar e a escrever sobre esse precioso legado, parte do qual viria a ser vendido à Torre do Tombo, e o remanescente entregue pelos seus herdeiros à Câmara Municipal de Abrantes.

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Curiosa é uma referência que lhe foi feita no livro “Nas teias de Salazar” – uma biografia de Dom Duarte Nuno de Bragança da autoria de Paulo Drumond Braga: nele, na página 282, menciona-se um desentendimento entre Luís Abrantes e o Duque de Bragança em 1966, quando o primeiro, descontente com a nomeação de João Ameal para dirigir as operações da transladação do Rei Dom Miguel, se atreveu a escrever para S. A. R. uma carta em que o designava a si nesse papel e que Dom Duarte Nuno se recusou assinar com manifesto desagrado. Este caso parece-me curioso, pois na minha interpretação, remete para o voluntarismo do meu pai, revelador da “sua poderosa e exuberante personalidade” (2), no propósito de assumir um protagonismo que julgava legítimo, numa causa historicamente acarinhada pela Casa de Abrantes, a do Rei Dom Miguel I, a quem dois anos antes deste mal-entendido dedicara um ensaio publicado na revista Debate. Sem nunca ter tido papel relevante na militância monárquica, nunca deixou de estar presente nos acontecimentos públicos da Família Real Portuguesa.

O 25 de Abril interrompeu o seu acidentado processo de ascensão profissional, o culminar duns anos difíceis de crescimento da família e das exigências para a sua gestão. Foi apanhado no meio de uma transferência do Secretariado para a Juventude (organismo pertencente ao Ministério da Educação Nacional que criado para substituir a Mocidade Portuguesa) para a Torre do Tombo, emprego que sendo o seu sonho, nunca chegou a ingressar devido à mudança de regime. Ao mesmo tempo tinha em mãos um negócio de antiguidades em preparação, que se desfez antes de se estabelecer, com a debandada dos seus principais sócios.  Seria e isto que o meu pai chamava o "azar dos Távoras"?

Não obstante a sua buliçosa produção intelectual e literária, os dois anos que se seguiram foram materialmente penosos. De facto, os seus mais influentes amigos tinham estado envolvidos na Primavera Marcelista e a transição revolucionária prejudicou-o profundamente. A sua vida profissional e material só obteve um rumo condigno com o início da primeira legislatura pós-revolução em 1976, quando foi nomeado assessor do 1º presidente da Assembleia da República, por extrema ironia o conhecido maçon, republicano e socialista, Vasco da Gama Fernandes, por indicação do CDS, partido onde militava desde 11 de Março de 1975 – curiosamente fizeram uma grande amizade. Transferido dois anos depois para a Biblioteca da Assembleia da República para funções mais consentâneas com a sua vocação, foi aí conquistando o seu espaço de afirmação, onde os restantes funcionários aprenderam a estimá-lo e a respeitar, de tal modo que, da portaria ao refeitório, da biblioteca aos "Passos Perdidos" todos o conheciam e tratavam por “Senhor Dom Luís”.

“Desde então, a sua carreira profissional foi acompanhada da lenta, mas firme progressão do seu prestígio como investigador. (…) Embora a sua produção principal fosse publicada em revistas dedicadas a temas de heráldica e genealogia, começava a ser lido fora dos circuitos especializados. (…) No princípio dos anos 80 já afirmara a sua reputação de medievalista, era lido e consultado nos meios académicos ligados a essa especialidade e mantinha uma correspondência regular com o Professor José Mattoso.” (2) Destacado no final da década para a Comissão dos Descobrimentos, aí ajudou a fundar a revista Oceanos. “No princípio da década de 90 a vida parecia sorrir ao senhor Marquês, depois de décadas de dificuldades. Acarinhado e encorajado por intelectuais com notória craveira, como Luís de Albuquerque, Vasco Graça Moura, Maria Velho da Costa e Zita Seabra, era escutado com a admiração devida ao seu invulgar cabedal de conhecimentos” (2).

Como escreveu Maria Velho da Costa, após a sua morte, num comovente artigo na Revista Oceanos: “No meio profissional, no cívico e no político, era o Marquês de Abrantes, sem altivez onde não lhe a provocassem, mas sem pejo do peso do título, feito nome de guerra”. No entanto era uma pessoa que à sua maneira se moldava ao mundo “acho que nos entendemos muito bem porque ele não tinha preconceitos que não pudessem ser aferidos ou dispensáveis à mesa e convívio de quem lhe aprouvesse. Tal como Sophia de Mello Breyner, e mais copiosamente dito no seu prefácio ao Dicionário de Famílias Portuguesas, ele sabia que a nobreza é um acidente de carácter muito longamente fabricado e não necessariamente aristocrático” (3). Mas como diz Carlos Bobone citando Francisco Vasconcelos, “estamos a falar de um dos poucos historiadores que viam a história pelo lado das classes dominantes.” De facto, um forte traço do seu carácter era essa sua sensibilidade “a todas as categorias de diferenciação social, sabia quando é que cada qualificação tinha sido conquistada pelos seus maiores. (…) A antiga sociedade portuguesa era para ele uma questão de identidade familiar” (2).

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Paradoxalmente o seu “tradicionalismo” não se repercutia na relação com os filhos. Foi precursor duma paternidade afectivamente muito próxima e empenhada: não se eximia da expressão dos seus afectos e de brincadeiras com os filhos, e estou convencido que com isso nos deixou a todos os cinco uma marca positiva indelével. Apesar das suas contradições e das suas exasperações sempre à flor da pele com que por vezes nos assustava, prevalece na minha memória um pai carinhoso e muito amigo. Que não se poupou de incutir aos filhos o gosto pela boa música, o fascínio de uma boa história e por um bom livro – lembro-me numa idade precoce, de ele à noite nos vir ler, “As Minas de Salomão” traduzido por Eça de Queiroz, “O Principezinho” de Antoine de Saint-Exupéry ou “A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson Através da Suécia” de Selma Lagerlöf.

Da música que ouvia lembrar-me-ei sempre dele quando ouço a Abertura de 1812 de Tchaikovsky, Jaques Brell que adorava quase toda o reportório e as canções mais conhecidas de Peter, Paul and Mary, a sua maior ousadia em termos de música Pop que deplorava em geral. Lembro-me dele quando revejo o galardoado Lawrence da Arábia e o Breakfast at Tiffany's baseado numa novela de Truman Capote com a belíssima Audrey Hepburn no seu auge.

Luiz Abrantes nunca foi um grande desportista, tanto mais que padecia de uma doença de coração que o limitava e que viria a ser a razão da sua morte prematura. No entanto podemos lembrá-lo como grande apreciador da pesca, submarina e com cana em alto mar se algum amigo de Vila Nova de Milfontes o convidasse para um passeio de Yacht. Um período houve em que praticava tiro ao alvo de pistola, não poucas foram as vezes que o acompanhei em pequeno ao campo de tiro em Monsanto, primeiro num automóvel Hillman e mais tarde no seu Volkswagen beije. A Revolução dos Cravos viria a acabar de vez com estas veleidades.

Ao XI Marquês de Abrantes meu pai conheci-lhe poucas, mas duradouras amizades. Desde logo a mais antiga e cúmplice, com o Luís Paiva Raposo Ferros, também aficionado da Heráldica, matéria que ilustrava e desenhava como poucos da sua geração. Lembro também o Miguel Alvelos, o Nuno Daupiás e o Segismundo Pinto que frequentavam amiúde a nossa casa na Rua Tenente Ferreira Durão e que com ele passavam horas ao telefone. De resto o meu Pai era um grande conversador e contador de histórias, que não raramente cativava os meus próprios amigos em demoradas conversas.

“Vivendo no culto da casa e da linhagem, num íntimo convívio com altas figuras da galeria dos seus antepassados sabia que o seu perfil não era dos mais apagados nesse desfile de notabilidades. Os seus maiores tornaram-se grandes por proezas bélicas, políticas e diplomáticas, ele engrandecia-se nos combates do espírito” (2) ou como me disse certa vez o meu tio Duarte de Castro seu cunhado e amigo de juventude, poucos teriam sido os marqueses de Abrantes seus antepassados a prestigiar de forma tão efectiva e brilhante esta Casa que com tanto orgulho e denodo ele representava.

Sobre o prestigiado genealogista, Carlos Bobone num seu pequeno ensaio intitulado “Marquês de Abrantes o genealogista” (revista Armas e Troféus Tomo V da VI série de 1993) salienta a forma como, da genealogia clássica (para onde inicialmente o terá impelido a sua própria “peculiar situação nobiliárquica" (2)) Luiz Abrantes evolui paulatinamente para a redefinição do campo de trabalho e promove elevação do estatuto desta disciplina da História: “Desde que percebeu como ficavam pobres as genealogias expostas na forma de «dedução de gerações», o Marquês de Abrantes tornou-se um paladino das genealogias com alma, um defensor da «Crónica Familiar» em substituição do «Registo de Antepassados»” (2). Uma perspectiva que de mim colhe imensa simpatia e que tardiamente fui descobrindo pessoalmente na abordagem à sua obra. O traço de união estético, religioso ou filosófico entre as várias gerações, abordagem que então ultrapassava o objecto do genealogista tradicional, passa a ser cultivada na investigação empreendida por Luís Abrantes. “Neste ponto o Marquês de Abrantes mostrou-se mais uma vez pioneiro, e dirigiu as suas atenções para o estudo de famílias que mostrassem ao longo das gerações a unidade na prossecução de um objectivo, ou que dessem provas de haver dependências e obrigações nascidas da ascendência comum.” (2) Isto soa-me como música celestial.

dicionario.jpgDe facto, o Marquês de Abrantes deixou uma extensa obra, que Pedro Sameiro divide em quatro grandes núcleos: “História e Heráldica da sua família”; “Heráldica e Genealogia em Geral”; “Silgilografia”; e “Outros temas”, onde se incluem apreciações bio-bliográficas e obras literárias. Desses núcleos publicou o meu pai várias dezenas de ensaios e estudos, boa parte deles na revista Armas e Troféus do Instituto Português de Heráldica que foi como a sua 2ª casa. Da sua obra atrevo-me a destacar “A Genealogia do 1º Marquês de Abrantes” (1965); o políptico “A Heráldica da casa de Abrantes” (1965 – 1972) composto por quatro volumes; aquele é considerado por muitos a sua obra maior, o Estudo da Sigilografia Medieval Portuguesa de 1983, em que são inventariados 513 matizes sigilares e selos medievais e que passados quase 40 anos constitui o trabalho de maior dimensão dedicado ao assunto em Portugal; a “Introdução ao estudo da heráldica” (1992) que se tornou um sucesso editorial entre os amantes da história; o Dicionário das Famílias Portuguesas “em que expôs a evolução social de uma família pelo espaço de 3 séculos, seguindo uma trajectória de ascensão e queda que se pode considerar típica, segundo as estratégias de acesso ao poder que a Antiga Sociedade Portuguesa permitia” (2); e finalmente “D. Leonor de Távora – O Tempo da Ira” (Questal 1983), uma comovedora e inquietante ficção histórica que relata o julgamento dos malogrados Távora, numa perspectiva da marquesa desse nome, durante os seus últimos dias de cárcere - uma obra que é afinal uma homenagem prestada pelo seu sobrinho neto em 6º grau, que não a viria a ver publicada, traído que foi por um previsível acidente cardíaco um mês antes. Sobre o livro escreveu Helena Barbas num "especial" de duas páginas do semanário Independente de 18 de Março de 1993 intitulado "O Azar dos Távoras": "Existindio na fronteira entre o real e o imaginário, este romance histórico fundamenta-se num paradoxo: une a verdade dos factos com a «liberdade poética» que permite que os primeiros sejam modificados (embelezados, escamoteados, exaltados), ou seja, que tornem essa verdade numa mentira. Outro problema nasce da dúvida sobre a historicidade dos acontecimentos registados. Por tudo o que se (não) sabe - e que D. Luiz muito bem vai utilizando em seu, e nosso, proveito - todo o Caso dos Távoras gira em torno de uma magistral encenação levada a cabo pelo apagado membro da Academia de História que foi Carvalho e Melo. O argumento pombalino desorganiza-se em cenas que nem sequer respeitam uma decorosa verosimilhança, vindo a culminar no cruel e inesquecível espectáculo trágico - este inspirando o devido terror e piedade - que foi a execução pública da família Távora".  O livro teve quatro edições, a última das quais em 2010.  

Não referido por Pedro Sameiro – talvez por desconhecimento desta sua vertente - podemos ainda adicionar ao inventário da sua extensa bibliografia, um núcleo dedicado à política. Da sua autoria foram publicados um livro e uma pequena brochura, ambos no período revolucionário subsequente à “intentona” de 28 de Setembro de 1074: foram eles “Cinco Meses Democráticos” e a “Carta Aberta ao General Spínola”, cujas profusas edições o meu pai, por muitas semanas já em pleno tempo do PREC, “voluntariava” os filhos mais velhos a distribuir à saída das missas em Campo de Ourique, Estrela e Prazeres. Por altura do chamado “Verão Quente”, apesar da falta de dinheiro, na casa do Sr. Marquês vivia-se a política com muita intensidade e galhardia.

Apesar da dura vida que teve em adulto e da precaridade financeira que tanto o amargurou vida fora, Luiz de Lancastre e Távora nunca deixou de ter presente a forte noção do serviço que o seu estatuto comportava, tendo para isso empreendido uma vida de investigação e produção intelectual que ousou dispor ao serviço dos outros.

Partiu demasiado novo. “O Marquês de Abrantes viveu cedo. Nascido em 1937, casou aos 22 anos e foi pai aos 23. Aos 28 era pai de cinco filhos. Com 24 anos tornou-se chefe de uma das maiores casas titulares portuguesas, com 27 tomou posse do arquivo da Casa de Abrantes e começou a publicar uma copiosa obra, que todos os anos foi enriquecendo. Aos 36 anos começou a escrever as suas memórias que se ficaram pelo preâmbulo e aos 56 anos morreu”. (2)

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Espero que estas pinceladas, algumas delas certamente subjectivas, tenham contribuído para definir melhor o perfil deste homem lutador e desconcertante que foi o X Marquês de Abrantes. O que ficou da nossa convivência foi uma sua presença muito forte na minha consciência. É com ele que ainda hoje confidencio muitas das minhas pequenas conquistas e derrotas. Quero acreditar que ainda hoje ele lá de cima me acompanha nos meus passos. E concorde que as nossas disputas, encontros e desencontros, afinal valeram a pena - foram fruto de um grande amor.

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1 - Memórias incompletas

2 - Carlos Bobone

3 - Maria Velho da Costa