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João Távora

Os pecados da Igreja e do Daniel Oliveira

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Mesmo conhecendo o seu enviesamento ideológico, deixa-me muito incomodado e perplexo final do primeiro parágrafo do artigo do Daniel Oliveira, publicado no Expresso desta semana, com honras de pág. 3. Diz assim: "(...) Mas os católicos que se sentem chocados com estas revelações têm, antes de tudo, de pôr a mão na sua consciência. Nada disto é surpresa. Porque o permitiram durante tanto tempo? Porque tiveram os denunciantes, fossem vítimas, familiares ou outros padres, de lidar com a indiferença ou incompreensão das suas comunidades? Com tanto ativismo para reprimir o sexo consentido entre adultos livres e impedir que se fale de sexualidade na escola, porque não se mobilizaram mais católicos para protegerem as crianças do abuso na sua própria Igreja?" É impressão minha ou ele acusa-me a mim (como integrante em diferentes épocas da minha vida em diferentes comunidades católicas) de cumplicidade pelo silêncio nos casos? Ora, nos anos mais recentes, o confronto com estas notícias tem sido para mim um profundo choque. Precisamente porque na experiência de vida que levo na Igreja - a ralação com padres, catequistas, movimentos, paroquianos - nada alguma vez me fez suspeitar que tais anormalidades pudessem acontecer. A minha estranheza só se compara com a revolta e tristeza que sinto com esses comportamentos que evidentemente não são padrão na igreja, que é a mensagem que o autor quer fazer passar. Como é que eu, e milhões de católicos como eu, podem ser acusados de cumplicidade? Ou porque Daniel Oliveira não conhece minimamente a dinâmica inorgânica da igreja ou por profunda má-fé. De resto, não servindo de todo de consolação, fiquemos com a frase final da crónica do Henrique Raposo na mesma edição do jornal: "quando nos revoltamos contra os pecados da Igreja, estamos na verdade a olhar para o nosso rosto reflectido num espelho".

Consolação

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Uma das palavras que mais gosto é “consolação” por causa dos seus significados. Lembrei-me disso, a banhos na praia do Medão, ou Supertubos como é conhecida agora por causa dos surfistas, a meio caminho entre Peniche e a Praia da Consolação. Esta, delimitada a sul por uma falésia é encimada por um forte com o mesmo nome, deve-o à Capela quinhentista existente nesta localidade de Atouguia da Baleia, dedicada a Nossa Senhora da Consolação. 
 
Analisemos então a sua semântica. Se “consolação” não significa exactamente Conforto, Felicidade, Prazer, Alegria, Contentamento ou Estado de Graça, pode-se associar a qualquer destes sentimentos. Mas é muito mais importante e presente que qualquer um deles: a consolação é uma sensação dinâmica, que é precedida de certa maneira por um estado de espírito negativo, associado a sacrifícios ou à ansiedade – pode ser inquietação, dor, medo, cansaço, etc., em manifestações mais ou menos intensas. É na sequência destes padecimentos que podemos ser agraciados por um momento de consolação, que naturalmente não significa que o mal que nos afectava tenha sido erradicado - "enquanto o pau vai e vem folgam as costas", diz o povo na sua crueza. Consolações são, no fundo, acontecimentos singelos da vida quotidiana: a notícia de que o nosso filho entra para a universidade, ou aquando num hospital recebemos a visita de um velho amigo. Mas também pode ser uma refeição feliz com a família e amigos, o término de um trabalho exigente, uma cerveja fresca num fim de tarde quente. Mas se é certo que um prazer pode ser um consolo, uma e outra são coisas bastante diferentes. Ouvir uma peça musical que gostamos muito ou saborear um pitéu, serão certamente prazeres sem caberem propriamente na categoria do consolo. Os consolos não se inserem na ordem dos nossos desejos carnais ou intelectuais, mas antes possuem um vinculo divino, são-nos inteiramente oferecidos - surpreendem-nos. Eu explico-me: é coisa mal-aceite na ordem histriónica vigente, mas absolutamemte incontestável, que a vida é essencialmente feita de padecimentos e consolações: uma consolação é o que nos impele a continuar a ultrapassar as dificuldades que o destino nos desafia diariamente. Consolação não se confunde imediatamente com alegria, que é um sentimento mais intenso, exterior, por vezes eufórico – a alegria é sedutora e mundana, já o consolo é espiritual e reflexivo. O máximo com que se exprime o consolo – a consolação não obriga à expressão - é com um suspiro ou talvez sorriso discreto. Porque raramente partilhamos um autêntico consolo, sem que o outro nos seja íntimo e cúmplice. É um consolo chegarmos a casa depois de umas férias agitadas, é um consolo chegarmos a casa depois de um dia intenso de trabalho, é um consolo fazermo-nos entender sobre um tema complicado. É um consolo uma palavra amorosa da nossa cara-metade ou o sono angelical do nosso bebé. É um consolo uns minutos de oração no silêncio de uma igreja vazia numa tarde de Verão. É um consolo terminarmos uma crónica sobre um tema que há muito tempo nos estava a inquietar e reclamava ser escrita.
 
A falta que nos fazem consolações...
 
Crónica dedicada à Tia Teresa de Castro Simas, que nos seus 87 anos de idade partilha comigo o gosto de reflectir e debater estes temas complexos e fundamentais.

O que aconteceu à canção francesa?

Nos meus tempos de juventude, o gosto musical era moldado pela música que os nossos pais ou tios ouviam no gira-discos, mas principalmente pela música que passava nas estações de FM em programas mais ou menos comerciais ou elitistas. Certo é que, aqui chegados, a música popular francesa desapareceu quase completamente do espaço público português. É verdade que ao invés temos mais e muito variada oferta nacional e a música popular brasileira continua a dar cartas, mas é estranho que a canção francesa se tenha eclipsado. Os novos modos de consumo não justificam tudo.

Cais de Alcantara, 1967

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Esta fotografia é por si só uma crónica "de época". É uma demonstração da antiga solidariedade "onde vai um vão todos" ainda hoje patente no meu ramo Castro. Tirada no cais de Alcântara em 1967 por ocasião da partida do Tio Nuno de Castro para a Guerra no Ultramar. Da esquerda para a direita temos: o meu pai de cigarro na mão (como sempre), a avó Xunchinha (Condessa de Castro), a Tia Teresa, a Tia Isabel (a ocultar a tia Mitó) e depois o Tio Manuel. Em baixo, ao lado da mão da minha mãe que segura (mais) um cigarro, está a Tia Mariana, irmã mais velha da minha avó. Sentado no passeio estou eu de frente para o meu primo Manel de Castro. À direita extrema está o senhor guarda a garantir a boa ordem. Lá atrás de tudo a ponte Sobre-o-Tejo, recentemente inaugurada. Do lado contrário, além do fotógrafo - que julgo seja a Tia Carmo mãe do primo Manel, estava um enorme paquete cheio de soldados a entrar e a acenar com lenços. Iam para a guerra defender a pátria. Era isso que se ensinava nas casas das boas famílias.