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João Távora

Ainda a propósito de jornais

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Talvez fosse importante perceber o que motiva o leitor na era digital a comprar um jornal. Confesso que, talvez por comodismo, há muitos anos que compro o Expresso, que, para lá de alguns colunistas que me habituei a seguir, cada vez menos me vem surpreendendo com algum trabalho de verdadeiro interesse. Já me tem acontecido comprá-lo e esquecer-me de o ler.

Dizia alguém há dias numa rede social que a razão da crise nos jornais em particular e no jornalismo em geral é que, perante a profusa circulação de informação, mediada ou não, que a Internet disponibiliza, já pouca novidade se encontra num jornal. Se esse dado parece inegável, o pior ainda é a perda de autoridade ou reputação das publicações quando veiculam trabalhos jornalísticos, a maior parte das vezes pouco sérios, e quase sempre parciais, sob a perspectiva da bolha intelectual do mainstream que nos apascenta a partir do Terreiro do Paço ou de Bruxelas – mera propaganda do status quo. O problema é não perceberem que, estando as audiências a minguar de dia para dia, os poucos que sobram merecem mais qualquer coisa do que o débito de preconceitos preguiçosos, pouco fundamentados e sem contraditório. Se tivermos em consideração que as gerações até aos 30 anos simplesmente não lêem jornais e não vêm televisão, percebe-se que é inexorável o fim do modelo de negócio das notícias como existiu durante o século XX, e por maioria de razão num mercado de consumidores exíguo como português. Pior, não perceberem que têm de tratar os poucos leitores como pessoas exigentes e informadas é um erro fatal.

Antes de terminar, confesso uma fraqueza: sempre gostei muito de jornais em papel, e tenho imensa pena que o seu tempo esteja a acabar. Por isso partilho aqui o exemplo do que não é admissível por parte dum jornal generalista como o Expresso, o recorte que aqui apresento no topo é retirado dum artigo publicado na última revista. Não se compreende que aquele semanário pretenda tomar parte na campanha eleitoral dos EUA, muito menos se entende como os leitores que pagaram 5,00€ pelo jornal não mereçam mais consideração, por exemplo no tratamento de questões complexas como as eleições americanas ou as alterações climáticas com um pouco mais de sofisticação. Ou então o Expresso pretende ser um mero panfleto publicado para os amigos, para contentar uma bolha cada vez mais pequena, envelhecida e… isolada da realidade.

Chegou a hora de mudar?

Já tinham acontecido durante quase todo o ano passado perante a indiferença geral do país, as greves sistemáticas da CP e paralização dos comboios. Se não eram dos maquinistas eram dos revisores, se não eram dos revisores eram dos trabalhadores das infra-estruturas. Evidentemente que se trata de uma pequena amostra dum país disfuncional, em que as pessoas, em regra pobres, aceitam conformadas o triste destino de precisar de serviços que dependam do Estado. Da Saúde aos Transportes, da Justiça ao Ensino, coitados dos mais desfavorecidos. Não é propriamente o meu caso, mas, para uma família como a minha, que mora perto do Estoril, é profundamente perturbador, se não infernal, o jogo a que nos sujeitamos para nos deslocarmos a Lisboa. Nunca se sabe quando os comboios estão ao serviço da população ou ao serviço das carreiras e interesses dumas centenas de funcionários privilegiados com renda garantida. Evidentemente quem mais sofre são os miseráveis que não tem alternativa aos transportes públicos, aqueles que têm horários a cumprir, com trabalhos humildes e braçais. Esta situação é uma chocante injustiça que o socialismo, em obediência à “ética republicana”, há demasiado tempo submete os portugueses enquanto os suga em impostos. Ao mesmo tempo os jornais e os canais de notícias à noite entretêm a minoria fidalga nos sofás a debater o charme e as virtudes dos personagens que há oito anos nos aprisionam nesta vil miséria.

Ou isto muda ou qualquer dia acaba mal...