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João Távora

Assim seja!

Fui votar com a minha mulher ao Liceu de S. João - em tempos já fomos mais, mas os outros membros votantes da familia já têm as suas vidas - um perigo! Confesso que foi uma experiência um pouco à sec. XIX: uma senhora da mesa à porta da Sala de voto comentava que a "abstinência" estava a ser menor que nas últimas europeias. À saída encontrámos o nosso pároco que, muito solícito, nos acompanhou a casa na implícita certeza cúmplice que todos tínhamos votado como cristãos. Assim seja!

Um Portugal sem portugueses?

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É bastante divertido, até por vezes cómico, visitar as tentativas dos nossos antepassados adivinharem o porvir. Inevitavelmente influenciados pelo presente, as antecipações surgem demasiadas vezes deturpadas pelo alarido emergente da espuma dos dias.

Vem-me esta questão à consciência, à boleia da discussão que por estes dias nos sobressalta através das notícias, sobre os pretéritos erros nas políticas de imigração, e perspetivas de soluções que mitiguem a desordem causada e o sentimento de insegurança com as nossas fronteiras deixadas ao abandono por demasiado tempo. Como referia há algumas semanas Rui Ramos numa sua crónica, “não há nada que a extrema-esquerda mais receie do que ver os imigrantes integrarem-se nas sociedades ocidentais, como se integrou a velha “classe operária”. Deseja vê-los confinados em guetos, inseguros e desconfiados, e assim disponíveis para a guerra santa contra o capitalismo e a democracia liberal.”

É por isso que importa o poder político gerir com todo o cuidado este dossier, que vem afligindo as populações por essa Europa, amedrontadas com as radicais alterações às “paisagens sociológicas e culturais” à porta das suas casas. Talvez egoistamente não tenho uma visão alarmista do panorama com que nos deparamos pelas nossas bandas. Julgo que é ainda é possível por esta altura restaurar alguma normalidade, repor sinais de controlo sobre os fluxos de imigração, e principalmente com a implementação de políticas de integração dos estrangeiros sempre a chegarem, a que nos teremos de habituar ao longo das próximas décadas. Essa inevitabilidade, não tem tanto a ver com a tão propalada sustentabilidade da Segurança Social, mas com a crise demográfica de que já se vem sentindo os resultados e se irá agravar nas próximas décadas. Não é ciência oculta antever o que nos reserva o futuro do nosso país: “Em 2050, a população portuguesa irá contrair-se 7% face a 2022. Em 2050, a população portuguesa entre os 20 e 64 anos irá contrair-se 21% face a 2022. Em 2050, a dependência da população com mais de 65 anos da população entre os 20 e os 64 anos passará de 40% em 2022 para 70%.” Se hoje temos menos 44% de alunos inscritos no primeiro ciclo do que há 30 anos, como será daqui a 50 anos?

Espero estar muito enganado, mas em face à realidade da actual crise demográfica, que não se antevê resolúvel com subsidiarização de nascimentos, daqui a cinquenta anos teremos um Portugal sem portugueses. E um Portugal sem portugueses, além de me causar alguma amargura (problema meu, evidentemente), será por certo muito diferente daquilo que tivemos o privilégio de aqui conhecer e experimentar nas nossas vidas. Estarão dispostas as populações vindouras a manter o legado do nosso modo de vida que há tantos séculos se vem construindo e afirmando? O mundo à nossa volta mostra-nos à saciedade que o facto de se possuir legislação ou sistemas políticos sofisticados não garante um modo de vida equivalente, uma sociedade tolerante e próspera, de pessoas responsáveis e livres para circular na rua em qualquer sítio e a qualquer hora sem receios. A questão não se resolve com o sistema, é com a autorregulação, pela cultura imperante nas pessoas, estabilizada nas famílias e organizações que lhe concedem eficácia. Preocupações de um monárquico, sempre tendo em vista o longo prazo.

Espero estar enganado, como o estiveram tantos quantos antes de nós, previram erroneamente o futuro com base em fenómenos circunstânciais, tecnologias datadas, receios ou expectativas ditadas por modas ou acontecimentos passageiros. Mas olhando pela perspetiva optimista, é com agrado que por estes dias descubro que já são bastantes as paróquias que são dirigidas por sacerdotes católicos oriundos das mais exóticas paragens para onde os portugueses emigraram deixando as suas sementes cristãs e também a língua de Camões - com que nos vamos entendendo.